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Saudade, ê
Saudade é descobrir que aquilo
que era dia-a-dia,
prato simples e farinha,
roupa de casa e chinelos,
é tão brilhante como punhados de ouro,
a reluzir e encher os olhos.
E meus olhos estão cheios agora
de água limpa,
peito transbordando lembranças,
vontade de ficar,
mas impulsionada pelo ter que ir.
Saudade é tocar quem se ama
e sentir que o corpo quer se demorar
no abraço aconchegante,
cama e rede,
café quente e aromas.
Meu olfato limitado
pesca do ar os cheiros dos corpos amados,
que se misturam em sinfonia,
tocando a canção do até mais.
Dedilho canções nos cabelos prateados da minha velha vó,
e sinto meu pai amparar as lágrimas por dentro.
Minha mãe, a vejo quieta, vermelha como uma maçã de outono,
madura e firme, como os frutos que querem cumprir
a sina de estarem enfeitando o seio das árvores em cada estação.
Do meu irmão levo o olhar e o riso,
e ele diz, com os dentes infantis:
- “Deixe de ser besta, menina,
você volta, ué!”.
Sigo então na minha carruagem de ferro,
sobrevoando as lágrimas todas desembocadas em mar.
Sigo para outros braços,
que também deixei vazios e que agora busco encontrar.
Sigo, com os olhos marejados,
com coração apertado,
pingando saudade pelo caminho,
deixando um rastro para que mais tarde
eu possa novamente voltar.
