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A louca

July 10th, 2008 by jana

“As palavras são reticentes e insuficientes, dona menina”.
A mulher gritava.
A louca para uns.
Ela gritava porque a dor era fina
e o peito não era suficientemente elástico
para sustentar no mesmo bater
o embaraço das rimas:
o amor de braços dados com a dor.

Os olhos dela eram redondos e brilhavam
como tudo que é excessivo.
Vestia a nudez
e carregava no corpo os olhos dele,
que brilhavam tristes em algum lugar
entre ruas negras e postes de luz.

Ela era das águas, excessiva, transbordante,
ele desaguava por dentro.
As palavras dela, que antes estancavam,
agora pareciam pequena lâminas,
que grudam-se à carne,
tecendo na pele uma memória de dores escritas.

Ninguém soube ao certo quando se perderam,
acredita-se que foi quando ela soube
que as palavras são insuficientes e
é neste ponto que a angústia nasce.
Ele já não acreditava no murmurar das palavras
e ela aos poucos ganhava aqueles olhos turvos,
olhos de quem não segue mais leis,
olhos da liberdade que chega de mãos dadas com a loucura.

Eles, que já foram um só, foram se destacando um do outro.
Ele a viver voltado para dentro, encontrando em si o ventre acolhedor.
Ela a caminhar nas ruas, com o peito tomado de lâminas,
emudecendo e maldizendo as palavras.
Palavras essas sedutoras e traiçoeiras,
palavras filhas das rameiras
e antes de se calar para todo sempre,
olhou para quem passava na rua
e apontando para quem já sofrera por amor, disse:
“As palavras são reticentes e insuficientes”.
Calou-se, murchou e juntou-se às pedras da rua
até seu dia ponto chegar.

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Destoante

April 24th, 2008 by jana

100_3512.JPG

Sou cores destoantes nesta cidade,
em que o cinza reina com cetro e nariz em direção ao céu.
Sou os passos lentos caminhando,
enquanto todos impacientes correm.
Correm tanto para quê?
Para encontrarem todos sempre o mesmo limite?

Sou o bom dia em mão única,
perdido nas manhãs que amanhecem quase sempre frias.
Meu bom dia morre na minha boca,
sem respostas, sem um esboço de sorriso qualquer.
Sigo então destoando,
como a nota que insiste em mudar
o ritmo constante da música que se repete.

Destoante, sou assim, destoante.
Sou o riso, enquanto a sisudez impera,
e alguém um dia me disse no metrô
que se boca desse cãimbra,
a minha já dura estaria.
Só porque rio, só porque deságuo dentes,
querendo extrair da vida alegria.
Alegria demais incomoda, minha gente!
Cerremos os dentes então.

Alguém me atropela na calçada,
a dona da casa onde moro
manda bilhete cobrando conserto
do ralo do banheiro que entupiu.
Deve ter sido a sujeira clara das minhas lágrimas,
o choro de quem não se adapta,
escoando e incomodando,
sufocando garganta e tubos brancos hidráulicos.

Meu coração agora dói,
dor física, verdadeira,
dor que machuca mais que arranhão depois de queda.
Destoante, sigo calada engolindo minhas lágrimas,
fingindo ser a dureza um tapete de flores coloridas.
Sigo disfarçando minha dor,
abafando minhas mágoas,
continuando e caminhando lentamente,
enquanto ouço alguém gritar: “sai da frente!”.
E é o que eu faço,
deixo o mar aprisionado e inconsciente passar.

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Não

October 22nd, 2007 by jana

Para minha vó

Queria crer,
entenda, só por você,
queria crer sim.
Mas sou só sentidos,
só creio naquilo que me atinge a carne,
sou vazia de milagres,
não creio na inversão da água,
tentando subir os morros.

Entro naquele cubo branco,
você deitada, olhar perdido,
e tento te resgatar para o tempo seguro,
aquele em que me guiava segurando minhas mãos,
e impedindo meus tropeços, arranhões e feridas.
Agora você dói e eu não sei te conduzir,
estancar os olhos,
te livrar da queda.

Queria poder te mostrar o sol,
ele brilha indiferente a tudo,
mas ainda assim é lindo de se ver,
principalmente quando ele se deita
ao fim da tarde de nossa cidade,
dando lugar à noite,
onde descarrego minhas dores
e disfarço a tristeza firme no meu olhar.

Não te fiz voar,
não te ajudei a ver mais de perto o céu que tanto ama,
não sentei ao seu lado no fim da tarde,
andava esquecida de tudo,
inclusive de mim mesma.

Só te peço pra abrir os olhos,
só te peço pra não ir
e pra deixar acarinhar seus cabelos de prata,
me redimir, nos redimir,
recomeçar, reviver, recordar,
e tecer novas linhas,
e criar novos planos,
advinhar novos dias,
continuar, ser reticências, ser parágrafo inacabado.

Faça este coração continuar,
bombeando vida em nossas vidas,
preenchendo vazios,
compartilhando riso.
Nunca gostei de despedidas,
não repare em minha intransigência,
mas este poema é um nariz torcido,
é um não sonoro,
é apenas um grito-pedido
para que fique,
para que continue,
para que não se vá.

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September 28th, 2007 by jana

A solidão talvez seja a companheira mais fiel do homem.
Não são os cães, com seus olhos marejados,
os amigos, que vão e vêm no ritmo das ondas,
ou o amor, que divide a mesma cama e a mesma noite.
A solidão está em todo lugar,
dentro e fora de você,
te cercando.

A solidão te toca o ombro,
enquanto você caminha embaraçado entre as cordas de corpos,
nas avenidas largas das cidades
ou no amanhecer refletido nas xícaras fumegantes de café.
A solidão te ronda,
soprando vento frio na nuca,
adormecendo seus olhos,
tornando o viver uma dormência.

Quantas vezes pensamos estar profundamente sós,
e ela simplesmente aparece para provar que o vazio ainda é maior,
companheira esta que permanece silenciosa,
mas em seu silêncio tudo se revela,
como uma epifania forçada a acontecer.
Estamos sós, acompanhados momentaneamente,
ludibriados pela ilusão da partilha.

Estamos sós.
Na dor, estamos sós.
No gozo, estamos sós.
Na morte, estaremos sós.
Pois cada experiência desta
é única e intransferível,
vivenciada na arena de cada corpo frágil,
no limite individual de cada ser,
no caminho percorrido a dois pés.
Estamos sós e é por isso que nunca saberemos o quanto dói,
o quanto goza e o que é ser fim no outro.
Só sabemos de nós
e dessa imagem duplicada e perdida na superfície dos espelhos.

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Random

August 28th, 2007 by jana

A vida é uma reunião de canções
disponibilizadas em random.
Você nunca sabe qual a canção
que vem depois da que termina.
Uma melodia de mexer corpo,
outra de aparar o choro,
uma para embalar o gozo,
outra para velar o sono.

Tocaram três canções alegres,
canções de fazer o rosto ganhar cores,
então chegou a próxima,
vestida de violino-nota-aguda,
era ela a dor,
a arranhar silenciosa a carne em notas musicais,
agulha-repeating-repeating,
enquanto o corpo acostuma-se do sangue fervendo
à quietude de quem sofre.

Não há como escolher o que embalar os dias,
canções alegres não é pra toda hora.
A vida está em random,
roleta-russa,
sabe-se lá se é bala ou se é riso,
se é afago ou se é grito.
Aceito a canção seguinte
como quem aceita os dias em linha reta,
sem lhes questionar o caminhar sempre para a frente,
e a retidão da sua ordem aleatória.

A vida tocou para mim
uma canção suave de carícia,
e a seguinte foi arranhão rasgando carne,
mão despedaçando sonhos.
E eu fico esperando sempre a melodia-dor
acabar logo de uma vez,
emudecer-cerrar-lábios.
Antes o silêncio,
antes apenas os relógios nas paredes.

O corpo já se acostuma
a não se libertar demais na dança do riso.
Surrado já está de tanta canção aguda-lâmina
que chega sem aviso,
uma-duas-três juntas,
a ocupar com melancolia todos os espaços.

Aceito tudo sem grito,
sem o levantar negativo de dedos,
pois a vida está em random, meu bem,
ela escolhe o momento seguinte,
e nossas mãos de matéria frágil
nunca terão o controle na sua carne .
Aceitemos juntos então
a disposição randômica de nossas horas,
sejam elas de prazer,
sejam elas de dor,
sejam elas resultado de mistura.
Aceitemos as melodias-dias apenas
como os ouvidos aceitam os sons,
quando as mãos que os protegem estão atadas.

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Ausente

August 17th, 2007 by jana

Ando ausente de mim,
como se tivesse pedido licença para me lavar por dentro,
tirar toda poeira-sujeira,
arder ao sol,
e ter esquecido de colocar tudo de volta.
Só restou o oco,
vazio-eco.
Alguém ainda mora aí?

O eco me traz a pergunta de volta
e eu fico sozinha novamente sem as respostas.
Onde me deixei?
Onde abandonei meus sonhos?
Eles estão por aí,
cantando boêmios a noite fria-brilhante,
enquanto eu espero que eles retornem
para dentro de mim,
corando minha face,
acendendo meu sexo.
A espera não termina.

Enquanto isso, a comida esfria no prato,
o cachorro abana o rabo depois de mijar o tapete,
o barulho da cidade me lembra a toda hora
que estou viva,
ainda pulso,
ainda quero,
mas até quando?

Ando ausente de mim,
sim, tirei-me de dentro para arejar a vida,
mas o vazio precisa de preenchimento.
Ele aceita deixar de ser por mim,
abrir mão de ser o nada,
sacrifício-altar,
para que eu seja novamente
a menina que queima vermelha,
por dentro e por fora,
mulher carregando no corpo
um balaio fumegante
de novos e velhos sonhos,
aromatizando de vida
a imensidão invisível do ar.

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Aurora

July 13th, 2007 by jana

Retoco os fios para me confundir à aurora,
que chega laranja-vermelha,
adentrando minha janela
e pousando firme no meu ombro nu,
úmido ainda pelo banho recente.

Engano-me em pensar que a aurora
apenas mora no horizonte.
A aurora mora em mim,
a me lembrar que a cada segundo entardeço
e me aproximo um pouco mais
da noite dos olhos fechados.

Não ter o que fazer a esta hora do dia,
em que o sol adormece e a noite se faz,
te ajuda a pensar que seu corpo é passagem,
que seus olhos vêem hoje paisagens
e amanhã poderão não vê-las mais.

Leio notícias para conhecer mais o que não se conhece,
pra ganhar intimidade com a noite do corpo,
mas quanto mais leio,
mais dói saber que um dia perderei tudo,
um último suspiro e tudo se vai,
como o sol se põe no horizonte
sem ser notado por estes nossos olhos despreparados.

Foda-se o ciclo da vida,
as aulas de biologia,
o nascer-crescer-morrer,
eu quero ser reticente,
me perder no nada,
com os dedos entrelaçados,
com as pernas misturadas,
por isso fito esta aurora externa,
este pôr do sol repetitivo,
para esquecer um pouco do meu próprio entardecer,
dos minutos que passam,
da vida que escorre
e da dor que é viver sabendo-se finito.

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Paredes e pulso

July 2nd, 2007 by jana

Consagro meus instantes
como quem tem sede profunda
e bebe os minutos em grandes goles,
esperando que assim
seja saciado o desejo pela plenitude,
e que ele demore mais ainda para se renovar.
Desejar hoje dói.

Diga se há angústia maior
que descobrir-se feliz
depois que o tempo há muito passou
e dele só restou
a lembrança viva de dias solares e despreocupados,
em que crescer significava poder ver filmes adultos
e chegar depois das seis,
com os pés cansados,
com o corpo fatigado,
esperando do dia apenas um banho
e uma cama de cheiro bom.
Crescer hoje dói.

Chego depois das seis,
com a cabeça pesada,
esperando resgatar projetos velhos
e ganhar energia para executá-los sem medo.
Chego e as paredes me recebem
como todas as paredes recebem corpos cansados,
frias e indiferentes,
mas ao menos elas não esperam
que eu reaja
quando no momento as energias moram longe de mim.
Mover-me hoje dói.

Baby, me perdi em meus projetos,
me perdi em meio às minhas projeções,
e agora sento e te espero
para sugar cada gole de calor que você me dá,
para beber os instantes que passo ao teu lado,
a esquentar meu corpo para mais um dia frio de junho,
que se impõe como as horas,
certeiras e não declinantes.
Esperar hoje dói.

Queria andar de bicicleta,
sem as rodinhas, sabe?
Mas algo me puxa para o chão
e lá eu permaneço rente ao solo frio,
esperando que ele por si me aqueça.
Quero apenas um impulso, entenda,
coragem para me arranhar,
para cortar meus joelhos e ver meu sangue,
para que eu lembre que este pulso
não canta para o nada,
que este coração ainda bate
não por costume,
mas para me fazer recordar
de que ainda há vida entre minhas carnes.
Viver, baby, às vezes dói.

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Não pare, coração velho

June 20th, 2007 by jana

Para meu pai

Houve um tempo em que a dor
vinha dos dedos apertados nas portas
ou dos arranhões vermelhos dos joelhos.
A dor agora é por dentro,
cavando-remexendo-fazendo-sangrar.
Seu coração bate errado agora, meu velho,
e sabe-se lá como fazê-lo não parar.

Não pare, coração velho,
porque ainda sou menina,
e preciso deste relógio vermelho,
marcando meu tempo
e me fazendo ver que cresço por fora,
mas permaneço criança por dentro.

Você e esses olhos que riem,
você e o jeito que brinca com os bichanos peludos,
me fazem perguntar insistentemente
por que este coração velho agora quer enganchar
na marcação repetitiva do ciclo de nossas vidas.

Não pare, coração velho,
deixe de lado a preguiça,
porque meu velho nos bombeia vida
e sem ele sei que vamos parar.

Enquanto tento te convencer
de que há ainda muito sangue a percorrer a viela das veias,
encosto meu ouvido perto do seu peito,
fecho os olhos e fico a imaginar
que sou aquela menina pequenina,
a ouvir a canção forte
de um coração-pai a celebrar uma nova vida,
pequena-frágil que acabara de chegar.

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Medos

June 13th, 2007 by jana

(Ao som de Emotion in motion do Rick Ocasek)

Não tinha mais medo do escuro
desde que conheci a suavidade dos teus olhos negros.
Com eles aprendi a caminhar sem tatear paredes,
pés firmes-ombros distensos,
seguia segura assim em frente.

Mas tudo que é arrancado de um solo fértil,
mente-húmus-chão de vida,
deixa lugar para florescer novamente
não o mesmo, mas algo sim diferente.
Os medos antigos voam longe,
os novos aparecem rentes.

Viro menina das menores
feita de vidro e fragilidades.
Você me desconhece.
Onde está a mulher?
- Escondida debaixo da cama,
esperando os sufocamentos passarem.

Você perde a paciência,
a voz quente esfria,
e os medos aumentam
como erva ruim a destruir o colorido
daquilo que plantamos em perfume.

Os olhos dos outros também estranham.
- Logo você… Tão forte…
Carne, sou feita de carne.
Nervos, também sou feita deles.
Tenho medo das agulhas
e agora todas elas me atravessam.
Sejam aquelas que não encaro,
sejam estes seus olhos-lança.

Voltei a ter medo do escuro,
liguei todas as luzes,
me encolhi embaixo de camadas de pensamentos soltos,
e assim dormirei esta noite,
porque seus olhos negros-firmes
voltaram-se para outro lado
e eu que caminhe sozinha novamente.

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