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O puteiro está de endereço novo

January 10th, 2008 by jana

Este inferninho, que por ventura você visita com frequência, mudou de endereço.

Nossas meninas agora atendem no http://casadeburlesco.com!

É isso aí, estamos mais chiques e formosas. Atualizem seu bookmars e aguardem novos posts.

Beijos,

Jana!

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Sexo

June 28th, 2007 by jana

lady_oncoach.jpg

(Ilustração Giovanna Casotto - Lady on coach)

Sexo não tem sexo, baby.
Sexo é extensão de pele a se misturar à outra.
Mãos, pernas, língua-na-língua.
Sexo é sinfonia marcada
com as notas que migram do sussurro ao grito,
da respiração leve à ritmada,
dos dedos a cortarem o ar,
como canção ouvida através das paredes.

Sexo não tem etiqueta,
guardanapos brancos para limpar os cantos da boca.
Sexo se abocanha com todos os dentes,
como fruta retirada direto do pé,
madura-carnuda-sumo-e-sabor.

Sexo é colhido com a ponta da língua,
pingando saliva e se misturando aos líquidos,
derramados-espalhados pela superfície fina dos tecidos.
Sexo é extravazamento, nunca represa,
é explosão,
é perna ao alto,
unhas e dentes firmemente cravados.

Sexo arranca todas as placas,
dedos na boca-silêncio,
proibido estacionar.
Sexo é excesso,
uns dizem retrocesso,
selvageria-bestiário-dos-homens.
Sexo é sagrado,
corpo e sangue,
nada tem haver com profanação.

Sexo é dança,
cujos passos desafiam a gravidade,
vertical-horizontal-olhos-pousados
no além-além-linha onde o sol nasce.
Sexo é fonte perene,
onde o desejo ciclicamente se renova,
desaguando vida,
misturando pulsos,
fazendo o querer sempre querer,
afastando o homem da vontade do fim.
Pequena morte que é,
mas que aponta sempre-sempre
para um reínicio.
Sexo é ponto,
sim,
ponto de partida.

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O vestido verde

May 11th, 2007 by jana

Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Salto alto, daquele que levanta dedos médios para a gravidade, decote, cabelos longos, antes curtos e sóbrios, que foram longos um dia, mas sem os apliques. Rebolante, provocante, lentes no lugar dos óculos, jogados no lixo não orgânico. Cintura esculpida by lipoaspiração, desenhada por um vestido verde colante e seios duros, daqueles que chamam a atenção e dizem, hipnotizantes e mudos, “hey, olhem só esses meninos!”. Os homens olhavam. Se o pescoço pudesse girar em 360º, ele acompanharia o desejo nos olhos. Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Ela achava graça das cantadas baratas, dos adjetivos, dos fiuuuuuus-fiuuuuus. “Quem diria?” Dizia mentalmente para si mesma e seguia para casa.

Abriu a porta com cuidado, para que o gato não saísse pelas ruas. Ele teria que retardar o passeio para a casa nova. Os últimos móveis já estavam desmontados e encaixotados. Em poucas horas chegariam para pegar as caixas. Decidiu se mudar para um flat em frente ao mar. Um lugar menor, já mobiliado, com cozinha de estilo americano e uma vista que se perde em um horizonte aquoso. A casa pareceu alargar depois que todos foram embora. Os cômodos pareciam grandes demais, cheios de ecos e de lembranças. Só restou ela e o gato de olhos azuis, meio vesgos. Quando comprou a lente azul, lembrou dos olhos daquele gato silencioso e independente, que subia e descia escadas, que passeava pelo bairro e que voltava pela comida, pela água, pela cama e por ela. Sim, por ela. O casal que comprou a casa, não quis os móveis. “Não deito na cama de estranhos, amor. Casa nova, cama nova”. A casa seria entregue oca, lavada. Os móveis, alguns deles, foram vendidos por uma mixaria para um antiquário. O restante foi doado. Só levaria para o flat as roupas, alguns objetos de valor e as coisas do gato. Tinha que terminar de empacotar os vinis e documentos. Era seu último dia na casa. Despejou a ração do gato na vasilha e mordeu uma maçã. “Vamos terminar logo com isso”.

Durante anos guardou os documentos nas caixas de camisa do marido. Quando uma caixa ficava cheia demais, pegava outra e recomeçava seu arquivo informal. Decidiu jogar as caixas fora e jogar todos os documentos em uma caixa para mudanças. No meio dos documentos, um punhado de singularidades: um cacho dos cabelos da filha, de quando ela era ainda era menina, em um tempo limpo de ofensas e de portas batidas. Umas fotos antigas, amareladas de verdade, sem ajuda dos efeitos do photoshop. O tempo todo estava marcado naquelas fotos: amarelo, corroído, corrompido e cheirando a naftalina. Naquelas fotos, ela era uma menina vestida de branco, com flores na cabeça. Os cabelos longos, sem os cuidados e cremes múltiplos do hoje dela. Uns seios pequenos, uma cintura imperceptível, a barriga saliente. Tudo nela era opaco naqueles dias e não era por causa do amarelo do tempo. Ela era um quadro amarelo e mais nada. Depois do vestido branco e das flores no cabelo, a vida foi um casamento morno e uma filha que era brilho. O marido passava o dia trabalhando e ela cuidava da menina bonita, da filha de cachos soltos. Todos olhavam para a mulher e para o marido e não entendiam como tinham uma filha tão diferente. A mãe olhava para a menina e acreditava que ela seria feliz. Olhava para o espelho e se conformava com o casamento morno, com o olhar de piedade dos homens, com trabalhos negados tantas vezes quando era uma menina-moça.

Sua vida era uma repetição obstinada dos mesmos quadros, das mesmas cenas, dos mesmos diálogos. O marido deitava todas as noites ao seu lado e caía no sono. A filha crescia em seios, nos cabelos longos, nos olhos vivos, na cintura fina. Sexo só durante o banho. Aquele sexo feito com dedos e com o pensamento limpo de imagens. A filha enchendo a casa de risos e sempre aos papos com o pai. Ela era a peça deslocada da decoração, aquilo que se tem vontade de jogar fora, mas não se joga por piedade ou por tradição. Casou porque amava. Ele casou achando que amava. A filha era a menina-moça mais bonita da rua, todos olhavam para ela. A mãe começou a controlar as roupas, com medo que a menina “se perdesse com qualquer vagabundo”. O pai era explosão de ciúmes e choro, desculpas, perdão. A menina brigava com a mãe e saía provocante pela rua, rebolante, com os seios duros de menina-moça chamando olhares. O pai descontava a ira na mulher-fotografia-amarela. Ela não entendia as explosões. A menina batia portas, o pai se fechava no trabalho, a mãe fazia a comida, que esfriava nas panelas. Acabava comendo sozinha.

O gato de olhos azuis e vesgos apareceu no dia em que ela foi ao banco pagar contas e saiu para comprar um vestido para a festa de 16 anos da filha. Um vestido verde, nem menina, nem mulher. Algo ainda que está para amadurecer. Comprou o vestido e parou, enquanto voltava para casa pela rua, para comprar uma revista de receitas de bolo de aniversário. Queria fazer algo diferente para a menina. Talvez com o vestido e com a festa, a menina baixasse um pouco a guarda, deixasse a agressividade de lado. O gato apareceu e começou a rodear sua perna. Passava o pêlo fofo pela perna da mulher, que há muito já não recebia nenhum afago de quem quer que fosse. Pagou a revista e continuou andando. O gato a acompanhou pela rua. Ela olhou para o gato e decidiu levá-lo para casa. O marido odiaria o gato, mas era o mínimo que ele podia fazer por ela. Entrou pela cozinha com o gato em uma das mãos. Colocou leite em uma vasilha, onde guardava alface na geladeira e deu ao gato. Pegou uma laranja e começou a tirar a casca. Ouviu a voz do marido na sala. Estranhou ele tão cedo em casa. Abriu a porta que dava para a sala, ainda descascando a laranja, quando viu a filha sentada, com o vestido levantado, no colo do pai. O que veio depois foi a mulher se lançando para os dois, menina e homem, filha e pai, com a faquinha débil que cortava a laranja. A menina desceu rápido o vestido e o homem não tinha o que descer ou subir. A faquinha cortou o rosto da menina e o braço do pai. Os dois gritavam e o gato quieto lambeu uns pingos de sangue que caíram do rosto da menina e do braço do homem. O gato agora era também família. A mulher voltou à cozinha e era só gritos. Não chorava. O gato adormeceu aos seus pés. Ela deitou depois no chão da cozinha e por ali ficou.

Quando acordou, a casa estava em silêncio. O gato miava por comida. Quando lembrou do dia anterior, levantou-se rápido e subiu as escadas à procura da filha e do marido. Não estavam mais lá. Nem ele, nem suas roupas e nem ela, nem suas roupas e bichinhos. Da menina só restou aquele vestido verde, que ela nunca chegaria a usar. Não havia nada o que pudesse fazer. Não faria nada. Por isso os gritos, as portas batidas, o homem dormindo e ela passando dias como um objeto velho, que ninguém tem coragem de jogar fora, ou por piedade ou por tradição. Ele ligou dias depois, pedindo silêncio. Daria tudo a ela. Uma boa pensão e a casa. Fizesse o que quisesse com a casa, contanto que ficasse em silêncio. Não queria ir para a cadeia. E a menina? O escândalo que seria. Todo o mês o dinheiro estava em sua conta. Vivia bem e tinha a casa. Aos poucos, juntando o que restava do dinheiro mensalmente depositado, iniciou sua transformação. Substituiu os cabelos curtos e sóbrios por cabelos longos e dourados como o da filha. Jogou fora os óculos, comprou lentes. Fez lipoaspiração, dietas, pôs silicone nos seios. Com o corpo esculpido, pôde vestir pela primeira vez o vestido que daria à filha no seu aniversário de 16 anos. O vestido verde e colante, que homens, que antes jamais lhe dirigiriam um olhar, elogiaram. Vestiu a roupa e jogou fora o cacho da menina e as fotografias antigas. Usou o vestido pela primeira vez e depois tirou, jogando o tecido entre os restos daquilo que não queria lembrar. Experimentou durante uma caminhada o que seria ser a filha, experimentou um corpo que se deitou tantas vezes com seu marido. Mas estava errada, não era feliz e a menina era apenas uma menina, mas há coisas que não têm volta. Assim como o tempo, que só avança, avança, avança. Despachou os móveis, trancou a casa, pôs o gato no banco ao seu lado e se perdeu no horizonte aquoso da vista de seu apartamento quarto e sala.

(Texto publicado em 5 de novembro de 2006 no Brutti).

Eu recomendo!!! A imagem foi retirada do site de Giovanna Casotto, autora de quadrinhos eróticos muito bacanas. Para quem não conhece o trabalho da Giovanna, deixo o link para apreciação. Vale muito a pena conferir o trabalho dela!

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Disk lover

May 5th, 2007 by jana

lips800w.jpg

Fonte da imagem

Tudo, como um clichê de discurso psicanalítico, começou na sua infância. A mãe passou meses economizando para ter a novidade em casa. No tempo custava caro e durou quase um ano para a mulher juntar o dinheiro suficiente e conseguir trazer o objeto para a mesinha ao lado do sofá estampado. O menino desenhava no chão, deitado, com o giz de cera espalhado. As cores todas à vista. A mãe chegou naquele dia, trazendo uma caixa de papelão. O menino pensou que fosse já presente de Natal, afinal a festa já estava perto. “Que é isso, mãe?”. “Ah, filho! Um mimo! Venha cá ver”. O menino já imaginava um carrinho grande ou um saco de gudes gigantes, mas o que veio forrado em plástico bolha foi aquele aparelho vermelho-sangue, cheio de teclas e fios. “Ah, mãe! Um telefone! Pensei que fosse um presente pra mim”. “Menino, passei o ano inteiro economizando para comprar a linha e o aparelho. Só tem telefone em casa quem é chique, e eu quero ser chique”. “E meu presente de Natal?”. “Seu presente de Natal é o telefone, tá? Ah, menino, este ano ficou difícil pra mainha comprar o telefone e ainda comprar um brinquedo”. “MÃE!!!”. “Não me grite, menino!”.

O menino olhava aquele objeto vermelho ao lado do sofá, rei da mesinha de madeira e uma mistura de ódio e fascínio se confundiam como o leite e o chocolate do Milkshake. O número estava escrito em um papel grudado ao telefone. Apesar da raiva que tinha do objeto, afinal por causa dele ficaria sem presente de Natal, o menino queria tocar o plástico vermelho, queria ouvir o aparelho tocar, queria atender, falar, ligar para as pessoas. Mas para quem? Viviam apenas ele e a mãe e poucos, como a mãe mesmo dizia, tinham um telefone em casa. Eram finos, eram chiques. A lembrança das palavras da mãe se misturavam à imaginação do menino, que achava que as palavras ficavam presas naquela caixinha vermelha até o dia em que iria explodir de tantas conversas acumuladas. O telefone deles, no entanto, não iria explodir tão cedo.

Com o tempo, o telefone começou a se vulgarizar, como tudo aquilo que antes parece mágico e depois vira feijão com arroz. A mãe agora atendia aos pedidos dos doces, salgados e refeições através do aparelho e o menino é quem atendia aos pedidos, negociava preços, prazos e datas de entrega. Sua vida resumia-se à escola e ao restante do dia perdido com o fone do aparelho grudado à orelha. O aparelho vermelho era quase parte dele. Não tinha tempo para flertes, para olhares, para amassos no ginásio de esportes da escola. Era um adolescente mirrado e tímido, mas ganhava poder ao telefone. Crescia, virava gigante, homem. A adolescência, no entanto, era a fase das poluções noturnas, de acordar melado de porra e ver a mãe parada em frente à cama, gritando com o menino para que limpasse “aquelas imundícies”. Vida sexual zero, o menino enlouquecia. Permaneceu assim, até a idade adulta: sem beijos, carícias, mãos, dedos e sexo, principalmente sexo, até que uma moda apareceu na televisão: o Disk. Tinha Disk para tudo: brincadeiras, zodíaco, mapa astral, pra falar com autor/atriz prediletos e o Disk Sexo. Quando o rapaz viu a propaganda, não pensou duas vezes. Assim que a mãe dormisse, ligaria para o Disk Sexo. Seria o máximo contato que ele teria com uma mulher, mas valia.

A mãe foi dormir cedo naquela noite e ele só esperou pelos roncos da mulher para se sentar no sofá, ao lado do telefone vermelho. Discou o número e esperou. “Alowwwwwwwww”. “Alô, meu nome é….”. “Ahnnnnnnwwwwwww, estou sem calcinhaaaaaaaaaa”. Um dia ele assistiria na tv que as atendentes de Disk Sexo gastam em média 2000 pirulitos por mês para imitar um boquete, mas, continuando… “Ahnwwwwwwww, como você é grandeeeeeee”. Não é preciso nem especular demais para ter a certeza de que o mirrado-man virou um Disk Lover, que batia ponto todas as noites. No final do mês, a mãe acordou o rapaz aos gritos. “Seu imundo! Seu imundo! Usando nosso telefone, nosso ganha-pão para suas imundícies”. A mulher jogou a conta de telefone na cama e saiu do quarto. “Vou ter que trabalhar dobrado pra pagar isso”. Nunca mais voltou a tocar no telefone para as chamadas de Disk Sexo. O máximo que fazia era desligar o telefone do gancho, alugar um filme pornô e, enquanto se masturbava, fingia falar com uma atendente de Disk Sexo através do telefone mudo.

Quando o negócio da mãe finalmente cresceu e se tornou um buffet profissional, com salgadinhos assados em forno industrial, foi casando à época em que o telefone celular começou a ser vendido. Logo comprou o seu e sendo o filho da dona do buffet, que agora já contava com seis funcionárias e tendo um artigo de luxo pendurado na calça, logo-logo conseguiu facilmente aquilo que esperou por toda a vida: uma mulher de verdade e uma transa que não se resumisse ao sobe-desce de dedos. Combinou com a mulher de se encontrarem depois do serviço num barzinho próximo à pequena fábrica de salgados e doces da mãe. Não precisou falar muito, afinal era o filho da dona do buffet e tinha um celular pendurado na calça jeans. Chegaram ao motel, ele tentando fingir que já era descolado, ela tentando fingir que era uma almost virgem. Pegaram a chave do quarto e entraram. Começaram a se beijar. Ela sem saber que era o primeiro beijo daquele homem. Os filmes pornôs ajudaram-no a ter noções do que fazer. Chegaram finalmente a deitar na cama, ela nua, ele nu. Insinuante, fazendo pose sexy aprendida em revista, ela foi descendo a boca para o pau do homem, até que ele sacou uma coisa da mesinha ao lado: o celular. “Desliga pra mim o telefone daqui?”. “Como assim?”. “É só puxar o fio. Desliga pra mim”. “Tá”. Apesar de não entender nada, ela desligou o fio do telefone do motel. “Certo, agora coloca o fone no ouvido e finge que tá falando comigo”. “Ahn?”. “Faz, vai! Você finge estar falando comigo aí e eu finjo que falo com você aqui”. Depois que deram a “primeira” pelo telefone, ele fez do jeito dela e teve sua primeira vez. Se ela achou estranho, se ela deixou de trepar com o filho da dona do buffet? Bom, ainda vemos os dois ao longe mordiscando queijo e bebendo cerveja no bar no fim do expediente e ainda vemos também os dois, agora já pulando a parte do Disk sexo preliminar, pularem para os finalmentes. É a tecnologia encurtando distâncias.

(Texto publicado em 19 de novembro de 2006 no Brutti).

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Pão com goiabada e Barbie

April 23rd, 2007 by jana

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Fonte da imagem

Loiras, pernas longas e boca cor-de-rosa. Barbies. Já tive algumas dessas. Peito grande e sem bunda. American girls. Barbies.

Minha mãe nunca me deu o Bob, talvez por medo de que à noite ele saísse da caixa e me comesse. Nunca consegui explicar a ela que boneco não tem pau. Não tive o Bon, mas tive um daqueles bonecos que faziam xixi e que tinham um protótipo de “benga”. Passava algumas horas fascinada, olhando para o pau do bonequinho, que era loiro como as Barbies. Deve ser por isso que não curto nenhum dos dois. Excesso de platinados. Sai fora.

Eu estudava pela manhã e à tarde ficava em casa em ócio completo. Gostava de pão com goiabada e Vale-a-pena-ver-de-novo. Criança é foda. Criança é dublê. Criança beija porta de guarda-roupa e esfrega as coxas. Eu não era diferente.

Eu tinha um saco grande e jogava minhas bonecas, roupas e acessórios nele. Depois da novela e do pão com goiabada, eu espalhava tudo na cama de minha mãe e ía brincar. Trancava a porta do quarto e montava meu cenário. Quarto, cama, abajur. Sofá, mesa, copos. Fogão, geladeira, panelas. Minha mãe comprava o kit-Lar ou “Como fazer da sua filha uma rainha do lar: 20 lições didáticas”. Eu arrumava aquela parafernália pseudo-doméstica na cama de minha mãe e depois vestia minhas Barbies. Penteava seus cabelos, vestia suas roupinhas justinhas e calçava seus sapatinhos. Elas todas nas minhas mãos… Passivas. Seios, pernas, dedos. Tudo meu.

Arrumava as bonecas como em um ritual, pois a nudez não me excitava quando era evidente. Tinha três Barbies. Uma era loira, esportiva, macacão de lycra azul e tênis. Tinha também uma camponesa, vestido florido, cestinha e laço e uma gostosíssima, morena, sardinhas, saia de couro, botinha verde e guitarra brilhante. Tinha três Barbies, nenhum Ken e muitas tardes de Vale a pena ver de novo.

Peguei minha tesourinha de coelhinho azul sem ponta e cortei o cabelo da Barbie esportiva. Cortei. Deixei no toco. Vai puta. Vai ficar sem cabelo, vadia. Hidrocor preto. Pintei tudo e fiz um bigodinho. Deveria ter deixado sem bigode, andrógina, mas criança é foda e tem todas aquelas histórias freudianas do Édipo e tal. Ficou o bigode.

Eu era da geração Sexta Sex e Cine Privê. Assisti toda a saga de Emanuele. Emanuele na África, no Japão, no Espaço. Trens entrando em túneis, enquanto ela trepava nas cabines dos trens. Assisti até uma versão pornô da Branca de Neve e os sete anões. A Branca de Neve era negra e os sete anões tinham paus enormes. Eu era da geração televisão sem controle remoto. Eu colava no aparelho e ficava tensa com o dedo perto do botão dos canais. Qualquer passo e meu dedo ía direto na TV Educativa. Foda era quando passava da meia noite e a Educativa já estava em faixas coloridas. “Tá assistindo o que, menina?” Silêncio. “Ah, mãe… Eu gosto das cores”.

Minha mãe ainda guardava uma coleção sobre sexualidade. Coleção de capa dura vermelha e desenhos de gente trepando. A coleção ficava guardada no maleiro do guarda-roupa dos velhos. Eu subia no banquinho de madeira e todos os dias pegava um volume. Era uma coleção bem datada. Adolescentes com calças boca de sino e biquínis asa delta. Homens bigodudos, como minha Barbie esportiva. Tinha até uma mulher com as mãos sobre um tigre no verbete Zoofilia. Lembro até hoje.

Vale a pena ver de novo, Sexta Sex e Coleção-capa-dura-proibida. Eu tinha cachos e sardas. Cara de otária e cdf. Crime perfeito. Lá ia eu com meu saco de bonecas. Tirava suas roupas e deitava a moreninha de sardinhas com a bigoduda. Sem as roupas, eram seios e pernas. Os seios duros não deixavam elas se beijarem. Elas se embolavam no colchão de florzinhas rosas. Criança é dublê. Eu dirigia minhas cenas. A do bigode comia a camponesa e a da sainha de couro. Língua e mãos. Pernas embaraçadas.

Minha mãe deu minhas panelinhas e minhas bonecas. Cheguei um dia em casa e meu saco não estava mais lá. Minhas panelinhas estavam quase novas. Minhas bonecas estavam gastas e comidas. Nenhum cheiro de comidinha nas panelas. Cheiro de sexo entre as pernas de borracha. Minhas primeiras mulheres. Bocas cerradas em um sorriso passivo, seios-pedra, bunda-ausência, coxas-lisas-borracha. Minhas primeiras mulheres: silenciosas, passivas, padrão-blond. Barbies. Saudade das tardes de pão com goiabada e panelinhas.

(Texto publicado em 8 de abril de 2006 no Brutti).

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Pelo gozo-ponto

April 13th, 2007 by jana

Cansei do quase, meu bem,
de estender os dedos-almost-toque,
de enfiar pouca língua,
de ensaiar carne-esfregando-carne-apenas,
de gastar palavras-clichês-senso-comum.

Tenho pouca paciência,
pouco tempo-horas-segundos,
poucas idéias de futuro a perder de vista,
vontades surrando o corpo no agora.

Tenho sexo inquieto,
desejo latente,
porra armazenada,
pronta pra derramar em jatos,
espaçados-brancos-opacos,
assim que você lamber a glande.

Você me mantém no vício da espera,
no jogo do mostrar-pra-imaginar,
nas falsas vestes dos pudicos,
nas mãos impedindo a entrada dos dedos,
da carne,
do esporro quente-silencioso.

Cansei de você masturbando meu sono,
estimulando meu limite nos sonhos,
lambendo minha nuca-apenas-imagem.
quero você sangrando vontades,
violentando minhas mãos com seu sexo,
silenciando minha boca
no jogo das posições invertidas.
lábios vermelhos-abertos-mudos.

Quero você celebrando o instante,
apoteose do presente-aqui,
cantando sussurros sem esperar outras vidas,
dançando em corpo e cabelos
em cima de minha pele esquecida.

Quero mamilos duros,
língua quente e dedos acordados.
quero dentes vivos mordendo as costas,
sexo roçando pernas,
olhos invadindo olhos.
Quero o seu medo guardado na cômoda,
seus limites deixados no chão,
como roupa atirada e largada,
esperando a cena seguinte,
encenando a aceitação das regras.

Quero apenas um pouco menos de talvez,
um pouco mais de entrega.
Quero esquecer deste cansaço derramado
em versos-palavras-confissões.
Quero apenas como limite
sua carne na minha,
somando por um instante
os nossos pontos de chegada,
nosso fim,
nossos silêncios sem volta.

Quero,
e rejeito o contrário,
sentir minha vida se prolongando em tempo,
somada à sua vida também fadada ao ponto.
Quero experimentar,
entre bocas-olhos-sexo,
a sensação do limite,
do daqui-não-passará.
Quero o gozo-segundo,
a vida se despejando toda
por um momento apenas,
por um breve tremer das carnes,
pelos acordes marcados pela nossa respiração.

(Publicado em 28 de junho de 2006 no Noturnando)

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Dogging peep show

April 2nd, 2007 by jana

peepshow92778kx.jpg
Fonte

Menina-peep-show, corpo todo pose-click, uns dedos no cabelo, um biquinho-beijo, olhar lânguido, pose de puta, às vezes ninfeta, querendo ser musa Nabokov. A janela do quarto era palco. A janela do quarto lilás, cheio de fotos suas espalhadas pelas paredes, de ursinhos que ela guardava entre as pernas, fazendo o vizinho do 1502, do prédio tom pastel ao lado, cansar as mãos e economizar no Pay-per-view pornô. Menina-peep-show pega a mochilinha da Hello Kitty, veste a blusinha da Betty Boop, deixando a barriguinha malhada com piercing de pedrinhas e a tatoo da moda, estrelinhas e flores, aparecerem e desaparecerem no andar ritmado do pé-pós-pé tipo model. Menina-peep-show vai mergulhar o corpo na pista de dança, na noite-neon, na música alta e nos olhos dos homens, que malham a semana inteira para mostrar o abdômen definido debaixo da blusa de grife e do correntão brilhante. E ela chega e se espalha.

Ela pega o drink colorido no bar, um azul brilhante que combina com as pedrinhas do piercing. Puxa um cigarro, faz cara séria, vira luminária, atrai os olhares-insetos, uns olhares sugados pelo brilho e que morrem na proximidade do corpo da menina. Um a um ela vai dispensando. Ela quer o melhor. Ela quer o resultado da seleção natural, como na matéria da escola, que ela ouvia mascando chiclete e ajeitando a franja, só para ver o professor suar mais que o normal. Ele chega. Ela sabe que é ele. O corpo todo agora é uma ondulação. Ele é todos dedos na cintura e nos cabelos dela. Língua-língua. Goles no azul. Língua-língua. Eles saem da pista.

Ele tira as chaves do bolso, olha na direção das mesas. Os amigos levantam o dedo. Uns risinhos sacanas. A menina vai na frente. Ele paga as comandas e os dois vão para o carro. Estacionamento-motel, meio drive-in. O que se passa nas janelas dos carros são os filmes, algo meio 3-D, com a diferença da interatividade. Quem está ali sabe o que quer e quem não sabe descobre. A blusinha Betty Boop ela guarda no volante. Ele já é um pau descoberto, só esperando por ela. Língua-mamilo. Sexo-sexo. Ela fazendo gemido-teatro, cara de uoww e ele lá, com ela em cima rebolante. Umas sombras do lado de fora. Umas mãos pedindo para ele baixar o vidro. Ele liga o carro e o vidro desce. Os amigos, olhares insetos, vieram atraídos pelo corpo-neon. “Curte dogging?”. “Que?”. “Relaxe”.  Os vidros abertos, os dois amigos, um em cada janela, esperando a menina-peep-show deixar as reticências no porta luvas. Ela aceita, sem saber o que é. Amanhã vai no google e descobre. As calças abertas, paus e mãos livres. “É só pra olhar, né?”. Ele não responde, ela então continua. Um formigamento na barriga. Queria agora a cama e o edredom, mas continua. Os amigos deles pedem pra tocar. Ela deixa. O formigamento na barriga aumenta. Ele dentro dela, as mãos do outro nos seus seios, a mão do terceiro sacando uma máquina-digital-filmadora sem ela ver. Ela está de olhos fechados. Prefere não ver que os outros todos estão com os olhos e as mãos nela. E o terceiro vai gravando, enquanto a outra mão desliza no pau. Aquele que é o palco suporte das rebolações da menina goza. Aquele que toca os seios da menina goza. E tudo vai se desmanchando em branco, menos ela, que agora é toda formigamentos.

A menina-peep-show abre os olhos e pede a camiseta da Betty Boop. Veste. Finge confiança, não percebe a máquina sendo guardada rapidamente. Zíper fechado um por um, os amigos desaparecem, retornando ao bar-lounge-boate. Ela pega a mochilinha Hello Kitty, desce do carro e finge não estar à procura de um taxi, mas logo que avista o primeiro, entra, diz o endereço, engole choro, desce, paga e se joga no edredom com flores em alto relevo. Amanhã a menina acorda e o dogging vai parar na busca do google. Enquanto isso, horas mais tarde, o do zíper-máquina-mão passa o filminho caseiro para o pc e a menina agora dança suor, uma atração a mais para download, estrela de um dia no Youtube. A cortina do quarto agora dorme fechada.

(Texto publicado em 27 de agosto de 2006 no Brutti).

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Simbiose

March 15th, 2007 by jana

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Fonte

O sexo e o nariz alimentam uma relação simbiótica. Eu só havia pensado nisso depois que ela desceu do ônibus. Meus pés estavam cansados. Sentei em um assento para idosos. Idosos de alma valem? Sentei do mesmo jeito. Se alguém chegasse e se seus pés parecessem mais cansados que os meus, eu levantaria. Ou não. Na verdade, não levantei.

Atrás de mim, uma senhora carregava um ramo e cantava algo como “Jesus é maravilhoso e olha por mim”. Como ela sabia que Jesus olhava para e por ela, se era cega? Notei pela muleta e pelas mãos estendidas, tocando o nada. Ignorei. Abri meu saquinho de jujubas. Dois por cinqüenta centavos. Sou trouxa, mas ganhei minha jujuba. Um rapaz senta ao meu lado com sua caneta azul e seu lápis verde. Eu não pensava em nada. Ela chegou e parou ao meu lado. Quando estamos sentados, o sexo do outro interage com o nosso nariz. Falo por mim, que sou baixa e tal. Blusinha preta, decote proposital, casaquinho jeans para disfarçar o decote proposital. Saia jeans, com rasguinho fechado por zíper de strass. Saia curta. Pernas. Salto. E o cheiro de sexo, apagando o perfume. Era o tipo de mulher clichê, que passa e desloca atenção e cria volumes. Sempre acreditei que o cheiro de sexo não tem sexo. É cheiro apenas.

Virei o nariz para o lado do menino do lápis verde. Mas aquele cheiro de lycra molhada atravessava a saia. Ela segurava um caderno e dois livros. No outro braço, uma bolsa imitação barata. Perguntei se ela queria que eu segurasse os livros. Ela me entregou o volume como se me fizesse um favor. Aceitei.

Um caderno com paisagens paradisíacas e um livro de Direito Romano. Mais uma aspirante a advogada, que sonha vestir terninhos. O nariz e o sexo têm uma relação simbiótica. O cheiro transforma o sexo em cheiro de sexo. Tentei imaginar as possibilidades. Ela tinha saído com um cara para pagar a faculdade? Não. Geralmente, esses caras não transformam o sexo em cheiro. Pensei também no carinha do bairro. Tênis Nike e boné. Talvez. Quem sabe também aquele era o segundo ônibus? Quem sabe no primeiro, ela estava sentada em um banco de idosos e duas pernas trouxeram o cheiro entre a ilusão da roupa. Não sei.

O cheiro do e de sexo transformaram meu sexo em cheiro. Não podia levantar mais. Se entrasse um idoso, eu não levantaria. Eu tinha a desculpa dos pés cansados e de minha jujuba inacabada. Cheiro de sexo não tem sexo. Os livros estavam assentados nas minhas pernas. Meus dedos começaram a deslizar para dentro do livro de Direito Romano. Ela me olhou de um jeito estranho e eu percebi que estava atravessando um livro com minha mão. Recuei. Não toquei mais nos livros. Fiquei pensando que se eu escrevesse um conto sobre isso, provavelmente diria que meus dedos tocavam o meu sexo por debaixo do livro de Direito Romano, mas eu apenas introduzi meus dedos nas páginas das verdades questionáveis.

O trajeto não era longo, mas a lógica do transporte coletivo urbano era estranha. Se seguíssemos por linhas retas, eu chegaria em casa sem ter que visitar quase todo o centro da cidade. Ela pediu os livros e saiu. Desceu com seu gloss nos lábios, com seu salto e seu casaquinho jeans, terceira pele que escondia o decote pensado distraidamente. Ela desceu e deslocou as atenções. Riso de canto de lábio. O menino do lápis verde acompanhava com os olhos o tipo de mulher que nunca teria nas mãos. Ele chegaria em casa, tocaria uma e dormiria seu sono relaxado. Eu levantei apenas quando o ponto chegou. O cheiro de sexo transformou o sexo em cheiro. Banho, sabão e dedos.

(Texto publicado em 5 de abril de 2006, no Brutti).

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Língua

March 14th, 2007 by jana

vejo você chegar
com todo seu poliglotismo-de-boutique,
fabricado em curso-por-correspondência
ou nas suas aulas de três-aulas-preço-de-uma,
que você frequenta com caderno-caneta-roupa escolhidos,
achando tudo muito promissor.

eu passo a língua entre os dentes
e digo que não há língua mais universal
e unaminamente entendida
do que a língua que mora
no céu-pátria-vermelha-fibrosa
da minha boca,
umidecendo-umidecida-salivante.

você se ofende com meu desdém necessário,
mas entende quando minha língua
força entrar pelas suas pernas,
misturando-se aos seus pêlos,
invadindo seus lábios mudos e tão vermelhos como
aqueles que formam-deformam sua boca.

minha língua, meu bem,
desconhece sintaxe,
desconhece léxico,
nunca precisou de normativização,
mas conhece todos os seus pontos de articulação,
e são neles que ela se movimenta agora.

minha língua sabe exatamente
o que dizer-silêncio-apenas-toque,
pra fazer você se diluir
em seu gozo-maquete,
em suas mãos-tensas-segurando-meus-cabelos,
em suas pernas suspensas,
em seu grito-quase-grito-abafado.

espero você chegar com seus livros,
apostilas e fitas de conversação,
tudo reunido para aliviar sua tensão-fetiche
pelas línguas articuladas de vozes-sem-rosto.

espero pacientemente cada linha preenchida a exaustão
pra depois, livros e pernas fechadas,
eu te deitar neste chão-branco-papel-caderno
e te ensinar,
com toda minha pretensão de língua única e pulsante,
a sensação, o toque, o gozo,
atravessando a pele,
sem que para isso eu precise
nomear o gozo de gozo,
o prazer de prazer,
seu sexo de sexo.

a minha língua, meu bem,
é a língua universal
de um mundo-fase que rejeita todas as formas de se nomear
aquilo que, de olhos fechados e lábios entreabertos,
sabemos-conhecemos o sentido,
desde o momento em que nossa pele reagiu aos toques mudos,
ao prazer-ignorância,
a sensação-sem-o-nome-palavra como intermédio.

a minha língua, meu bem,
é essa extensão-carne de mim,
que por ser carne,
que por sentir-doce-amargo-azedo,
deseja apenas a sua língua-certeza-qualquer sabor,
misturando-se à minha boca vazia,
ao meu ventre-pele,
ao meu sexo-seu.

(Publicado em 5 de maio de 2006 no Noturnando)