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Saudade, ê

June 25th, 2007 by jana

Saudade é descobrir que aquilo
que era dia-a-dia,
prato simples e farinha,
roupa de casa e chinelos,
é tão brilhante como punhados de ouro,
a reluzir e encher os olhos.
E meus olhos estão cheios agora
de água limpa,
peito transbordando lembranças,
vontade de ficar,
mas impulsionada pelo ter que ir.

Saudade é tocar quem se ama
e sentir que o corpo quer se demorar
no abraço aconchegante,
cama e rede,
café quente e aromas.
Meu olfato limitado
pesca do ar os cheiros dos corpos amados,
que se misturam em sinfonia,
tocando a canção do até mais.

Dedilho canções nos cabelos prateados da minha velha vó,
e sinto meu pai amparar as lágrimas por dentro.
Minha mãe, a vejo quieta, vermelha como uma maçã de outono,
madura e firme, como os frutos que querem cumprir
a sina de estarem enfeitando o seio das árvores em cada estação.
Do meu irmão levo o olhar e o riso,
e ele diz, com os dentes infantis:
- “Deixe de ser besta, menina,
você volta, ué!”.

Sigo então na minha carruagem de ferro,
sobrevoando as lágrimas todas desembocadas em mar.
Sigo para outros braços,
que também deixei vazios e que agora busco encontrar.
Sigo, com os olhos marejados,
com coração apertado,
pingando saudade pelo caminho,
deixando um rastro para que mais tarde
eu possa novamente voltar.

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Não pare, coração velho

June 20th, 2007 by jana

Para meu pai

Houve um tempo em que a dor
vinha dos dedos apertados nas portas
ou dos arranhões vermelhos dos joelhos.
A dor agora é por dentro,
cavando-remexendo-fazendo-sangrar.
Seu coração bate errado agora, meu velho,
e sabe-se lá como fazê-lo não parar.

Não pare, coração velho,
porque ainda sou menina,
e preciso deste relógio vermelho,
marcando meu tempo
e me fazendo ver que cresço por fora,
mas permaneço criança por dentro.

Você e esses olhos que riem,
você e o jeito que brinca com os bichanos peludos,
me fazem perguntar insistentemente
por que este coração velho agora quer enganchar
na marcação repetitiva do ciclo de nossas vidas.

Não pare, coração velho,
deixe de lado a preguiça,
porque meu velho nos bombeia vida
e sem ele sei que vamos parar.

Enquanto tento te convencer
de que há ainda muito sangue a percorrer a viela das veias,
encosto meu ouvido perto do seu peito,
fecho os olhos e fico a imaginar
que sou aquela menina pequenina,
a ouvir a canção forte
de um coração-pai a celebrar uma nova vida,
pequena-frágil que acabara de chegar.

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Medos

June 13th, 2007 by jana

(Ao som de Emotion in motion do Rick Ocasek)

Não tinha mais medo do escuro
desde que conheci a suavidade dos teus olhos negros.
Com eles aprendi a caminhar sem tatear paredes,
pés firmes-ombros distensos,
seguia segura assim em frente.

Mas tudo que é arrancado de um solo fértil,
mente-húmus-chão de vida,
deixa lugar para florescer novamente
não o mesmo, mas algo sim diferente.
Os medos antigos voam longe,
os novos aparecem rentes.

Viro menina das menores
feita de vidro e fragilidades.
Você me desconhece.
Onde está a mulher?
- Escondida debaixo da cama,
esperando os sufocamentos passarem.

Você perde a paciência,
a voz quente esfria,
e os medos aumentam
como erva ruim a destruir o colorido
daquilo que plantamos em perfume.

Os olhos dos outros também estranham.
- Logo você… Tão forte…
Carne, sou feita de carne.
Nervos, também sou feita deles.
Tenho medo das agulhas
e agora todas elas me atravessam.
Sejam aquelas que não encaro,
sejam estes seus olhos-lança.

Voltei a ter medo do escuro,
liguei todas as luzes,
me encolhi embaixo de camadas de pensamentos soltos,
e assim dormirei esta noite,
porque seus olhos negros-firmes
voltaram-se para outro lado
e eu que caminhe sozinha novamente.

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Memoriando ou à espera dos olhos nus

June 7th, 2007 by jana

Minha velha casa tem cheiro de saudade madura,
daquelas que escorrem néctar
e marcam a pele com a lava adocicada
das lembranças pueris
e do eco dos risos antigos,
colhidos dos sons aprisionados na memória.

Meu corpo não cabe mais no colo de minha mãe
e meu pai já não conta tantas histórias.
Fui embora e não vi o mamoeiro morrer na faca,
por ter sido comido pelos bichos,
assim como as minhas lembranças,
que se perdem sem que eu perceba sua falta.

Lembranças que se amontoam desordenadamente pelos cantos,
misturando-se às novas e envelhecendo silenciosas
até serem pulverizadas como as estrelas,
com a chegada, mais tarde, da idade dos olhos nus.

Minha velha vó ganhou estes olhos,
parados-distantes-vazios,
e agora chora a morte velha dos pais,
que se foram quando eu nem era menina.

A cabeça tem dessas armadilhas dolorosas:
esconde as dores nos cantos escuros
e de repente resolve levantar pó e
pôr as feridas para serem arejadas pelo ar e sol,
transformando o que era antigo em chagas vermelhas,
a sangrarem dor a todo momento.

Chore, minha velha, chore,
chore a lembrança antiga-antes-perdida,
deixe escorrer novamente toda a dor superada
e agora, canção arranhada,
riscando a pele em ritmo contínuo.

Chore que eu estou por perto agora,
passageira-forasteira eu sei,
mas é hora de partilhar memórias,
e eu colho cada uma como quem colhe frutos ainda verdes,
e abafam nos cantos
para tê-los maduros mais tarde,
quando a hora da saudade tocar.

E quando esta hora chegar,
trazendo cheiros-sons-imagens,
revivendo e somando o ontem ao hoje,
eu assistirei silenciosa os estilhaços de meu passado
serem projetados como slides coloridos,
até o dia em que meus olhos ficarão nus
e a alegria e as dores renascerão em cores fortes,
me dando vidas pararelas,
vidas estas que já vivi e
que moram escondidas por detrás de minhas retinas escuras.

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Duas margens

May 29th, 2007 by jana

Para Lika

Meu corpo é este rio que você vê
a tocar duas margens
sem pertencer a nenhuma.
Não é fora de mim que a travessia é ação,
mas dentro,
entre as raízes arrancadas
e as novas que tento fincar ao chão.

Meu chão é movediço,
daqueles em que não se consegue deixar pegadas.
Sem meus rastros,
sem as migalhas deixadas no solo como orientação,
eu atravesso espaços à procura da mesma certeza feliz,
que mora nos meus olhos antigos,
mantidos vivos nas fotografias de infância.

Em minha antiga casa agora sou visitante,
em minha nova terra serei sempre estrangeira.
Sou recebida com a panela fumegante da comida caseira,
por braços que me enlaçam
a tentar suprimir as distâncias.
E agora ir embora partilha duas dores:
a de deixar a nova casa em que sou forasteira
e deixar as paredes que me viram crescer.

Flutuo como quem jamais teve pés em terra firme,
sou aquela que caminha por uma estrada
com dois pontos de parada,
sabendo que o corpo nunca descansará em nenhum.

Sou o próprio movimento
e a minha incansável travessia.
Trago nos pés a poeira da saudade
e vivo como todos os rios,
a tocar duas margens
sem pertencer a nenhuma.

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Réquiem para as rosas

May 14th, 2007 by jana

Tive que jogar no lixo, meu bem,
as flores que você me deu de presente,
como gesto de amor e cuidado,
como demonstração de paixão viva
e de planos em dia para anos mais tarde.

Tive que misturar as pétalas antes vermelhas,
hoje entre o roxo e o preto,
aos restos do almoço de domingo
molhados pela chuva de segunda,
que se deitou obscena no limite do cesto.

Lembro daquelas flores vermelhas,
esmagadas entre meus seios maduros,
misturando seu perfume ao meu,
dividindo comigo a textura macia
daquelas pétalas novas-recém-colhidas.

Tenho com a vida uma relação de impasse,
rejeito a beleza das coisas quando sei que irei perdê-las.
Desvio olhos, cerro mãos, tranco pernas,
tudo para não doer mais tarde,
quando aquilo que foi dado
for tirado de mim sem avisos,
sem grandes notificações.

Não são apenas as flores, entenda,
são os corpos que me cativaram,
os braços que me acolheram quentes,
os sonhos que um dia eu tive.

As flores que jogo no lixo hoje, meu bem,
é a antecipação de todas as minhas futuras perdas,
que terei que carregar silenciosa,
até o dia em que alguém tenha também que retirar meus espinhos,
desfolhar minhas ramagens secas,
para me deitar, murcha, quieta, sem gritos,
no fundo frio de uma alcova qualquer.

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Drogaria

March 28th, 2007 by jana

(Ao som de Royksopp - What else is there).

Meu riso é como bala de morango,
sabor artificial,
testado em tubos de ensaio,
manipulado, dosado,
indica-contra-indicação.

Meu riso chega em pílulas coloridas,
cápsulas com cor e tamanho,
vendidas sob prescrição,
bula, indicação, uma-vez-ao-dia,
copo-gole-espera-reação.

Meu riso eu tomo em conta-gotas,
misturando gosto amargo e saliva,
esperando um brilho nascido das alterações químicas.

Eu rio e todos riem,
corpos dependentes de frascos e receitas,
dos rabiscos do médico,
da tinta azul-preta de sua caneta.

Somos corpos irradiando cores fabricadas
em laboratórios brancos entre luvas e guarda-pó,
aparando lágrimas com cápsulas abertas,
comprando felicidade em balcões.

E enquanto meus olhos não fecham,
tomo meus pontos coloridos,
para dormir, para as pernas, para o coração,
para o esquecimento, para os lamentos, para a solidão.

Tomo uma por uma,
gota a gota,
engulo tudo e espero,
a noite passar tranqüila,
o dia acordar azul,
e a vida funcionar no automático.

(Publicado em 15 de setembro de 2006 no Noturnando)

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