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Paralisia

May 7th, 2007 by jana

(Ao som de Nights in White Satin do Moody Blues)

Crave em mim dentes e unhas,
faça meu corpo reagir uma só vez,
faça-o lembrar que minha carne está viva
e que o sangue ainda percorre silencioso e quente
o vermelho guardado que há em mim.

Crave em mim novos sonhos
como quem rasga a terra e planta sementes,
esperando pacientemente que do húmus e da água
a vida nasça, se espalhe e exploda
num misto visceral de cor e perfume.

Afunde seus dedos na resistência silenciosa da minha pele
e me traga novas sensações,
pois meus olhos, meu bem,
andam viciados demais com a rotina-repetição,
com esse pôr do sol tão igual
e com o som conhecido da água lavando as ruas
em dias cinzas-febris de chuva.

Traga para mim, como quem carrega oferendas,
os velhos sonhos, os velhos corpos,
para que neles eu encontre
uma pista daquilo que um dia eu fui.
Traga para mim, como quem carrega incensos perfumados,
os cheiros conhecidos da comida guardada na memória dos dentes,
das peles sentidas e lambidas por mim,
dos perfumes que guardei na intimidade das roupas antigas.

Peço, como quem ergue mãos frias e vazias,
os farelos perdidos de todas minhas quimeras,
o resto largado no canto do prato
dos rostos que levo dentro do peito
e que me fazem diluir nestes dias quietos
em que eu espero o sol morrer em azul no horizonte.

Apenas te peço movimento,
um impulso qualquer de balanço,
algo que me faça sair de onde estou,
que me livre desta inércia insistentemente companheira.
Apenas te peço mãos no corpo
que me façam girar e girar,
pra ver meu mundo ganhar velocidade,
meus pés saírem novamente do chão
e para que eu possa voltar, triunfante-riso-alto,
a sonhar novamente com banalidades.

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Resposta às linhas

April 9th, 2007 by jana

espero suas linhas
com os cabelos pingando restos de shampoo barato,
com o cheiro de cigarro todo escoando pelo ralo,
com as pernas feitas à gilette de uma lâmina só,
daquelas que levam entre os pêlos pretos-naturais
o estado bruto e crespo que é minha pele à espera da tua.

meu sorriso é entrega, solto, largo,
cheio de dentes à mostra.
meu sorriso é promessa de seios e sexo abertos,
sem jogo, sem fantasia,
puro e simples como um café preto coado
e tomado aos goles em copos de vidro,
que custam apenas alguns centavos.

enquanto você despia suas cintas, meias,
batons e tinta amarela,
minhas pernas caminhavam nuas,
sem creme hidratante,
com os póros descobertos para o mundo,
receptivos à sua língua, sua saliva
e todo o branco que você guarda entre suas roupas
cuidadosamente escolhidas, lavadas e limpas.

tenho medo de trovão e cubro todos os espelhos,
cobriria todos eles mesmo se não escutasse os estrondos
e visse a luz romper o céu,
criando fendas no espaço azul-claro-escuro.
cubro os espelhos porque tenho medo da vaidade,
de me perder numa imagem
que você criou de mim,
idealizada-retocada-pura-maquiagem.

entenda você, meu bem,
que as suas bucetas milimetricamente feitas,
gastam horas para serem retocadas,
enquanto a minha te espera
como uma boca vermelha,
que aguarda o fruto maduro se dissolver entre os dentes.

entenda também, meu bem,
que meu corpo é esse mundo-limite de falhas,
que dele não espere formas harmônicas,
seios firmes e barriga reta.
meu corpo não rejeita às investidas do tempo,
nem à flacidez que os dias a ele impõe.
meu corpo apenas é essa alcova quente,
que aguarda quieto o seu,
sem esperar essas linhas que você tanto me promete.

meu corpo é esse santuário
que cheira à carne e aos meus líquidos,
que não é inércia, mas movimento.
meu corpo é essa realidade
que as suas linhas,
por mais belas e mais esteticamente perfeitas,
jamais conseguirá aprisionar.

P.S: Carol Custódio me pediu para escrever a resposta ao poema Linhas, que publiquei ano passado e aqui está.

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