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A praça

June 9th, 2008 by jana

Sol embaçado pelas nuvens de sempre,
o cinza escondendo claridade e riso,
e os dois lá,
sentados no banco duro e igualmente cinza,
abraçados, rosto-ombro-rosto-ombro.

Ao lado, um cobertor tão cinza quanto as nuvens
ou quanto o concreto-matéria do banco que ocupavam.
Abraçados, unindo silenciosamente a fome física
e a fome inquietante da alma, eles estavam.

Eles estavam lá, sentados, amarrados,
entrelaçados,
matando um a fome do outro.
Fome de pele e de calor,
fome de olhos que não se desviem,
à vista daquilo que não quer ser visto.

As pessoas circulam calmamente
com seus tickets de refeição
e seus terninhos cheirando a amaciante e a sabão.
Eles, dois iguais, dois homens-meninos,
são como estátuas antigas,
que se confundem à paisagem,
tão cinzas que são,
que quase ninguém lhes nota a presença
e a dor esculpida nos olhos e na face.

Eles não se apartam,
olhos fechados, queixo no ombro,
imitam as cenas dos amantes,
que vêem ao passar em frente das lojas de eletros.
Eles querem ser algo,
se destacarem do cinza,
deixarem de ser imagem estática,
a quem ninguém presta atenção.

Talvez nem seja isso que eles realmente queiram,
talvez um busque no outro um toque suave
que a vida todos os dias lhes nega.
E eu a dar voltas, como um moinho,
sem sair do meu eixo,
olho aqueles corpos de olhos cerrados,
pego meu ticket de refeição,
mato a fome do meu corpo,
enquanto vejo os amantes de longe,
segurando firme um ao outro,
como a linha frágil
que sustenta um corpo
diante do sem fim das quedas,
diante dos dias em reprise,
diante da vida,
que não é, meu bem, novela.

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Lençóis velhos

December 12th, 2007 by jana

dois.jpg

(Ilustração: Luis Fernando Calaça)

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de guardar nossas lembranças,
a marca transparente que deixamos de nossos corpos,
o cheiro disfarçado pelo amaciante do nosso suor e de nossa rotina.

Enquanto você não chega,
eu brinco de me envolver com esta manta fina
e faço dela grama e chão,
onde misturo o tempo dos relógios
e as horas suspensas da minha imaginação.

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de nos manter unidos,
passando calor de uma pele para outra,
aquecendo os dias frios, em que nos sentimos um,
mesmo quando partilhamos duas solidões.

Cada pedaço deste tecido pobre sabe dos nossos segredos,
medos, vontades, temores, desejos.
E quanto mais nos misturamos,
mais nossas histórias ficam guardadas no profundo pardo do entrelaço das fibras.

Gosto timidamente da textura destes nossos lençóis velhos
e da forma silenciosa como ele nos acolhe e embala nossos sonhos.
E quando meu corpo estiver longe do seu,
ou o seu estiver distante do meu,
que façamos deste pedaço de pano vagabundo
a lembrança presente do cheiro, das formas e de nossas texturas,
a memória externa de nossa entrega de todos os dias.

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Um dia te deixo, cidade

September 5th, 2007 by jana

100_01951.jpg

(Imagem: Fábio Brito)

Uma brisa silenciosa atravessa minha janela,
o único presente que esta cidade me dá,
enquanto penso em formas múltiplas
de me ver livre dela.

Cidade em degradê de cinza,
logo eu que sempre fui amante das cores,
me vejo enlaçada entre suas pernas,
sufocando grito e lágrima,
me espremendo nos metrôs cheios,
perdida nas veias-ruas tantas,
que serpenteiam só esperando
a hora certa do bote único.

Cidade fria de concreto,
ausente de corpo-quente-riso-mãos,
já te dei uma chance de me cativar,
e rejeitaste como quem rejeita a flor,
apenas por esta ter sido colhida da terra
e não comprada em floricultura de luxo.

Quando puder, cidade,
te deixarei vestida de luzes,
tecido fino bordado pela noite,
para não mais voltar a pisar em sua carne dura,
indiferente-nariz-ao-céu.
Voltarei sim um dia
é para minha terra solar,
vestido pobre de renda,
inundada de mar e riso,
de onde eu não deveria ter saído.

Não me arrependo no entanto
te ter caminhado pelas suas ruelas,
pois ganhei a consciência antes inexistente
da falta que minha cidade solar faz.
Ganhei a experiência da solidão,
dos braços vazios e do peito comprimido,
que levarei marcada pra sempre entre meus olhos nus,
testemunhas pulsantes do vazio.

Um dia te deixarei, cidade,
para nunca mais voltar.
Estou correndo para o chão-húmus-ventre
de onde saí, filha das entranhas,
de um chão-mãe que me acolhe,
que me envolve,
e que me faz adormecer
com a mente povoada de sons,
de cores múltiplas-misturadas e
sonhos tranquilos banhados de sol e mar.

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Espetáculo

August 25th, 2007 by jana

Para minha querida amiga Neusa Doretto, mulher dos palcos

Troco de pele e de palco
como cobra e artista,
dourada-tragi-comédia.
Camadas tantas a descobrir.

Sou boneca matrioska,
dentro de mim, eu-outras-elas.
Sou salão cheio em Carnaval,
rodopiando-marcando-tempo,
dama-puta-herói-vilão.

Sou o que não fui segundos antes,
sou-fui.
Sou travessia,
areia escorrendo-minutos,
cavando na face minhas multiplicidades.

Sou big-bang-criação,
pó de estrelas-balcão-narina,
sou o medo da menina,
que olha para a água na pia
e vê seios murchos, senhora-dona-solidão.

Sou porão cheio de histórias,
armário guardando faces de carne-papelão,
uma mesura, um gracejo com a mãos.
Sou aquilo que crio de mim,
sou aquilo que crias pra mim.
Decoro os textos,
rua ou palco,
poltrona ou chão.
Eu sou o seu espetáculo.

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O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros

July 15th, 2007 by jana

Estava eu a vagar pela net, quando me deparei com o artigo de um senhor chamado José Maria e Silva, que assinava uma reportagem para o Jornal Opção, um jornal de Goiânia. O título do artigo deste senhor era “Movimento gay: a ditadura da depravação”. Eu acredito que o direito de expressão deve ser preservado, contanto que não venha ferir o direito do outro de viver. O artigo inicialmente visava fazer uma crítica a uma nota de jornal assinada pelo jornalista Liorcino Mendes Pereira Filho, presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Goiás, que convidava o público a conhecer o cine Gay Astor, que contava com dark room e que era também voltado para o sexo grupal. Inicialmente a proposta do jornalista José Maria era a de atacar o fato da nota ter sido publicada em um jornal de circulação e de que crianças teriam acesso ao que ele chamou de “apologia ao sexo grupal”. Ok, seu José. O artigo é extenso, então me reportarei ao mesmo aos poucos. A minha questão inicial é a seguinte: as novelas, exibidas em horário comercial, estão repletas de cena de sexo e de nudez, filmes são exibidos às 22 horas e não são poucos que também exibem cenas de sexo, então o que mais causaria preocupação? Uma nota que sai no jornal ou a novela que é exibida diariamente e que mostra casais em pleno ato sexual na telinha? O que tem mais projeção nacional? O artigo do supracitado senhor traz as respostas aos poucos. A preocupação do mesmo na verdade não estava associada ao cuidado com a mente virginal das crianças. O texto inteiro é uma sucessão de generalizações e ele prega abertamente sua homofobia e faz um convite aos leitores à intolerância. O problema não é a propaganda convocando a população para conhecer o Cine Gay Astor, o problema é se tratar de uma propaganda voltada para o público homossexual e é isso que mexeu com nosso caro jornalista.

Prosseguindo com o artigo, em um dado momento este senhor fala que “nas telenovelas e no discurso oficial do movimento gay, os casais homossexuais formam uma espécie de Sagrada Família do mesmo sexo. Para induzir a sociedade a aceitar a adoção de crianças por casais gays, a mídia vende a idéia de que os casais homossexuais vivem mais harmoniosamente do que os casais normais”. Opa, seu José, em que momento um casal homossexual não é normal? Ele não paga seus impostos, trabalha, vai ao mercado, limpa a casa, descansa no fim de semana? O que faz um casal heterossexual ser normal e um casal homossexual não ser? Eu não acredito que os casais homossexuais vivam mais harmoniosamente que um casal hetero, mas eles têm as mesmas condições de criarem uma família e inclusive de cuidar de uma criança. As novelas obviamente romantizam tudo, não aprofundam questões, pois estão mais voltadas, neste caso, à tentativa de conquistar um público consumidor que antes não era alcançado. As novelas tratam qualquer questão superficialmente, mas a questão de um casal homossexual ter o direito e a capacidade de criar uma criança e de constituir família é a mesma de um casal hetero.

Mais para a frente, o ilustre senhor continua o seu rosário de bobagens, criticando a Parada Gay e nos presenteia com a seguinte afirmação: “Sem contar as bolsas de pesquisas distribuídas pelas universidades públicas para os “estudos de gênero”, que quase sempre não passam de apologia da depravação gay”. Acredito que a Parada Gay é um momento importante para lembrar que há uma parcela da população que existe, que precisa ser respeitada como igual e que precisa de espaço. Durante a maior parte do ano, os homossexuais não raras às vezes precisam viver nos bastidores, ocultando suas vidas, por medo de retaliações e seria muito bobo afirmar que estas não existem. O momento da Parada é um momento de tentativa de diálogo e de mostrar que eles existem e precisam sim de espaço. Mas, o senhor José Maria, em um tom reducionista classifica tudo como depravação e apela para termos como “moral”, “decência”, como se estes conceitos fossem fechados e imutáveis. A moral e a decência são conceitos criados pelo homem e ele sabe muito bem se apropriar deles quando lhe é oportuno. Pessoas que se julgam no direito de apontar o que é moral e o que é decente, quase nunca reconhece a imoralidade ou a indecência de alguns de seus atos. O caminho mais fácil para se construir um discurso generalizante e exaltado como deste senhor é apelar para o senso comum, que já convencionou que homossexualidade rima com promiscuidade.

Depois, para fechar com chave de ouro, que para mim mais cabe como de latão, o senhor traz a Igreja para o centro das discussões. Ele toca no ponto da tentativa de criação da Lei Anti-homofobia, que punirá casos explícitos de homofobia, que serão julgados pela lei como crime, assim como os crimes de racismo. Acho que por artigos como deste jornalista, que usa um veículo formador de opinião para tentar catequizar a população a pregar a intolerância, que tal lei deveria sim ser votada e aprovada. Para evitar também que as pessoas sejam expulsas de locais públicos por tentarem viver normalmente suas vidas, sem que atos como este fiquem impunes. A questão não é gerar um mal estar, mas sim tentar educar as pessoas para algo de suma importância para que uma sociedade funcione: você não precisa concordar com algo para respeitá-lo. Você não precisa aceitar a homossexualidade (ninguém te obriga a isso), mas você precisa e deve respeitar o espaço destas pessoas e acima de tudo estas pessoas. A Igreja, sustentada por séculos pela fé do homem, não deveria servir para ditar regras ou estabelecer o que é bom e o que é mau. Maniqueísmo é reducionismo. Em vez de ficar classificando o que é normal, o que é pecado, a Igreja deveria servir de suporte aos que acreditam nela, um lugar de paz e de acolhimento, afinal, como dizem os crentes na figura divina de Deus, nós somos iguais diante de seus olhos. É uma pena que o discurso morra como discurso e as ações sejam tão contrárias e contraditórias.

Escrevi este texto por repúdio ao texto deste senhor. Como eu mesma disse no título do texto: O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros. O supracitado jornalista é um exemplar que ilustra bem o título deste post. Ele falou tanto em perseguição religiosa e eu cá me pergunto o seguinte… Será que não é ele que está incitando uma perseguição em nome de um ideal? O que ele quer? Uma utopia mundial heterossexual-cristã? Há lugar pra todos, meu senhor, basta apenas nos ajeitarmos que dá, viu? Ou mais uma vez estaremos contribuindo para a tradição de uma história construída por apagamentos, silenciamento e exclusão.

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Aurora

July 13th, 2007 by jana

Retoco os fios para me confundir à aurora,
que chega laranja-vermelha,
adentrando minha janela
e pousando firme no meu ombro nu,
úmido ainda pelo banho recente.

Engano-me em pensar que a aurora
apenas mora no horizonte.
A aurora mora em mim,
a me lembrar que a cada segundo entardeço
e me aproximo um pouco mais
da noite dos olhos fechados.

Não ter o que fazer a esta hora do dia,
em que o sol adormece e a noite se faz,
te ajuda a pensar que seu corpo é passagem,
que seus olhos vêem hoje paisagens
e amanhã poderão não vê-las mais.

Leio notícias para conhecer mais o que não se conhece,
pra ganhar intimidade com a noite do corpo,
mas quanto mais leio,
mais dói saber que um dia perderei tudo,
um último suspiro e tudo se vai,
como o sol se põe no horizonte
sem ser notado por estes nossos olhos despreparados.

Foda-se o ciclo da vida,
as aulas de biologia,
o nascer-crescer-morrer,
eu quero ser reticente,
me perder no nada,
com os dedos entrelaçados,
com as pernas misturadas,
por isso fito esta aurora externa,
este pôr do sol repetitivo,
para esquecer um pouco do meu próprio entardecer,
dos minutos que passam,
da vida que escorre
e da dor que é viver sabendo-se finito.

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Festa

July 6th, 2007 by jana

lich4.jpg

(Imagem: Roy Lichtenstein)

Ao som de The party’s over do Talk Talk

Ele saiu de casa com sua blusa pop do Che Guevara, sua calça surrada, comprada já devidamente envelhecida em uma loja de grife no shopping center. Cabelos na altura do pescoço, barba cheia e bigode. Ela saiu de casa com seu sapato bico fino, bolsa baguette, blusinha da Hello Kitty combinando com o desenho também da Hello Kitty, tatuado estrategicamente no espaço entre a blusinha e a calça, descendo estrelinhas para a virilha, ao lado do piercing de pedrinhas brilhantes no umbigo. Um outro ele sai também de casa com uma blusa de banda, umas correntes penduradas na calça e coturno. Uma outra ela sai com calça colada, top e boné customizado com lantejoulas. Outros eles e outras elas saem pelas ruas e se agrupam em escadarias, bares, bibliotecas, boates, puffs, cadeiras, academias, banco, areia de praia, playgrounds. Todos eles se agrupam. Lugar onde por os pés e apoiar os cotovelos. Segurança aparente. Ponto.

Fim de semana. Bairro boêmio em cidade à beira mar. Uma praça, cadeiras e mesas espalhadas, barzinhos, cheiro de comida frita e cerveja. Fim de semana. Todos escorrem para as cadeiras e mesas desta praça à beira mar. Os meninos de blusa do Che e de banda, as meninas de blusas da Hello Kitty e dos bonés customizados, os meninos de blusa pólo, as meninas de saias hippies, os meninos de tênis Nike, as meninas de All Star. Todos escorrem para os bares, agrupando-se, ilhas, costas voltadas, óleo-água. Pouco se misturam.

Uma menina de pijamas observa de cima do prédio a repetição nos corpos. Imagina uma matriz e as cópias. Imagina um grande aparelho de xerox, igual àqueles que sempre viu e nunca prestou atenção. Uma virose a prendeu no quarto. Desligou a televisão e foi para a janela, respirar mar e observar as pessoas lá embaixo. Uns corpos riam, bebiam cerveja, falavam alto, outros bebiam drinks coloridos e petiscavam. Uns batiam os punhos na mesa, exaltados e a noite se repetia como tantas outras. A menina desviou os olhos dos corpos e se fixou no mar. Aquela extensão de água reta, homogênea, que enganava os olhos e os pés. A mãe da menina contava que uma vez confiante de que o raso continuava embaixo dos pés, foi se afastando da praia até que o chão faltou. Mar inteiro que engana. Desviou novamente os olhos para a praça e para as pessoas, quando viu que os grupos ao redor das mesas estavam mais próximos. Os corpos estavam próximos demais, como se estivessem entrelaçados. Achou engraçado aquela imagem típica de festas de confraternização de fim de ano, mas ela não ouvia riso, nem os mais forçados. Ouvia uns gritos baixos. Estendeu então a mão para a mesinha e pegou os óculos.

Quando pôs as lentes, viu que os braços dos meninos-Che, das meninas-Kitty, dos meninos-banda, das meninas-boné não estavam entrelaçados e sim grudados. Quanto mais se debatiam para se soltarem uns dos outros, mais os corpos grudavam uns nos outros. O espaço entre eles diminuía. Os braços deixaram de ser braços, as pernas deixaram de ser pernas, os cabelos enteiaram-se, os rostos colados. Do alto do 9º andar, a menina via uma massa se formar. Uma massa estranha. Os corpos se espremendo, os gritos se perdendo, os olhos desaparecendo, cinco, oito, dez pessoas espremidas e dissolvidas. As carnes confundidas, misturadas. A menina tentava sair de perto da janela, mas não conseguia. Ficava ali, testemunha. O som das vozes parou de repente. Os carros passavam na rua e quem dirigia parecia não ver o que acontecia na praça. Tudo acontecia no limite daquele círculo de pedra. Fora dele tudo continuava normalmente. Silêncio lá dentro. As carnes, as roupas, os olhos, tudo se esprimia até que começou a ganhar forma. Da massa, daquela mistura uniforme, restou, a menina viu, apenas um corpo de cada reunião de corpos. Sem acreditar, a menina viu um menino de blusa do Che sentar à mesa, uma menina de blusa da Hello Kitty pegar um drink no balcão e continuar a bebericar e um menino de blusa de banda dedilhar uma canção em um baixo ausente. Todos aqueles corpos reduzidos a um exemplar de cada. Singulares, únicos, ali no centro daquela praça. Corpos-matrizes.

A menina sente uma pressão nos ombros. Ela entende. Olha pra baixo e uma multidão bebe, conversa, come à beira mar. Ela entende. E o pai fecha a janela, cobre a menina com o lençol e ela dorme ao som de uma canção que toca alta, saindo do porta-malas de um carro estacionado na rua.

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Paredes e pulso

July 2nd, 2007 by jana

Consagro meus instantes
como quem tem sede profunda
e bebe os minutos em grandes goles,
esperando que assim
seja saciado o desejo pela plenitude,
e que ele demore mais ainda para se renovar.
Desejar hoje dói.

Diga se há angústia maior
que descobrir-se feliz
depois que o tempo há muito passou
e dele só restou
a lembrança viva de dias solares e despreocupados,
em que crescer significava poder ver filmes adultos
e chegar depois das seis,
com os pés cansados,
com o corpo fatigado,
esperando do dia apenas um banho
e uma cama de cheiro bom.
Crescer hoje dói.

Chego depois das seis,
com a cabeça pesada,
esperando resgatar projetos velhos
e ganhar energia para executá-los sem medo.
Chego e as paredes me recebem
como todas as paredes recebem corpos cansados,
frias e indiferentes,
mas ao menos elas não esperam
que eu reaja
quando no momento as energias moram longe de mim.
Mover-me hoje dói.

Baby, me perdi em meus projetos,
me perdi em meio às minhas projeções,
e agora sento e te espero
para sugar cada gole de calor que você me dá,
para beber os instantes que passo ao teu lado,
a esquentar meu corpo para mais um dia frio de junho,
que se impõe como as horas,
certeiras e não declinantes.
Esperar hoje dói.

Queria andar de bicicleta,
sem as rodinhas, sabe?
Mas algo me puxa para o chão
e lá eu permaneço rente ao solo frio,
esperando que ele por si me aqueça.
Quero apenas um impulso, entenda,
coragem para me arranhar,
para cortar meus joelhos e ver meu sangue,
para que eu lembre que este pulso
não canta para o nada,
que este coração ainda bate
não por costume,
mas para me fazer recordar
de que ainda há vida entre minhas carnes.
Viver, baby, às vezes dói.

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Tatuagens, subjetividades e modismos

June 5th, 2007 by jana

bonequinha21.jpg

(Essa foto aí é da minha 5ª tattoo. Quando minha máquina deixar de ser birrenta, tiro fotos das novas e posto).

Esta semana eu estava batendo um longo papo com uma grande amiga de Sampa, a Lika, que está se preparando pra fazer a primeira tattoo. Não falo de uma preparação apenas relacionada à dor e ao que significa ter uma imagem eternizada na carne ao longo da vida. A preparação vem também da escolha do desenho e da significação que ele tem para as pessoas. As escolhas são subjetivas e o motivo pelo qual uma pessoa escolhe um símbolo, uma imagem, uma palavra, tem haver com a história pessoal daquele indíviduo, que sentiu necessidade de somar mais um item à sua construção identitária.

Sabemos que a forma como a tatuagem está sendo vista hoje já passou por um período forte de mudanças. O preconceito em relação às pessoas tatuadas ainda existe, mas acredito que numa escala muito mais suave do que a de anos atrás. A tatuagem estava sempre associada à uma imagem negativa, era marginalizada e muitas vezes restrita a determinados grupos. Hoje, no entanto, podemos perceber que houve um boom das tattoos e o que mais vemos é gente riscada por aí. Minha mãe outro dia me perguntou: - “Filha, você já parou pra pensar que na minha idade você terá o corpo todo tatuado?”. Eu respondi então: -”Mãe, eu e boa parte da minha geração”. Resolvi escrever sobre essa experiência, porque ontem passei por uma sessão para adicionar mais duas tattoos ao meu corpo, coisa que me dá um prazer grande e eu abstraio o incômodo, a ardência e às vezes até a dor, quando se trata de um local mais sensível, para poder ter no meu corpo imagens que fazem parte do meu imaginário e da minha construção como indíviduo.

Atualmente, tenho sete tattoos espalhadas e pretendo ainda fazer mais. Lembro que sempre quis me tatuar, mas como sou fóbica em relação às agulhas, havia um limite, algo que me impedia de entrar em um estúdio, sem imaginar o tipo de reação que eu teria diante das tais agulhas. Fábio foi quem me incentivou a vencer o medo, a me controlar em nome de algo que eu desejava para mim. Na época, ele já tinha três tattoos e o meu corpo era um papel branco sem rabiscos. Entrei no estúdio do Ailton (Dragon Art Tattoo), localizado em Brotas, na cidade de Salvador, e quase desisti na hora. Eu fui decidida a fazer o 80’s (Anos oitenta) nas costas, porque há vários anos cultuo filmes, canções, séries, desenhos e outros elementos relacionados à época, que nada têm haver com um outro boom modista em relação ao revival do anos oitenta. No mesmo dia decidimos tatuar nossas iniciais, como uma espécie de aliança maluca, por acreditarmos, depois de “trocentos” anos de relacionamento, que dava sim para crer que nos entendemos o bastante para permanecermos juntos. Qualquer coisa, eu transformo o F em “Foda-se” e ele transforma o J em, sei lá, jegue, bicho que ele cultua e admira.

Suando, pingando de medo, sentei na cadeira e esperei por um chilique meu, mas não veio. Segurei a onda, controlei ao máximo minha fobia e, enquanto as agulhas riscavam a pele, eu repetia um mantra que deu certo: “Não é agulhaaaaaaa, é um lápis… Não é agulhaaaaaa, é um lápissss”. Depois que tatuei o F e vi que a dor é suportável, tatuei depois o 80’s e aí pronto, acabei viciando. Será que é algo na tinta? Acredito que não. Comecei a procurar outros elementos, que faziam parte do meu imaginário, e pensar seriamente em trazer isso à tona através das tatuagens. Gosto muito de tubarões, mas não me imaginava com um bichano tatuado no corpo e olha que meu fascínio por estes animais não é pequeno. Uni então a minha paixão por eles à minha paixão por um desenho da década de 80, o Tutubarão, e pronto, lá está ele tatuado na minha perna esquerda. Minha quarta tatuagem foi um presente carinhoso de Carol Custódio. Ela me desenhou meio pin-up e hoje a Janinha mora na minha carne na perna direita. Tatuei depois o Snoopy no ombro direito, por ser um personagem de quadrinho que se destaca pela personalidade forte e independente, pontos que admiro em um ser humano. Ontem, entrei mais uma vez no estúdio e fiz a Leela, personagem do Futurama, desenho assinado pelo criador dos Simpsons, Matt Groening. Adoro a Leela, por ela ser uma mulher forte, mas ao mesmo tempo dotada de grande sensibilidade, por ser perspicaz e linda, mesmo não sendo um padrão. A sétima foi um desenho estilizado de um coração ligado à estética rockabilly, que me atrai muito. Muito vermelho e uma chama das quentes coroando tudo, porque tem que se ter muita paixão pelas coisas que nos propomos a fazer, a construir.

Tudo que resolvi eternizar (relativizando o sentido de eternidade, já que minha carne é perecível) foi escolhido de forma consciente e que tivesse ligação com minha construção c0mo sujeito. Nunca me tatuei porque um artista de televisão o fez ou porque é última moda entre os fashionistas. Não condeno ninguém que o tenha feito, mas é um caminho perigoso a tomar, já que a possibilidade de arrependimento é grande. Tatuar-se não é como mudar o corte de cabelo de acordo com as tendências. Para cabelos há jeito, para tatuagens só laser e olhe lá. Por isso, deixo uma dica aos marinheiros de primeira viagem! Escolham aquilo que tem haver realmente com você e não aquilo que está apontado como sendo bacana. Temos que trazer para nosso corpo o que julgamos adequado a ele. Tentar se ajustar a modelos pode funcionar como uma violência à nossa própria subjetividade. Há tanta coisa espalhada nos nossos álbuns internos, nos nossos catálogos de memória, que podem render imagens, símbolos e textos muito bons. Se é moda tatuar cogumelos alucinógenos, só tatue-os caso você tenha certeza de que aquilo é parte da sua construção identitária ou se é apenas uma estampa de uma tendência passageira, que escondemos no fundo dos armários quando a moda passa.

Quer se tatuar em Salvador e não sabe pra onde vai? Bom, indico o estúdio do Ailton, que foi onde fiz todas as minhas tatuagens. O estúdio localiza-se em Brotas. Procurar Ailton ou Tiago. O telefone do estúdio é (71) 3244-4000. Av. D. João VI, 13, Sala 105. Brotas. Salvador-BA. E-mails: ailtonme@terra.com.br/ ailtonart@hotmail.com