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Delírios de uma quarentona em perigo em “Férias”
Serviço público, colegas de trabalho animados todas às sextas-feiras, pilhas de papéis formando uma barreira natural entre eu e a realidade, e só uma vez no ano, durante um mês, permaneço longe de tudo isso. Meu estagiário se movimenta na cadeira, como se houvesse uma reunião de pulgas atacando seu santo traseiro. Uma vez no ano, uma só, me livro desta visão do inferno. Mas vamos ao que interessa: os planos.
Geralmente eu tiro férias em uma época esdrúxula do ano para não ter que enfrentar dois tipos de problemas: os preços, que deveriam ser cobrados apenas a Deus (já que estão em uma altura humanamente impossível para um servidor público alcançar) e a manada de turistas alegrinhos e cheios de disposição. Já disse uma vez que tenho medo dos excessivamente felizes. Duvide deles! Pessoas que sorriem demais ou têm algum problema na arcada dentária ou são bestas. Peguei o carro depois do expediente e fui procurar uma agência de viagens com pacotes em conta. Sou uma mulher só, mãe de uma ex-adolescente antecipada aos 20 anos, que se mudou para outro país por causa de um intercâmbio. Só me resta o controle remoto e um gato, que me procura apenas na hora da comida. Independência maior que essa? Não existe. Pesquisei alguns nomes de agências e lá fui eu com o meu contra-cheque na bolsa para não fugir à minha realidade de funcionária pública.
“Boa tarde…”. “Boa tarde, senhoraaaaaa, sente-se”. Nota mental… Pessoas alegres, efusivas e que falam como atendentes de telemarketing são dignas de desconfiança. “O que a senhora deseja?”. “Eu gostaria de dar uma olhada em alguns pacotes. Pode me mostrar os nacionais e os internacionais, por favor. Os que estejam mais em conta de preferência…”. “Ahhhh, mas podemos facilitar muitooooooooo para a senhora. Dividimos sua viagem em até 36 vezeeeeeeeeees e …”. “Não, entenda, eu só quero algo em conta. Não quero passar minha vida inteira pagando minhas férias. Não é pra tanto…”. “Haroldoooooooo… Traz os panfletos, por favor!”. De dentro de outra salinha aparece o famigerado Haroldo com uma pilha de panfletos. “Aqui está… Vou te explicar detalhadamenteeee cada pacote e…”. Nota mental… Não peça todas as opções… “Veja bem, este pacote aqui é maravilhosooooooooo. A senhora poderá fazer um cruzeiro com todo o conforto e…”. “Pera, filha… Olhe, é o seguinte… Cruzeiros para mim podem parecer maravilhosos nos primeiros quinze minutos, enquanto ainda você não percebeu que passará dias observando a variação dos tons da água. Não, obrigada! Prefiro me deslocar por terra mesmo”. “Ah, então a senhora quer um pacote de viagem com ônibus!”. “Não, não é isso… (AI, MEU PAI!). Eu quero viajar de avião, mas quero ir para algum lugar em que eu possa circular livremente e…”. “Tem certeza que não quer o cruzeiro?”. “Tenho sim, obrigada!”.
Diante de mim, uma atendente animada e um estagiário chamado Haroldo. O que mais posso querer? “Veja só, este pacote é maravilhooooooooso. Muita gente opta por ele nesta época do ano. Há até um grupo fixo, que sempre viaja pela nossa empresa. Gente animada, senhores distintos … Quem sabe a senhora não arranja até um paquera, hein?”. Estava demorando… Estava demorando. Agora ela acha que porque me mostrou uma dezena de panfletos já pode ser minha personal cafetina. Puta que pariu! “Não estou interessada em grandes grupos, querida, quero apenas algo dentro do meu orçamento e que eu tenha privacidade e liberdade de ir e vir. Da última vez que viajei em grupo foi para a Espanha e a experiência não foi das melhores. Duas das minhas acompanhantes gritavam no restaurante para que o garçom entendesse os pedidos delas, até que eu tive que intervir dizendo que os garçons não eram surdos, só falavam outra língua!”. “Que lamentável…”. “Pois então… Nada de Cruzeiros, cheios de animadores e de bingos, nem grupões… Por favor!”.
O tempo ía passando e minha paciência se esgotava. A grande verdade é que minha paciência anda tão escassa quanto a camada de Ozônio em cima de nossas cabeças. Depois de olhar pacotes internacionais e perceber que meu salário, sem reajuste há mais de dez anos, mal daria para cubrir as despesas de uma viagem para a cidade vizinha, eu já perdia as esperanças. “Que tal fazer o Nordestão em 7 noites? É maravilhosooooooooooo”. “Como assim fazer o Nordestão em 7 dias?”. Ah, a senhora passará uma noite em cada estado do Nordeste! Imagine que maravilha!”. “Filha, isso para mim é humanamente impossível. Viajar envolve aproveitar as cidades. Não vou me meter em um pacote que me faça conhecer as dunas de Natal passando de longe no ônibus e comer um acarajé de baixo do ar-condicionado do mesmo ônibus, enfrentando aqueles banheiros minúsculos, que são no mínimo constrangedores. Você deve achar uma experiência transcendental fazer xixi saculejando, com o risco de que sua bunda fique totalmente molhada ou que você tenha traumatismo craniano enquanto estiver tentando levantar as calças e o ônibus acidentalmente passar à louca por um buraco. Ou também você deve achar que vale a pena molhar o dedo no mar de Maceió enquanto o motorista reabastece o ônibus e canta a frentista. Não, obrigada”. Foi aí que comecei a perceber que o tom efusivo e articulado da atendente se perdia. A mulher já mordiscava o fundo do lápis e ela olhava para Haroldo com cara de quem está pagando pecados. “Olha, desculpe, mas não encontrei nada que me agradasse nesta agência…”. Eu já disse e repito… Duvide dos excessivamente felizes. Há uma hora que o fio que divide a sanidade aparente da loucura iminente simplesmente parte. “O queeeeeeeeeeee?”. “Ahn?”. “A senhora me fez mostrar todooooooooos estes pacotes maravilhosos e vai sair daqui sem nenhum? A senhora acha que eu sou o que, hein?. “Olha, não me leve a mal, eu sei que é seu trabalho, mas…”. “Sabe é o carambaaaaaaaa. A senhora não trepaaaaaaaaaa”. Comecei a olhar desesperada para Haroldo. “Calma, moça. Calma…”. Calma, o cacete!!!! A senhora vai escolher uma merda de um pacote nem que eu tenha que deixar umas marcas de unha na sua cara!!!!”. “Haroldo, socorroooooooooo!”. Haroldo chamou o gerente da agência e foi bem na hora que a atendente-super-articulada de penteado impecável já quase ensaiava para aparecer como protagonista mor das páginas policiais. Confusão desfeita, água com açúcar para a garota e o gerente tentando me explicar que ela era novata, que ainda não tinha o traquejo para lidar com certas situações e blá, blá, blá. Resultado: desisti de viajar. O jeito é circular pela cidade e assistir o National Geographic. Uma semana depois passei na frente da agência. A menina ainda estava lá. Haroldo havia sido promovido, eu acho. Olha só como eu mudo a vida dos estagiários? Hahahaha. Vou ali comprar “A volta ao mundo em 80 dias”. Depois de uma certa idade, viciamos em seguros.

