
(Jana Calaça by Carol Custódio)
Pela primeira vez, em anos, resolvi postar um texto diferente em relação ao conteúdo do meu blog. Sempre utilizei o antes Noturnando (meu antigo blog) e o agora Casa de Burlesco como oficina literária, onde publico meus contos, poemas e crônicas. Hoje, no entanto, resolvi fazer diferente. Resolvi me despir dos personagens e dos eus-líricos e falar um pouco sobre um assunto sem metáforas ou eufemismos, nem canção dramática ou arroubos de vitimização, porque essa nunca foi a minha praia.
Geralmente nos preocupamos com manifestações de preconceito, quando estas nos atingem, o que é um comportamento errôneo, já que assim como nos sentimos agredidos com os conceitos pré-concebidos dos outros em relação a nós, temos também que exercitar constantemente o bom senso. Será que não andamos por aí apontando o que nos é diferente como algo a ser julgado e condenado? Será que não exercitamos no automático nossa intolerância com piadas, riso e dedos apontados? Não estou me colocando como alguém que não possui preconceitos, mas como alguém que está passando por um momento de releitura destes conceitos cristalizados e que também lida diariamente com o preconceito do outro.
Sempre fui uma pessoa gorda. Fui uma criança, uma adolescente e agora uma adulta gorda. Durante toda minha vida lidei com o fato de não pertencer a um padrão estético vigente e desde menina lido com olhares, piadinhas e até mesmo com agressões verbais. Experimentei diversas fases, que migraram da completa alienação, ou seja, eu tentava fingir que não sofria nenhuma agressão até a fase da reação estúpida, ou seja, comecei a responder a altura, sem que isso me ajudasse em nada a lidar com o turbilhão de sentimentos negativos que me atravessavam. Tenho uma coleção de histórias guardadas em mim ao longo dos anos, que seriam suficientes para preencher páginas e páginas virtuais de um blog voltado para o assunto, mas vou falar apenas da sensação estranha que tive depois de passar meses longe de minha terra natal: Salvador. Moro atualmente em São Paulo, onde vivo com meu marido, Fábio, igualmente gordo e que também sofre com os mesmos olhares tisc tisc como eu e como qualquer gordo que resolva ter uma vida normal, sem assumir aquele discurso de que “estou renunciando à minha vida porque os outros acham que eu devo”.
Esta semana, um dia depois da minha chegada à Salvador, resolvi marcar um almoço com minha amiga de anos, Andrea. Resolvemos nos encontrar no shopping Barra, localizado próximo à orla. Andrea e eu temos um fenótipo parecido e ela, assim como eu, também é gorda. Uma dupla de amigas gordas passeando no shopping chama atenção. Mas por que chama tanto a atenção? Será que é porque somos visíveis demais ou porque já foi convencionado que não temos direito de passear livremente por um shopping, de conversar como qualquer dupla de amigas, que não se vêem há muito tempo, ou seja, de que não temos direito de partilhar o mesmo lugar das “pessoas comuns” e de vivermos nossas vidas?
Vou pontuar exatamente os incidentes desta tarde fatídica, até mesmo para ver se neste processo de catarse, eu me livro desta sensação chata com que estou lidando agora. Tudo começou quando resolvemos escolher um lugar para almoçar. Escolhemos comer comida árabe, não fast-food, como o clichê usual apontaria para nós. Enquanto Andrea pagava pelo prato, eu me dirigia à mesa, quando ouvi uma mulher resmungar para a amiga. “Os elefantes vieram pastar na praça de alimentação”. Não comentei nada com Dea, porque não queria estragar aquele início de tarde, planejado para batermos papo. Almoçamos. Quando me dirigia para o banco, para consultar o saldo da conta, passamos pela frente de um stand de venda de equipamentos de academia. O vendedor conversava com o vigia, quando nos viu e, achando que eu não enxergava seus movimentos e que eu não ouvia suas palavras, começou a rir para nós e nos apontar, completando o quadro com um maravilhoso “que ridículas!”. Minha tarde mal começava e eu já começava a perder a paciência, que eu tento preservar a duras penas. Virei para o rapaz e perguntei qual era o problema. Ele, pego de surpresa, recolheu o riso e me perguntou qual era o problema de olhar para trás e se agora era proibido. Eu disse que não, mas que eu não via motivos para risos centrados unicamente em minha pessoa e na de Andrea.
A tarde não acabou, como eu gostaria. Ainda passamos por mais duas experiências infelizes. Uma com uma dupla de adolescentes, acompanhadas por um pai, não muito preocupado com a educação de uma das meninas, que era sua filha. Novamente o riso e os dedos apontados. Eu firmei o olhar e elas riam e me olhavam com o rabo de olho, como se eu não percebesse nada. Quando perdi toda a minha paciência, resolvi ir embora pra casa. Na saída, quando me dirigia ao ponto de ônibus, um homem, igualmente gordo, soltou a seguinte pérola: “Vocês estão precisando de um regime, hein?”. Saliento que o homem era igualmente gordo, até mais pesado do que eu, mas mesmo assim, ele soltou a piadinha.
Não vou me estender em mais histórias, porque todas versam sobre o mesmo assunto: intolerância em relação às diferenças e preconceito. O que estou percebendo é que, mesmo com tantas campanhas em relação ao respeito às diferenças, a intolerância persiste e agora me parece muito mais forte e com um timbre de voz muito mais alto. Um lugar, por exemplo, voltado inicialmente para tecer teias de amizade e de outras formas de relacionamento, como o Orkut, se tornou um reduto de comunidades cuja intolerância em relação à diferença é a bola da vez. Perfis de pessoas são expostos nas comunidades, para que os membros sacaneiem. Quando as pessoas não são sacaneadas in off nas comunidades, têm seus perfis invadidos por uma onda de recados, que vão desde xingamentos até coisas do tipo “você merece morrer” ou “se mate”. A agressividade agora circula solta e sem limites e o Orkut, como uma comunidade virtual, é apenas reflexo da sociedade a qual pertencemos, que cada vez mais prega a negação da diferença e a massificação de padrões estabelecidos e estupidamente disseminados. Sou contra um discurso reacionário, ou seja, de negar por exemplo quem é magro por eu ser gorda, pois isso é devolver o preconceito na mesma moeda, sem que ele seja diluído. Sempre fui contra à reação boba de grupos atingidos pelo preconceito, seja ele qual for, que usem da negação a arma para se protegerem. Não adianta condenar o magro, sendo você gordo, ou o heterossexual, você sendo homo e aí por diante. Essa inversão de discursos só leva a mais intolerância e violência.
Postei este desabafo, não por acreditar que a partir dele as coisas possam mudar, mas para me lembrar sempre, ao abrir meu blog, que antes de desenvolver conceitos em relação ao outro, eu tenho que me lembrar dos pontos em que sou atingida. Tenho tentado, desde há algum tempo, respeitar a diferença, porque é esse o princípio maior do indíviduo: somos únicos e devemos ser respeitados em nossas singularidades. Sou uma pessoa normal, que sempre estudou, trabalhou, passeou, fez amigos, teve amores, que tem uma nova família a construir e que luta todos os dias para se desvencilhar de clichês atribuídos por conceitos generalizantes, que já convencionaram que o gordo é incapaz, é glutão, é lento, é bobo e que não tem direito a uma vida normal. Por isso, peço desculpas aos preconceituosos, mas respeito é fundamental. Não preciso de compaixão, nem de hipocrisia, apenas quero poder viver minha vida, sem ser agredida por olhares, risos e piadinhas, que só escondem, neste processo de apontar no outro a diferença, as próprias limitações e inseguranças. Ou seja, se você anda por aí criticando demais o outro, o que será que está por trás disso?
Quer ler mais sobre o assunto? Sugiro ler o artigo publicado no Jornal da Facom sobre gordinhos, de autoria da Vanessa Barbosa.