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Geração garrafa pet

December 20th, 2007 by jana

Jogue-me dentro deste saco com os restos orgânicos ou recicláveis,
sim, porque nós somos a Geração Garrafa Pet.
Use-me, use-me, me gaste,
depois esqueça-me num canto qualquer
ou entregue para outro reutilizar.
Sim, baby, é só lavar.

Entendo, entendo sim, quem não se adapta se esfarrapa
e por que comigo seria diferente?
Quem sou eu no meio das suas lembranças?
Incômodo-silêncio-entre-olhar.
Oh, baby, somos a Geração Garrafa Pet,
não precisa se desculpar.

Sempre fui uma romântica no final das contas,
acredito na pseudo-sinceridade das palavras e do toque,
mas você fez de mim a singularidade substituível.
Se está velho, troque,
estou passada da hora, over,
coleção outono-inverno em pleno verão.

Só não me venha depois dizer que foi importante,
palavras para mim são válidas seguidas de atos,
guarde-as então pra você, como a mágica sedutora e fajuta,
o oásis pintado na tela com tinta guache vagabunda,
que seduz com o brilho falso do neon.
Ah, baby, você é a filosofia viva da nossa geração descartável.

Só me resta lavar-me por dentro,
desinfetar a memória, desamassar a carne esmagada entre os dedos.
Sou apta aos recomeços, just play it again.
Quero encher o tanque de novo,
completa aí as minhas ilusões,
pois no final das contas sou mesmo uma romântica
e você, hábil como sempre, saberá fazer de corpos usados coisa nova
e dos antigos lixo limpo e renovável,
não em suas mãos… claro.

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Só os loucos são verdadeiramente livres

November 22nd, 2007 by jana

Só os loucos são verdadeiramente livres,
pois são os únicos cujos pensamentos galopam sem amarras,
sem o cordão umbilical construído entre o corpo e o mundo:
seus valores, seus aprisionamentos,
suas celas-culturas.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente.
Treinei trejeitos, caras, bocas e olhar perdido,
mas tudo não passava de encenação barata exibida em praça pobre e sem platéia.
A loucura se fantasia em mania
e hoje até os loucos duvidam de si.
Uma chuva colorida em pontos cai.
Abra a boca, agora engula.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente,
me tornar a louca da cidade,
aquela que vaga vestida dos restos dos outros,
das roupas, das falas, dos gingados dos corpos emprestados.
Assim seria o que me apetece ser
e ninguém julgaria a arena que é meu corpo,
onde deixo que afundem os pés,
corpos, corpos e corpos.
Nunca enjôo deles.

Meus cabelos foram postos em desalinho,
mas o que adianta tanto esforço em desarrumar,
quando o que é centro de questão
está devidamente organizado em dia.
“Não faça isso, ah não, não faça aquilo”.
“Olhe as boas maneiras, o que os outros vão falar”.
“Não beije outras bocas”.
“Não lamba outras pernas”.
“Não deixem que te salivem o sexo”.

Só os loucos são verdadeiramente livres,
ejaculam vida e despejam no chão,
e ninguém lhes julgará o sexo exposto,
porque é louco, não pensa no que faz.
Mas ele pensa, um pensar diferente,
é verdade, mas pensa.
Enquanto meu corpo pena
dentro da minha cela firme,
a cela que me aprisiona de dentro para fora,
que me tolhe movimentos e que pede para eu me conformar.
Esta cela é a herança que recebo
a troco da adequação imposta.
Fecho as pernas, fecho a boca, tranco os olhos
deixo-me levar.

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Pedido

November 5th, 2007 by jana

Não pinte meu corpo com essas cores pardas, meu bem,
sou assim explícita, uns borrões de vermelho,
de sangue sou feita e pulso sonora,
sou coração e boca escancarada,
olhos brilhantes e pés buscando sempre o alto.

Não me aprisione na rotina dos dias,
renove-me como fonte que precisa de espaço para ser rio,
como luz artificial que deseja ser sol.
Aceite o desgrenho dos meus cabelos,
minha loucura sadia, minhas párabolas,
meus altos e meus poços.

Pule comigo sem medo das alturas.
Pule, com os dedos misturados aos meus,
pule, que a vida nos espera,
esqueça os almoços em família,
a conta do banco, as contas de luz,
sente-se ao meu lado e balance seu corpo
por cima de um mar de acertos e erros,
não tenha medo da queda,
estou aqui para ralar os joelhos e sangrar junto.

Ah, meu bem, não me pinte com as cores pardas da repetição,
não espere de mim exatidão, planos para o futuro, previdência privada.
Espere de mim movimento, tudo levado ao limite,
choro-riso-gozo-dor,
aceite o melhor e o pior de mim,
e entenda que tudo é complemento, parte,
um pouco pelo todo.
Aceite estas linhas, rabiscadas de madrugada,
que só te pedem um dia após o outro,
um minuto vivido sem à espera do seguinte,
apenas o agora,
apenas o momento,
apenas aquilo que for possível viver.

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Dança das marés

November 1st, 2007 by jana

Misturemos nossos finitos
nesta dança muda de corpos,
diminuindo distâncias,
invertendo lógicas,
zombando do tempo,
que teima passar e nos lembrar
da urgência-limite dessas nossas vidas.

Misture seu finito ao meu,
alongaremos assim nossos limites,
seremos oceano.
Renove-se em mim,
desague-se,
assim como bebo de sua fonte
e dela me alimento,
cresça entre minhas margens
e corra pra longe,
seja movimento,
afaste-se da quietude que nos ronda.

Ah, meu bem,
encurte essa distância que se coloca agora,
estreite-se nestes braços que te aguardam sempre,
como desejo cíclico que se renova
com a chuva silenciosa do nosso suor.

Venha que te espero como a barca perdida nos mares,
a esperar que um vento mais forte a leve para longe.
Venha que sou essas águas paradas esperando pelo milagre das ondas,
que busca o fundo,
que mistura terra,
que arrebata vida,
que faz a quietude cessar
e se fazer movimento.

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Não

October 22nd, 2007 by jana

Para minha vó

Queria crer,
entenda, só por você,
queria crer sim.
Mas sou só sentidos,
só creio naquilo que me atinge a carne,
sou vazia de milagres,
não creio na inversão da água,
tentando subir os morros.

Entro naquele cubo branco,
você deitada, olhar perdido,
e tento te resgatar para o tempo seguro,
aquele em que me guiava segurando minhas mãos,
e impedindo meus tropeços, arranhões e feridas.
Agora você dói e eu não sei te conduzir,
estancar os olhos,
te livrar da queda.

Queria poder te mostrar o sol,
ele brilha indiferente a tudo,
mas ainda assim é lindo de se ver,
principalmente quando ele se deita
ao fim da tarde de nossa cidade,
dando lugar à noite,
onde descarrego minhas dores
e disfarço a tristeza firme no meu olhar.

Não te fiz voar,
não te ajudei a ver mais de perto o céu que tanto ama,
não sentei ao seu lado no fim da tarde,
andava esquecida de tudo,
inclusive de mim mesma.

Só te peço pra abrir os olhos,
só te peço pra não ir
e pra deixar acarinhar seus cabelos de prata,
me redimir, nos redimir,
recomeçar, reviver, recordar,
e tecer novas linhas,
e criar novos planos,
advinhar novos dias,
continuar, ser reticências, ser parágrafo inacabado.

Faça este coração continuar,
bombeando vida em nossas vidas,
preenchendo vazios,
compartilhando riso.
Nunca gostei de despedidas,
não repare em minha intransigência,
mas este poema é um nariz torcido,
é um não sonoro,
é apenas um grito-pedido
para que fique,
para que continue,
para que não se vá.

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Pólos

September 19th, 2007 by jana

Migro através dos meus pólos
com os pés cansados de tanto ser e deixar de ser,
com minhas peles trocadas,
arrastadas pelo asfalto quente
deste meio-dia azul-cinzento,
desta cidade que fede à indiferença e urina.

Vejo nos teus olhos
a cor explícita da minha insanidade,
das minhas mudanças repentinas de humor,
da minha inconsistência.
Eu nunca disse que seria fácil,
pois sou como um todo
areia movediça,
tragando-afundando,
buraco negro,
até os que me dedicam amor.

Migro através dos meus pólos,
horas solares-horas cinzentas,
sou uma parábola viva
que você toca e tenta entender
na suavidade tranqüila dos seus dedos,
no traçado fino das tuas linhas.
Minha inquietude escorre pelas unhas
e não há nada ou muito pouco o que fazer.

Sou tantas mulheres presas em uma carne só,
sou tanto amor e raiva em doses extras,
sou o excesso que você tenta conter
com a represa invisível da rotina.
Extravazo como todo líquido,
que sente ocupar um espaço pequeno demais
para tanta vida contida-esprimida
nestes dias de azul pálido,
o tipo de cor que me entedia.

A razão de me espremer nas paredes firmes do cotidiano
é buscar o equilíbrio, o ponto médio entre meus pólos,
que encontro escondido na doçura firme dos teus olhos,
que me seguem quando sou fúria ou suavidade.
Não desista de mim por ser tão rarefeita,
porque entre as linhas de tuas mãos
me sinto verdadeiramente única
e esqueço a multiplicidade dilacerante
que é viver em um corpo só
sendo em verdade tantas.

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Cru

September 11th, 2007 by jana

Quero sua carne crua dissolvendo entre meus dentes,
o cheiro da vida escorrendo entre as pernas,
os fios molhados dos seus cabelos pós-banho,
quero seus olhos mergulhados
no embaraço de pontos de minha pele,
nua,viva, flor da noite.

Espalhe-se, meu bem,
nesta cama-corpo que te aguarda limpa,
cheirando a saudade e fim de dia,
a café solvido ao som de notas de violão,
luz artificial apagada,
janela escancarada-pernas
e brisa-aurora-noite que vem.

Beba da minha língua a água fresca,
que brota salivante ao te ver despontando
desta porta aberta banhada de lua,
esqueça, meu bem, o cheiro da rua,
os esbarrões, as sinaleiras,
e aconchegue-se nas minhas pernas-ninho,
lugar seguro e quente,
grama negra onde seu corpo se espalha,
onde cantamos mudos nossas canções.

Quero sua carne sem preparo,
sem retoques, sem artificialidade,
pois gosto mesmo é do desgrenho,
do caos que é vida,
do cheiro não disfarçado
do seu desejo que se renova
como fonte abundante e perene.

Deixe, meu bem, meus dedos ásperos
umidecerem-se no suor que brota de cada póro seu
e que a sede que acompanha nossas peles
saciem-se no beber farto nas nossas fontes.
Venha pra mim como canção não ensaiada,
como banho de mar no fim do dia
e como o fruto maduro colhido do pé,
que se entrega aos meus dedos
suave-passivo, saboroso e cru.

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Piegas (?)

September 6th, 2007 by jana

100_04661.jpg

Alguém um dia disse que o amor é piegas,
demodê-estação-passada,
artigo exposto para liquidação
nas vitrines-over dos brechós.

Eu digo que para amar
é preciso muita coragem,
peito aberto à espera de balas,
sejam elas de chumbo ou mel.

Quem diz que nunca amou ou que não ama,
ou desconhece aquilo que nega
ou tem medo,
fibra frouxa,
sangue pardo a correr nas veias.

Amor é para os que têm coragem,
que o estampam no rosto sem medo de estarem fora de moda,
fora de tom, passados da hora.
Quem ama quebra a lógica do tempo,
atravessa limites,
não nega aquilo que é parte vital.

O amor resiste à rotina-lâmina dos dias,
às contas apertadas no fim do mês,
às roupas largadas pelo chão,
às palavras não ditas quando necessárias.

O amor resiste à chuva invadindo às janelas,
à saudade causada pela distância,
ao sexo rareado pela tristeza,
que quando se instala
contamina a pele e o beijo azeda.

Para aqueles que dizem que o amor é piegas,
mas que o sentem no peito e o mantém às escuras,
deixo meu riso maior de escárnio,
pois quem não ama explicitamente,
quem não goza e não sofre deste mesmo amor,
não merece a vida que ocupa o espaço do corpo,
altar-palco onde esta tragi-comédia
se desenrola e nos convence
que só assim nascer e morrer vale a pena.

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Um dia te deixo, cidade

September 5th, 2007 by jana

100_01951.jpg

(Imagem: Fábio Brito)

Uma brisa silenciosa atravessa minha janela,
o único presente que esta cidade me dá,
enquanto penso em formas múltiplas
de me ver livre dela.

Cidade em degradê de cinza,
logo eu que sempre fui amante das cores,
me vejo enlaçada entre suas pernas,
sufocando grito e lágrima,
me espremendo nos metrôs cheios,
perdida nas veias-ruas tantas,
que serpenteiam só esperando
a hora certa do bote único.

Cidade fria de concreto,
ausente de corpo-quente-riso-mãos,
já te dei uma chance de me cativar,
e rejeitaste como quem rejeita a flor,
apenas por esta ter sido colhida da terra
e não comprada em floricultura de luxo.

Quando puder, cidade,
te deixarei vestida de luzes,
tecido fino bordado pela noite,
para não mais voltar a pisar em sua carne dura,
indiferente-nariz-ao-céu.
Voltarei sim um dia
é para minha terra solar,
vestido pobre de renda,
inundada de mar e riso,
de onde eu não deveria ter saído.

Não me arrependo no entanto
te ter caminhado pelas suas ruelas,
pois ganhei a consciência antes inexistente
da falta que minha cidade solar faz.
Ganhei a experiência da solidão,
dos braços vazios e do peito comprimido,
que levarei marcada pra sempre entre meus olhos nus,
testemunhas pulsantes do vazio.

Um dia te deixarei, cidade,
para nunca mais voltar.
Estou correndo para o chão-húmus-ventre
de onde saí, filha das entranhas,
de um chão-mãe que me acolhe,
que me envolve,
e que me faz adormecer
com a mente povoada de sons,
de cores múltiplas-misturadas e
sonhos tranquilos banhados de sol e mar.

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Random

August 28th, 2007 by jana

A vida é uma reunião de canções
disponibilizadas em random.
Você nunca sabe qual a canção
que vem depois da que termina.
Uma melodia de mexer corpo,
outra de aparar o choro,
uma para embalar o gozo,
outra para velar o sono.

Tocaram três canções alegres,
canções de fazer o rosto ganhar cores,
então chegou a próxima,
vestida de violino-nota-aguda,
era ela a dor,
a arranhar silenciosa a carne em notas musicais,
agulha-repeating-repeating,
enquanto o corpo acostuma-se do sangue fervendo
à quietude de quem sofre.

Não há como escolher o que embalar os dias,
canções alegres não é pra toda hora.
A vida está em random,
roleta-russa,
sabe-se lá se é bala ou se é riso,
se é afago ou se é grito.
Aceito a canção seguinte
como quem aceita os dias em linha reta,
sem lhes questionar o caminhar sempre para a frente,
e a retidão da sua ordem aleatória.

A vida tocou para mim
uma canção suave de carícia,
e a seguinte foi arranhão rasgando carne,
mão despedaçando sonhos.
E eu fico esperando sempre a melodia-dor
acabar logo de uma vez,
emudecer-cerrar-lábios.
Antes o silêncio,
antes apenas os relógios nas paredes.

O corpo já se acostuma
a não se libertar demais na dança do riso.
Surrado já está de tanta canção aguda-lâmina
que chega sem aviso,
uma-duas-três juntas,
a ocupar com melancolia todos os espaços.

Aceito tudo sem grito,
sem o levantar negativo de dedos,
pois a vida está em random, meu bem,
ela escolhe o momento seguinte,
e nossas mãos de matéria frágil
nunca terão o controle na sua carne .
Aceitemos juntos então
a disposição randômica de nossas horas,
sejam elas de prazer,
sejam elas de dor,
sejam elas resultado de mistura.
Aceitemos as melodias-dias apenas
como os ouvidos aceitam os sons,
quando as mãos que os protegem estão atadas.

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