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Lençóis velhos

December 12th, 2007 by jana

dois.jpg

(Ilustração: Luis Fernando Calaça)

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de guardar nossas lembranças,
a marca transparente que deixamos de nossos corpos,
o cheiro disfarçado pelo amaciante do nosso suor e de nossa rotina.

Enquanto você não chega,
eu brinco de me envolver com esta manta fina
e faço dela grama e chão,
onde misturo o tempo dos relógios
e as horas suspensas da minha imaginação.

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de nos manter unidos,
passando calor de uma pele para outra,
aquecendo os dias frios, em que nos sentimos um,
mesmo quando partilhamos duas solidões.

Cada pedaço deste tecido pobre sabe dos nossos segredos,
medos, vontades, temores, desejos.
E quanto mais nos misturamos,
mais nossas histórias ficam guardadas no profundo pardo do entrelaço das fibras.

Gosto timidamente da textura destes nossos lençóis velhos
e da forma silenciosa como ele nos acolhe e embala nossos sonhos.
E quando meu corpo estiver longe do seu,
ou o seu estiver distante do meu,
que façamos deste pedaço de pano vagabundo
a lembrança presente do cheiro, das formas e de nossas texturas,
a memória externa de nossa entrega de todos os dias.

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Ausente

August 17th, 2007 by jana

Ando ausente de mim,
como se tivesse pedido licença para me lavar por dentro,
tirar toda poeira-sujeira,
arder ao sol,
e ter esquecido de colocar tudo de volta.
Só restou o oco,
vazio-eco.
Alguém ainda mora aí?

O eco me traz a pergunta de volta
e eu fico sozinha novamente sem as respostas.
Onde me deixei?
Onde abandonei meus sonhos?
Eles estão por aí,
cantando boêmios a noite fria-brilhante,
enquanto eu espero que eles retornem
para dentro de mim,
corando minha face,
acendendo meu sexo.
A espera não termina.

Enquanto isso, a comida esfria no prato,
o cachorro abana o rabo depois de mijar o tapete,
o barulho da cidade me lembra a toda hora
que estou viva,
ainda pulso,
ainda quero,
mas até quando?

Ando ausente de mim,
sim, tirei-me de dentro para arejar a vida,
mas o vazio precisa de preenchimento.
Ele aceita deixar de ser por mim,
abrir mão de ser o nada,
sacrifício-altar,
para que eu seja novamente
a menina que queima vermelha,
por dentro e por fora,
mulher carregando no corpo
um balaio fumegante
de novos e velhos sonhos,
aromatizando de vida
a imensidão invisível do ar.

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Sexo

June 28th, 2007 by jana

lady_oncoach.jpg

(Ilustração Giovanna Casotto - Lady on coach)

Sexo não tem sexo, baby.
Sexo é extensão de pele a se misturar à outra.
Mãos, pernas, língua-na-língua.
Sexo é sinfonia marcada
com as notas que migram do sussurro ao grito,
da respiração leve à ritmada,
dos dedos a cortarem o ar,
como canção ouvida através das paredes.

Sexo não tem etiqueta,
guardanapos brancos para limpar os cantos da boca.
Sexo se abocanha com todos os dentes,
como fruta retirada direto do pé,
madura-carnuda-sumo-e-sabor.

Sexo é colhido com a ponta da língua,
pingando saliva e se misturando aos líquidos,
derramados-espalhados pela superfície fina dos tecidos.
Sexo é extravazamento, nunca represa,
é explosão,
é perna ao alto,
unhas e dentes firmemente cravados.

Sexo arranca todas as placas,
dedos na boca-silêncio,
proibido estacionar.
Sexo é excesso,
uns dizem retrocesso,
selvageria-bestiário-dos-homens.
Sexo é sagrado,
corpo e sangue,
nada tem haver com profanação.

Sexo é dança,
cujos passos desafiam a gravidade,
vertical-horizontal-olhos-pousados
no além-além-linha onde o sol nasce.
Sexo é fonte perene,
onde o desejo ciclicamente se renova,
desaguando vida,
misturando pulsos,
fazendo o querer sempre querer,
afastando o homem da vontade do fim.
Pequena morte que é,
mas que aponta sempre-sempre
para um reínicio.
Sexo é ponto,
sim,
ponto de partida.

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Memoriando ou à espera dos olhos nus

June 7th, 2007 by jana

Minha velha casa tem cheiro de saudade madura,
daquelas que escorrem néctar
e marcam a pele com a lava adocicada
das lembranças pueris
e do eco dos risos antigos,
colhidos dos sons aprisionados na memória.

Meu corpo não cabe mais no colo de minha mãe
e meu pai já não conta tantas histórias.
Fui embora e não vi o mamoeiro morrer na faca,
por ter sido comido pelos bichos,
assim como as minhas lembranças,
que se perdem sem que eu perceba sua falta.

Lembranças que se amontoam desordenadamente pelos cantos,
misturando-se às novas e envelhecendo silenciosas
até serem pulverizadas como as estrelas,
com a chegada, mais tarde, da idade dos olhos nus.

Minha velha vó ganhou estes olhos,
parados-distantes-vazios,
e agora chora a morte velha dos pais,
que se foram quando eu nem era menina.

A cabeça tem dessas armadilhas dolorosas:
esconde as dores nos cantos escuros
e de repente resolve levantar pó e
pôr as feridas para serem arejadas pelo ar e sol,
transformando o que era antigo em chagas vermelhas,
a sangrarem dor a todo momento.

Chore, minha velha, chore,
chore a lembrança antiga-antes-perdida,
deixe escorrer novamente toda a dor superada
e agora, canção arranhada,
riscando a pele em ritmo contínuo.

Chore que eu estou por perto agora,
passageira-forasteira eu sei,
mas é hora de partilhar memórias,
e eu colho cada uma como quem colhe frutos ainda verdes,
e abafam nos cantos
para tê-los maduros mais tarde,
quando a hora da saudade tocar.

E quando esta hora chegar,
trazendo cheiros-sons-imagens,
revivendo e somando o ontem ao hoje,
eu assistirei silenciosa os estilhaços de meu passado
serem projetados como slides coloridos,
até o dia em que meus olhos ficarão nus
e a alegria e as dores renascerão em cores fortes,
me dando vidas pararelas,
vidas estas que já vivi e
que moram escondidas por detrás de minhas retinas escuras.

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Réquiem para as rosas

May 14th, 2007 by jana

Tive que jogar no lixo, meu bem,
as flores que você me deu de presente,
como gesto de amor e cuidado,
como demonstração de paixão viva
e de planos em dia para anos mais tarde.

Tive que misturar as pétalas antes vermelhas,
hoje entre o roxo e o preto,
aos restos do almoço de domingo
molhados pela chuva de segunda,
que se deitou obscena no limite do cesto.

Lembro daquelas flores vermelhas,
esmagadas entre meus seios maduros,
misturando seu perfume ao meu,
dividindo comigo a textura macia
daquelas pétalas novas-recém-colhidas.

Tenho com a vida uma relação de impasse,
rejeito a beleza das coisas quando sei que irei perdê-las.
Desvio olhos, cerro mãos, tranco pernas,
tudo para não doer mais tarde,
quando aquilo que foi dado
for tirado de mim sem avisos,
sem grandes notificações.

Não são apenas as flores, entenda,
são os corpos que me cativaram,
os braços que me acolheram quentes,
os sonhos que um dia eu tive.

As flores que jogo no lixo hoje, meu bem,
é a antecipação de todas as minhas futuras perdas,
que terei que carregar silenciosa,
até o dia em que alguém tenha também que retirar meus espinhos,
desfolhar minhas ramagens secas,
para me deitar, murcha, quieta, sem gritos,
no fundo frio de uma alcova qualquer.

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Paralisia

May 7th, 2007 by jana

(Ao som de Nights in White Satin do Moody Blues)

Crave em mim dentes e unhas,
faça meu corpo reagir uma só vez,
faça-o lembrar que minha carne está viva
e que o sangue ainda percorre silencioso e quente
o vermelho guardado que há em mim.

Crave em mim novos sonhos
como quem rasga a terra e planta sementes,
esperando pacientemente que do húmus e da água
a vida nasça, se espalhe e exploda
num misto visceral de cor e perfume.

Afunde seus dedos na resistência silenciosa da minha pele
e me traga novas sensações,
pois meus olhos, meu bem,
andam viciados demais com a rotina-repetição,
com esse pôr do sol tão igual
e com o som conhecido da água lavando as ruas
em dias cinzas-febris de chuva.

Traga para mim, como quem carrega oferendas,
os velhos sonhos, os velhos corpos,
para que neles eu encontre
uma pista daquilo que um dia eu fui.
Traga para mim, como quem carrega incensos perfumados,
os cheiros conhecidos da comida guardada na memória dos dentes,
das peles sentidas e lambidas por mim,
dos perfumes que guardei na intimidade das roupas antigas.

Peço, como quem ergue mãos frias e vazias,
os farelos perdidos de todas minhas quimeras,
o resto largado no canto do prato
dos rostos que levo dentro do peito
e que me fazem diluir nestes dias quietos
em que eu espero o sol morrer em azul no horizonte.

Apenas te peço movimento,
um impulso qualquer de balanço,
algo que me faça sair de onde estou,
que me livre desta inércia insistentemente companheira.
Apenas te peço mãos no corpo
que me façam girar e girar,
pra ver meu mundo ganhar velocidade,
meus pés saírem novamente do chão
e para que eu possa voltar, triunfante-riso-alto,
a sonhar novamente com banalidades.

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Resposta às linhas

April 9th, 2007 by jana

espero suas linhas
com os cabelos pingando restos de shampoo barato,
com o cheiro de cigarro todo escoando pelo ralo,
com as pernas feitas à gilette de uma lâmina só,
daquelas que levam entre os pêlos pretos-naturais
o estado bruto e crespo que é minha pele à espera da tua.

meu sorriso é entrega, solto, largo,
cheio de dentes à mostra.
meu sorriso é promessa de seios e sexo abertos,
sem jogo, sem fantasia,
puro e simples como um café preto coado
e tomado aos goles em copos de vidro,
que custam apenas alguns centavos.

enquanto você despia suas cintas, meias,
batons e tinta amarela,
minhas pernas caminhavam nuas,
sem creme hidratante,
com os póros descobertos para o mundo,
receptivos à sua língua, sua saliva
e todo o branco que você guarda entre suas roupas
cuidadosamente escolhidas, lavadas e limpas.

tenho medo de trovão e cubro todos os espelhos,
cobriria todos eles mesmo se não escutasse os estrondos
e visse a luz romper o céu,
criando fendas no espaço azul-claro-escuro.
cubro os espelhos porque tenho medo da vaidade,
de me perder numa imagem
que você criou de mim,
idealizada-retocada-pura-maquiagem.

entenda você, meu bem,
que as suas bucetas milimetricamente feitas,
gastam horas para serem retocadas,
enquanto a minha te espera
como uma boca vermelha,
que aguarda o fruto maduro se dissolver entre os dentes.

entenda também, meu bem,
que meu corpo é esse mundo-limite de falhas,
que dele não espere formas harmônicas,
seios firmes e barriga reta.
meu corpo não rejeita às investidas do tempo,
nem à flacidez que os dias a ele impõe.
meu corpo apenas é essa alcova quente,
que aguarda quieto o seu,
sem esperar essas linhas que você tanto me promete.

meu corpo é esse santuário
que cheira à carne e aos meus líquidos,
que não é inércia, mas movimento.
meu corpo é essa realidade
que as suas linhas,
por mais belas e mais esteticamente perfeitas,
jamais conseguirá aprisionar.

P.S: Carol Custódio me pediu para escrever a resposta ao poema Linhas, que publiquei ano passado e aqui está.