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O vestido verde

May 11th, 2007 by jana

Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Salto alto, daquele que levanta dedos médios para a gravidade, decote, cabelos longos, antes curtos e sóbrios, que foram longos um dia, mas sem os apliques. Rebolante, provocante, lentes no lugar dos óculos, jogados no lixo não orgânico. Cintura esculpida by lipoaspiração, desenhada por um vestido verde colante e seios duros, daqueles que chamam a atenção e dizem, hipnotizantes e mudos, “hey, olhem só esses meninos!”. Os homens olhavam. Se o pescoço pudesse girar em 360º, ele acompanharia o desejo nos olhos. Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Ela achava graça das cantadas baratas, dos adjetivos, dos fiuuuuuus-fiuuuuus. “Quem diria?” Dizia mentalmente para si mesma e seguia para casa.

Abriu a porta com cuidado, para que o gato não saísse pelas ruas. Ele teria que retardar o passeio para a casa nova. Os últimos móveis já estavam desmontados e encaixotados. Em poucas horas chegariam para pegar as caixas. Decidiu se mudar para um flat em frente ao mar. Um lugar menor, já mobiliado, com cozinha de estilo americano e uma vista que se perde em um horizonte aquoso. A casa pareceu alargar depois que todos foram embora. Os cômodos pareciam grandes demais, cheios de ecos e de lembranças. Só restou ela e o gato de olhos azuis, meio vesgos. Quando comprou a lente azul, lembrou dos olhos daquele gato silencioso e independente, que subia e descia escadas, que passeava pelo bairro e que voltava pela comida, pela água, pela cama e por ela. Sim, por ela. O casal que comprou a casa, não quis os móveis. “Não deito na cama de estranhos, amor. Casa nova, cama nova”. A casa seria entregue oca, lavada. Os móveis, alguns deles, foram vendidos por uma mixaria para um antiquário. O restante foi doado. Só levaria para o flat as roupas, alguns objetos de valor e as coisas do gato. Tinha que terminar de empacotar os vinis e documentos. Era seu último dia na casa. Despejou a ração do gato na vasilha e mordeu uma maçã. “Vamos terminar logo com isso”.

Durante anos guardou os documentos nas caixas de camisa do marido. Quando uma caixa ficava cheia demais, pegava outra e recomeçava seu arquivo informal. Decidiu jogar as caixas fora e jogar todos os documentos em uma caixa para mudanças. No meio dos documentos, um punhado de singularidades: um cacho dos cabelos da filha, de quando ela era ainda era menina, em um tempo limpo de ofensas e de portas batidas. Umas fotos antigas, amareladas de verdade, sem ajuda dos efeitos do photoshop. O tempo todo estava marcado naquelas fotos: amarelo, corroído, corrompido e cheirando a naftalina. Naquelas fotos, ela era uma menina vestida de branco, com flores na cabeça. Os cabelos longos, sem os cuidados e cremes múltiplos do hoje dela. Uns seios pequenos, uma cintura imperceptível, a barriga saliente. Tudo nela era opaco naqueles dias e não era por causa do amarelo do tempo. Ela era um quadro amarelo e mais nada. Depois do vestido branco e das flores no cabelo, a vida foi um casamento morno e uma filha que era brilho. O marido passava o dia trabalhando e ela cuidava da menina bonita, da filha de cachos soltos. Todos olhavam para a mulher e para o marido e não entendiam como tinham uma filha tão diferente. A mãe olhava para a menina e acreditava que ela seria feliz. Olhava para o espelho e se conformava com o casamento morno, com o olhar de piedade dos homens, com trabalhos negados tantas vezes quando era uma menina-moça.

Sua vida era uma repetição obstinada dos mesmos quadros, das mesmas cenas, dos mesmos diálogos. O marido deitava todas as noites ao seu lado e caía no sono. A filha crescia em seios, nos cabelos longos, nos olhos vivos, na cintura fina. Sexo só durante o banho. Aquele sexo feito com dedos e com o pensamento limpo de imagens. A filha enchendo a casa de risos e sempre aos papos com o pai. Ela era a peça deslocada da decoração, aquilo que se tem vontade de jogar fora, mas não se joga por piedade ou por tradição. Casou porque amava. Ele casou achando que amava. A filha era a menina-moça mais bonita da rua, todos olhavam para ela. A mãe começou a controlar as roupas, com medo que a menina “se perdesse com qualquer vagabundo”. O pai era explosão de ciúmes e choro, desculpas, perdão. A menina brigava com a mãe e saía provocante pela rua, rebolante, com os seios duros de menina-moça chamando olhares. O pai descontava a ira na mulher-fotografia-amarela. Ela não entendia as explosões. A menina batia portas, o pai se fechava no trabalho, a mãe fazia a comida, que esfriava nas panelas. Acabava comendo sozinha.

O gato de olhos azuis e vesgos apareceu no dia em que ela foi ao banco pagar contas e saiu para comprar um vestido para a festa de 16 anos da filha. Um vestido verde, nem menina, nem mulher. Algo ainda que está para amadurecer. Comprou o vestido e parou, enquanto voltava para casa pela rua, para comprar uma revista de receitas de bolo de aniversário. Queria fazer algo diferente para a menina. Talvez com o vestido e com a festa, a menina baixasse um pouco a guarda, deixasse a agressividade de lado. O gato apareceu e começou a rodear sua perna. Passava o pêlo fofo pela perna da mulher, que há muito já não recebia nenhum afago de quem quer que fosse. Pagou a revista e continuou andando. O gato a acompanhou pela rua. Ela olhou para o gato e decidiu levá-lo para casa. O marido odiaria o gato, mas era o mínimo que ele podia fazer por ela. Entrou pela cozinha com o gato em uma das mãos. Colocou leite em uma vasilha, onde guardava alface na geladeira e deu ao gato. Pegou uma laranja e começou a tirar a casca. Ouviu a voz do marido na sala. Estranhou ele tão cedo em casa. Abriu a porta que dava para a sala, ainda descascando a laranja, quando viu a filha sentada, com o vestido levantado, no colo do pai. O que veio depois foi a mulher se lançando para os dois, menina e homem, filha e pai, com a faquinha débil que cortava a laranja. A menina desceu rápido o vestido e o homem não tinha o que descer ou subir. A faquinha cortou o rosto da menina e o braço do pai. Os dois gritavam e o gato quieto lambeu uns pingos de sangue que caíram do rosto da menina e do braço do homem. O gato agora era também família. A mulher voltou à cozinha e era só gritos. Não chorava. O gato adormeceu aos seus pés. Ela deitou depois no chão da cozinha e por ali ficou.

Quando acordou, a casa estava em silêncio. O gato miava por comida. Quando lembrou do dia anterior, levantou-se rápido e subiu as escadas à procura da filha e do marido. Não estavam mais lá. Nem ele, nem suas roupas e nem ela, nem suas roupas e bichinhos. Da menina só restou aquele vestido verde, que ela nunca chegaria a usar. Não havia nada o que pudesse fazer. Não faria nada. Por isso os gritos, as portas batidas, o homem dormindo e ela passando dias como um objeto velho, que ninguém tem coragem de jogar fora, ou por piedade ou por tradição. Ele ligou dias depois, pedindo silêncio. Daria tudo a ela. Uma boa pensão e a casa. Fizesse o que quisesse com a casa, contanto que ficasse em silêncio. Não queria ir para a cadeia. E a menina? O escândalo que seria. Todo o mês o dinheiro estava em sua conta. Vivia bem e tinha a casa. Aos poucos, juntando o que restava do dinheiro mensalmente depositado, iniciou sua transformação. Substituiu os cabelos curtos e sóbrios por cabelos longos e dourados como o da filha. Jogou fora os óculos, comprou lentes. Fez lipoaspiração, dietas, pôs silicone nos seios. Com o corpo esculpido, pôde vestir pela primeira vez o vestido que daria à filha no seu aniversário de 16 anos. O vestido verde e colante, que homens, que antes jamais lhe dirigiriam um olhar, elogiaram. Vestiu a roupa e jogou fora o cacho da menina e as fotografias antigas. Usou o vestido pela primeira vez e depois tirou, jogando o tecido entre os restos daquilo que não queria lembrar. Experimentou durante uma caminhada o que seria ser a filha, experimentou um corpo que se deitou tantas vezes com seu marido. Mas estava errada, não era feliz e a menina era apenas uma menina, mas há coisas que não têm volta. Assim como o tempo, que só avança, avança, avança. Despachou os móveis, trancou a casa, pôs o gato no banco ao seu lado e se perdeu no horizonte aquoso da vista de seu apartamento quarto e sala.

(Texto publicado em 5 de novembro de 2006 no Brutti).

Eu recomendo!!! A imagem foi retirada do site de Giovanna Casotto, autora de quadrinhos eróticos muito bacanas. Para quem não conhece o trabalho da Giovanna, deixo o link para apreciação. Vale muito a pena conferir o trabalho dela!

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Paralisia

May 7th, 2007 by jana

(Ao som de Nights in White Satin do Moody Blues)

Crave em mim dentes e unhas,
faça meu corpo reagir uma só vez,
faça-o lembrar que minha carne está viva
e que o sangue ainda percorre silencioso e quente
o vermelho guardado que há em mim.

Crave em mim novos sonhos
como quem rasga a terra e planta sementes,
esperando pacientemente que do húmus e da água
a vida nasça, se espalhe e exploda
num misto visceral de cor e perfume.

Afunde seus dedos na resistência silenciosa da minha pele
e me traga novas sensações,
pois meus olhos, meu bem,
andam viciados demais com a rotina-repetição,
com esse pôr do sol tão igual
e com o som conhecido da água lavando as ruas
em dias cinzas-febris de chuva.

Traga para mim, como quem carrega oferendas,
os velhos sonhos, os velhos corpos,
para que neles eu encontre
uma pista daquilo que um dia eu fui.
Traga para mim, como quem carrega incensos perfumados,
os cheiros conhecidos da comida guardada na memória dos dentes,
das peles sentidas e lambidas por mim,
dos perfumes que guardei na intimidade das roupas antigas.

Peço, como quem ergue mãos frias e vazias,
os farelos perdidos de todas minhas quimeras,
o resto largado no canto do prato
dos rostos que levo dentro do peito
e que me fazem diluir nestes dias quietos
em que eu espero o sol morrer em azul no horizonte.

Apenas te peço movimento,
um impulso qualquer de balanço,
algo que me faça sair de onde estou,
que me livre desta inércia insistentemente companheira.
Apenas te peço mãos no corpo
que me façam girar e girar,
pra ver meu mundo ganhar velocidade,
meus pés saírem novamente do chão
e para que eu possa voltar, triunfante-riso-alto,
a sonhar novamente com banalidades.

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Entre pernas

April 11th, 2007 by jana

Telmo - nankim e aquarela (Ilustração de Daniel Garcia)

(Ilustração de Daniel Garcia, retirada do blog Pilha errada).

A vida dele era vinil arranhado, tocando sempre-sempre a mesma canção arrastada, três notas, sem nenhuma variação de tom. A vida dele era assim: canção que de tão ouvida passava para o assovio mecânico, para a execução sem platéia atenta. Apartamento reformado, mulher modelada por bisturi, filhos na faculdade, cachorro sonolento, mastigando osso falso no canto da sala. Cenário desarmado apenas quando a mulher resolvia mudar os móveis, transformar a sala-luxo-pesado em algo clean. E o vinil continuava girando em torno de seu próprio eixo, ciclo fechado, agulha recolocada na mesma linha.

Ele pagava os retoques nos seios da mulher, na cintura, nos olhos, na boca. Quanto mais ela plastificava o corpo, menos se dava pra ele. Juventude guardada para si e para os espelhos. À noite, tocava uma no escritório, limpava os dedos e o pau e ia dormir, apagando o abajur e os olhos. Ela continuava ao seu lado, passando os cremes anti-anti e lendo as 100 maneiras de enlouquecer um homem na cama ou de como ser feliz em 10 lições rápidas.

Trabalhava ouvindo os outros. As pessoas entravam e saiam de seu consultório, derramando vidas em sua xícara de café. Bebia as lembranças dos pacientes em longos goles-sessões. Ouvia a todos, mas em casa todos pareciam ensurdecer diante dele. O silêncio fazia o som de uma colher caindo no chão soar mais estridente do que realmente é. Um dia desses, pegou a chave do carro e saiu. Foi neste dia que ele a conheceu.

Era um homem-caramujo, voltado para dentro, corpo espremido, medo de viver entre as gentes e de falar quando o assunto era ele. Foi difícil entrar lá, mas lembrava do sócio despojado dizendo que era um troço bom e que era gostoso ter um corpo e ouvidos só para ele. Nunca foi bom com as mulheres. Não sabia como começar as coisas, o que dizer, como tocar. Entrou lá cobrindo o rosto, chamando atenção pelo gesto. Falou com o outro homem e saiu com ela. Pagou caro. O homem sorriu contando as notas. Ele e ela não trocaram palavras. O único que podia falar era ele.

Entraram em um motelzinho afastado do centro. Queria evitar olhares. Carro com janelas escuras. Baixou o vidro, pegou a chave e subiu. O atendente do motel olhou estranho pra ele. No quarto, pensou em desistir, em recuar, mas ela já estava lá. Tinha gastado dinheiro e já não lembrava quando tinha trepado pela última vez. Era um corpo diferente do da mulher. Não sabia como lidar com aquele corpo estranho, mas mesmo assim, sem dizer nada, deitou na cama ao lado dela e, mesmo desajeitado, conseguiu subir nela. Tudo era diferente, inclusive a textura da buceta. Não demorou a gozar e enquanto seu corpo se desfazia em pequenas convulsões, despejava toda sua solidão branca dentro daquele corpo. Nada foi dito. Ele se lavou e lavou também o sexo dela. Deitaram novamente na cama de lençol personalizado e ele viu seu corpo magro e quieto paralelo ao corpo magro e quieto dela . Dormiu.

Ela virou dia-a-dia. Alugou um quartinho pra onde a levava todos os dias. Saía do consultório, almoçava e entre as pernas dela deixava a solidão, a mudez da mulher, a correria dos filhos, a indiferença do cachorro. Aos poucos perdeu o medo de falar com ela. Não se sentia mais tão ridículo. Começou a falar, falar, falar. Ela muda. Ela era corpo e ouvidos, mas ele não precisava mais que isso. Em casa, a mulher começou a estranhar sua ausência na hora do almoço, sua demora em chegar no consultório pela tarde. Estranhou também por ele não mais tocar suas coxas, pedindo um pouco de sua carne. Sentindo a traição, pediu conselhos às amigas. Mandaram ir atrás, seguir os passos, dar flagrante, fazer escândalo. E ela foi. Esperou ele sair do consultório ao meio dia e acompanhou seu carro. Descobriu o prédio simples de quatro andares, para onde provavelmente ele levava a outra. Passou uma semana acompanhando os passos do marido, mas ele sempre entrava no prédio sozinho. ”A vagabunda deve morar aí. Ele está sustentando uma vagabunda!!”. Queria saber como ela era, se era mais jovem, se tinha corpo bonito, dentes perfeitos. Imaginou todas as cirurgias que ele pagaria para a amante para deixá-la perfeita. Na semana seguinte, já intrigada com a situação, solvendo raiva na carne, resolveu acabar com tudo. Ia pegar o marido em flagrante, fazer cena, representar a vítima. Abram as cortinas, por favor. Luzes. 2ª chamada. Ok!

Naquele dia, ela se vestiu de vermelho. Foi vestida cantando guerra no tecido. Esperou o marido entrar, esperou alguns minutos e chegou à portaria. Deu o nome do marido, mas não disse que era sua mulher, perguntou o número do apartamento, disse ter esquecido o andar. Prédio simples, sem interrogatórios, diferente da fortaleza onde morava. Subiu. 3º andar. Parou diante da porta. Encostou o ouvido na madeira gasta e ouviu a voz do marido do outro lado. Ouvia apenas a voz dele e como ele ria. Ria musical, as notas saindo convulsivas. Não era mais o vinil arranhado.

Transbordante, a mulher, riso nervoso no rosto plastificado pelas cirurgias, tocou a campainha do apartamento. Tocou mais uma vez e mal ele abriu a porta ainda rindo, ela entrou no quarto/sala e correu para procurar a outra mulher. Ele correu e tentou impedir a mulher de ver na cama o corpo da outra, com o sexo à mostra escorrendo porra. Silêncio. Mãos tremendo. Ele de olhos baixos. Ela já começando a gritar e a esmurrar os ombros dele. A outra muda, quieta na cama. Ele caramujando, querendo se esconder. A mulher partindo pra cima da outra com as unhas. A outra muda. Nenhuma reação. Ele mudo novamente. E a mulher repetindo, já com as unhas cravadas naquela carne-ilusão: “Uma boneca, uma boneca, UMA BONECA!!!”. Ela agora o vinil arranhado, ele agora a agulha.

(Texto publicado em 23 de julho de 2006 no Brutti).

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