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Bicho

August 4th, 2010 by jana

Eu sempre serei este bicho inquieto,
arredio-desconfiado,
passional e entregue,
dado a pensamentos que galopam.

Sempre serei este bicho destinado a andar sozinho,
as patas cravadas de espinhos,
o coração transbordante e tão contido.
Bicho que experimentou o amor em suas diversas nuances.

Sei do afago e sei das dores,
da crença e do descrédito,
sou bicho de colo, sou bicho de estrada,
tecido de sonhos e feridas.

Olho através das janelas,
o mundo tão grande e ainda tenho medo.
Bicho arredio e bravo,
bicho que mostra unhas,
que fere e que hoje teme os rasgos na carne.

E eu sempre serei este bicho arredio,
que conversa por dentro,
que se estanca e que devaneia,
nesta busca diária por um caminho de certezas.

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Pés diluídos

March 15th, 2010 by jana

Ao meu menino

Descubro que o amor é como aprender a andar novamente,
depois de muito tempo que o corpo permaneceu inerte.
De nada adianta saber do amor e do andar em teoria.
Ambos se vivenciam na experiência.

Aprendo a amar como quem aprende a dar passos
tendo que sustentar, na fragilidade das pernas esquecidas,
um corpo já marcado e antigo.
E o medo de tropeçar e arranhar a carne
é tão grande,
que sento-me debaixo de um céu raro de estrelas
a buscar uma linha imaginária,
que sirva de guia e suporte.

As estrelas estão lá, pequenos mobiles brilhantes,
como aqueles que um dia você me deu.
Olho as estrelas, olho o tecido colorido que enfeita a parede,
mas não há linhas suficientemente seguras e fortes,
a que possa confiar a fragilidade do meu caminhar.
Apenas fecho os olhos e confio em tuas mãos.
Não adianta nada saber andar ou amar em teoria,
é preciso querer aprender, esquecendo do que já se sabe.

Você, com pouca luz, fotografa nossos pés diluídos na água,
talvez para me mostrar que o amor tenha mais haver com fluidez
do que, necessariamente, com fincar os pés no chão,
a procurar terreno firme onde pousar o corpo.
Dentro d’água não há quedas,
mas há a força em não se afogar.

A imagem de nossos pés
ficou diluída entre nossos olhos.
Eu tentando caminhar sempre por terrenos mais firmes,
você a me mostrar que no fluir há menos dor.
Quem diria, eu assim tão cartesiana,
quem diria, você assim tão rio.

Descubro que o amor é como aprender a andar pela segunda vez,
mas é preciso me despir de toda teoria e clichê,
de todos manuais e cálculos de risco.
Não há movimento sem queda
e não há vida sem movimento.

Vejo seus braços erguidos em minha direção
e o espaço, que há entre eles e meu corpo,
nada mais é que o ângulo que me oferece
para sustentar meus possíveis tropeços.
Você tão rio,
eu agora tão cartesiana,
nossos pés diluídos,
um caminhar distinto,
como se antes eu nunca tivesse
a pele, um dia,  fincada no chão.

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Contas negras

January 8th, 2010 by jana

Para meu menino

Seus olhos,
duas contas negras,
das que carrego no pescoço como guia,
ornando peito, ornando vida.
Meus lindos olhos, minhas contas negras.

São seus olhos tintos
que busco à noite quando o dia se desfaz,
e o mesmo brilho que vejo atravessando o céu
é aquele que se esconde no limite de sua íris.

Há quem diga que são castanhos,
mas tenho eu licença poética
para colorir suas janelas com a cor absoluta,
que a tudo traga, luz e cor,
feito buraco negro a engolir estrelas.
Meus lindos olhos, minhas contas negras.

Eu, Narciso, me perco todos os dias
no profundo espelho líquido de suas janelas,
janelas que mostram um mundo
que eu havia desacostumado a ver.

Ah, essas portas distantes do chão,
escancaradas quando as quer,
entreabertas como quem não se entrega,
feita de matéria daquilo que não se mostra.

Ainda te descubro, ainda te decifro,
encontro a intensidade do seu querer.
Meus lindos olhos, minhas contas negras,
orno meu peito com sua imagem,
caminho cega, como o amor dita,
só seu brilho como guia.
Tropeço e sigo,
sigo…sempre.

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Rotina

December 9th, 2009 by jana

Ao meu menino

Não temo a rotina dos dias,
o amanhecer e o anoitecer ao seu lado.
Toda rotina, no fim, tem sua beleza,
mesmo causando temor
a quem sua presença rejeita.

Há beleza em te ver acordar
depois de uma noite de sono,
em que nossos corpos dançaram sonoros
na superfície dos lençóis amassados e limpos,
enquanto as janelas-testemunhas,
abertas e obscenas,
nos traziam a brisa fria,
viajante de terras de longe.

Há beleza em dividir o pão e o café,
os primeiros sons da manhã,
as horas primeiras do dia.
Você me verá com os cabelos revoltos,
eu te verei aninhado em pijamas.
Sem moldura, trilha sonora ou luz de palco,
a vida nua e sem glamour.

Haverá beleza no beijo de despedida,
oferenda dos que se apartam momentaneamente,
a saber que, ao fim do dia,
os lábios se misturam novamente,
trazendo relatos de dor e alegria.

Haverá beleza na comida caseira,
na mesa posta, nos nossos pratos,
nas notícias diárias assistidas,
enquanto meu abraço te acolhe inteiro,
feito casulo,
quente, delicado, seguro.

E no fim de cada semana,
com os corpos cansados e rotos
da labuta diária da sobrevivência,
você me mostrará tua cidade
e eu te lerei velhos textos,
a descobrir, silenciosamente,
que toda rotina tem sim sua beleza,
quando a diferença se faz,
mesmo quando tudo aparenta repetição.

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Janelas

December 4th, 2009 by jana

Este amor-vivência
é força bruta,
húmus,
terra fértil onde mergulho meu corpo,
banhando-me de vida,
preenchendo as linhas vazias de minhas mãos.

Este amor, que já nasceu maduro,
fruto de nossos acertos e erros,
já conhece os caminhos,
é antigo,
posto que por ele sempre esperei.

Nosso amor são duas carnes transitórias,
que se buscam em quereres,
na certeza que nosso tempo é finito
e que é preciso driblar os pontos,
enquanto o pulsar existe no peito.

Nosso amor é canção tocada por mãos machucadas,
não há nos olhos a ilusão da meninice.
Nós somos estes corpos gastos,
que se buscaram entre passos tortos
pela vontade de renascer.

Nos seus olhos castanhos,
nestes olhos castanhos profundos,
húmus-terra fértil,
é onde quero viver,
imagem sempre refletida,
meu corpo, parte sua,
banhado pelo brilho negro
destas janelas por onde entrarei todos os dias.

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Carne exposta

November 19th, 2009 by jana

Entre nossos corpos surrados,
nosso amor pulsa sonoro.
Em meus olhos o medo,
em seus olhos um caminho de desligamentos dolorosos.

Se a procura se fez
é que algo havia se perdido, entenda.
Não nos encontramos por acaso,
numa dessas tardes banais e sonolentas de inverno,
entre o cinza e o concreto,
entre café quente e conversas ensaiadas.
Sabíamos o que buscávamos
e do vazio que preenchia os dias.

Uma vez você me disse
que sou intensa demais.
Talvez seja mesmo, não sei ser de outra forma.
Por isso meu corpo dói tanto
quando você está longe,
quando sei que silenciosamente você também chora,
tentando juntar as peças
neste mar de estilhaços em que te vejo agora.

Sim, meu corpo dói.
Cabeça, estômago, garganta.
Tudo dói.
Mas não há dor maior
que te ver encolhido em meus braços,
homem transformado em menino,
braços que me acolhem,
a pedir que o carregue e faça a dor cessar.

Não tenha tanto medo das mudanças.
Movimentos são necessários para a vida acontecer.
O que seria da vida sem o movimento?
Uma espera?
Talvez.

De nada adianta tantas certezas,
se as mesmas não nos fazem rir
e nos sentir vivos,
meio crianças até.
Não tema voltar ao início.
Às vezes é preciso começar novamente
para sentir o corpo pulsar.
É como nascer e ter um mundo diante dos olhos.

Lembra quando você me ensinou
a forma mais eficaz de caminhar de mãos dadas?
Se eu cair, você me segura.
Deixe eu te ensinar agora,
que se você cair,
eu já terei aprendido a te segurar.

Não, meu amor,
não estou sangrando por nada.
Não estou aqui para uma foda e um adeus.
Estou aqui para a vida,
para os cafunés e para as lágrimas,
para o riso e para a dor.

Estou aqui por você
e te espero com a carne rôta e surrada,
com um corpo que é seu abrigo,
corpo perdido, que agora é só seu.
Por escolha,
por vontade.
Seu…
Não rejeite o que te ofereço,
mudanças são necessárias para a vida continuar.

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Águas

November 15th, 2009 by jana

Pedimos a chuva e ela veio,
forte, sonora, fazendo-se notar.
Enquanto uns temem o poder das águas,
sua forma vertical de alcançar o solo,
recebo a chuva como presente,
assim como este amor que sempre pedi,
que chegou como garoa suave
e que agora se espalha volumoso,
trazendo vida às minhas margens.

Enquanto a chuva lava as ruas e calçadas,
macula o branco desprevenido das roupas,
enxarca os sapatos despreparados,
eu estico os dedos através da janela,
na tentativa inútil de aprisionar estas águas férteis,
assim como faço com o tempo,
vivido-sentido ao seu lado.

Assim como  a chuva,
o tempo se vai entre minhas mãos.
Não há razão para tentar aprisioná-los.
Eles sempre retornam,
tanto a chuva, quanto o tempo,
embora se apresentem distintos.

Banho-me então neste amor
e dele extraio vida.
Vejo em mim brotar o que desconhecia,
um fruto saboroso, agridoce,
que me alimenta
e que sacia minha fome.

Não sinto mais o corpo faminto.
Sinto-me plena,
como aqueles que são alimentados a todo o tempo.
Mas, não é por não haver mais fome,
que não haja movimento.
Sigo em frente,
fluxo-corrente,
chuva-rio-mar no horizonte,
profundo-azul-intenso.

Este amor, costurado com os fios das águas,
tecido leve e brilhante,
é movimento,
vida que recusa o simples caminhar sonolento para a frente.
Nosso amor, meu bem,
em sua superfície aparentemente quieta,
esconde em nós tanta beleza,
cor, texturas e movimento.

Nosso amor é este mar,
alimentado pela chuva que cai lá fora,
pelo rio, que é o tempo,
por nossos corpos que se procuram
e que se acham,
carregando, cada um deles,
a força silenciosa e que dá vida,
a força azul cristalina das águas,
que vertem de mim,
que vertem de você.

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Da sacada

November 14th, 2009 by jana

Quando a noite chega
e tudo que vejo são luzes ao longe,
penso em você sozinho na sacada de sua casa.
Fecho os olhos e tento ser novamente
a criança de riso despreocupado,
que acreditava poder estar em todos lugares que quisesse,
apenas no abrir e fechar dos olhos.

Enquanto você caminha em seu pijama macio
e eu caminho nua pelo quarto,
tento colher a brisa silenciosa que sai de seus lábios.
Silenciosamente espero
o momento que nossas mãos se unirão
e caminharemos juntos,
deixando para trás tudo aquilo que nos causa dor.
O amor sempre atenua as feridas mais profundas.

Sim, fecho os olhos e você está ao meu lado.
Mesmo ausente,
sinto seus dedos caminharem entre meus cabelos,
seus braços afastarem o frio,
seu colo abrigar meu corpo surrado.
Minha pele silenciosa espera a sonoridade do seu corpo,
a entoar nosso amor como canção suave e intensa.

E quando a dor é intensa e o corpo parece não suportar,
me refugio em nossas linhas, canções e lembranças.
O amor não foi feito para desistentes.
Para se amar é preciso caminhar rente,
com o peito aberto e a alma em festa,
com as mãos livres para o enlaçar de dedos,
com os olhos brilhantes a alimentar chamas.

Logo eu… Logo eu que sempre temi falar do amor,
com o risco de parecer piegas ou ridícula,
agora não só entoo meu canto
como assumo todo o prazer e a dor
a ele alinhavados.

Não, meu amor, não há medo, não há dúvidas,
só uma espera.
Pacientemente te aguardo,
debruçada na janela deste quarto estranho,
colhendo no vento o pólen de seus beijos.
Espero, espero sim.
O corpo todo em festa,
eu vestida de amor,
os olhos gritando alegria
e todas as dores a se tornarem jornal de ontem.
Sigamos.
O amor não foi feito para desistentes.

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Recomeços

October 25th, 2009 by jana

Meus personagens estão todos no chão,
peles-vestes-fantasias,
seda vermelha-lantejoulas,
finas e espessas camadas,
arrancadas pela suavidade de suas mãos.

Aos poucos vou me resgatando,
jornada em busca de mim,
o que sou, o que quero, o que espero
surram meu corpo,
arrancando-me da dormência.

A inquietação presente nos meus olhos
não é guerra hormonal, entenda…
Sou eu, rasgando as últimas camadas,
nascendo de novo,
me descobrindo, reinventando rituais,
tecendo novos sonhos,
rompendo a aceitação passiva dos dias.

Não é à toa que quem nasce berra.
Renascer envolve também uma parcela de dor.
Não me debato ou busco novamente
a aparente proteção de pseudo-úteros.
E sei que do seu lado também a pele sente.
As velhas articulações estalam.
Movimentar-se também envolve dor.

Meus olhos nunca mais serão os mesmos,
levo hoje flor vermelha no cabelo,
saia rodada e pés descalços.
Veja, estou aqui, vulnerável,
o peito aberto para receber o que vier.
Veja, hoje danço entre minhas máscaras caídas,
entre meus discursos puídos,
entre minha aparente rigidez.

Veja, que depois da chuva
sempre há vida a brotar do chão.
Nada permanece todo o tempo em suspensão.
Não há lágrimas que não sequem,
não há dor que não cesse,
não há vida, meu bem,
que não recomece.

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Regresso

October 23rd, 2009 by jana

Regresso ao chão de onde parti um dia,
terra a que não pertenço mais.
Sei apenas de onde vim,
para onde vou é lacuna.

Como guia, apenas os olhos e minhas contas baratas.
Como certeza, apenas o que levo no peito.
Na mala, poucas mudas de roupa,
enquanto sigo muda,
tentando tornar audível
todas minhas perguntas sem respostas.

Sigo,
com os cabelos embaraçados ao vento,
pés nus, mãos vazias,
esperando quem as tome
e as envolva entre os dedos.

Entenda… Não queria caminhar só.
Seu lado na calçada está guardado.
E se tropeçar, em pedra ou em flores,
desta vez terei de levantar sozinha,
lavando, com minhas próprias mãos, as feridas.

Que venha a chuva forte,
cascata a derramar-se do céu,
volumosa o suficiente para abafar minhas águas,
que caem molhando o chão por onde piso,
deixando como marcas minhas pegadas,
duas apenas, a querer que sejam quatro.
Seu lado na calçada está guardado.

Regresso,
já não sei a que pertenço,
se a uma terra ou ao corpo que me espera.
Regresso,
dois pés e a carne surrada de lembranças,
o peito a gotejar saudades,
os olhos a procurar seu reflexo em outros espelhos.

Regresso,
o familiar já tão desconhecido,
os lugares de infância redescobertos,
eu, a mesma, tão distinta.
E as mãos sempre estendidas,
os pés em dois ainda
e um lado na calçada
mantido, cuidado… guardado pra você.

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