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Orkut: da rede de amigos confiáveis às agressões e golpes. Permanecer ou sair?

Cresci ouvindo verdades absolutas, até que aprendi, talvez no jogo da tentativa e erro, que as verdades de um podem não ser a do outro. Acredito que toda tentativa de homogeneização é violenta, porque passa por cima da subjetividade dos indivíduos. Estava acompanhando o post “Desentendimentos na internet e ética” do Alessandro Martins, em que o autor fala da crescente onda de agressões no meio virtual e da dificuldade de se perceber que por trás de um monitor frio existe uma pessoa, com uma história de vida, com referenciais, que precisa não somente ser respeitada como também precisa respeitar o outro, para que não retornemos, como mesmo disse o Alessandro, à época dos tacapes.
Resolvi centrar o olhar em um recorte deste vasto mundo paralelo, que é a internet. O recorte, que anda chamando minha atenção, é a comunidade virtual Orkut. Em sua página inicial, encontramos um resumo do que seria esta comunidade. “O Orkut é uma comunidade on-line que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis”. Inicialmente, a idéia era essa. O espaço havia sido criado primordialmente para aproximar as pessoas, dinamizar os contatos, ou seja, para estreitar os laços de amizade. Com o tempo, a comunidade virtual cresceu e dentro dela comunidades menores, voltadas para reunir pessoas com interesses parecidos, foram se multiplicando. Comunidades voltadas para cinema, música, literatura, esportes, moda, cidades e tantos outros assuntos, que fazem parte da realidade fora dos monitores. O projeto é um sucesso, não há como dizer o contrário, mas a utopia de “uma comunidade que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis” vem sendo minada já há algum tempo.
Um lugar destinado ao estreitamento dos laços de amizade e ao surgimento até de novos laços vem sendo contaminado por uma onda de agressões, pela multiplicação de comunidades, que pregam a intolerância à diferença, como as comunidades homofóbicas, racistas, anti-semitas, entre outras e até a aplicação de golpes. Fiquem atentos, porque eles estão acontecendo. Eu mesma fui vítima de um no início do ano, mas tratarei deste ponto nos parágrafos mais adiante.
Não são poucas as comunidades cujos integrantes conjugam o verbo odiar com a mesma naturalidade que respiram. Não são comunidades do tipo odeio jiló, mas espaços em que a diferença não é só negada como também a ela são atribuídos valores. Os discursos vão do preconceito velado do tipo “não tenho preconceito em relação a … , mas prefiro que fiquem longe” até a agressão gritante. Em algumas comunidades, os integrantes ocupam seu tempo livre com a busca de perfis para serem malhados feito Judas no Sábado de Aleluia. Os tópicos são criados, o endereço dos perfis são colados no tópico e os integrantes da comunidade, munidos com seus paus-palavras, malham o indivíduo até a exaustão. Muitas vezes, e não são poucas, os perfis malhados são atacados por uma avalanche de recados, em que a violência verbal impera. É como invadir uma casa em que a janela e a porta vivem constantemente abertas. No Orkut, não há como impedir que estranhos visitem seu perfil, já que ele é público. No máximo podemos restringir algumas informações apenas para os amigos e bloquear visitantes indesejados, o que não impede que fotografias e perfis sejam copiados para serem atacados pela ilusão de uma falsa supremacia grupal.
Algumas pessoas já desistiram do Orkut por se sentirem feridas no seu direito de ocupar um espaço sem que sejam desrespeitadas. Muito pouco se pode fazer diante de uma agressão no espaço virtual. Quem ocupa-se da tarefa de disseminar a intolerância quase nunca mostra a cara. Os perfis fakes são mais comuns e são utilizados para protegerem a identidade do agressor e, apesar das comunidades, que pregam a intolerância e a violência, serem denunciadas, outras aparecem mais tarde e logo ganham adeptos. A impressão que tenho é que toda essa agressividade, que é sufocada no espaço dito “real”, está sendo extravazada no espaço virtual, ou seja, aquele que não pode agredir verbalmente alguém na rua, com o perigo de responder a um processo, está utilizando o meio virtual para verbalizar sua intolerância e desrespeito às diferenças, sem que responda por essa violência.
Outra questão, que também está atingindo e transformando este espaço, cuja utópica imagem era a de um local seguro, em que relações saudáveis entre os indivíduos seriam estabelecidas, é o uso da comunidade virtual como campo de aplicação de golpes. Como disse anteriormente, fui vítima no início do ano de um golpe, assim como algumas pessoas próximas. Eu participava de uma comunidade e organizei, juntamente com outros integrantes, um Orkontro, para que rompéssemos a barreira virtual. O Orkontro aconteceu e conheci algumas pessoas da comunidade. Um dos integrantes, no entanto, soube fazer uso do Orkut como forma de aplicar seus golpes. Ele criou um perfil e se auto-intitulava de produtor musical. Subentendo que as informações contidas nos perfis sejam verdadeiras, eu e mais algumas pessoas fomos enganadas pela ilusão da “rede de amigos confiáveis”. Eu estava de mudança para Sampa e queria vender minha guitarra, um presente que eu havia ganhado há dez anos atrás. O rapaz, que se apresentava como produtor musical, ofereceu-se para vender o instrumento e eu a entreguei, sem fazer com que o mesmo assinasse um documento se responsabilizando pela venda. Resultado: perdi a guitarra. Depois fiquei sabendo que o mesmo rapaz, que havia iniciado um namoro com uma das integrantes da mesma comunidade, aplicou-lhe um golpe e levou uma soma de 3000 reais dela e de seus amigos. Descobrimos então que ele não era produtor, que não morava na região que dizia morar, enfim, ele sumiu e continua impune e talvez esteja ainda no Orkut, aplicando novos golpes.
Remetendo novamente ao texto do Alessandro Martins, é importante realmente perceber que esse mundo virtual é tão real como este em que vivemos e que, por trás dos monitores, existem pessoas reais, que têm nas mãos o mesmo poder de construir e destruir as coisas. O homem tem a capacidade de construir aquilo que será utilizado ao seu favor e contra ele mesmo. É como ter entre as unhas o veneno e a vacina. Consigo ver pontos positivos no Orkut e por isso permaneço nele, mas também consigo ver o quanto este espaço está sendo utilizado para o extravazamento da violência contida na sociedade. Como fora dos monitores a intolerância é velada, por haver leis que, quando executadas, condenam os crimes contra os direitos humanos, temos a impressão de que a calmaria está instaurada, mas observando um espaço como o Orkut, que agrega pessoas reais, mesmo que estas se disfarcem por perfis fakes, vemos que estamos diante de um quadro de violência em ebulição e que já está experimentando o extravazamento. Não se pode pensar o Orkut como um espaço neutro, em que nada que se passa lá dentro tem repercussão fora, afina lde contas ele é uma extensão da nossa realidade. As pessoas são reais e aquilo que é dirigido a elas, seja positivo ou negativo, também tem repercussão real, portanto reitero o post do Alessandro e acredito que temos que ficar atentos para essa onda de violência e intolerância sim, assim como a onda de golpes, para nos protegermos sem que migremos do pólo do oba-oba completo ao da desconfiança profunda em relação a tudo que diz respeito à internet. Assim como não devemos sair às ruas sem olhar para os lados, desatentos a tudo, como também não devemos deixar de sair por medo, na internet as regras são quase as mesmas. Aproveitemos os recursos, mas atentos ao que fazemos e ao que os outros também fazem.
