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Orkut: da rede de amigos confiáveis às agressões e golpes. Permanecer ou sair?

June 12th, 2007 by jana

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Cresci ouvindo verdades absolutas, até que aprendi, talvez no jogo da tentativa e erro, que as verdades de um podem não ser a do outro. Acredito que toda tentativa de homogeneização é violenta, porque passa por cima da subjetividade dos indivíduos. Estava acompanhando o post “Desentendimentos na internet e ética” do Alessandro Martins, em que o autor fala da crescente onda de agressões no meio virtual e da dificuldade de se perceber que por trás de um monitor frio existe uma pessoa, com uma história de vida, com referenciais, que precisa não somente ser respeitada como também precisa respeitar o outro, para que não retornemos, como mesmo disse o Alessandro, à época dos tacapes.

Resolvi centrar o olhar em um recorte deste vasto mundo paralelo, que é a internet. O recorte, que anda chamando minha atenção, é a comunidade virtual Orkut. Em sua página inicial, encontramos um resumo do que seria esta comunidade. “O Orkut é uma comunidade on-line que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis”. Inicialmente, a idéia era essa. O espaço havia sido criado primordialmente para aproximar as pessoas, dinamizar os contatos, ou seja, para estreitar os laços de amizade. Com o tempo, a comunidade virtual cresceu e dentro dela comunidades menores, voltadas para reunir pessoas com interesses parecidos, foram se multiplicando. Comunidades voltadas para cinema, música, literatura, esportes, moda, cidades e tantos outros assuntos, que fazem parte da realidade fora dos monitores. O projeto é um sucesso, não há como dizer o contrário, mas a utopia de “uma comunidade que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis” vem sendo minada já há algum tempo.

Um lugar destinado ao estreitamento dos laços de amizade e ao surgimento até de novos laços vem sendo contaminado por uma onda de agressões, pela multiplicação de comunidades, que pregam a intolerância à diferença, como as comunidades homofóbicas, racistas, anti-semitas, entre outras e até a aplicação de golpes. Fiquem atentos, porque eles estão acontecendo. Eu mesma fui vítima de um no início do ano, mas tratarei deste ponto nos parágrafos mais adiante.

Não são poucas as comunidades cujos integrantes conjugam o verbo odiar com a mesma naturalidade que respiram. Não são comunidades do tipo odeio jiló, mas espaços em que a diferença não é só negada como também a ela são atribuídos valores. Os discursos vão do preconceito velado do tipo “não tenho preconceito em relação a … , mas prefiro que fiquem longe” até a agressão gritante. Em algumas comunidades, os integrantes ocupam seu tempo livre com a busca de perfis para serem malhados feito Judas no Sábado de Aleluia. Os tópicos são criados, o endereço dos perfis são colados no tópico e os integrantes da comunidade, munidos com seus paus-palavras, malham o indivíduo até a exaustão. Muitas vezes, e não são poucas, os perfis malhados são atacados por uma avalanche de recados, em que a violência verbal impera. É como invadir uma casa em que a janela e a porta vivem constantemente abertas. No Orkut, não há como impedir que estranhos visitem seu perfil, já que ele é público. No máximo podemos restringir algumas informações apenas para os amigos e bloquear visitantes indesejados, o que não impede que fotografias e perfis sejam copiados para serem atacados pela ilusão de uma falsa supremacia grupal.

Algumas pessoas já desistiram do Orkut por se sentirem feridas no seu direito de ocupar um espaço sem que sejam desrespeitadas. Muito pouco se pode fazer diante de uma agressão no espaço virtual. Quem ocupa-se da tarefa de disseminar a intolerância quase nunca mostra a cara. Os perfis fakes são mais comuns e são utilizados para protegerem a identidade do agressor e, apesar das comunidades, que pregam a intolerância e a violência, serem denunciadas, outras aparecem mais tarde e logo ganham adeptos. A impressão que tenho é que toda essa agressividade, que é sufocada no espaço dito “real”, está sendo extravazada no espaço virtual, ou seja, aquele que não pode agredir verbalmente alguém na rua, com o perigo de responder a um processo, está utilizando o meio virtual para verbalizar sua intolerância e desrespeito às diferenças, sem que responda por essa violência.

Outra questão, que também está atingindo e transformando este espaço, cuja utópica imagem era a de um local seguro, em que relações saudáveis entre os indivíduos seriam estabelecidas, é o uso da comunidade virtual como campo de aplicação de golpes. Como disse anteriormente, fui vítima no início do ano de um golpe, assim como algumas pessoas próximas. Eu participava de uma comunidade e organizei, juntamente com outros integrantes, um Orkontro, para que rompéssemos a barreira virtual. O Orkontro aconteceu e conheci algumas pessoas da comunidade. Um dos integrantes, no entanto, soube fazer uso do Orkut como forma de aplicar seus golpes. Ele criou um perfil e se auto-intitulava de produtor musical. Subentendo que as informações contidas nos perfis sejam verdadeiras, eu e mais algumas pessoas fomos enganadas pela ilusão da “rede de amigos confiáveis”. Eu estava de mudança para Sampa e queria vender minha guitarra, um presente que eu havia ganhado há dez anos atrás. O rapaz, que se apresentava como produtor musical, ofereceu-se para vender o instrumento e eu a entreguei, sem fazer com que o mesmo assinasse um documento se responsabilizando pela venda. Resultado: perdi a guitarra. Depois fiquei sabendo que o mesmo rapaz, que havia iniciado um namoro com uma das integrantes da mesma comunidade, aplicou-lhe um golpe e levou uma soma de 3000 reais dela e de seus amigos. Descobrimos então que ele não era produtor, que não morava na região que dizia morar, enfim, ele sumiu e continua impune e talvez esteja ainda no Orkut, aplicando novos golpes.

Remetendo novamente ao texto do Alessandro Martins, é importante realmente perceber que esse mundo virtual é tão real como este em que vivemos e que, por trás dos monitores, existem pessoas reais, que têm nas mãos o mesmo poder de construir e destruir as coisas. O homem tem a capacidade de construir aquilo que será utilizado ao seu favor e contra ele mesmo. É como ter entre as unhas o veneno e a vacina. Consigo ver pontos positivos no Orkut e por isso permaneço nele, mas também consigo ver o quanto este espaço está sendo utilizado para o extravazamento da violência contida na sociedade. Como fora dos monitores a intolerância é velada, por haver leis que, quando executadas, condenam os crimes contra os direitos humanos, temos a impressão de que a calmaria está instaurada, mas observando um espaço como o Orkut, que agrega pessoas reais, mesmo que estas se disfarcem por perfis fakes, vemos que estamos diante de um quadro de violência em ebulição e que já está experimentando o extravazamento. Não se pode pensar o Orkut como um espaço neutro, em que nada que se passa lá dentro tem repercussão fora, afina lde contas ele é uma extensão da nossa realidade. As pessoas são reais e aquilo que é dirigido a elas, seja positivo ou negativo, também tem repercussão real, portanto reitero o post do Alessandro e acredito que temos que ficar atentos para essa onda de violência e intolerância sim, assim como a onda de golpes, para nos protegermos sem que migremos do pólo do oba-oba completo ao da desconfiança profunda em relação a tudo que diz respeito à internet. Assim como não devemos sair às ruas sem olhar para os lados, desatentos a tudo, como também não devemos deixar de sair por medo, na internet as regras são quase as mesmas. Aproveitemos os recursos, mas atentos ao que fazemos e ao que os outros também fazem.

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Peço desculpas aos preconceituosos, mas respeito é fundamental

June 1st, 2007 by jana

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(Jana Calaça by Carol Custódio)

Pela primeira vez, em anos, resolvi postar um texto diferente em relação ao conteúdo do meu blog. Sempre utilizei o antes Noturnando (meu antigo blog) e o agora Casa de Burlesco como oficina literária, onde publico meus contos, poemas e crônicas. Hoje, no entanto, resolvi fazer diferente. Resolvi me despir dos personagens e dos eus-líricos e falar um pouco sobre um assunto sem metáforas ou eufemismos, nem canção dramática ou arroubos de vitimização, porque essa nunca foi a minha praia.

Geralmente nos preocupamos com manifestações de preconceito, quando estas nos atingem, o que é um comportamento errôneo, já que assim como nos sentimos agredidos com os conceitos pré-concebidos dos outros em relação a nós, temos também que exercitar constantemente o bom senso. Será que não andamos por aí apontando o que nos é diferente como algo a ser julgado e condenado? Será que não exercitamos no automático nossa intolerância com piadas, riso e dedos apontados? Não estou me colocando como alguém que não possui preconceitos, mas como alguém que está passando por um momento de releitura destes conceitos cristalizados e que também lida diariamente com o preconceito do outro.

Sempre fui uma pessoa gorda. Fui uma criança, uma adolescente e agora uma adulta gorda. Durante toda minha vida lidei com o fato de não pertencer a um padrão estético vigente e desde menina lido com olhares, piadinhas e até mesmo com agressões verbais. Experimentei diversas fases, que migraram da completa alienação, ou seja, eu tentava fingir que não sofria nenhuma agressão até a fase da reação estúpida, ou seja, comecei a responder a altura, sem que isso me ajudasse em nada a lidar com o turbilhão de sentimentos negativos que me atravessavam. Tenho uma coleção de histórias guardadas em mim ao longo dos anos, que seriam suficientes para preencher páginas e páginas virtuais de um blog voltado para o assunto, mas vou falar apenas da sensação estranha que tive depois de passar meses longe de minha terra natal: Salvador. Moro atualmente em São Paulo, onde vivo com meu marido, Fábio, igualmente gordo e que também sofre com os mesmos olhares tisc tisc como eu e como qualquer gordo que resolva ter uma vida normal, sem assumir aquele discurso de que “estou renunciando à minha vida porque os outros acham que eu devo”.

Esta semana, um dia depois da minha chegada à Salvador, resolvi marcar um almoço com minha amiga de anos, Andrea. Resolvemos nos encontrar no shopping Barra, localizado próximo à orla. Andrea e eu temos um fenótipo parecido e ela, assim como eu, também é gorda. Uma dupla de amigas gordas passeando no shopping chama atenção. Mas por que chama tanto a atenção? Será que é porque somos visíveis demais ou porque já foi convencionado que não temos direito de passear livremente por um shopping, de conversar como qualquer dupla de amigas, que não se vêem há muito tempo, ou seja, de que não temos direito de partilhar o mesmo lugar das “pessoas comuns” e de vivermos nossas vidas?

Vou pontuar exatamente os incidentes desta tarde fatídica, até mesmo para ver se neste processo de catarse, eu me livro desta sensação chata com que estou lidando agora. Tudo começou quando resolvemos escolher um lugar para almoçar. Escolhemos comer comida árabe, não fast-food, como o clichê usual apontaria para nós. Enquanto Andrea pagava pelo prato, eu me dirigia à mesa, quando ouvi uma mulher resmungar para a amiga. “Os elefantes vieram pastar na praça de alimentação”. Não comentei nada com Dea, porque não queria estragar aquele início de tarde, planejado para batermos papo. Almoçamos. Quando me dirigia para o banco, para consultar o saldo da conta, passamos pela frente de um stand de venda de equipamentos de academia. O vendedor conversava com o vigia, quando nos viu e, achando que eu não enxergava seus movimentos e que eu não ouvia suas palavras, começou a rir para nós e nos apontar, completando o quadro com um maravilhoso “que ridículas!”. Minha tarde mal começava e eu já começava a perder a paciência, que eu tento preservar a duras penas. Virei para o rapaz e perguntei qual era o problema. Ele, pego de surpresa, recolheu o riso e me perguntou qual era o problema de olhar para trás e se agora era proibido. Eu disse que não, mas que eu não via motivos para risos centrados unicamente em minha pessoa e na de Andrea.

A tarde não acabou, como eu gostaria. Ainda passamos por mais duas experiências infelizes. Uma com uma dupla de adolescentes, acompanhadas por um pai, não muito preocupado com a educação de uma das meninas, que era sua filha. Novamente o riso e os dedos apontados. Eu firmei o olhar e elas riam e me olhavam com o rabo de olho, como se eu não percebesse nada. Quando perdi toda a minha paciência, resolvi ir embora pra casa. Na saída, quando me dirigia ao ponto de ônibus, um homem, igualmente gordo, soltou a seguinte pérola: “Vocês estão precisando de um regime, hein?”. Saliento que o homem era igualmente gordo, até mais pesado do que eu, mas mesmo assim, ele soltou a piadinha.

Não vou me estender em mais histórias, porque todas versam sobre o mesmo assunto: intolerância em relação às diferenças e preconceito. O que estou percebendo é que, mesmo com tantas campanhas em relação ao respeito às diferenças, a intolerância persiste e agora me parece muito mais forte e com um timbre de voz muito mais alto. Um lugar, por exemplo, voltado inicialmente para tecer teias de amizade e de outras formas de relacionamento, como o Orkut, se tornou um reduto de comunidades cuja intolerância em relação à diferença é a bola da vez. Perfis de pessoas são expostos nas comunidades, para que os membros sacaneiem. Quando as pessoas não são sacaneadas in off nas comunidades, têm seus perfis invadidos por uma onda de recados, que vão desde xingamentos até coisas do tipo “você merece morrer” ou “se mate”. A agressividade agora circula solta e sem limites e o Orkut, como uma comunidade virtual, é apenas reflexo da sociedade a qual pertencemos, que cada vez mais prega a negação da diferença e a massificação de padrões estabelecidos e estupidamente disseminados. Sou contra um discurso reacionário, ou seja, de negar por exemplo quem é magro por eu ser gorda, pois isso é devolver o preconceito na mesma moeda, sem que ele seja diluído. Sempre fui contra à reação boba de grupos atingidos pelo preconceito, seja ele qual for, que usem da negação a arma para se protegerem. Não adianta condenar o magro, sendo você gordo, ou o heterossexual, você sendo homo e aí por diante. Essa inversão de discursos só leva a mais intolerância e violência.

Postei este desabafo, não por acreditar que a partir dele as coisas possam mudar, mas para me lembrar sempre, ao abrir meu blog, que antes de desenvolver conceitos em relação ao outro, eu tenho que me lembrar dos pontos em que sou atingida. Tenho tentado, desde há algum tempo, respeitar a diferença, porque é esse o princípio maior do indíviduo: somos únicos e devemos ser respeitados em nossas singularidades. Sou uma pessoa normal, que sempre estudou, trabalhou, passeou, fez amigos, teve amores, que tem uma nova família a construir e que luta todos os dias para se desvencilhar de clichês atribuídos por conceitos generalizantes, que já convencionaram que o gordo é incapaz, é glutão, é lento, é bobo e que não tem direito a uma vida normal. Por isso, peço desculpas aos preconceituosos, mas respeito é fundamental. Não preciso de compaixão, nem de hipocrisia, apenas quero poder viver minha vida, sem ser agredida por olhares, risos e piadinhas, que só escondem, neste processo de apontar no outro a diferença, as próprias limitações e inseguranças. Ou seja, se você anda por aí criticando demais o outro, o que será que está por trás disso?

Quer ler mais sobre o assunto? Sugiro ler o artigo publicado no Jornal da Facom sobre gordinhos, de autoria da Vanessa Barbosa.

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Politicamente incorreto

March 21st, 2007 by jana

Herdei de um primo meu uma coleção de vinis e fitas VHS. Ele chegou em minha casa com duas caixas grandes e disse: “Cara, tô mudando. Arrumei um trampo fora da cidade e não tenho como levar. Cuida pra mim?”. Até hoje tento descobrir se ele me deu de presente as duas caixas ou se elas ainda esperam pelo seu D. Sebastião. Por muito tempo mantive as caixas fechadas. Deixe-as fechadas por tanto tempo que até tive que policiar meus pensamentos quando resolvi assistir a um dos vhs, onde meu primo gravou vários clips da década de 80 e 90. O clip que passava era Safety Dance do Men without hats. Um anão começa a pular na tela da minha tv de 20 polegadas e eu penso automaticamente: “Anão não, cara! Indivíduo verticalmente prejudicado”. Não, eu não sou um personagem de uma série de ficção científica. Não, eu não tenho plugs enfiados em partes do meu corpo, como ouvidos, bocas e até mesmo na minha bunda e nem meus pensamentos são exibidos em um telão no meio da cidade para que um grande irmão meta seu grande dedo em minha cara espinhenta e diga: “É indíviduo verticalmente prejudicado, seu, seu, seu portador de uma imagem alternativa”, para não dizer gordo obviamente.

Inconscientemente o anão pulando na tela da minha tv, herança de meu primo, desencadeou em mim mais uma neurose moderna ou pós-moderna. Aliás, uma das minhas grandes neuroses é decidir o que é moderno, o que é pós e se é pós mesmo. Mas deixemos esta discussão para os teóricos da academia. Não a academia de ginástica e nem a do Oscar, obviamente. Outras das minhas neuroses também é tentar não me perder nos meus pensamentos, coisa que raramente consigo. Retornando ao meu momento de epifania esdrúxula, o anão saltitante acabou despertando em mim a neurose do “seja-um-indivíduo-politicamente-correto”. Se ainda a política fosse correta, mas nem isso. Sei apenas que o meu super-ego politicamente correto começou a agir em mim como uma influência nefasta, como Anakin Skywalker, que foi sendo conduzido para o lado negro da força, ou seria o lado afro-descendente da força? Apenas lembro do indivíduo verticalmente prejudicado pulando e da minha dificuldade em não cometer gafes a partir disso.

Peguei o metrô para o trabalho e não sentei nos bancos cinzas, afinal eles são reservados para os velhinhos, as grávidas e os deficientes físicos. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii. “Que velhinho, seu marmanjo gordo, ops, seu marmanjo portador de uma imagem alternativa?”. Apitou meu super-ego em sinal de alerta. Não são mais velhinhos, são indivíduos da melhor idade e as grávidas são gestantes. E cuidado para não cometer a gafe de oferecer seu lugar a uma portadora de imagem alternativa achando que ela é gestante.Você pode levar uma bela bolsada ou será um golpe de objeto revestido de couro na cara? Um dia eu ofereci meu lugar no metrô pra Jana, uma mina que conheci no trabalho, e ela me olhou torto achando que eu tinha chamado ela de gorda, mas eu não achei que ela estivesse grávida. Apenas quis ser educado, porra! Porra, eu não posso xingar. E se alguma criança estiver lendo este texto e se tornar um deliquente infantil por ter lido porra? Minha cabeça está doendo, meus dedos estão tensos e eu preciso de sorvete.

Minha irmã namora com um cara estrábico. Será que ainda posso dizer que ele é estrábico ou terei que chamá-lo de homem jovem com olhar desviado em 45º? Meu chefe é careca, mas tenho que pensar, pensar apenas, que ele é calvo! E aquela recepcionista cheia de curvas? Chamo de gos… Não, chamo de linda mulher dotada de curvas dignas de uma pista de automobilismo. Minhas mãos estão suando. Mudo o canal da tv e está passando uma matéria sobre as profissionais do sexo, antes garotas de programa e no tempo de meu avô, meretrizes. “Os nomes mudaram, meu filho, mas ninguém deixou de ser quem realmente é”. Meu avô me diria sorrindo, apagando o cigarro por estar no meio do shopping, tomando água com gás e não mais pinga. Ligo o ventilador e está fazendo um calor infernal, ou melhor, um calor vindo das profundezas vermelhas da crença cristã. Os nomes mudam, mas tudo continua exatamente como é. Fizeram até uma cartilha anos atrás, eu lembro. Uma cartilha politicamente correta que nos dizia como deveríamos nos referir corretamente ao outro, mas ninguém deixa de me olhar torto na catraca do ônibus, achando que vou entalar na entrada por causa da minha barriga apenas por me chamarem de indivíduo portador de uma imagem alternativa. Minha mãe toca a campainha. Sei que é ela pelos três toques contínuos. Peeeeeeeee, peeeeeeeee, peeeeeeeeeee. Não, não era meu super-ego gritando comigo. Era apenas minha mãe trazendo um bolo de milho. “Tava dormindo, filho?”. “Acho que sim”. O anão já tinha parado de pular e ninguém em sã consciência vai mudar o título de Branca de Neve e os Sete Anões para Branca de Neve e os Sete indivíduos verticalmente prejudicados. Agora toca Like a virgin na tv e eu como o bolo de milho. A cartilha não vingou e eu continuo portador de uma imagem alternativa, ou melhor, gordo. Perguntei a minha mãe sobre meu primo D. Sebastião e ela apenas disse: “Ah, filho. Joga essas tralhas fora. Teu primo não vai vir buscar esse lixo não”. “Tá, mãe. Vou vender no sebo então e ganhar em cima da reciclagem”.