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Matilde decide viver

January 16th, 2008 by jana

O cenário é um banheiro e várias calcinhas estendidas, afinal o apartamento era pequeno e a área de serviço mal tinha espaço para as roupas maiores. Então o jeito mesmo era armar um varal no não menos apertado banheiro. Em cima do vaso sanitário rosa, ao lado de um bidê igualmente rosa, lá estava Matilde, firme, descabelada, creme rinse em mãos, chão azul abaixo dos pés e olhar perdido nos azulejos.

Na pia, um radinho de pilhas tocava uma daquelas baladas melosas, seguida da narração canastrona de um locutor com voz “sexy”. “Grandessíssimo filho da puta”. Matilde descabelava. Era ano novo e o que restava dele era um creme rinse, cheiro forte, doce e que deixava os cabelos daquele homem empapados.”Grandessíssimo filho de uma puta”. Não adiantou comprar todas aquelas calcinhas para a virada do ano passado. Matilde todos os anos comprava uma calcinha de cada cor: verde (Matilde tinha uma esperança sem igual de que sua vida mudaria na virada), amarelo (dinheiro brotaria da terra, aleluia!), branco (paz, paz na terra, paz mundial, segundo a Miss Universo), rosa (amor), vermelho (paixão) e enquanto existisse cor e calcinhas, Matilde comprava todas para se garantir.

Naquele ano, no entanto, apesar de ter comprado as roupas de baixo antecipadamente, numa liquidação no Centrão, tudo havia dado errado. Perdeu dinheiro, a vizinha do apartamento de cima era uma pentelha, paz não existia nem para as pombas e o amor e a paixão foram embora com aquele homem de bigode estilo Charles Bronson e aquela cabeleira mantida a base de creme rinse. “Calcinhas filhas da puta! Não confio mais minha vida a vocês!”.

Lá estava Matilde no vaso, fazendo dieta cetônica, doida por um doce, alucinada por um chocolate e sem poder comer. O jeito era cheirar o creme rinse pra compensar. “Pobre, sem dinheiro, com vizinha amante do capeta, sem namorado e de dieta. Puta que pariu. Um raio atravesse minha janela e me faça brilhar ao menos!”. Matilde estava desesperada. O que fazer? Dar cabo da vida? Poderia se afogar no bidê. Tamparia o ralo, deixaria encher de água até a tampa e depois colocaria a cara lá e sonharia com peixinhos dançando tango nos corais. Toca La Cumparsita aí, que é o mais clichê! “Para eu me afogar no bidê, precisaria ficar de joelhos, com a bunda pra cima e acho isso tudo muito deprimente. Morrer com a bunda pra cima! Não… Não mesmoooo!”. O ano vai virar daqui a uma hora. Matilde não havia comprado uma calcinha sequer este ano. Apesar do remorso, apesar de querer muito se jogar no balaio, enquanto passava na rua, ela aguentou firme, afinal as malditas haviam virado as costas para ela.

O povo na rua gritava. Matilde fechou a janelinha do banheiro para não ouvir. “A dieta cetônica que vá para os diabos. Vou beber”. Na geladeira, uma garrafa de Sidra. Pegou a garrafa, abriu e voltou para o banheiro. Pegou novamente o tubo de creme rinse descabelada e enrolada em uma toalha com o escudo de time e ajeitou a garrafa de Sidra na outra mão. Bebia um gole, cheirava o creme rinse, bebia um gole, cheirava o creme rinse. “Filho da putaaaaaaa”. Não é preciso dizer que Matilde era uma mulher dramática, que amava enlouquecidamente, que era uma verdadeira protagonista de romances açucarados, daqueles que envolvem um cara rico, uma menina pobre, uma megera, uma trepada, um filho, uma grande merda e um final feliz. “Não passa de hoje! Não passa de hoje! Eu posso também ligar minha chapinha na energia, jogar no bidê e enfiar meu dedo lá. Pronto, eu morro e aquele filho de uma chocadeira vai sentir minha falta! Ingratoooooo… E eu que cozinhava amendoim pra ele comer e tomar com cerveja. Nunca mais cozinho amendoim pra filho da puta algum! Mas também… Deste ano de mierdaaaaaaaaa eu não passo!”.

Os minutos passavam e aquela noite, que era uma das preferidas de Matilde no ano, a noite da virada, a noite de pular ondinhas, poluir o mar com sabonete vagabundo, vestir branco com o bico do peito aparecendo, tomar Sidra quente e comer lentilha fazendo careta, estava sendo um verdadeiro desastre. “É isso… Jogo o creme rinse no chão, depois me jogo, bato a cara no bidê, racho a testa, o sangue escorre e quando ele vier pegar as contas, ele me vê aí estiradinha, durinha, no meio do creme rinse e da vermelhidão toda. Eita que ele vai se comer todinho de desespero, porque vai descobrir que não vive sem minhas coxonas, as coxonas da família Silva.

Matilde estava decidida ao plano de escorregar e meter a cara no bidê. O relógio marcava 11:30. Tinha meia hora pra tudo. Espalhar o creme rinse do ingrato, calcular a distância no olho, pisar certo no rosa e se nada funcionasse, aí sim partiria pra ignorância e usaria o plano B, que era o de jogar a chapinha no bidê. Plano este que só seria usado no caso de nada funcionar, afinal Matilde havia dividido aquela chapinha em 10 x sem juros e era desaforo demais dar cabo de um investimento. Foi aí que ela se posicionou, empinou-se toda e quando ía meter o pé no creme rinse espalhado no chão, ela ouviu o Pum-pum-pum-pá-ti-pum-pum. O povo na rua gritava “Feliz ano novo”. “Mas como assim? Que raios está acontecendo? Falta meia hora, cambada de gente zoadenta! Estão doidos, é?”. Resmungando foi olhar o relógio e ele estava paradão. “Relógio vagabundo! Também quem manda comprar estas pestes no camelô?”. “Já era Matilde! O ano enterrou-se e você ficou pra ver mais um…”. Matilde era do tipo que acredita em sinais. “Xá quieto, Matilde. Vai que o ano vai ser melhor…”. Foi catando as calcinhas no varal, vestiu uma a uma e foi pedindo paz, dinheiro, amor, esperança, paixão. “Este ano não me falhem, calcinhas. Não me falhem! Vocês já são íntima dos meus fundos, portanto não me falhem!”. Depois acabou com a garrafa de Sidra, que já estava quente, se espalhou no creme rinse do antigo namorado derramado no chão e repetiu paz, amor, dinheiro, esperança até dormir. No dia seguinte, ano novo, calcinha velha, garrafa vazia e Matilde acordando com o sol estalando no olho e dizendo “Acorda, Matilde. Decidiu viver então agora se remelexa e não me aporrente mais!!!”

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Delírios de uma quarentona em perigo em “Férias”

October 2nd, 2007 by jana

Serviço público, colegas de trabalho animados todas às sextas-feiras, pilhas de papéis formando uma barreira natural entre eu e a realidade, e só uma vez no ano, durante um mês, permaneço longe de tudo isso. Meu estagiário se movimenta na cadeira, como se houvesse uma reunião de pulgas atacando seu santo traseiro. Uma vez no ano, uma só, me livro desta visão do inferno. Mas vamos ao que interessa: os planos.

Geralmente eu tiro férias em uma época esdrúxula do ano para não ter que enfrentar dois tipos de problemas: os preços, que deveriam ser cobrados apenas a Deus (já que estão em uma altura humanamente impossível para um servidor público alcançar) e a manada de turistas alegrinhos e cheios de disposição. Já disse uma vez que tenho medo dos excessivamente felizes. Duvide deles! Pessoas que sorriem demais ou têm algum problema na arcada dentária ou são bestas. Peguei o carro depois do expediente e fui procurar uma agência de viagens com pacotes em conta. Sou uma mulher só, mãe de uma ex-adolescente antecipada aos 20 anos, que se mudou para outro país por causa de um intercâmbio. Só me resta o controle remoto e um gato, que me procura apenas na hora da comida. Independência maior que essa? Não existe. Pesquisei alguns nomes de agências e lá fui eu com o meu contra-cheque na bolsa para não fugir à minha realidade de funcionária pública.

“Boa tarde…”. “Boa tarde, senhoraaaaaa, sente-se”. Nota mental… Pessoas alegres, efusivas e que falam como atendentes de telemarketing são dignas de desconfiança. “O que a senhora deseja?”. “Eu gostaria de dar uma olhada em alguns pacotes. Pode me mostrar os nacionais e os internacionais, por favor. Os que estejam mais em conta de preferência…”. “Ahhhh, mas podemos facilitar muitooooooooo para a senhora. Dividimos sua viagem em até 36 vezeeeeeeeeees e …”. “Não, entenda, eu só quero algo em conta. Não quero passar minha vida inteira pagando minhas férias. Não é pra tanto…”. “Haroldoooooooo… Traz os panfletos, por favor!”. De dentro de outra salinha aparece o famigerado Haroldo com uma pilha de panfletos. “Aqui está… Vou te explicar detalhadamenteeee cada pacote e…”. Nota mental… Não peça todas as opções… “Veja bem, este pacote aqui é maravilhosooooooooo. A senhora poderá fazer um cruzeiro com todo o conforto e…”. “Pera, filha… Olhe, é o seguinte… Cruzeiros para mim podem parecer maravilhosos nos primeiros quinze minutos, enquanto ainda você não percebeu que passará dias observando a variação dos tons da água. Não, obrigada! Prefiro me deslocar por terra mesmo”. “Ah, então a senhora quer um pacote de viagem com ônibus!”. “Não, não é isso… (AI, MEU PAI!). Eu quero viajar de avião, mas quero ir para algum lugar em que eu possa circular livremente e…”. “Tem certeza que não quer o cruzeiro?”. “Tenho sim, obrigada!”.

Diante de mim, uma atendente animada e um estagiário chamado Haroldo. O que mais posso querer? “Veja só, este pacote é maravilhooooooooso. Muita gente opta por ele nesta época do ano. Há até um grupo fixo, que sempre viaja pela nossa empresa. Gente animada, senhores distintos … Quem sabe a senhora não arranja até um paquera, hein?”. Estava demorando… Estava demorando. Agora ela acha que porque me mostrou uma dezena de panfletos já pode ser minha personal cafetina. Puta que pariu! “Não estou interessada em grandes grupos, querida, quero apenas algo dentro do meu orçamento e que eu tenha privacidade e liberdade de ir e vir. Da última vez que viajei em grupo foi para a Espanha e a experiência não foi das melhores. Duas das minhas acompanhantes gritavam no restaurante para que o garçom entendesse os pedidos delas, até que eu tive que  intervir dizendo que os garçons não eram surdos, só falavam outra língua!”. “Que lamentável…”. “Pois então… Nada de Cruzeiros, cheios de animadores e de bingos, nem grupões… Por favor!”.

O tempo ía passando e minha paciência se esgotava. A grande verdade é que minha paciência anda tão escassa quanto a camada de Ozônio em cima de  nossas  cabeças. Depois de olhar pacotes internacionais e perceber que meu salário, sem reajuste há mais de dez anos, mal daria para cobrir as despesas de uma viagem para a cidade vizinha, eu já perdia as esperanças. “Que tal fazer o Nordestão em 7 noites? É maravilhosooooooooooo”. “Como assim fazer o Nordestão em 7 dias?”. Ah, a senhora passará uma noite em cada estado do Nordeste! Imagine que maravilha!”. “Filha, isso para mim é humanamente impossível. Viajar envolve aproveitar as cidades. Não vou me meter em um pacote que me faça conhecer as dunas de Natal passando de longe no ônibus e comer um acarajé debaixo do ar-condicionado do mesmo ônibus, enfrentando aqueles banheiros minúsculos, que são no mínimo constrangedores. Você deve achar uma experiência transcendental fazer xixi saculejando, com o risco de que sua bunda fique totalmente molhada ou que você tenha traumatismo craniano enquanto estiver tentando levantar as calças e o ônibus acidentalmente passar à louca por um buraco. Ou também você deve achar que vale a pena molhar o dedo no mar de Maceió enquanto o motorista reabastece o ônibus e canta a frentista. Não, obrigada”. Foi aí que comecei a perceber que o tom efusivo e articulado da atendente se perdia. A mulher já mordiscava o fundo do lápis e ela olhava para Haroldo com cara de quem está pagando pecados. “Olha, desculpe, mas não encontrei nada que me agradasse nesta agência…”. Eu já disse e repito… Duvide dos excessivamente felizes. Há uma hora que o fio que divide a sanidade aparente da loucura iminente simplesmente parte. “O queeeeeeeeeeee?”. “Ahn?”. “A senhora me fez mostrar todooooooooos estes pacotes maravilhosos e vai sair daqui sem nenhum? A senhora acha que eu sou o que, hein?. “Olha, não me leve a mal, eu sei que é seu trabalho, mas…”. “Sabe é o carambaaaaaaaa. A senhora não trepaaaaaaaaaa”. Comecei a olhar desesperada para Haroldo. “Calma, moça. Calma…”. Calma, o cacete!!!! A senhora vai escolher uma merda de um pacote nem que eu tenha que deixar umas marcas de unha na sua cara!!!!”. “Haroldo, socorroooooooooo!”. Haroldo chamou o gerente da agência e foi bem na hora que a atendente-super-articulada de penteado impecável já quase ensaiava para aparecer como protagonista mor das páginas policiais. Confusão desfeita, água com açúcar para a garota e o gerente tentando me explicar que ela era novata, que ainda não tinha o traquejo para lidar com certas situações e blá, blá, blá. Resultado: desisti de viajar. O jeito é circular pela cidade e assistir o National Geographic. Uma semana depois passei na frente da agência. A menina ainda estava lá. Haroldo havia sido promovido, eu acho. Olha só como eu mudo a vida dos estagiários? Hahahaha. Vou ali comprar “A volta ao mundo em 80 dias”. Depois de uma certa idade, viciamos em seguros.

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Delírios de uma quarentona em perigo em “A academia”

September 20th, 2007 by jana

Ela havia aposentado os saltos. Sabe como é? O joanete doía. Entrou em uma de naturebalizar a vida. Sim, a nossa diva, protagonista de “Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias” e “Happy Hour“, volta com tudo depois de uma consulta alarmante ao seu médico. Matrícula na academia, fibras em excesso e água suficiente para matar a sede do sertão? Use seu liquidificador mais vagabundo, bata tudo e veja no que deu.

O verão me irrita, é verdade. Meu estagiário acha que é porque estou perto demais da menopausa e longe demais de uma vida sexual ativa. Como se ele andasse conversando com os fundos impecáveis de minhas calcinhas. Ha. Porra de sinal fechado… Não, eu não estou estressada. Não, eu não estou na menopausa segundo a teoria punhetética de meu estagiário. Chega a ser assustador pensar que ele pode ter sonhos eróticos comigo. Não, eu não poderia ser a mãe dele, ok? Enfim, estou me sentindo uma panela de pressão, mas não que eu esteja na forma de uma panela… A verdade é que sempre tive uma propensão absurda a me tornar hipocondríaca. Teve uma época em minha vida que eu acreditava que tomar comprimidos era glamouroso. Sabe, todas aquelas pequenas esferas vermelhas, brancas, amarelas, bicolores se atirando garganta abaixo, me fazia sentir a própria Audrey Hepburn, se bem que infelizmente hoje eu estou mais para uma Marylin Moroe decadente e é por este motivo que o meu médico, aquele médico que te acompanha desde sempre e que infelizmente guarda o segredo da sua idade, que você tanto começa a esconder depois dos trinta, olhou para mim e disse: ” - Errr…”. Eu tenho problemas com reticências, talvez porque eu seja uma pessoa objetiva, dinâmica e toda ponto final e ele, de repente, me olha com aquela cara de quem está diante de um paciente em fase terminal e continua emitindo grunhidos. Algum problema? “Errr…”. Eu não entendo gírias, onomatopéias, línguas do P, então daria para o senhor me informar o que está acontecendo? Eu não sei porque eu resolvi perguntar. Eu ainda me pergunto porque tenho tanta necessidade de entender as coisas. Foi aí que tudo começou. Exatamente neste ponto entre a minha ignorância diante dos grunhidos do meu médico e da tentativa do mesmo de elucidar todas as minhas questões. Eu estou morrendo? Não é isso? Eu sei… Eu seiiiiiii… Eu vinha sentido uns calores, umas tonturas, um inferno dentro de mim… “Calma!”. Calma? O senhor está diante de uma mulher desesperada e ainda me pede calma? “A senhora apenas está estressada e acima do seu peso ideal”. Como é que é? “Isso mesmo. Excesso de cafeína, de trabalho e de peso”. O senhor está dizendo que eu sou uma mulher desequilibrada? “Não, eu estou apenas dizendo que a senhora está com um nível de estresse acima do normal e que está com excesso de peso e precisa encontrar uma forma de resolver ambos os problemas. Dieta mais academia para relaxar”. Como é que é? Dieta… Até aí tudo bem, pois eu conheço várias, mas academia? “Sim, academia”. Academia? “Siimm”. O senhor tem noção do que está me propondo? “Tenho e não vejo motivos para tanto estardalhaço!”. Então, meus caros, foi aí também que eu descobri que o meu estagiário estava parcialmente errado e que eu teria que enfrentar uma academia, com todas as suas esteiras, ferros, mulheres malhadas e homens definidos.

O primeiro passo, depois de sair do consultório médico, foi providenciar todas aquelas comidinhas verdes, chás, adoçantes, coisas integrais, coisas lights e não me embaralhar com alimentos dietéticos. Voltei para casa, descarreguei todas as compras e lembrei, já com carro na garagem e chinelos nos dedos, que havia esquecido da segunda parte, não menos importante, dessa nova vida de mulher diagnosticada como estressada e fora do peso, que faltava dois itens e que, por alguma razão, o meu sistema de autodefesa havia bloqueado na minha mente: a inscrição em uma academia e a compra de uma roupa própria para a nova vida saudável. Houve um tempo em que eu acreditava que hipocondríacos eram glamourosos, mas o tempo passou e acabo de descobrir, no auge das minhas quarenta primaveras, que a moda agora é frequentar academias e comida macrobiótica.

Calcei meu sapato novamente, tirei o carro da garagem e lá se vou eu à procura de uma academia, templo este que nunca ousei pôr os pés. No caminho eu pensava em comprar uma esteira ou uma daquelas bicicletas, mas logo desisti por saber que virariam cabides externos de luxo. A figura irônica do meu médico me assustava e eu precisava provar a ele que eu podia sim me tornar uma mulher equilibrada e saudável novamente. Era uma questão de vida, morte ou decadência. Parei em uma dessas academias de bairro e devo ter levado alguns bons minutos lutando contra meu superego que me mandava entrar e achando que meu ID estava certo em me fazer pular na jugular de meu médico e com ele fora de circulação, eu dormiria em paz novamente, mas meu superego venceu e eu acabei entrando na academia.

Espelhos por todos os lados, ferros, ferros, ferros, esteiras, ferros, bicicletas, ferros e um professor a me acenar com a cabeça. “O que deseja?”. Errr… “Sim???”. Eu vim fazer a inscrição na academia - sussurrei. “Como?”. Inscrição! Eu vim me matricular. “Ah, sim! Me acompanhe, por favor!”. Fichas, fichas, altura, idade (ai, meu deus), peso, problemas cardíacos??? Depois de preencher uma ficha que mais parecia o protocolo de entrada direta para o inferno, ele me deu uma carteirinha e as sugestões de horário. Peguei tudo aquilo e voei para o shopping mais perto para procurar uma malha que coubesse em mim. Obviamente as malhas mais discretas não existiam no meu número, então tive que me contentar com uma bermuda rosa shocking e um blusão que me engolia. Tênis, meia e cara de pau, lustrada com o melhor dos óleos de Peroba. Eu estava pronta.

Era o meu primeiro dia de dieta e de malhação, e sem razão alguma, exagerei nas fibras e nos chás verdes antes de ir para a academia. Depois de passar uma manhã inteira e uma tarde igualmente migrando entre minha mesa e o vaso sanitário, tudo o que meu corpo pedia era a fofura horizontal de uma cama, mas a figura medonha do meu médico fez com que eu me deslocasse naquele estado para a academia. Tentando me esconder atrás da minha ficha de acompanhamento, fui falar com o instrutor, que resolveu começar a minha noite com uma série de alongamentos. Eu estava lesada, desgrenhada, com meus cabelos em desalinho e mesmo assim ele não se sensibilizou. Puxa perna, puxa braço, eu lerda, eu já ficando vesga e ele lá, firme. Pedi licença, fui ao banheiro novamente. “Fibras, malditas fibras”. Voltei e ele já me esperava. Faríamos um trabalhinho com as panturrilhas. Foi então que ele apontou uma bancada próxima à janela e pediu que eu fosse buscar aqueles pesinhos de atar às pernas. Eu estava moleeeeee. As fibras, malditas fibras. Mas fui lá, fui pegar aqueles malditos pesos, quando pus uma força descomunal para puxar apenas dois quilos de pesos. Foi tudo muito rápido. Peso, força descomunal, parábola, gravidade, peso voando, uma senhora em cima de uma bicicleta, peso no meio da cara da senhora, grito, nariz quebrado, sangue, vexame, senhora boazinha me xingando em pelos menos dez idiomas diferentes, meu instrutor correndo, pessoas correndo, eu com a boca escancarada.

Sim, meus caros, as fibras, as visitas constantes ao sanitário, os chás, me deixaram cronicamente lerda naquela estréia catastrófica na academia. Eu não esperei meu instrutor virar, nem a pobre senhora levantar, nem dar espaço para as pessoas acharem que eu fazia parte de algum grupo terrorista contra o culto à saúde do corpo. Peguei meu carro, joguei a bolsa no carona e uma semana depois voltei ao meu médico. “Não vou freqüentar academias”. Eu disse confiante. “Mas por que?”. “Mulheres, fibras e chás fazem mal à saúde alheia. O Ministério da saúde esqueceu de me advertir”.

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Histórias de amor, papel jornal e L.L

May 25th, 2007 by jana

(Ao som de Lo Dudo - Los Panchos)

Tudo começou quando ele era ainda um menino de calças curtas, como dizia seu avô, e terminou em uma assinatura reproduzida em gráficas. Calças curtas, lancheira, maçã e biscoitos no recreio. A professora pede umas linhas. “O que você quer ser quando crescer?”. Ele escreve todo peito inflado: escritor. “Quero ser escritor, porque assim eu vivo mais que os outros”. A professora, entre dançarinas, astronautas, médicos, advogados, atrizes e jogadores de futebol, guarda os olhos do menino. “Quero ser escritor”.

A mãe acompanha as calças do menino ficarem longas, os sapatos ganharem números, o rosto ganhar barba. A mãe queria um filho de branco, cabelo arrumado, luvas ou um filho de pasta e paletó, mas o menino-homem queria ser escritor. Em um armário de madeira descascada, a mãe guardava os certificados dos prêmios de literatura da escola. O menino oscilava entre o segundo e o terceiro lugar sempre, mas ainda assim era do tipo made in livros de auto-ajuda: “Você é um vencedor”! Entre os colegas, era o poeta. Escrevia uns versos sugar-sugar, cheios de derretimentos, de corações flechados e de dores de amor. Os meninos-colegas pediam que ele escrevesse versos para as meninas. Os versos dele levaram muitas meninas, meladas pelas palavras, melarem suas coxas pelos colegas. Os poemas do menino-escritor sempre estavam entre os amassos na quadra de esportes ou na pracinha em frente à escola. Entre os dedos nos bicos dos seios adolescentes, entre os dedos afastando calcinhas coloridas, os poemas sempre estavam lá de testemunha. Seus poemas salvaram muitos colegas das punhetas. Ninguém poderia dizer que sua poesia não tinha um fim social.

Continuou escrevendo depois de sair da escola. Seu quarto era uma mancha branca de rascunhos. Continuava escrevendo seus poemas de amor, mas agora, homem-hormônio, começou a rabiscar uns poemas eróticos, cheios de incursões pelas aulas de biologia e pelos eufemismos. Membros intumescidos, cavernas negras, espadas, troncos e mil e uma maneiras de se preparar Neston. Começou um curso noturno de Letras, mas lá ninguém aprendia a ser escritor. Ele na verdade nem achava que precisava aprender. Começou a buscar formas de publicar seus poemas eróticos. Todo concurso que aparecia, ele se inscrevia. Revoltava-se quando seu nome não estava entre os três prêmios. Ligava para as sedes organizadoras, xingava as secretárias, dizia que era arranjo, carta marcada, o escambau. Passava uma semana recluso e depois aparecia com novos editais de concursos literários. Participava de qualquer concurso. Qualquer um. O importante era ter o livro publicado, para ver nas livrarias, esmagado entre outros tantos livros nas estantes, neste cruzamento de linhas, canetas, dedos, gerações, seu livro, seu nome impresso. Além dos poemas, arriscou escrever contos, novelas e até um romance. Escreveu o romance para um concurso de “Histórias de amor”.

Depois de quase dois meses depois do concurso de “Histórias de amor”, ele recebe uma carta da comissão organizadora, comunicando sua vitória. Ele lê a carta incontáveis vezes, grita e liga para a mãe. “Mãe, ganhei o concurso!!! Meu livro vai sair! Vai sair!”. A mãe grita para os vizinhos, liga para o ex-marido, gaba-se, infla o peito. “Meu filho é um escritor! Meu filho é um escritor! Antes ser um escritor do que nada”. Ele é chamado para assinar os papéis e lá a notícia chega. “Bem, sei que você está aqui para assinar a publicação de seu romance, mas tenho um comunicado a fazer. Esta editora é voltada essencialmente para o público feminino. As mulheres que lêem nossa coleção esperam a assinatura de uma mulher nos romances que compram. Elas se sentem mais à vontade, confiam mais na história quando é escrita por uma mulher, já que julgam que o homem não entende nada de histórias de amor, dramas, cólicas e filhos”. “Mas, senhora… Eu ganhei o concurso e é justo que eu tenha minha história publicada”. “Sim, claro. Não estamos dizendo que não publicaremos a história, estamos dizendo que como homem você não poderá assinar. Escolha um pseudônimo e tudo estará ok”. “Senhora, eu não vou assinar como uma mulher. O que minha mãe vai dizer?”. “Bom, ou você escolhe um pseudônimo ou nada feito”. “Vou recorrer à justiça”. “Recorra, mas lembro que a justiça é lenta”. “Laura Lúcia”. “Ahn?”. “É meu nome”. “Assine aqui por favor”.

O livro sai e os vizinhos riem. A mãe tranca-se em casa por mais de um mês. “Laura Lúcia! Vê se pode. Tenho um filho transformista!”. Entre os membros intumescidos e as cavernas escuras, as críticas das leitoras ao livro são positivas. Cartas chegam à editora, perguntando quando sairá o novo livro de Laura Lúcia e ele recebe um novo telefonema. Mais dois anos de contrato exclusivo com a editora. Papel jornal, capa paralisada na década de 50, preço popular. Ainda assim ele vibra, mesmo sendo Laura Lúcia, mesmo não tendo seu nome na capa e contra-capa. O importante é ser escritor. O menino-homem-ex-calças-curtas vira fenômeno entre as leitoras da coleção “Histórias de amor”. Contrato permanente. Ele não escreve mais poemas, nem contos, só romances em escala industrial. O esqueleto é sempre o mesmo: um homem rico se apaixona por moça pobre, sofrem o diabo, transam na praia, no campo, no celeiro e depois de tudo… Happy end. Cada vez que ele entrega um novo original à editora, menos ele é, mais Laura Lúcia ele se torna. Assina cheques errados, assina comprovantes de correio como Laura Lúcia. O carteiro olha estranho, mas o importante é a entrega feita.

Ele recebe as cartas das leitoras. Responde quando pode, assina, como sempre, como Laura Lúcia. As iniciais arredondadas no fim da página. Sempre tem uma carta-resposta pronta, cheia de agradecimentos. Imprime e assina. L.L. Um dia, terminava de florear o segundo L, quando sente um adormecimento no braço esquerdo. Toca o braço com as unhas e não sente nada. Está completamente dormente. Levanta-se, vai à cozinha, bebe uns goles d’água e antes que consiga voltar para a mesa do escritório, cai no corredor da casa. A mãe, depois de várias tentativas de falar com o filho, chega na casa e sai carregada pelo vizinho de porta. No dia seguinte, uma pequena nota no jornal diz que “Laura Lúcia, escritora best-seller da editora “Histórias de Amor”, morre de insuficiência cardíaca e descobre-se que ela na verdade chama-se Pedro Paulo”. E entre especulações, programas sensacionalistas, que repetem a fotografia do escritor morto inúmeras vezes, ele se torna imortal por uns dias e se torna depois referência a outros poetas sugar-sugar, que entopem a editora de originais. Agora, depois de uma conceituada pesquisa bate-à-sua-porta, os autores assinam com suas cuecas.

(Texto publicado em 29 de outubro de 2006 no Brutti)

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Disk lover

May 5th, 2007 by jana

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Tudo, como um clichê de discurso psicanalítico, começou na sua infância. A mãe passou meses economizando para ter a novidade em casa. No tempo custava caro e durou quase um ano para a mulher juntar o dinheiro suficiente e conseguir trazer o objeto para a mesinha ao lado do sofá estampado. O menino desenhava no chão, deitado, com o giz de cera espalhado. As cores todas à vista. A mãe chegou naquele dia, trazendo uma caixa de papelão. O menino pensou que fosse já presente de Natal, afinal a festa já estava perto. “Que é isso, mãe?”. “Ah, filho! Um mimo! Venha cá ver”. O menino já imaginava um carrinho grande ou um saco de gudes gigantes, mas o que veio forrado em plástico bolha foi aquele aparelho vermelho-sangue, cheio de teclas e fios. “Ah, mãe! Um telefone! Pensei que fosse um presente pra mim”. “Menino, passei o ano inteiro economizando para comprar a linha e o aparelho. Só tem telefone em casa quem é chique, e eu quero ser chique”. “E meu presente de Natal?”. “Seu presente de Natal é o telefone, tá? Ah, menino, este ano ficou difícil pra mainha comprar o telefone e ainda comprar um brinquedo”. “MÃE!!!”. “Não me grite, menino!”.

O menino olhava aquele objeto vermelho ao lado do sofá, rei da mesinha de madeira e uma mistura de ódio e fascínio se confundiam como o leite e o chocolate do Milkshake. O número estava escrito em um papel grudado ao telefone. Apesar da raiva que tinha do objeto, afinal por causa dele ficaria sem presente de Natal, o menino queria tocar o plástico vermelho, queria ouvir o aparelho tocar, queria atender, falar, ligar para as pessoas. Mas para quem? Viviam apenas ele e a mãe e poucos, como a mãe mesmo dizia, tinham um telefone em casa. Eram finos, eram chiques. A lembrança das palavras da mãe se misturavam à imaginação do menino, que achava que as palavras ficavam presas naquela caixinha vermelha até o dia em que iria explodir de tantas conversas acumuladas. O telefone deles, no entanto, não iria explodir tão cedo.

Com o tempo, o telefone começou a se vulgarizar, como tudo aquilo que antes parece mágico e depois vira feijão com arroz. A mãe agora atendia aos pedidos dos doces, salgados e refeições através do aparelho e o menino é quem atendia aos pedidos, negociava preços, prazos e datas de entrega. Sua vida resumia-se à escola e ao restante do dia perdido com o fone do aparelho grudado à orelha. O aparelho vermelho era quase parte dele. Não tinha tempo para flertes, para olhares, para amassos no ginásio de esportes da escola. Era um adolescente mirrado e tímido, mas ganhava poder ao telefone. Crescia, virava gigante, homem. A adolescência, no entanto, era a fase das poluções noturnas, de acordar melado de porra e ver a mãe parada em frente à cama, gritando com o menino para que limpasse “aquelas imundícies”. Vida sexual zero, o menino enlouquecia. Permaneceu assim, até a idade adulta: sem beijos, carícias, mãos, dedos e sexo, principalmente sexo, até que uma moda apareceu na televisão: o Disk. Tinha Disk para tudo: brincadeiras, zodíaco, mapa astral, pra falar com autor/atriz prediletos e o Disk Sexo. Quando o rapaz viu a propaganda, não pensou duas vezes. Assim que a mãe dormisse, ligaria para o Disk Sexo. Seria o máximo contato que ele teria com uma mulher, mas valia.

A mãe foi dormir cedo naquela noite e ele só esperou pelos roncos da mulher para se sentar no sofá, ao lado do telefone vermelho. Discou o número e esperou. “Alowwwwwwwww”. “Alô, meu nome é….”. “Ahnnnnnnwwwwwww, estou sem calcinhaaaaaaaaaa”. Um dia ele assistiria na tv que as atendentes de Disk Sexo gastam em média 2000 pirulitos por mês para imitar um boquete, mas, continuando… “Ahnwwwwwwww, como você é grandeeeeeee”. Não é preciso nem especular demais para ter a certeza de que o mirrado-man virou um Disk Lover, que batia ponto todas as noites. No final do mês, a mãe acordou o rapaz aos gritos. “Seu imundo! Seu imundo! Usando nosso telefone, nosso ganha-pão para suas imundícies”. A mulher jogou a conta de telefone na cama e saiu do quarto. “Vou ter que trabalhar dobrado pra pagar isso”. Nunca mais voltou a tocar no telefone para as chamadas de Disk Sexo. O máximo que fazia era desligar o telefone do gancho, alugar um filme pornô e, enquanto se masturbava, fingia falar com uma atendente de Disk Sexo através do telefone mudo.

Quando o negócio da mãe finalmente cresceu e se tornou um buffet profissional, com salgadinhos assados em forno industrial, foi casando à época em que o telefone celular começou a ser vendido. Logo comprou o seu e sendo o filho da dona do buffet, que agora já contava com seis funcionárias e tendo um artigo de luxo pendurado na calça, logo-logo conseguiu facilmente aquilo que esperou por toda a vida: uma mulher de verdade e uma transa que não se resumisse ao sobe-desce de dedos. Combinou com a mulher de se encontrarem depois do serviço num barzinho próximo à pequena fábrica de salgados e doces da mãe. Não precisou falar muito, afinal era o filho da dona do buffet e tinha um celular pendurado na calça jeans. Chegaram ao motel, ele tentando fingir que já era descolado, ela tentando fingir que era uma almost virgem. Pegaram a chave do quarto e entraram. Começaram a se beijar. Ela sem saber que era o primeiro beijo daquele homem. Os filmes pornôs ajudaram-no a ter noções do que fazer. Chegaram finalmente a deitar na cama, ela nua, ele nu. Insinuante, fazendo pose sexy aprendida em revista, ela foi descendo a boca para o pau do homem, até que ele sacou uma coisa da mesinha ao lado: o celular. “Desliga pra mim o telefone daqui?”. “Como assim?”. “É só puxar o fio. Desliga pra mim”. “Tá”. Apesar de não entender nada, ela desligou o fio do telefone do motel. “Certo, agora coloca o fone no ouvido e finge que tá falando comigo”. “Ahn?”. “Faz, vai! Você finge estar falando comigo aí e eu finjo que falo com você aqui”. Depois que deram a “primeira” pelo telefone, ele fez do jeito dela e teve sua primeira vez. Se ela achou estranho, se ela deixou de trepar com o filho da dona do buffet? Bom, ainda vemos os dois ao longe mordiscando queijo e bebendo cerveja no bar no fim do expediente e ainda vemos também os dois, agora já pulando a parte do Disk sexo preliminar, pularem para os finalmentes. É a tecnologia encurtando distâncias.

(Texto publicado em 19 de novembro de 2006 no Brutti).

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Pão com goiabada e Barbie

April 23rd, 2007 by jana

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Fonte da imagem

Loiras, pernas longas e boca cor-de-rosa. Barbies. Já tive algumas dessas. Peito grande e sem bunda. American girls. Barbies.

Minha mãe nunca me deu o Bob, talvez por medo de que à noite ele saísse da caixa e me comesse. Nunca consegui explicar a ela que boneco não tem pau. Não tive o Bon, mas tive um daqueles bonecos que faziam xixi e que tinham um protótipo de “benga”. Passava algumas horas fascinada, olhando para o pau do bonequinho, que era loiro como as Barbies. Deve ser por isso que não curto nenhum dos dois. Excesso de platinados. Sai fora.

Eu estudava pela manhã e à tarde ficava em casa em ócio completo. Gostava de pão com goiabada e Vale-a-pena-ver-de-novo. Criança é foda. Criança é dublê. Criança beija porta de guarda-roupa e esfrega as coxas. Eu não era diferente.

Eu tinha um saco grande e jogava minhas bonecas, roupas e acessórios nele. Depois da novela e do pão com goiabada, eu espalhava tudo na cama de minha mãe e ía brincar. Trancava a porta do quarto e montava meu cenário. Quarto, cama, abajur. Sofá, mesa, copos. Fogão, geladeira, panelas. Minha mãe comprava o kit-Lar ou “Como fazer da sua filha uma rainha do lar: 20 lições didáticas”. Eu arrumava aquela parafernália pseudo-doméstica na cama de minha mãe e depois vestia minhas Barbies. Penteava seus cabelos, vestia suas roupinhas justinhas e calçava seus sapatinhos. Elas todas nas minhas mãos… Passivas. Seios, pernas, dedos. Tudo meu.

Arrumava as bonecas como em um ritual, pois a nudez não me excitava quando era evidente. Tinha três Barbies. Uma era loira, esportiva, macacão de lycra azul e tênis. Tinha também uma camponesa, vestido florido, cestinha e laço e uma gostosíssima, morena, sardinhas, saia de couro, botinha verde e guitarra brilhante. Tinha três Barbies, nenhum Ken e muitas tardes de Vale a pena ver de novo.

Peguei minha tesourinha de coelhinho azul sem ponta e cortei o cabelo da Barbie esportiva. Cortei. Deixei no toco. Vai puta. Vai ficar sem cabelo, vadia. Hidrocor preto. Pintei tudo e fiz um bigodinho. Deveria ter deixado sem bigode, andrógina, mas criança é foda e tem todas aquelas histórias freudianas do Édipo e tal. Ficou o bigode.

Eu era da geração Sexta Sex e Cine Privê. Assisti toda a saga de Emanuele. Emanuele na África, no Japão, no Espaço. Trens entrando em túneis, enquanto ela trepava nas cabines dos trens. Assisti até uma versão pornô da Branca de Neve e os sete anões. A Branca de Neve era negra e os sete anões tinham paus enormes. Eu era da geração televisão sem controle remoto. Eu colava no aparelho e ficava tensa com o dedo perto do botão dos canais. Qualquer passo e meu dedo ía direto na TV Educativa. Foda era quando passava da meia noite e a Educativa já estava em faixas coloridas. “Tá assistindo o que, menina?” Silêncio. “Ah, mãe… Eu gosto das cores”.

Minha mãe ainda guardava uma coleção sobre sexualidade. Coleção de capa dura vermelha e desenhos de gente trepando. A coleção ficava guardada no maleiro do guarda-roupa dos velhos. Eu subia no banquinho de madeira e todos os dias pegava um volume. Era uma coleção bem datada. Adolescentes com calças boca de sino e biquínis asa delta. Homens bigodudos, como minha Barbie esportiva. Tinha até uma mulher com as mãos sobre um tigre no verbete Zoofilia. Lembro até hoje.

Vale a pena ver de novo, Sexta Sex e Coleção-capa-dura-proibida. Eu tinha cachos e sardas. Cara de otária e cdf. Crime perfeito. Lá ia eu com meu saco de bonecas. Tirava suas roupas e deitava a moreninha de sardinhas com a bigoduda. Sem as roupas, eram seios e pernas. Os seios duros não deixavam elas se beijarem. Elas se embolavam no colchão de florzinhas rosas. Criança é dublê. Eu dirigia minhas cenas. A do bigode comia a camponesa e a da sainha de couro. Língua e mãos. Pernas embaraçadas.

Minha mãe deu minhas panelinhas e minhas bonecas. Cheguei um dia em casa e meu saco não estava mais lá. Minhas panelinhas estavam quase novas. Minhas bonecas estavam gastas e comidas. Nenhum cheiro de comidinha nas panelas. Cheiro de sexo entre as pernas de borracha. Minhas primeiras mulheres. Bocas cerradas em um sorriso passivo, seios-pedra, bunda-ausência, coxas-lisas-borracha. Minhas primeiras mulheres: silenciosas, passivas, padrão-blond. Barbies. Saudade das tardes de pão com goiabada e panelinhas.

(Texto publicado em 8 de abril de 2006 no Brutti).

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Happy hour

March 24th, 2007 by jana

Não sou mulher de frequentar happy hours. Nada que seja sorridente demais me atrai. Aliás eu tenho um lema: “Cuidado com os excessivamente felizes”. Eles sorriem demais, cospem demais enquanto sorriem e toda aquela saliva vai parar em dois lugares certamente: ou no meio da sua cara ou no seu copo de vodka. Quando você trabalha no entanto em um lugar em que as pessoas estabeleceram que nas sextas-feiras todos precisam estar excessivamente sociáveis e com uma predisposição acima de 70% para o agrupamento em bandos, eu não tive muita escolha. Durante anos eu consegui me livrar destes encontros naturalmente forçados usando diversas desculpas e um pouco da experiência teatral herdada da observação das novelas mexicanas. Eu poderia muito bem escrever um manual extenso do tipo “69 maneiras de você se livrar do efeito Happy Hour”. Você, caro leitor, pode ter uma crise de baço quando der cinco e trinta da tarde. Além do mais você pode assassinar ficcionalmente (óbvio) vários parentes, inclusive aqueles distantes. Só tome cuidado para não repetir o óbito, porque acredite… Sempre há alguém que presta atenção às coisas que você diz, inclusive às suas desculpas. Já fugi desses encontrões usando desculpas como por exemplo: minha hamster vai parir e eu vou ser a parteira. Como eu sei que ela vai parir hoje? Eu sei e pronto! Há também as desculpas de cunho afetivo. Meu ex marido me ligou e disse que a atual mulher dele enfeitou sua calva cabecinha com uma fileira de galhas. Por que eu não vou com vocês? Prefiro comemorar este evento sozinha com minha hamster. Mas houve um dia, no entanto, que nada disso, por mais convicente que tenha sido, conseguiu me livrar de uma maravilhosa noite regada a cerveja barata e a amendoim torrado. Eu até resisti, mas algo foi mais forte do que eu. Para ser mais exata a culpa foi do meu estagiário, que há alguns meses atrás estava sofrendo crises devido à praga do politicamente correto e que agora resolveu querer me salvar da minha crise anti-social.

O grupo era composto de mais ou menos umas doze pessoas, contando com a desesperada mulher que vos fala. O primeiro grande problema que atinge a maior parte dos Happy Hours é que ninguém sabe dizer para onde todos irão. Um sugere um barzinho da moda, outro sugere uma bodega decadente que fica quase na fronteira com outro estado. No fim, todos decidem ir ao bar que fica a um quarteirão do trabalho.

Depois da confusão de para-onde-vamos-finalmente, conseguimos chegar ao tal bar. O bar era até interessante, se não fosse a disposição das mesas. Não sei se o dono do lugar tinha como objetivo principal a interatividade entre os clientes, mas o fato é que para poupar espaço e dobrar a capacidade da casa para os clientes, as mesas estavam tão grudadas umas nas outras, que eu precisei encolher minha bunda para passar entre uma mesa e outra. Sei que encolher a bunda parece algo improvável, mas você certamente nunca passou então por situações constrangedoras que te fizeram inovar até seus mais sólidos conceitos. Pedimos uma mesa para doze, mas o garçom só conseguiu para o oito, o que significa que quatro de nós acabou sendo instalado com a perna da mesa entre as pernas, nada obviamente confortável. Eu fui uma das felizes congratuladas com este presente dos deuses. Sentei e mal consegui esticar o braço para mexer na bolsa, à procura de um lugar onde pôr minha cara e minha impaciência.

O segundo grande problema é decidir o que vai ser consumido. O esquema é mais ou menos o seguinte: é mais fácil todos beberem cerveja e comerem amendoim, assim no fim da noite a conta é dividida igualmente e todos saem felizes. Eu, no entanto, já não bebia cerveja há anos, quando descobri que a vodka demora menos pra te fazer criar coragem pra fazer certas coisas. Pedi uma vodka e uma coca-cola. Os onze se olharam com aquele ar cúmplice de “ela fez isso para nos agredir. Ela fez isso pra mostrar que ganha mais”. Como se adivinhasse o pensamento deles, disse: “Gente, eu vou pagar minha vodka a parte, ok?”. Desconfiados, descrentes, magoados, enfiaram os dedos na vasilha de amendoim.

A conversa era interessante. Os temas variados. Os mais jovens, o que significa 95% da mesa, conversavam sobre o último jogo do time tal, dos celulares vermelhos com textura aveludada, sobre enlarguecedores de pênis e fórmulas milagrosas para fazerem sua barriga e suas celulites desaparecerem. Eu conversava silenciosamente com o ponteiro de meu relógio, que resolveu se arrastar por pura birra. Para piorar minha situação, eu sou o tipo clássico que prefere beber um copo atrás do outro para não ter que conversar ou para ter onde pôr as mãos. O garçom me trouxe cinco doses de vodka em menos de uma hora, até que tive a brilhante idéia, até o ponto que me recordo, de ir ao banheiro retocar o batom. Esta minha decisão certamente foi provocada pela pureza alcoólica de meu copo, pois em meu estado normal eu não teria me atrevido a levantar e passar por mesas que estavam tão simpaticamente grudadas umas às outras. Respirei e levantei. Alguém da mesa me olhou com uma cara de “ela vai se esborrachar no chão e eu vou rir”. Para contrariar às expectativas, consegui, meio cambaleante chegar até o banheiro sem muitos problemas. Na volta, no entanto, é que sofri o já previsível vexame. Não, não foi uma queda. Não, eu não me esborrachei no chão como em uma comédia pastelão. Estava eu, andando por linhas tortas (se Deus escreve em linhas tortas, por que eu não posso andar por linhas tortas também?), quando tive que passar pela mesa de executivos que estava logo atrás da nossa, para poder me sentar. Antes de eu ir ao banheiro, esta mesa estava ainda vazia e agora meia dúzia de engravatados se amontoavam logo atrás de nós. Fui passando de mansinho entre as cadeiras, quando consegui tropeçar no meu próprio pé. Não caí, porque obviamente não havia espaço para isso, mas minha bunda, minha bunda safra 40 anos, passou deslizando na cabeça de um jovem executivo, que obviamente não perdeu a piada. “Pô, tia, a senhora é saidinha, hein?”. Em primeiro lugar, pensei, tia é a irmã de sua mãe e em segundo lugar, vodka por favor, garçom!!! Virei a piada da mesa e antes que eu completasse uma dezena de doses de vodka, me colocaram no táxi, depois do rapazinho do tia ainda me soltar beijinhos. Eu saí do bar pisando em um chão mais distante do que meus pés podiam alcançar. Saldo da noite: saí sem pagar as vodkas, fui colocada no táxi pelo meu estagiário, que ria a cada olhada para minha cara e ainda ganhei a fama de loba, caçadora de rapazes executivos de vinte anos. Aspirinas, aspirinas, por favor!

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Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias

March 12th, 2007 by jana

Para Lika*, Nando e Carol (pela ilustração hilária!)



Você nota que ficou velha quando percebe que acompanhou as três gerações de um mesmo lugar. Não era o cansaço nos pés, apertados naquele sapato de bico fino, que faziam os dedos interagirem entre si mais que o normal. Não era a camada a mais de pó compacto que eu já usava há algum tempo pra disfarçar as marcas de expressão, que as companhias de cosméticos faziam aparecer na sua cara desde os quinze anos de idade de tanto te pregarem sustos. “Você vai envelhecer, você está envelhecendo, você estará envelhecendo (gerundismo by telemarketing)”. Porra, eu envelheço desde o dia que virei feto, ok? Portanto, não me encha o saco com suas quarentonas cleans. Sou uma quarentona que jamais usará tons pastéis. Sou uma quarentona de gênio e de cores fortes.

Eu tinha ido no centro resolver uns problemas no banco. Os bancos são centros da delicadeza na hora que abrimos uma conta, mas depois que a lua de mel passa, os bobbies aparecem e a calcinha furada também. Lá fui eu me tornar mártir na fila e pagar meus pecados com os mesmos juros de um empréstimo com agiotas. Sentei e esperei. A atendente mandou eu pegar uma senha. Minha senha tinha três números e a senha que estava no quadro tinha dois apenas e estava bem distante da minha. Esperei um tempo até que me convenci de que dar uma volta seria mais coerente, mesmo com aqueles sapatos de bico fino. Eu só aparecia no centro quando apareciam problemas que não se resolvem remotamente. Era digital. Sei…

O sapato apertava o pé e eu descia a rua com os passos curtos. Uma queda, além de ser um vexame dispensável, arruinaria minha coluna torta. Passos curtos então. Uns bares com paredes de azulejo branco-encardido-muito-encardido estavam servindo churrasco grego por um real com suco. Os vendedores ambulantes vendiam suas falsificações de Prada e o sol apostava silenciosamente comigo que faria meu cérebro cozinhar. Umas mulheres com calças coladas ao cubo estavam encostadas nas paredes externas dos bares. Olhei demoradamente para uma menina de cabelos cacheados. Sim, uma menina. Ela olhou pra mim maliciosa. “Tia, quer foder?” Sim, minha filha, mas não com você. Dá até rima. Continuei andando. Não queria ir para a sombra, porque tropeçaria nas putas ou levaria porrada de algumas delas que achassem que eu queria roubar seus respectivos pontos. Não queria ficar no Banco, sentada, esperando Godot ou pela senha. Mas também não queria passear debaixo daquele sol. Típico de uma geração que sabia o que queria e depois se perdeu nos planos e nas ideologias. Continuava andando, quando ouvi uns gritos exaltados. Já fazia algum tempo que eu não passava na frente daquele prédio e foi aí que percebi que estava mesmo velha.

O prédio já estava na sua terceira geração utilitária. A primeira geração tinha sido a de um cinema grandioso, que reunia os intelectuais barbudos e cabeludos da época. Hoje eles continuam barbudos, mas a maioria corta os cabelos e faz pedicure e manicure ou morreu de úlcera ou de problemas cardiovasculares. Com a invenção segura do shoppings centers, os cinemas grandiosos foram entrando em decadência, até que foram adaptados para o pessoal do sexo “all by myself”. Algumas destas meninas, não exatamente estas, que agora estão encostadas nas paredes externas dos bares que servem churrasco grego, um dia já atenderam seus clientes dentro destes cinemas ou continuam atendendo, mas nas cabines de peep show, construídas com madeirite, vidro e uns furinhos para interagir. Então agora eu estava diante da terceira geração da reciclagem imobiliária. Eu ouvia os gritos, quando voltei a mim do meu passeio temporal pela história concisa do antes-cinema-depois-puteiro e percebi que já estava dentro daquele lugar, que agora era todo branco, cheio de cadeiras de plástico e de pessoas sentadas olhando para a figura que gritava. Algumas pessoas olharam para mim e cochichavam. Sim, eu sou pecadora. Sim, eu como carne vermelha e trepo. Pelo menos uma vez por mês. Sentei constrangida. Não podia sair sem chamar mais atenção do que já havia chamado. Resolvi ficar. Apesar dos gritos, apesar dos hinos, lá tinha sombra e minha senha estava distante demais da realidade do quadro digital. Foi aí que se deu o ápice do meu dia. Era o dia do descarrego, da descarga, do livramento, do sei-mais-o-que, quando o Mr. Louvor arrastou quatro pessoas lá pra o palco e começou o exorcismo dos demônios. Eu tenho uma teoria de que eles devem comprar os demônios a quilo ou que deve existir uma distribuidora expresso do tinhoso responsável pelo abastecimento. Tudo corria bem na perspectiva do Mr. Louvor e do público, três dos quatro demônios já tinham ido dormir nas profundezas do assoalho da igreja, quando o quarto demônio resolveu não dar o ar de sua graça. O pastor suava empurrando a cabeça da mulher pra baixo. “Responde, demônio. Respondeeeeeeeeeee”. Silêncio. “Respondeeeeeeee”. Silêncio. E eu lá estudando maneiras de sair dali sem ser percebida. “Fale, filho das profundezas vermelhas. Faleeeeeeee”. Silêncio. Até que o pastor cansado olhou para os fiéis. O silêncio foi geral. Ele ergueu o dedo para a mulher, que já devia ter um milk-shake no lugar dos miolos na cabeça, e disse: “Demônio surdo-mudo, liberte essa mulheeeeeeeeeer”. Não deu. Eu até tentei, eu até travei os dentes na hora, mas não deu. Minha risada encontrou o eco do antigo cinema, puteiro, agora igreja e alcançou o pastor. Todos olharam para mim e neste momento, antes de ser convocada a um exorcismo de brinde, eu alcancei as portas da igreja.

Consegui me afastar o máximo que pude da entrada da igreja. Algumas pessoas que estavam perto da porta ainda olhavam para trás e para mim. Olhei para o relógio e já havia passado mais de uma hora desde que saí do banco. Na verdade, passaram-se décadas. Eu me vi em uma das cadeiras do cinema, assistindo filmes de arte para parecer séria. Eu me vi passando na frente do cinema e rindo dos homens que entravam sozinhos com suas mãos. Um daqueles homens, que hoje estavam lá louvando ao divino, poderia ter sido um frequentador, hoje arrependido, das cadeiras do Cine-Casa de Burlesco, assim como há possibilidade de que uma daquelas mulheres de saias longas pudesse ter sido uma das dançarinas dos peep shows da fase do mesmo recinto. Todos estavam ali para salvarem alma e corpo. Eu estava ali pela sombra. Inferno é caminhar debaixo de 34º ao meio dia. Algo perto disso é ilustração de livros de catecismo. Mas eu percebi que estava ficando mesmo velha. Vou comprar um filtro solar e tomar uma aspirina. Flashbacks são bregas e nos deixam bobos. Sou mulher de gênio e cores fortes, meu bem. Rejeito os tons pastéis e estes saudosismos melodramáticos. Quanto é mesmo aquele creme anti-rugas?

* Lika é a responsável por um dos momentos mais hilários desta crônica/conto. Obrigada, querida!