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Destoante

April 24th, 2008 by jana

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Sou cores destoantes nesta cidade,
em que o cinza reina com cetro e nariz em direção ao céu.
Sou os passos lentos caminhando,
enquanto todos impacientes correm.
Correm tanto para quê?
Para encontrarem todos sempre o mesmo limite?

Sou o bom dia em mão única,
perdido nas manhãs que amanhecem quase sempre frias.
Meu bom dia morre na minha boca,
sem respostas, sem um esboço de sorriso qualquer.
Sigo então destoando,
como a nota que insiste em mudar
o ritmo constante da música que se repete.

Destoante, sou assim, destoante.
Sou o riso, enquanto a sisudez impera,
e alguém um dia me disse no metrô
que se boca desse cãimbra,
a minha já dura estaria.
Só porque rio, só porque deságuo dentes,
querendo extrair da vida alegria.
Alegria demais incomoda, minha gente!
Cerremos os dentes então.

Alguém me atropela na calçada,
a dona da casa onde moro
manda bilhete cobrando conserto
do ralo do banheiro que entupiu.
Deve ter sido a sujeira clara das minhas lágrimas,
o choro de quem não se adapta,
escoando e incomodando,
sufocando garganta e tubos brancos hidráulicos.

Meu coração agora dói,
dor física, verdadeira,
dor que machuca mais que arranhão depois de queda.
Destoante, sigo calada engolindo minhas lágrimas,
fingindo ser a dureza um tapete de flores coloridas.
Sigo disfarçando minha dor,
abafando minhas mágoas,
continuando e caminhando lentamente,
enquanto ouço alguém gritar: “sai da frente!”.
E é o que eu faço,
deixo o mar aprisionado e inconsciente passar.

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Dor

October 24th, 2007 by jana

Dor não se partilha,
não por avareza,
mas por impossibilidade.
Cada um sabe da intensidade de sua dor
e do limite de sua tolerância.

A dor é minha e a palavra não é paleativo.
Posso gastar dias tentando descrevê-la,
mas a palavra é limite,
não dá conta daquilo que é sentido
ou cura através da combinação livre das letras.

Queria não ser tecida por tantos filamentos nervosos,
mas abriria mão também do prazer,
então pago o direito do gozo
com a possibilidade irrefutável da dor por vir.
Negar a possibilidade da dor
nos faz abrir a mão da experiência do prazer.

A dor é minha e dela apenas eu sei.
Sei a cor e a sua intensidade,
sei do espaço que ocupa no meu peito,
sei das lágrimas que ela me faz verter,
tal qual ácido a queimar as retinas,
tal qual fel a ferver por dentro
o vermelho-vida que me sustenta.

A dor é sentida no silêncio ou no grito,
dissolvida pelo tempo, rio que ele é,
a fazer tudo que é pó misturar-se às superfícies líquidas das horas,
que nunca alteram seu curso rígido-sempre-pra-frente.
Vai, vai rio,
corre tempo,
cura minha dor,
transforme-a em pó,
desapareça,
sedimente-se no fundo do leito,
junte-se às minhas margens.

Vai, vai tempo,
cumpra-se como um funcionário burocrático,
que carimba papéis automaticamente.
Vai, tempo, não questione nada,
aperte seus parafusos, faça sua parte,
leve minha dor para longe
e depois me traga outras,
porque é este o preço que pago por insistir,
porque é este o preço que pago por viver
na tensão silenciosa do gozo,
na certeza avassaladora da dor,
que quando chega, espalha-se
e demora-se, como visita indesajada,
a ocupar o espaço que escolhe para se fixar,
ignorando o riso que antes existia lá,
ignorando os sonhos que moravam na extensão limitada do meu peito.

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Um dia te deixo, cidade

September 5th, 2007 by jana

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(Imagem: Fábio Brito)

Uma brisa silenciosa atravessa minha janela,
o único presente que esta cidade me dá,
enquanto penso em formas múltiplas
de me ver livre dela.

Cidade em degradê de cinza,
logo eu que sempre fui amante das cores,
me vejo enlaçada entre suas pernas,
sufocando grito e lágrima,
me espremendo nos metrôs cheios,
perdida nas veias-ruas tantas,
que serpenteiam só esperando
a hora certa do bote único.

Cidade fria de concreto,
ausente de corpo-quente-riso-mãos,
já te dei uma chance de me cativar,
e rejeitaste como quem rejeita a flor,
apenas por esta ter sido colhida da terra
e não comprada em floricultura de luxo.

Quando puder, cidade,
te deixarei vestida de luzes,
tecido fino bordado pela noite,
para não mais voltar a pisar em sua carne dura,
indiferente-nariz-ao-céu.
Voltarei sim um dia
é para minha terra solar,
vestido pobre de renda,
inundada de mar e riso,
de onde eu não deveria ter saído.

Não me arrependo no entanto
te ter caminhado pelas suas ruelas,
pois ganhei a consciência antes inexistente
da falta que minha cidade solar faz.
Ganhei a experiência da solidão,
dos braços vazios e do peito comprimido,
que levarei marcada pra sempre entre meus olhos nus,
testemunhas pulsantes do vazio.

Um dia te deixarei, cidade,
para nunca mais voltar.
Estou correndo para o chão-húmus-ventre
de onde saí, filha das entranhas,
de um chão-mãe que me acolhe,
que me envolve,
e que me faz adormecer
com a mente povoada de sons,
de cores múltiplas-misturadas e
sonhos tranquilos banhados de sol e mar.

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O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros

July 15th, 2007 by jana

Estava eu a vagar pela net, quando me deparei com o artigo de um senhor chamado José Maria e Silva, que assinava uma reportagem para o Jornal Opção, um jornal de Goiânia. O título do artigo deste senhor era “Movimento gay: a ditadura da depravação”. Eu acredito que o direito de expressão deve ser preservado, contanto que não venha ferir o direito do outro de viver. O artigo inicialmente visava fazer uma crítica a uma nota de jornal assinada pelo jornalista Liorcino Mendes Pereira Filho, presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Goiás, que convidava o público a conhecer o cine Gay Astor, que contava com dark room e que era também voltado para o sexo grupal. Inicialmente a proposta do jornalista José Maria era a de atacar o fato da nota ter sido publicada em um jornal de circulação e de que crianças teriam acesso ao que ele chamou de “apologia ao sexo grupal”. Ok, seu José. O artigo é extenso, então me reportarei ao mesmo aos poucos. A minha questão inicial é a seguinte: as novelas, exibidas em horário comercial, estão repletas de cena de sexo e de nudez, filmes são exibidos às 22 horas e não são poucos que também exibem cenas de sexo, então o que mais causaria preocupação? Uma nota que sai no jornal ou a novela que é exibida diariamente e que mostra casais em pleno ato sexual na telinha? O que tem mais projeção nacional? O artigo do supracitado senhor traz as respostas aos poucos. A preocupação do mesmo na verdade não estava associada ao cuidado com a mente virginal das crianças. O texto inteiro é uma sucessão de generalizações e ele prega abertamente sua homofobia e faz um convite aos leitores à intolerância. O problema não é a propaganda convocando a população para conhecer o Cine Gay Astor, o problema é se tratar de uma propaganda voltada para o público homossexual e é isso que mexeu com nosso caro jornalista.

Prosseguindo com o artigo, em um dado momento este senhor fala que “nas telenovelas e no discurso oficial do movimento gay, os casais homossexuais formam uma espécie de Sagrada Família do mesmo sexo. Para induzir a sociedade a aceitar a adoção de crianças por casais gays, a mídia vende a idéia de que os casais homossexuais vivem mais harmoniosamente do que os casais normais”. Opa, seu José, em que momento um casal homossexual não é normal? Ele não paga seus impostos, trabalha, vai ao mercado, limpa a casa, descansa no fim de semana? O que faz um casal heterossexual ser normal e um casal homossexual não ser? Eu não acredito que os casais homossexuais vivam mais harmoniosamente que um casal hetero, mas eles têm as mesmas condições de criarem uma família e inclusive de cuidar de uma criança. As novelas obviamente romantizam tudo, não aprofundam questões, pois estão mais voltadas, neste caso, à tentativa de conquistar um público consumidor que antes não era alcançado. As novelas tratam qualquer questão superficialmente, mas a questão de um casal homossexual ter o direito e a capacidade de criar uma criança e de constituir família é a mesma de um casal hetero.

Mais para a frente, o ilustre senhor continua o seu rosário de bobagens, criticando a Parada Gay e nos presenteia com a seguinte afirmação: “Sem contar as bolsas de pesquisas distribuídas pelas universidades públicas para os “estudos de gênero”, que quase sempre não passam de apologia da depravação gay”. Acredito que a Parada Gay é um momento importante para lembrar que há uma parcela da população que existe, que precisa ser respeitada como igual e que precisa de espaço. Durante a maior parte do ano, os homossexuais não raras às vezes precisam viver nos bastidores, ocultando suas vidas, por medo de retaliações e seria muito bobo afirmar que estas não existem. O momento da Parada é um momento de tentativa de diálogo e de mostrar que eles existem e precisam sim de espaço. Mas, o senhor José Maria, em um tom reducionista classifica tudo como depravação e apela para termos como “moral”, “decência”, como se estes conceitos fossem fechados e imutáveis. A moral e a decência são conceitos criados pelo homem e ele sabe muito bem se apropriar deles quando lhe é oportuno. Pessoas que se julgam no direito de apontar o que é moral e o que é decente, quase nunca reconhece a imoralidade ou a indecência de alguns de seus atos. O caminho mais fácil para se construir um discurso generalizante e exaltado como deste senhor é apelar para o senso comum, que já convencionou que homossexualidade rima com promiscuidade.

Depois, para fechar com chave de ouro, que para mim mais cabe como de latão, o senhor traz a Igreja para o centro das discussões. Ele toca no ponto da tentativa de criação da Lei Anti-homofobia, que punirá casos explícitos de homofobia, que serão julgados pela lei como crime, assim como os crimes de racismo. Acho que por artigos como deste jornalista, que usa um veículo formador de opinião para tentar catequizar a população a pregar a intolerância, que tal lei deveria sim ser votada e aprovada. Para evitar também que as pessoas sejam expulsas de locais públicos por tentarem viver normalmente suas vidas, sem que atos como este fiquem impunes. A questão não é gerar um mal estar, mas sim tentar educar as pessoas para algo de suma importância para que uma sociedade funcione: você não precisa concordar com algo para respeitá-lo. Você não precisa aceitar a homossexualidade (ninguém te obriga a isso), mas você precisa e deve respeitar o espaço destas pessoas e acima de tudo estas pessoas. A Igreja, sustentada por séculos pela fé do homem, não deveria servir para ditar regras ou estabelecer o que é bom e o que é mau. Maniqueísmo é reducionismo. Em vez de ficar classificando o que é normal, o que é pecado, a Igreja deveria servir de suporte aos que acreditam nela, um lugar de paz e de acolhimento, afinal, como dizem os crentes na figura divina de Deus, nós somos iguais diante de seus olhos. É uma pena que o discurso morra como discurso e as ações sejam tão contrárias e contraditórias.

Escrevi este texto por repúdio ao texto deste senhor. Como eu mesma disse no título do texto: O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros. O supracitado jornalista é um exemplar que ilustra bem o título deste post. Ele falou tanto em perseguição religiosa e eu cá me pergunto o seguinte… Será que não é ele que está incitando uma perseguição em nome de um ideal? O que ele quer? Uma utopia mundial heterossexual-cristã? Há lugar pra todos, meu senhor, basta apenas nos ajeitarmos que dá, viu? Ou mais uma vez estaremos contribuindo para a tradição de uma história construída por apagamentos, silenciamento e exclusão.

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Paredes e pulso

July 2nd, 2007 by jana

Consagro meus instantes
como quem tem sede profunda
e bebe os minutos em grandes goles,
esperando que assim
seja saciado o desejo pela plenitude,
e que ele demore mais ainda para se renovar.
Desejar hoje dói.

Diga se há angústia maior
que descobrir-se feliz
depois que o tempo há muito passou
e dele só restou
a lembrança viva de dias solares e despreocupados,
em que crescer significava poder ver filmes adultos
e chegar depois das seis,
com os pés cansados,
com o corpo fatigado,
esperando do dia apenas um banho
e uma cama de cheiro bom.
Crescer hoje dói.

Chego depois das seis,
com a cabeça pesada,
esperando resgatar projetos velhos
e ganhar energia para executá-los sem medo.
Chego e as paredes me recebem
como todas as paredes recebem corpos cansados,
frias e indiferentes,
mas ao menos elas não esperam
que eu reaja
quando no momento as energias moram longe de mim.
Mover-me hoje dói.

Baby, me perdi em meus projetos,
me perdi em meio às minhas projeções,
e agora sento e te espero
para sugar cada gole de calor que você me dá,
para beber os instantes que passo ao teu lado,
a esquentar meu corpo para mais um dia frio de junho,
que se impõe como as horas,
certeiras e não declinantes.
Esperar hoje dói.

Queria andar de bicicleta,
sem as rodinhas, sabe?
Mas algo me puxa para o chão
e lá eu permaneço rente ao solo frio,
esperando que ele por si me aqueça.
Quero apenas um impulso, entenda,
coragem para me arranhar,
para cortar meus joelhos e ver meu sangue,
para que eu lembre que este pulso
não canta para o nada,
que este coração ainda bate
não por costume,
mas para me fazer recordar
de que ainda há vida entre minhas carnes.
Viver, baby, às vezes dói.

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Saudade, ê

June 25th, 2007 by jana

Saudade é descobrir que aquilo
que era dia-a-dia,
prato simples e farinha,
roupa de casa e chinelos,
é tão brilhante como punhados de ouro,
a reluzir e encher os olhos.
E meus olhos estão cheios agora
de água limpa,
peito transbordando lembranças,
vontade de ficar,
mas impulsionada pelo ter que ir.

Saudade é tocar quem se ama
e sentir que o corpo quer se demorar
no abraço aconchegante,
cama e rede,
café quente e aromas.
Meu olfato limitado
pesca do ar os cheiros dos corpos amados,
que se misturam em sinfonia,
tocando a canção do até mais.

Dedilho canções nos cabelos prateados da minha velha vó,
e sinto meu pai amparar as lágrimas por dentro.
Minha mãe, a vejo quieta, vermelha como uma maçã de outono,
madura e firme, como os frutos que querem cumprir
a sina de estarem enfeitando o seio das árvores em cada estação.
Do meu irmão levo o olhar e o riso,
e ele diz, com os dentes infantis:
- “Deixe de ser besta, menina,
você volta, ué!”.

Sigo então na minha carruagem de ferro,
sobrevoando as lágrimas todas desembocadas em mar.
Sigo para outros braços,
que também deixei vazios e que agora busco encontrar.
Sigo, com os olhos marejados,
com coração apertado,
pingando saudade pelo caminho,
deixando um rastro para que mais tarde
eu possa novamente voltar.

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Não pare, coração velho

June 20th, 2007 by jana

Para meu pai

Houve um tempo em que a dor
vinha dos dedos apertados nas portas
ou dos arranhões vermelhos dos joelhos.
A dor agora é por dentro,
cavando-remexendo-fazendo-sangrar.
Seu coração bate errado agora, meu velho,
e sabe-se lá como fazê-lo não parar.

Não pare, coração velho,
porque ainda sou menina,
e preciso deste relógio vermelho,
marcando meu tempo
e me fazendo ver que cresço por fora,
mas permaneço criança por dentro.

Você e esses olhos que riem,
você e o jeito que brinca com os bichanos peludos,
me fazem perguntar insistentemente
por que este coração velho agora quer enganchar
na marcação repetitiva do ciclo de nossas vidas.

Não pare, coração velho,
deixe de lado a preguiça,
porque meu velho nos bombeia vida
e sem ele sei que vamos parar.

Enquanto tento te convencer
de que há ainda muito sangue a percorrer a viela das veias,
encosto meu ouvido perto do seu peito,
fecho os olhos e fico a imaginar
que sou aquela menina pequenina,
a ouvir a canção forte
de um coração-pai a celebrar uma nova vida,
pequena-frágil que acabara de chegar.

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Medos

June 13th, 2007 by jana

(Ao som de Emotion in motion do Rick Ocasek)

Não tinha mais medo do escuro
desde que conheci a suavidade dos teus olhos negros.
Com eles aprendi a caminhar sem tatear paredes,
pés firmes-ombros distensos,
seguia segura assim em frente.

Mas tudo que é arrancado de um solo fértil,
mente-húmus-chão de vida,
deixa lugar para florescer novamente
não o mesmo, mas algo sim diferente.
Os medos antigos voam longe,
os novos aparecem rentes.

Viro menina das menores
feita de vidro e fragilidades.
Você me desconhece.
Onde está a mulher?
- Escondida debaixo da cama,
esperando os sufocamentos passarem.

Você perde a paciência,
a voz quente esfria,
e os medos aumentam
como erva ruim a destruir o colorido
daquilo que plantamos em perfume.

Os olhos dos outros também estranham.
- Logo você… Tão forte…
Carne, sou feita de carne.
Nervos, também sou feita deles.
Tenho medo das agulhas
e agora todas elas me atravessam.
Sejam aquelas que não encaro,
sejam estes seus olhos-lança.

Voltei a ter medo do escuro,
liguei todas as luzes,
me encolhi embaixo de camadas de pensamentos soltos,
e assim dormirei esta noite,
porque seus olhos negros-firmes
voltaram-se para outro lado
e eu que caminhe sozinha novamente.

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Memoriando ou à espera dos olhos nus

June 7th, 2007 by jana

Minha velha casa tem cheiro de saudade madura,
daquelas que escorrem néctar
e marcam a pele com a lava adocicada
das lembranças pueris
e do eco dos risos antigos,
colhidos dos sons aprisionados na memória.

Meu corpo não cabe mais no colo de minha mãe
e meu pai já não conta tantas histórias.
Fui embora e não vi o mamoeiro morrer na faca,
por ter sido comido pelos bichos,
assim como as minhas lembranças,
que se perdem sem que eu perceba sua falta.

Lembranças que se amontoam desordenadamente pelos cantos,
misturando-se às novas e envelhecendo silenciosas
até serem pulverizadas como as estrelas,
com a chegada, mais tarde, da idade dos olhos nus.

Minha velha vó ganhou estes olhos,
parados-distantes-vazios,
e agora chora a morte velha dos pais,
que se foram quando eu nem era menina.

A cabeça tem dessas armadilhas dolorosas:
esconde as dores nos cantos escuros
e de repente resolve levantar pó e
pôr as feridas para serem arejadas pelo ar e sol,
transformando o que era antigo em chagas vermelhas,
a sangrarem dor a todo momento.

Chore, minha velha, chore,
chore a lembrança antiga-antes-perdida,
deixe escorrer novamente toda a dor superada
e agora, canção arranhada,
riscando a pele em ritmo contínuo.

Chore que eu estou por perto agora,
passageira-forasteira eu sei,
mas é hora de partilhar memórias,
e eu colho cada uma como quem colhe frutos ainda verdes,
e abafam nos cantos
para tê-los maduros mais tarde,
quando a hora da saudade tocar.

E quando esta hora chegar,
trazendo cheiros-sons-imagens,
revivendo e somando o ontem ao hoje,
eu assistirei silenciosa os estilhaços de meu passado
serem projetados como slides coloridos,
até o dia em que meus olhos ficarão nus
e a alegria e as dores renascerão em cores fortes,
me dando vidas pararelas,
vidas estas que já vivi e
que moram escondidas por detrás de minhas retinas escuras.

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Peço desculpas aos preconceituosos, mas respeito é fundamental

June 1st, 2007 by jana

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(Jana Calaça by Carol Custódio)

Pela primeira vez, em anos, resolvi postar um texto diferente em relação ao conteúdo do meu blog. Sempre utilizei o antes Noturnando (meu antigo blog) e o agora Casa de Burlesco como oficina literária, onde publico meus contos, poemas e crônicas. Hoje, no entanto, resolvi fazer diferente. Resolvi me despir dos personagens e dos eus-líricos e falar um pouco sobre um assunto sem metáforas ou eufemismos, nem canção dramática ou arroubos de vitimização, porque essa nunca foi a minha praia.

Geralmente nos preocupamos com manifestações de preconceito, quando estas nos atingem, o que é um comportamento errôneo, já que assim como nos sentimos agredidos com os conceitos pré-concebidos dos outros em relação a nós, temos também que exercitar constantemente o bom senso. Será que não andamos por aí apontando o que nos é diferente como algo a ser julgado e condenado? Será que não exercitamos no automático nossa intolerância com piadas, riso e dedos apontados? Não estou me colocando como alguém que não possui preconceitos, mas como alguém que está passando por um momento de releitura destes conceitos cristalizados e que também lida diariamente com o preconceito do outro.

Sempre fui uma pessoa gorda. Fui uma criança, uma adolescente e agora uma adulta gorda. Durante toda minha vida lidei com o fato de não pertencer a um padrão estético vigente e desde menina lido com olhares, piadinhas e até mesmo com agressões verbais. Experimentei diversas fases, que migraram da completa alienação, ou seja, eu tentava fingir que não sofria nenhuma agressão até a fase da reação estúpida, ou seja, comecei a responder a altura, sem que isso me ajudasse em nada a lidar com o turbilhão de sentimentos negativos que me atravessavam. Tenho uma coleção de histórias guardadas em mim ao longo dos anos, que seriam suficientes para preencher páginas e páginas virtuais de um blog voltado para o assunto, mas vou falar apenas da sensação estranha que tive depois de passar meses longe de minha terra natal: Salvador. Moro atualmente em São Paulo, onde vivo com meu marido, Fábio, igualmente gordo e que também sofre com os mesmos olhares tisc tisc como eu e como qualquer gordo que resolva ter uma vida normal, sem assumir aquele discurso de que “estou renunciando à minha vida porque os outros acham que eu devo”.

Esta semana, um dia depois da minha chegada à Salvador, resolvi marcar um almoço com minha amiga de anos, Andrea. Resolvemos nos encontrar no shopping Barra, localizado próximo à orla. Andrea e eu temos um fenótipo parecido e ela, assim como eu, também é gorda. Uma dupla de amigas gordas passeando no shopping chama atenção. Mas por que chama tanto a atenção? Será que é porque somos visíveis demais ou porque já foi convencionado que não temos direito de passear livremente por um shopping, de conversar como qualquer dupla de amigas, que não se vêem há muito tempo, ou seja, de que não temos direito de partilhar o mesmo lugar das “pessoas comuns” e de vivermos nossas vidas?

Vou pontuar exatamente os incidentes desta tarde fatídica, até mesmo para ver se neste processo de catarse, eu me livro desta sensação chata com que estou lidando agora. Tudo começou quando resolvemos escolher um lugar para almoçar. Escolhemos comer comida árabe, não fast-food, como o clichê usual apontaria para nós. Enquanto Andrea pagava pelo prato, eu me dirigia à mesa, quando ouvi uma mulher resmungar para a amiga. “Os elefantes vieram pastar na praça de alimentação”. Não comentei nada com Dea, porque não queria estragar aquele início de tarde, planejado para batermos papo. Almoçamos. Quando me dirigia para o banco, para consultar o saldo da conta, passamos pela frente de um stand de venda de equipamentos de academia. O vendedor conversava com o vigia, quando nos viu e, achando que eu não enxergava seus movimentos e que eu não ouvia suas palavras, começou a rir para nós e nos apontar, completando o quadro com um maravilhoso “que ridículas!”. Minha tarde mal começava e eu já começava a perder a paciência, que eu tento preservar a duras penas. Virei para o rapaz e perguntei qual era o problema. Ele, pego de surpresa, recolheu o riso e me perguntou qual era o problema de olhar para trás e se agora era proibido. Eu disse que não, mas que eu não via motivos para risos centrados unicamente em minha pessoa e na de Andrea.

A tarde não acabou, como eu gostaria. Ainda passamos por mais duas experiências infelizes. Uma com uma dupla de adolescentes, acompanhadas por um pai, não muito preocupado com a educação de uma das meninas, que era sua filha. Novamente o riso e os dedos apontados. Eu firmei o olhar e elas riam e me olhavam com o rabo de olho, como se eu não percebesse nada. Quando perdi toda a minha paciência, resolvi ir embora pra casa. Na saída, quando me dirigia ao ponto de ônibus, um homem, igualmente gordo, soltou a seguinte pérola: “Vocês estão precisando de um regime, hein?”. Saliento que o homem era igualmente gordo, até mais pesado do que eu, mas mesmo assim, ele soltou a piadinha.

Não vou me estender em mais histórias, porque todas versam sobre o mesmo assunto: intolerância em relação às diferenças e preconceito. O que estou percebendo é que, mesmo com tantas campanhas em relação ao respeito às diferenças, a intolerância persiste e agora me parece muito mais forte e com um timbre de voz muito mais alto. Um lugar, por exemplo, voltado inicialmente para tecer teias de amizade e de outras formas de relacionamento, como o Orkut, se tornou um reduto de comunidades cuja intolerância em relação à diferença é a bola da vez. Perfis de pessoas são expostos nas comunidades, para que os membros sacaneiem. Quando as pessoas não são sacaneadas in off nas comunidades, têm seus perfis invadidos por uma onda de recados, que vão desde xingamentos até coisas do tipo “você merece morrer” ou “se mate”. A agressividade agora circula solta e sem limites e o Orkut, como uma comunidade virtual, é apenas reflexo da sociedade a qual pertencemos, que cada vez mais prega a negação da diferença e a massificação de padrões estabelecidos e estupidamente disseminados. Sou contra um discurso reacionário, ou seja, de negar por exemplo quem é magro por eu ser gorda, pois isso é devolver o preconceito na mesma moeda, sem que ele seja diluído. Sempre fui contra à reação boba de grupos atingidos pelo preconceito, seja ele qual for, que usem da negação a arma para se protegerem. Não adianta condenar o magro, sendo você gordo, ou o heterossexual, você sendo homo e aí por diante. Essa inversão de discursos só leva a mais intolerância e violência.

Postei este desabafo, não por acreditar que a partir dele as coisas possam mudar, mas para me lembrar sempre, ao abrir meu blog, que antes de desenvolver conceitos em relação ao outro, eu tenho que me lembrar dos pontos em que sou atingida. Tenho tentado, desde há algum tempo, respeitar a diferença, porque é esse o princípio maior do indíviduo: somos únicos e devemos ser respeitados em nossas singularidades. Sou uma pessoa normal, que sempre estudou, trabalhou, passeou, fez amigos, teve amores, que tem uma nova família a construir e que luta todos os dias para se desvencilhar de clichês atribuídos por conceitos generalizantes, que já convencionaram que o gordo é incapaz, é glutão, é lento, é bobo e que não tem direito a uma vida normal. Por isso, peço desculpas aos preconceituosos, mas respeito é fundamental. Não preciso de compaixão, nem de hipocrisia, apenas quero poder viver minha vida, sem ser agredida por olhares, risos e piadinhas, que só escondem, neste processo de apontar no outro a diferença, as próprias limitações e inseguranças. Ou seja, se você anda por aí criticando demais o outro, o que será que está por trás disso?

Quer ler mais sobre o assunto? Sugiro ler o artigo publicado no Jornal da Facom sobre gordinhos, de autoria da Vanessa Barbosa.

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