Arquivos dos posts

Happy hour

March 24th, 2007 by jana

Não sou mulher de frequentar happy hours. Nada que seja sorridente demais me atrai. Aliás eu tenho um lema: “Cuidado com os excessivamente felizes”. Eles sorriem demais, cospem demais enquanto sorriem e toda aquela saliva vai parar em dois lugares certamente: ou no meio da sua cara ou no seu copo de vodka. Quando você trabalha no entanto em um lugar em que as pessoas estabeleceram que nas sextas-feiras todos precisam estar excessivamente sociáveis e com uma predisposição acima de 70% para o agrupamento em bandos, eu não tive muita escolha. Durante anos eu consegui me livrar destes encontros naturalmente forçados usando diversas desculpas e um pouco da experiência teatral herdada da observação das novelas mexicanas. Eu poderia muito bem escrever um manual extenso do tipo “69 maneiras de você se livrar do efeito Happy Hour”. Você, caro leitor, pode ter uma crise de baço quando der cinco e trinta da tarde. Além do mais você pode assassinar ficcionalmente (óbvio) vários parentes, inclusive aqueles distantes. Só tome cuidado para não repetir o óbito, porque acredite… Sempre há alguém que presta atenção às coisas que você diz, inclusive às suas desculpas. Já fugi desses encontrões usando desculpas como por exemplo: minha hamster vai parir e eu vou ser a parteira. Como eu sei que ela vai parir hoje? Eu sei e pronto! Há também as desculpas de cunho afetivo. Meu ex marido me ligou e disse que a atual mulher dele enfeitou sua calva cabecinha com uma fileira de galhas. Por que eu não vou com vocês? Prefiro comemorar este evento sozinha com minha hamster. Mas houve um dia, no entanto, que nada disso, por mais convicente que tenha sido, conseguiu me livrar de uma maravilhosa noite regada a cerveja barata e a amendoim torrado. Eu até resisti, mas algo foi mais forte do que eu. Para ser mais exata a culpa foi do meu estagiário, que há alguns meses atrás estava sofrendo crises devido à praga do politicamente correto e que agora resolveu querer me salvar da minha crise anti-social.

O grupo era composto de mais ou menos umas doze pessoas, contando com a desesperada mulher que vos fala. O primeiro grande problema que atinge a maior parte dos Happy Hours é que ninguém sabe dizer para onde todos irão. Um sugere um barzinho da moda, outro sugere uma bodega decadente que fica quase na fronteira com outro estado. No fim, todos decidem ir ao bar que fica a um quarteirão do trabalho.

Depois da confusão de para-onde-vamos-finalmente, conseguimos chegar ao tal bar. O bar era até interessante, se não fosse a disposição das mesas. Não sei se o dono do lugar tinha como objetivo principal a interatividade entre os clientes, mas o fato é que para poupar espaço e dobrar a capacidade da casa para os clientes, as mesas estavam tão grudadas umas nas outras, que eu precisei encolher minha bunda para passar entre uma mesa e outra. Sei que encolher a bunda parece algo improvável, mas você certamente nunca passou então por situações constrangedoras que te fizeram inovar até seus mais sólidos conceitos. Pedimos uma mesa para doze, mas o garçom só conseguiu para o oito, o que significa que quatro de nós acabou sendo instalado com a perna da mesa entre as pernas, nada obviamente confortável. Eu fui uma das felizes congratuladas com este presente dos deuses. Sentei e mal consegui esticar o braço para mexer na bolsa, à procura de um lugar onde pôr minha cara e minha impaciência.

O segundo grande problema é decidir o que vai ser consumido. O esquema é mais ou menos o seguinte: é mais fácil todos beberem cerveja e comerem amendoim, assim no fim da noite a conta é dividida igualmente e todos saem felizes. Eu, no entanto, já não bebia cerveja há anos, quando descobri que a vodka demora menos pra te fazer criar coragem pra fazer certas coisas. Pedi uma vodka e uma coca-cola. Os onze se olharam com aquele ar cúmplice de “ela fez isso para nos agredir. Ela fez isso pra mostrar que ganha mais”. Como se adivinhasse o pensamento deles, disse: “Gente, eu vou pagar minha vodka a parte, ok?”. Desconfiados, descrentes, magoados, enfiaram os dedos na vasilha de amendoim.

A conversa era interessante. Os temas variados. Os mais jovens, o que significa 95% da mesa, conversavam sobre o último jogo do time tal, dos celulares vermelhos com textura aveludada, sobre enlarguecedores de pênis e fórmulas milagrosas para fazerem sua barriga e suas celulites desaparecerem. Eu conversava silenciosamente com o ponteiro de meu relógio, que resolveu se arrastar por pura birra. Para piorar minha situação, eu sou o tipo clássico que prefere beber um copo atrás do outro para não ter que conversar ou para ter onde pôr as mãos. O garçom me trouxe cinco doses de vodka em menos de uma hora, até que tive a brilhante idéia, até o ponto que me recordo, de ir ao banheiro retocar o batom. Esta minha decisão certamente foi provocada pela pureza alcoólica de meu copo, pois em meu estado normal eu não teria me atrevido a levantar e passar por mesas que estavam tão simpaticamente grudadas umas às outras. Respirei e levantei. Alguém da mesa me olhou com uma cara de “ela vai se esborrachar no chão e eu vou rir”. Para contrariar às expectativas, consegui, meio cambaleante chegar até o banheiro sem muitos problemas. Na volta, no entanto, é que sofri o já previsível vexame. Não, não foi uma queda. Não, eu não me esborrachei no chão como em uma comédia pastelão. Estava eu, andando por linhas tortas (se Deus escreve em linhas tortas, por que eu não posso andar por linhas tortas também?), quando tive que passar pela mesa de executivos que estava logo atrás da nossa, para poder me sentar. Antes de eu ir ao banheiro, esta mesa estava ainda vazia e agora meia dúzia de engravatados se amontoavam logo atrás de nós. Fui passando de mansinho entre as cadeiras, quando consegui tropeçar no meu próprio pé. Não caí, porque obviamente não havia espaço para isso, mas minha bunda, minha bunda safra 40 anos, passou deslizando na cabeça de um jovem executivo, que obviamente não perdeu a piada. “Pô, tia, a senhora é saidinha, hein?”. Em primeiro lugar, pensei, tia é a irmã de sua mãe e em segundo lugar, vodka por favor, garçom!!! Virei a piada da mesa e antes que eu completasse uma dezena de doses de vodka, me colocaram no táxi, depois do rapazinho do tia ainda me soltar beijinhos. Eu saí do bar pisando em um chão mais distante do que meus pés podiam alcançar. Saldo da noite: saí sem pagar as vodkas, fui colocada no táxi pelo meu estagiário, que ria a cada olhada para minha cara e ainda ganhei a fama de loba, caçadora de rapazes executivos de vinte anos. Aspirinas, aspirinas, por favor!