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Contas baratas

April 1st, 2008 by jana

Adorno meu colo com contas baratas,
roubadas graciosamente das coisas de minha mãe.
São contas baratas, de brilho falso, colorido intenso,
mas trago enfeitando a carne como lembrança
deste retorno à terra que me fez de filha
e que me recebe novamente como estrangeira,
cega dos olhos diante dos dias cinzas,
enchergando nesta volta apenas o brilho.

Meus olhos ganham a umidade fértil do mar diante de mim,
é lindo ver a imensidão se derramar no limite de minha visão falha,
diante de minha existência frágil,
do meu hoje ignorando sempre o amanhã.
Voltar à minha terra é como caminhar atrasando os relógios,
deixando a correria virar pó
e as lembranças darem as mãos,
como as contas coloridas reunidas em minha nuca.

Tudo é tão velho e novo,
tão novo e ao mesmo tempo familiar,
é como conhecer o que já se sabe em sonho,
é como um dejávu, que te surpreende sempre atrás de respostas.
Voltar sempre atiça minhas lembranças
e também me faz ver que o tempo não desacelerou por minha ausência.
Tudo continuou e meus olhos não acompanharam.

Meu pai continua a brincar de manhã cedo com os macacos,
minha mãe corre sempre quebrando a lentidão-clichê dos que olham de fora,
meu irmão ganha olhos mais profundos e crescidos a cada dia.
E para eles estou diferente, mesmo sabendo que mudo constantemente,
sinto-me igual a todos os dias,
meio criança-antiga buscando o mundo-limite do velho quarto
como refúgio, como toca, como fonte onde beber a vida.

Entre as roupas amarrotadas na mochila,
deslocamento meu tecido de pano,
lá está meu travesseiro velho e as contas coloridas que guardei junto.
É como levar da praia as conchas, para lembrar do seu som
ao colocá-las perto dos ouvidos.
Trago esses objetos sem valor diante do mundo,
riqueza minha, brilho e cheiro que me acolhem.
E é neste travesseiro roto onde deito minha cabeça todas as noites
e são essas contas que adornam meu peito,
que me trazem a sensação de um abraço distante,
de um colo que me recebe a cada retorno,
de um afago que busco em minhas viagens de volta.

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Matéria-prima

February 22nd, 2008 by jana

Descubro-me filha da combinação das palavras
e não da junção aflita de duas carnes.
Não importa à rotina a história do ventre que me abrigou,
o que conta é aquilo que é dito
e digerido como verdade, como história linear.

A palavra antecede
desde o sabor sentido na língua
à aspereza firme e fria do chão durante a queda.
A palavra antecede o azul profundo deste mar que não vejo
e me antecede ao mundo
como cartão de visita desbotado e ultrapassado.

O conforto mora nas definições,
nas certezas feitas de tecido frágil e finito.
Sou feita de transição,
sou rio e chuva,
que passa, segue seu curso e desvia-se.
As palavras são estes recipientes vítreos decorados,
que me oferecem na intenção fria
de conhecerem o início e fim das minhas águas.

Enquanto buscam palavras para definir aquilo que é gerundismo,
meu corpo segue sendo e vivendo
aquilo que escolhe ser e viver.
Minha única bússola é o desejo,
que tanto faz chamar-se desejo ou não,
é o estímulo primeiro, o que faz meu corpo ser movimento.
As palavras… Guardo-as para o meu mundo falho,
o sentir eu lanço na carne como guia,
e sigo livre no bater frenético dos meus olhos
nus de palavras e de suas definições.

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Chuva

February 14th, 2008 by jana

Como a chuva que se derrama pela cidade
e nunca retornará novamente como a mesma chuva,
assim sou eu, que me derramo pelos dias,
construindo meu passado,
vendo o agora ser notícia de ontem
logo quando me distraio a pensar demais
no que vem depois.

Como a chuva que se derrama pelas calçadas,
também sou movimento que um dia cessará,
mas enquanto isso transbordo até o limite,
sou excessiva,
busco vida em cada fresta que se abre,
em cada corpo que se faz de concreto
e dureza aparente.

Sou oblíqua como estas gotas que caem surrando minha janela,
minha retidão é apenas aparente,
mas sigo sempre direções contrárias àquelas
que esperam de mim.
Eu dou a direção das minhas águas,
eu escolho onde desembocar.

Não tente me aprisionar no limite das suas mãos em concha,
conceba-me como este rio vertical que só quer correr livre.
Então beba de mim, sacie-se,
carregue no seu sangue um pouco de minhas águas,
mas não queira ser as margens que limitam os meus braços.
Pois sou esta chuva oblíqua, que molha e acarinha sua carne,
que se faz beber pela sua língua fibrosa,
mas que nem sempre cai vertical,
da mesma forma, na mesma direção.
Sou a chuva que descarta qualquer retidão,
que cai livre e que nunca mais será a chuva
que você vê agora.
Serei sempre uma queda diferente.

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Sou

November 10th, 2007 by jana

Sou apenas por mera burocracia.
Seria complicado demais registrar-me no mundo em multiplicidade.
Então sou por convenção, por facilidade.
Sou indíviduo por necessidade didática de compreensão,
mas descubro-me tantas a cada confronto
com minha imagem duplicada e
com os tantos corpos que atravessam a superfície côncava dos meus olhos.

Posso ser o que quiser no jogo cotidiano da existência,
o que quero ser e aquilo que esperam que eu seja.
Não alimento ilusões quanto a um eu fixo,
uma essência que se descobre com convivência.
Convivo comigo e desconheço minha última camada ou face.
Sei apenas que sou palco vivo,
que caminha apresentando-se como espetáculo,
monólogo ou diálogo,
tragédia ou comédia,
posso chover e ser sol quando me apetece o gosto.

Querem me aprisionar,
moldar atitudes, treinar minhas emoções.
Deixo que a ilusão do controle se faça,
mas por baixo de tudo corro como menina,
sem medo de arranhar mãos e joelhos,
ou sujar as unhas de vida.
O que mais quero é voltar suja pra casa
de tudo aquilo que colho pelo caminho.

Se querem que eu seja uma,
uma serei como exercício de prestidigitação.
Não há mágica maior que crescer
e viver entre a sisudez convencional da rotina dos adultos.
Mas por dentro sou menina,
que sabe caminhar por muitos mundos,
sem medo de ser arrastada e vestida com camisas brancas.
As crianças sabem ser múltiplas e
ninguém lhes questiona aparente esquizofrenia.

Seria mais fácil substituir sujeito,
deixar de ser eu, passar a ser nós.
Eu e minhas tantas faces.
Sou apenas um corpo,
mas o que me define são minhas personagens.
Somos o melhor e o pior.
Você me vê e me transforma naquilo que seus olhos ditam.

Sou um oceano,
que se veste de horizonte límpido,
mas esconde por dentro tanta vida em formas diferentes.
Mergulhe em mim,
migre entre minha superfície e meus abissais,
mas não espere que haja um fim ao tocar o fundo,
há camadas e camadas escondidas por baixo.
O nada é enfim minha existência.
Somos… somos sim.
Eu, ela, ele e tudo o que demais me habita.