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Histórias de amor, papel jornal e L.L

May 25th, 2007 by jana

(Ao som de Lo Dudo - Los Panchos)

Tudo começou quando ele era ainda um menino de calças curtas, como dizia seu avô, e terminou em uma assinatura reproduzida em gráficas. Calças curtas, lancheira, maçã e biscoitos no recreio. A professora pede umas linhas. “O que você quer ser quando crescer?”. Ele escreve todo peito inflado: escritor. “Quero ser escritor, porque assim eu vivo mais que os outros”. A professora, entre dançarinas, astronautas, médicos, advogados, atrizes e jogadores de futebol, guarda os olhos do menino. “Quero ser escritor”.

A mãe acompanha as calças do menino ficarem longas, os sapatos ganharem números, o rosto ganhar barba. A mãe queria um filho de branco, cabelo arrumado, luvas ou um filho de pasta e paletó, mas o menino-homem queria ser escritor. Em um armário de madeira descascada, a mãe guardava os certificados dos prêmios de literatura da escola. O menino oscilava entre o segundo e o terceiro lugar sempre, mas ainda assim era do tipo made in livros de auto-ajuda: “Você é um vencedor”! Entre os colegas, era o poeta. Escrevia uns versos sugar-sugar, cheios de derretimentos, de corações flechados e de dores de amor. Os meninos-colegas pediam que ele escrevesse versos para as meninas. Os versos dele levaram muitas meninas, meladas pelas palavras, melarem suas coxas pelos colegas. Os poemas do menino-escritor sempre estavam entre os amassos na quadra de esportes ou na pracinha em frente à escola. Entre os dedos nos bicos dos seios adolescentes, entre os dedos afastando calcinhas coloridas, os poemas sempre estavam lá de testemunha. Seus poemas salvaram muitos colegas das punhetas. Ninguém poderia dizer que sua poesia não tinha um fim social.

Continuou escrevendo depois de sair da escola. Seu quarto era uma mancha branca de rascunhos. Continuava escrevendo seus poemas de amor, mas agora, homem-hormônio, começou a rabiscar uns poemas eróticos, cheios de incursões pelas aulas de biologia e pelos eufemismos. Membros intumescidos, cavernas negras, espadas, troncos e mil e uma maneiras de se preparar Neston. Começou um curso noturno de Letras, mas lá ninguém aprendia a ser escritor. Ele na verdade nem achava que precisava aprender. Começou a buscar formas de publicar seus poemas eróticos. Todo concurso que aparecia, ele se inscrevia. Revoltava-se quando seu nome não estava entre os três prêmios. Ligava para as sedes organizadoras, xingava as secretárias, dizia que era arranjo, carta marcada, o escambau. Passava uma semana recluso e depois aparecia com novos editais de concursos literários. Participava de qualquer concurso. Qualquer um. O importante era ter o livro publicado, para ver nas livrarias, esmagado entre outros tantos livros nas estantes, neste cruzamento de linhas, canetas, dedos, gerações, seu livro, seu nome impresso. Além dos poemas, arriscou escrever contos, novelas e até um romance. Escreveu o romance para um concurso de “Histórias de amor”.

Depois de quase dois meses depois do concurso de “Histórias de amor”, ele recebe uma carta da comissão organizadora, comunicando sua vitória. Ele lê a carta incontáveis vezes, grita e liga para a mãe. “Mãe, ganhei o concurso!!! Meu livro vai sair! Vai sair!”. A mãe grita para os vizinhos, liga para o ex-marido, gaba-se, infla o peito. “Meu filho é um escritor! Meu filho é um escritor! Antes ser um escritor do que nada”. Ele é chamado para assinar os papéis e lá a notícia chega. “Bem, sei que você está aqui para assinar a publicação de seu romance, mas tenho um comunicado a fazer. Esta editora é voltada essencialmente para o público feminino. As mulheres que lêem nossa coleção esperam a assinatura de uma mulher nos romances que compram. Elas se sentem mais à vontade, confiam mais na história quando é escrita por uma mulher, já que julgam que o homem não entende nada de histórias de amor, dramas, cólicas e filhos”. “Mas, senhora… Eu ganhei o concurso e é justo que eu tenha minha história publicada”. “Sim, claro. Não estamos dizendo que não publicaremos a história, estamos dizendo que como homem você não poderá assinar. Escolha um pseudônimo e tudo estará ok”. “Senhora, eu não vou assinar como uma mulher. O que minha mãe vai dizer?”. “Bom, ou você escolhe um pseudônimo ou nada feito”. “Vou recorrer à justiça”. “Recorra, mas lembro que a justiça é lenta”. “Laura Lúcia”. “Ahn?”. “É meu nome”. “Assine aqui por favor”.

O livro sai e os vizinhos riem. A mãe tranca-se em casa por mais de um mês. “Laura Lúcia! Vê se pode. Tenho um filho transformista!”. Entre os membros intumescidos e as cavernas escuras, as críticas das leitoras ao livro são positivas. Cartas chegam à editora, perguntando quando sairá o novo livro de Laura Lúcia e ele recebe um novo telefonema. Mais dois anos de contrato exclusivo com a editora. Papel jornal, capa paralisada na década de 50, preço popular. Ainda assim ele vibra, mesmo sendo Laura Lúcia, mesmo não tendo seu nome na capa e contra-capa. O importante é ser escritor. O menino-homem-ex-calças-curtas vira fenômeno entre as leitoras da coleção “Histórias de amor”. Contrato permanente. Ele não escreve mais poemas, nem contos, só romances em escala industrial. O esqueleto é sempre o mesmo: um homem rico se apaixona por moça pobre, sofrem o diabo, transam na praia, no campo, no celeiro e depois de tudo… Happy end. Cada vez que ele entrega um novo original à editora, menos ele é, mais Laura Lúcia ele se torna. Assina cheques errados, assina comprovantes de correio como Laura Lúcia. O carteiro olha estranho, mas o importante é a entrega feita.

Ele recebe as cartas das leitoras. Responde quando pode, assina, como sempre, como Laura Lúcia. As iniciais arredondadas no fim da página. Sempre tem uma carta-resposta pronta, cheia de agradecimentos. Imprime e assina. L.L. Um dia, terminava de florear o segundo L, quando sente um adormecimento no braço esquerdo. Toca o braço com as unhas e não sente nada. Está completamente dormente. Levanta-se, vai à cozinha, bebe uns goles d’água e antes que consiga voltar para a mesa do escritório, cai no corredor da casa. A mãe, depois de várias tentativas de falar com o filho, chega na casa e sai carregada pelo vizinho de porta. No dia seguinte, uma pequena nota no jornal diz que “Laura Lúcia, escritora best-seller da editora “Histórias de Amor”, morre de insuficiência cardíaca e descobre-se que ela na verdade chama-se Pedro Paulo”. E entre especulações, programas sensacionalistas, que repetem a fotografia do escritor morto inúmeras vezes, ele se torna imortal por uns dias e se torna depois referência a outros poetas sugar-sugar, que entopem a editora de originais. Agora, depois de uma conceituada pesquisa bate-à-sua-porta, os autores assinam com suas cuecas.

(Texto publicado em 29 de outubro de 2006 no Brutti)

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Politicamente incorreto

March 21st, 2007 by jana

Herdei de um primo meu uma coleção de vinis e fitas VHS. Ele chegou em minha casa com duas caixas grandes e disse: “Cara, tô mudando. Arrumei um trampo fora da cidade e não tenho como levar. Cuida pra mim?”. Até hoje tento descobrir se ele me deu de presente as duas caixas ou se elas ainda esperam pelo seu D. Sebastião. Por muito tempo mantive as caixas fechadas. Deixe-as fechadas por tanto tempo que até tive que policiar meus pensamentos quando resolvi assistir a um dos vhs, onde meu primo gravou vários clips da década de 80 e 90. O clip que passava era Safety Dance do Men without hats. Um anão começa a pular na tela da minha tv de 20 polegadas e eu penso automaticamente: “Anão não, cara! Indivíduo verticalmente prejudicado”. Não, eu não sou um personagem de uma série de ficção científica. Não, eu não tenho plugs enfiados em partes do meu corpo, como ouvidos, bocas e até mesmo na minha bunda e nem meus pensamentos são exibidos em um telão no meio da cidade para que um grande irmão meta seu grande dedo em minha cara espinhenta e diga: “É indíviduo verticalmente prejudicado, seu, seu, seu portador de uma imagem alternativa”, para não dizer gordo obviamente.

Inconscientemente o anão pulando na tela da minha tv, herança de meu primo, desencadeou em mim mais uma neurose moderna ou pós-moderna. Aliás, uma das minhas grandes neuroses é decidir o que é moderno, o que é pós e se é pós mesmo. Mas deixemos esta discussão para os teóricos da academia. Não a academia de ginástica e nem a do Oscar, obviamente. Outras das minhas neuroses também é tentar não me perder nos meus pensamentos, coisa que raramente consigo. Retornando ao meu momento de epifania esdrúxula, o anão saltitante acabou despertando em mim a neurose do “seja-um-indivíduo-politicamente-correto”. Se ainda a política fosse correta, mas nem isso. Sei apenas que o meu super-ego politicamente correto começou a agir em mim como uma influência nefasta, como Anakin Skywalker, que foi sendo conduzido para o lado negro da força, ou seria o lado afro-descendente da força? Apenas lembro do indivíduo verticalmente prejudicado pulando e da minha dificuldade em não cometer gafes a partir disso.

Peguei o metrô para o trabalho e não sentei nos bancos cinzas, afinal eles são reservados para os velhinhos, as grávidas e os deficientes físicos. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii. “Que velhinho, seu marmanjo gordo, ops, seu marmanjo portador de uma imagem alternativa?”. Apitou meu super-ego em sinal de alerta. Não são mais velhinhos, são indivíduos da melhor idade e as grávidas são gestantes. E cuidado para não cometer a gafe de oferecer seu lugar a uma portadora de imagem alternativa achando que ela é gestante.Você pode levar uma bela bolsada ou será um golpe de objeto revestido de couro na cara? Um dia eu ofereci meu lugar no metrô pra Jana, uma mina que conheci no trabalho, e ela me olhou torto achando que eu tinha chamado ela de gorda, mas eu não achei que ela estivesse grávida. Apenas quis ser educado, porra! Porra, eu não posso xingar. E se alguma criança estiver lendo este texto e se tornar um deliquente infantil por ter lido porra? Minha cabeça está doendo, meus dedos estão tensos e eu preciso de sorvete.

Minha irmã namora com um cara estrábico. Será que ainda posso dizer que ele é estrábico ou terei que chamá-lo de homem jovem com olhar desviado em 45º? Meu chefe é careca, mas tenho que pensar, pensar apenas, que ele é calvo! E aquela recepcionista cheia de curvas? Chamo de gos… Não, chamo de linda mulher dotada de curvas dignas de uma pista de automobilismo. Minhas mãos estão suando. Mudo o canal da tv e está passando uma matéria sobre as profissionais do sexo, antes garotas de programa e no tempo de meu avô, meretrizes. “Os nomes mudaram, meu filho, mas ninguém deixou de ser quem realmente é”. Meu avô me diria sorrindo, apagando o cigarro por estar no meio do shopping, tomando água com gás e não mais pinga. Ligo o ventilador e está fazendo um calor infernal, ou melhor, um calor vindo das profundezas vermelhas da crença cristã. Os nomes mudam, mas tudo continua exatamente como é. Fizeram até uma cartilha anos atrás, eu lembro. Uma cartilha politicamente correta que nos dizia como deveríamos nos referir corretamente ao outro, mas ninguém deixa de me olhar torto na catraca do ônibus, achando que vou entalar na entrada por causa da minha barriga apenas por me chamarem de indivíduo portador de uma imagem alternativa. Minha mãe toca a campainha. Sei que é ela pelos três toques contínuos. Peeeeeeeee, peeeeeeeee, peeeeeeeeeee. Não, não era meu super-ego gritando comigo. Era apenas minha mãe trazendo um bolo de milho. “Tava dormindo, filho?”. “Acho que sim”. O anão já tinha parado de pular e ninguém em sã consciência vai mudar o título de Branca de Neve e os Sete Anões para Branca de Neve e os Sete indivíduos verticalmente prejudicados. Agora toca Like a virgin na tv e eu como o bolo de milho. A cartilha não vingou e eu continuo portador de uma imagem alternativa, ou melhor, gordo. Perguntei a minha mãe sobre meu primo D. Sebastião e ela apenas disse: “Ah, filho. Joga essas tralhas fora. Teu primo não vai vir buscar esse lixo não”. “Tá, mãe. Vou vender no sebo então e ganhar em cima da reciclagem”.