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Da sacada

November 14th, 2009 by jana

Quando a noite chega
e tudo que vejo são luzes ao longe,
penso em você sozinho na sacada de sua casa.
Fecho os olhos e tento ser novamente
a criança de riso despreocupado,
que acreditava poder estar em todos lugares que quisesse,
apenas no abrir e fechar dos olhos.

Enquanto você caminha em seu pijama macio
e eu caminho nua pelo quarto,
tento colher a brisa silenciosa que sai de seus lábios.
Silenciosamente espero
o momento que nossas mãos se unirão
e caminharemos juntos,
deixando para trás tudo aquilo que nos causa dor.
O amor sempre atenua as feridas mais profundas.

Sim, fecho os olhos e você está ao meu lado.
Mesmo ausente,
sinto seus dedos caminharem entre meus cabelos,
seus braços afastarem o frio,
seu colo abrigar meu corpo surrado.
Minha pele silenciosa espera a sonoridade do seu corpo,
a entoar nosso amor como canção suave e intensa.

E quando a dor é intensa e o corpo parece não suportar,
me refugio em nossas linhas, canções e lembranças.
O amor não foi feito para desistentes.
Para se amar é preciso caminhar rente,
com o peito aberto e a alma em festa,
com as mãos livres para o enlaçar de dedos,
com os olhos brilhantes a alimentar chamas.

Logo eu… Logo eu que sempre temi falar do amor,
com o risco de parecer piegas ou ridícula,
agora não só entoo meu canto
como assumo todo o prazer e a dor
a ele alinhavados.

Não, meu amor, não há medo, não há dúvidas,
só uma espera.
Pacientemente te aguardo,
debruçada na janela deste quarto estranho,
colhendo no vento o pólen de seus beijos.
Espero, espero sim.
O corpo todo em festa,
eu vestida de amor,
os olhos gritando alegria
e todas as dores a se tornarem jornal de ontem.
Sigamos.
O amor não foi feito para desistentes.

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Bacantes

May 23rd, 2009 by jana

Há muito deixei de querer aprisionar o tempo.
Deixo que ele siga,
rio perene que carrega tudo para longe,
deixando nas margens apenas fragmentos de vivências.

O tempo surra meu corpo
e mais ainda sinto fome de vida,
de não deixar um momento que seja passível ao esquecimento.
Sou uma bacante de taça erguida,
corpo nu e entregue,
esperando o sumo adocicado das uvas,
para solvê-lo entre os dentes.

Minha fome e minha sede são renováveis,
não se extinguem.
Meu desejo é veia sonora, latente.
Pulsa, pulsa,
me impulsionando para frente,
para lembrar que é exatamente este desejo que nos mantém vivos,
dentro da ausência de respostas a que se resume a vida.

Enquanto isso Baco e eu dançamos livres,
e outras mãos se unem às nossas.
Mãos, corpos, peles, cheiros.
A festa de Dionísio é de carne e vinho.
Espalho-me nos corpos que se abrem para mim,
inebriante dança,
cuja canção que nos embala
é o sussurrar de nossas próprias vozes.

Lá fora, o mundo segue sua rotina de idas e vindas,
de café, contas e correria.
Aqui dentro celebramos juntos
a manutenção de nossas vidas,
o desejo em sua forma crua,
fruto vermelho colhido direto do pé.

Aqui, nos despimos não somente da prisão de nossas roupas,
mas também de nossas amarras invisíveis.
Minha existência é a recusa das convenções in vitro.
Dentro de nossa ciranda,
unamos pernas, mãos e suor.
O surrar do tempo ganha outro ritmo,
enquanto nos alternamos no saciamento de nossas sedes.
Dionísio nos observa atento,
seu riso é forte e alto,
e o vinho que ele nos serve é o desejo,
quente, inebriante, adocicado,
pronto para nos saciar
e despertar novamente nossa sede.

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Dia de anos

February 28th, 2009 by jana

Ao meu irmão Luiz Fernando, por nosso aniversário

fleur.jpg

O cheiro das angélicas é o que ficou
da lembrança do dia de anos.
Minha vó espalhava aquelas flores tímidas e brancas pela casa,
perfume delicado de flor não imponente,
que aos poucos se misturava com outros tantos cheiros,
açúcar, chocolate, borracha de balões coloridos.

Era dia de usar colchas de crochê nas camas
e lustrar o chão de tacos de madeira,
que acumulavam em suas falhas
restos de outros dias como este.
Ciclos e ciclos nascidos e encerrados
na extensão plana daquele mesmo chão.

O dia de anos era partilhado
como boas histórias que devem ser lidas em voz alta.
Ele chegou mais cedo,
mas acredito que no tempo certo.
Nestes dias que eram nossos,
e que continuam a ser,
rodeávamos a mesa de doces,
como as esferas coloridas
rodeiam lá em cima o sol incandescente.

Assim embaçado pelo tempo
o dia de anos ganha cores suaves,
aquarela, tons que sempre acompanham as lembranças.
Braços abertos, mãos, afagos,
pai, mãe, avó, avô,
aromas e o brilho dos embrulhos dispostos na cama.
Tudo chega até a mim em dança, movimento.

O dia amanheceu solar
e há distância demais entre estes dias e eu.
Em minha nova cidade,
ainda não encontrei minhas angélicas.
Talvez não as tenha procurado verdadeiramente.

O meu dia é nosso dia
e não me lembro do tempo que não era assim.
Você longe, eu tão perto e tão perdida de mim.
Talvez também, em alguma hora deste dia,
eu abrace uma almofada de chita,
daquelas bem floridas,
para preencher este vazio que um dia senti,
quando você ainda não havia chegado.

Hoje é o nosso dia de anos,
nossa singularidade,
fruto de sua antecipação
em chegar mais depressa aos meus braços pequenos.
Mas você chegou na hora certa,
para preencher meus vazios,
e por isso que minha solidão é apenas aparente.
Estamos de mãos atadas,
laços embaraçados de sangue.
Dançamos agora uma ciranda
em torno da mesa, das angélicas e das lembranças.
Um ciclo novo começa,
seus dedos no ar me sustentam.

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Renovação

December 19th, 2008 by jana

Renovo-me como rio alimentado pelas chuvas,
como terra que recebe o húmus e fertiliza-se,
como canção, que ganha entonações diferentes,
no jogo do cantar entre tantas línguas.

Meu corpo é esta canção entoada sem refrão,
canção que aguarda seu fim,
mas que segue enfeitando os caminhos invisíveis do ar,
adicionando aos dias cada nota,
que são todas essas vivências colhidas no caminho,
dor-prazer-tristeza-festa.

A vida é o flamenco dançado entre vermelho e negro,
entre dias cinzas e solares,
entre o amanhecer e o crepúsculo.
A vida é esse mar entre tempestades,
que se permite ganhar águas tranqüilas,
espelho do sol a refletir brilho que é solitário.

A vida é vermelha,
é assim que a vejo,
explícita, quente,
averso do corpo.
A vida é rio perene,
que alimenta-se dos ciclos,
que transforma o que é hoje
em coisa assim, tão diferente,
propagando o que é silêncio em um instante
e cores vivas no outro.

Então sigo, hoje corpo, amanhã flores,
hoje carne, amanhã quem sabe,
mas sigo mesmo assim.
Renovando-me em cada paisagem que miro,
em cada afago que recebo,
em cada estrada onde ponho meus pés.

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Singularidade

December 12th, 2008 by jana

Viver é fazer de cada dia não uma repetição,
mas uma singularidade,
digna de lembrança,
digna de contadores de história,
que transformam o banal em palavras que preenchem os vazios
e alimentam a alma.

Viver é sentir o corpo pulsar
e não rejeitar a urgência dos sentidos.
É não desprezar o agora,
esperando que outros agoras venham a surgir,
prontos a serem vividos quando a coragem se apresentar ao palco.
Mas a coragem vem mesmo é de dentro,
pulsando forte e quente,
sangue-vermelho-ritmo.
Há que se rejeitar o silêncio da rotina.

A vida é feita do que nos move e do que nos adormece.
Vivemos a tensão de duas forças:
uma a querer que continuemos,
outra a querer que paremos.
Escolhi seguir em frente,
buscando o calor que me acolhe,
o que me preenche,
o que me rege e
aquilo que me alimenta e é prazer.

Os dias cinzentos, deixo-os escapar
para trás das estantes das lembranças,
para os buracos negros,
onde tudo some e lá fica.
Ah… Hoje quero mesmo os dias solares,
o corpo que desejo,
as canções que me tocam,
os planos que me impulsionam,
a pulsão que me faz seguir em frente.
Porque a vida não é repetição monótona,
a vida deve ser a sucessão de momentos singulares.

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Lençóis velhos

December 12th, 2007 by jana

dois.jpg

(Ilustração: Luis Fernando Calaça)

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de guardar nossas lembranças,
a marca transparente que deixamos de nossos corpos,
o cheiro disfarçado pelo amaciante do nosso suor e de nossa rotina.

Enquanto você não chega,
eu brinco de me envolver com esta manta fina
e faço dela grama e chão,
onde misturo o tempo dos relógios
e as horas suspensas da minha imaginação.

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de nos manter unidos,
passando calor de uma pele para outra,
aquecendo os dias frios, em que nos sentimos um,
mesmo quando partilhamos duas solidões.

Cada pedaço deste tecido pobre sabe dos nossos segredos,
medos, vontades, temores, desejos.
E quanto mais nos misturamos,
mais nossas histórias ficam guardadas no profundo pardo do entrelaço das fibras.

Gosto timidamente da textura destes nossos lençóis velhos
e da forma silenciosa como ele nos acolhe e embala nossos sonhos.
E quando meu corpo estiver longe do seu,
ou o seu estiver distante do meu,
que façamos deste pedaço de pano vagabundo
a lembrança presente do cheiro, das formas e de nossas texturas,
a memória externa de nossa entrega de todos os dias.

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Ausente

August 17th, 2007 by jana

Ando ausente de mim,
como se tivesse pedido licença para me lavar por dentro,
tirar toda poeira-sujeira,
arder ao sol,
e ter esquecido de colocar tudo de volta.
Só restou o oco,
vazio-eco.
Alguém ainda mora aí?

O eco me traz a pergunta de volta
e eu fico sozinha novamente sem as respostas.
Onde me deixei?
Onde abandonei meus sonhos?
Eles estão por aí,
cantando boêmios a noite fria-brilhante,
enquanto eu espero que eles retornem
para dentro de mim,
corando minha face,
acendendo meu sexo.
A espera não termina.

Enquanto isso, a comida esfria no prato,
o cachorro abana o rabo depois de mijar o tapete,
o barulho da cidade me lembra a toda hora
que estou viva,
ainda pulso,
ainda quero,
mas até quando?

Ando ausente de mim,
sim, tirei-me de dentro para arejar a vida,
mas o vazio precisa de preenchimento.
Ele aceita deixar de ser por mim,
abrir mão de ser o nada,
sacrifício-altar,
para que eu seja novamente
a menina que queima vermelha,
por dentro e por fora,
mulher carregando no corpo
um balaio fumegante
de novos e velhos sonhos,
aromatizando de vida
a imensidão invisível do ar.

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Sexo

June 28th, 2007 by jana

lady_oncoach.jpg

(Ilustração Giovanna Casotto - Lady on coach)

Sexo não tem sexo, baby.
Sexo é extensão de pele a se misturar à outra.
Mãos, pernas, língua-na-língua.
Sexo é sinfonia marcada
com as notas que migram do sussurro ao grito,
da respiração leve à ritmada,
dos dedos a cortarem o ar,
como canção ouvida através das paredes.

Sexo não tem etiqueta,
guardanapos brancos para limpar os cantos da boca.
Sexo se abocanha com todos os dentes,
como fruta retirada direto do pé,
madura-carnuda-sumo-e-sabor.

Sexo é colhido com a ponta da língua,
pingando saliva e se misturando aos líquidos,
derramados-espalhados pela superfície fina dos tecidos.
Sexo é extravazamento, nunca represa,
é explosão,
é perna ao alto,
unhas e dentes firmemente cravados.

Sexo arranca todas as placas,
dedos na boca-silêncio,
proibido estacionar.
Sexo é excesso,
uns dizem retrocesso,
selvageria-bestiário-dos-homens.
Sexo é sagrado,
corpo e sangue,
nada tem haver com profanação.

Sexo é dança,
cujos passos desafiam a gravidade,
vertical-horizontal-olhos-pousados
no além-além-linha onde o sol nasce.
Sexo é fonte perene,
onde o desejo ciclicamente se renova,
desaguando vida,
misturando pulsos,
fazendo o querer sempre querer,
afastando o homem da vontade do fim.
Pequena morte que é,
mas que aponta sempre-sempre
para um reínicio.
Sexo é ponto,
sim,
ponto de partida.

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Memoriando ou à espera dos olhos nus

June 7th, 2007 by jana

Minha velha casa tem cheiro de saudade madura,
daquelas que escorrem néctar
e marcam a pele com a lava adocicada
das lembranças pueris
e do eco dos risos antigos,
colhidos dos sons aprisionados na memória.

Meu corpo não cabe mais no colo de minha mãe
e meu pai já não conta tantas histórias.
Fui embora e não vi o mamoeiro morrer na faca,
por ter sido comido pelos bichos,
assim como as minhas lembranças,
que se perdem sem que eu perceba sua falta.

Lembranças que se amontoam desordenadamente pelos cantos,
misturando-se às novas e envelhecendo silenciosas
até serem pulverizadas como as estrelas,
com a chegada, mais tarde, da idade dos olhos nus.

Minha velha vó ganhou estes olhos,
parados-distantes-vazios,
e agora chora a morte velha dos pais,
que se foram quando eu nem era menina.

A cabeça tem dessas armadilhas dolorosas:
esconde as dores nos cantos escuros
e de repente resolve levantar pó e
pôr as feridas para serem arejadas pelo ar e sol,
transformando o que era antigo em chagas vermelhas,
a sangrarem dor a todo momento.

Chore, minha velha, chore,
chore a lembrança antiga-antes-perdida,
deixe escorrer novamente toda a dor superada
e agora, canção arranhada,
riscando a pele em ritmo contínuo.

Chore que eu estou por perto agora,
passageira-forasteira eu sei,
mas é hora de partilhar memórias,
e eu colho cada uma como quem colhe frutos ainda verdes,
e abafam nos cantos
para tê-los maduros mais tarde,
quando a hora da saudade tocar.

E quando esta hora chegar,
trazendo cheiros-sons-imagens,
revivendo e somando o ontem ao hoje,
eu assistirei silenciosa os estilhaços de meu passado
serem projetados como slides coloridos,
até o dia em que meus olhos ficarão nus
e a alegria e as dores renascerão em cores fortes,
me dando vidas pararelas,
vidas estas que já vivi e
que moram escondidas por detrás de minhas retinas escuras.

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Réquiem para as rosas

May 14th, 2007 by jana

Tive que jogar no lixo, meu bem,
as flores que você me deu de presente,
como gesto de amor e cuidado,
como demonstração de paixão viva
e de planos em dia para anos mais tarde.

Tive que misturar as pétalas antes vermelhas,
hoje entre o roxo e o preto,
aos restos do almoço de domingo
molhados pela chuva de segunda,
que se deitou obscena no limite do cesto.

Lembro daquelas flores vermelhas,
esmagadas entre meus seios maduros,
misturando seu perfume ao meu,
dividindo comigo a textura macia
daquelas pétalas novas-recém-colhidas.

Tenho com a vida uma relação de impasse,
rejeito a beleza das coisas quando sei que irei perdê-las.
Desvio olhos, cerro mãos, tranco pernas,
tudo para não doer mais tarde,
quando aquilo que foi dado
for tirado de mim sem avisos,
sem grandes notificações.

Não são apenas as flores, entenda,
são os corpos que me cativaram,
os braços que me acolheram quentes,
os sonhos que um dia eu tive.

As flores que jogo no lixo hoje, meu bem,
é a antecipação de todas as minhas futuras perdas,
que terei que carregar silenciosa,
até o dia em que alguém tenha também que retirar meus espinhos,
desfolhar minhas ramagens secas,
para me deitar, murcha, quieta, sem gritos,
no fundo frio de uma alcova qualquer.

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