Pedimos a chuva e ela veio,
forte, sonora, fazendo-se notar.
Enquanto uns temem o poder das águas,
sua forma vertical de alcançar o solo,
recebo a chuva como presente,
assim como este amor que sempre pedi,
que chegou como garoa suave
e que agora se espalha volumoso,
trazendo vida às minhas margens.
Enquanto a chuva lava as ruas e calçadas,
macula o branco desprevenido das roupas,
enxarca os sapatos despreparados,
eu estico os dedos através da janela,
na tentativa inútil de aprisionar estas águas férteis,
assim como faço com o tempo,
vivido-sentido ao seu lado.
Assim como a chuva,
o tempo se vai entre minhas mãos.
Não há razão para tentar aprisioná-los.
Eles sempre retornam,
tanto a chuva, quanto o tempo,
embora se apresentem distintos.
Banho-me então neste amor
e dele extraio vida.
Vejo em mim brotar o que desconhecia,
um fruto saboroso, agridoce,
que me alimenta
e que sacia minha fome.
Não sinto mais o corpo faminto.
Sinto-me plena,
como aqueles que são alimentados a todo o tempo.
Mas, não é por não haver mais fome,
que não haja movimento.
Sigo em frente,
fluxo-corrente,
chuva-rio-mar no horizonte,
profundo-azul-intenso.
Este amor, costurado com os fios das águas,
tecido leve e brilhante,
é movimento,
vida que recusa o simples caminhar sonolento para a frente.
Nosso amor, meu bem,
em sua superfície aparentemente quieta,
esconde em nós tanta beleza,
cor, texturas e movimento.
Nosso amor é este mar,
alimentado pela chuva que cai lá fora,
pelo rio, que é o tempo,
por nossos corpos que se procuram
e que se acham,
carregando, cada um deles,
a força silenciosa e que dá vida,
a força azul cristalina das águas,
que vertem de mim,
que vertem de você.