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Matilde decide viver
O cenário é um banheiro e várias calcinhas estendidas, afinal o apartamento era pequeno e a área de serviço mal tinha espaço para as roupas maiores. Então o jeito mesmo era armar um varal no não menos apertado banheiro. Em cima do vaso sanitário rosa, ao lado de um bidê igualmente rosa, lá estava Matilde, firme, descabelada, creme rinse em mãos, chão azul abaixo dos pés e olhar perdido nos azulejos.
Na pia, um radinho de pilhas tocava uma daquelas baladas melosas, seguida da narração canastrona de um locutor com voz “sexy”. “Grandessíssimo filho da puta”. Matilde descabelava. Era ano novo e o que restava dele era um creme rinse, cheiro forte, doce e que deixava os cabelos daquele homem empapados.”Grandessíssimo filho de uma puta”. Não adiantou comprar todas aquelas calcinhas para a virada do ano passado. Matilde todos os anos comprava uma calcinha de cada cor: verde (Matilde tinha uma esperança sem igual de que sua vida mudaria na virada), amarelo (dinheiro brotaria da terra, aleluia!), branco (paz, paz na terra, paz mundial, segundo a Miss Universo), rosa (amor), vermelho (paixão) e enquanto existisse cor e calcinhas, Matilde comprava todas para se garantir.
Naquele ano, no entanto, apesar de ter comprado as roupas de baixo antecipadamente, numa liquidação no Centrão, tudo havia dado errado. Perdeu dinheiro, a vizinha do apartamento de cima era uma pentelha, paz não existia nem para as pombas e o amor e a paixão foram embora com aquele homem de bigode estilo Charles Bronson e aquela cabeleira mantida a base de creme rinse. “Calcinhas filhas da puta! Não confio mais minha vida a vocês!”.
Lá estava Matilde no vaso, fazendo dieta cetônica, doida por um doce, alucinada por um chocolate e sem poder comer. O jeito era cheirar o creme rinse pra compensar. “Pobre, sem dinheiro, com vizinha amante do capeta, sem namorado e de dieta. Puta que pariu. Um raio atravesse minha janela e me faça brilhar ao menos!”. Matilde estava desesperada. O que fazer? Dar cabo da vida? Poderia se afogar no bidê. Tamparia o ralo, deixaria encher de água até a tampa e depois colocaria a cara lá e sonharia com peixinhos dançando tango nos corais. Toca La Cumparsita aí, que é o mais clichê! “Para eu me afogar no bidê, precisaria ficar de joelhos, com a bunda pra cima e acho isso tudo muito deprimente. Morrer com a bunda pra cima! Não… Não mesmoooo!”. O ano vai virar daqui a uma hora. Matilde não havia comprado uma calcinha sequer este ano. Apesar do remorso, apesar de querer muito se jogar no balaio, enquanto passava na rua, ela aguentou firme, afinal as malditas haviam virado as costas para ela.
O povo na rua gritava. Matilde fechou a janelinha do banheiro para não ouvir. “A dieta cetônica que vá para os diabos. Vou beber”. Na geladeira, uma garrafa de Sidra. Pegou a garrafa, abriu e voltou para o banheiro. Pegou novamente o tubo de creme rinse descabelada e enrolada em uma toalha com o escudo de time e ajeitou a garrafa de Sidra na outra mão. Bebia um gole, cheirava o creme rinse, bebia um gole, cheirava o creme rinse. “Filho da putaaaaaaa”. Não é preciso dizer que Matilde era uma mulher dramática, que amava enlouquecidamente, que era uma verdadeira protagonista de romances açucarados, daqueles que envolvem um cara rico, uma menina pobre, uma megera, uma trepada, um filho, uma grande merda e um final feliz. “Não passa de hoje! Não passa de hoje! Eu posso também ligar minha chapinha na energia, jogar no bidê e enfiar meu dedo lá. Pronto, eu morro e aquele filho de uma chocadeira vai sentir minha falta! Ingratoooooo… E eu que cozinhava amendoim pra ele comer e tomar com cerveja. Nunca mais cozinho amendoim pra filho da puta algum! Mas também… Deste ano de mierdaaaaaaaaa eu não passo!”.
Os minutos passavam e aquela noite, que era uma das preferidas de Matilde no ano, a noite da virada, a noite de pular ondinhas, poluir o mar com sabonete vagabundo, vestir branco com o bico do peito aparecendo, tomar Sidra quente e comer lentilha fazendo careta, estava sendo um verdadeiro desastre. “É isso… Jogo o creme rinse no chão, depois me jogo, bato a cara no bidê, racho a testa, o sangue escorre e quando ele vier pegar as contas, ele me vê aí estiradinha, durinha, no meio do creme rinse e da vermelhidão toda. Eita que ele vai se comer todinho de desespero, porque vai descobrir que não vive sem minhas coxonas, as coxonas da família Silva.
Matilde estava decidida ao plano de escorregar e meter a cara no bidê. O relógio marcava 11:30. Tinha meia hora pra tudo. Espalhar o creme rinse do ingrato, calcular a distância no olho, pisar certo no rosa e se nada funcionasse, aí sim partiria pra ignorância e usaria o plano B, que era o de jogar a chapinha no bidê. Plano este que só seria usado no caso de nada funcionar, afinal Matilde havia dividido aquela chapinha em 10 x sem juros e era desaforo demais dar cabo de um investimento. Foi aí que ela se posicionou, empinou-se toda e quando ía meter o pé no creme rinse espalhado no chão, ela ouviu o Pum-pum-pum-pá-ti-pum-pum. O povo na rua gritava “Feliz ano novo”. “Mas como assim? Que raios está acontecendo? Falta meia hora, cambada de gente zoadenta! Estão doidos, é?”. Resmungando foi olhar o relógio e ele estava paradão. “Relógio vagabundo! Também quem manda comprar estas pestes no camelô?”. “Já era Matilde! O ano enterrou-se e você ficou pra ver mais um…”. Matilde era do tipo que acredita em sinais. “Xá quieto, Matilde. Vai que o ano vai ser melhor…”. Foi catando as calcinhas no varal, vestiu uma a uma e foi pedindo paz, dinheiro, amor, esperança, paixão. “Este ano não me falhem, calcinhas. Não me falhem! Vocês já são íntima dos meus fundos, portanto não me falhem!”. Depois acabou com a garrafa de Sidra, que já estava quente, se espalhou no creme rinse do antigo namorado derramado no chão e repetiu paz, amor, dinheiro, esperança até dormir. No dia seguinte, ano novo, calcinha velha, garrafa vazia e Matilde acordando com o sol estalando no olho e dizendo “Acorda, Matilde. Decidiu viver então agora se remelexa e não me aporrente mais!!!”
