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Politicamente incorreto
Herdei de um primo meu uma coleção de vinis e fitas VHS. Ele chegou em minha casa com duas caixas grandes e disse: “Cara, tô mudando. Arrumei um trampo fora da cidade e não tenho como levar. Cuida pra mim?”. Até hoje tento descobrir se ele me deu de presente as duas caixas ou se elas ainda esperam pelo seu D. Sebastião. Por muito tempo mantive as caixas fechadas. Deixe-as fechadas por tanto tempo que até tive que policiar meus pensamentos quando resolvi assistir a um dos vhs, onde meu primo gravou vários clips da década de 80 e 90. O clip que passava era Safety Dance do Men without hats. Um anão começa a pular na tela da minha tv de 20 polegadas e eu penso automaticamente: “Anão não, cara! Indivíduo verticalmente prejudicado”. Não, eu não sou um personagem de uma série de ficção científica. Não, eu não tenho plugs enfiados em partes do meu corpo, como ouvidos, bocas e até mesmo na minha bunda e nem meus pensamentos são exibidos em um telão no meio da cidade para que um grande irmão meta seu grande dedo em minha cara espinhenta e diga: “É indíviduo verticalmente prejudicado, seu, seu, seu portador de uma imagem alternativa”, para não dizer gordo obviamente.
Inconscientemente o anão pulando na tela da minha tv, herança de meu primo, desencadeou em mim mais uma neurose moderna ou pós-moderna. Aliás, uma das minhas grandes neuroses é decidir o que é moderno, o que é pós e se é pós mesmo. Mas deixemos esta discussão para os teóricos da academia. Não a academia de ginástica e nem a do Oscar, obviamente. Outras das minhas neuroses também é tentar não me perder nos meus pensamentos, coisa que raramente consigo. Retornando ao meu momento de epifania esdrúxula, o anão saltitante acabou despertando em mim a neurose do “seja-um-indivíduo-politicamente-correto”. Se ainda a política fosse correta, mas nem isso. Sei apenas que o meu super-ego politicamente correto começou a agir em mim como uma influência nefasta, como Anakin Skywalker, que foi sendo conduzido para o lado negro da força, ou seria o lado afro-descendente da força? Apenas lembro do indivíduo verticalmente prejudicado pulando e da minha dificuldade em não cometer gafes a partir disso.
Peguei o metrô para o trabalho e não sentei nos bancos cinzas, afinal eles são reservados para os velhinhos, as grávidas e os deficientes físicos. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii. “Que velhinho, seu marmanjo gordo, ops, seu marmanjo portador de uma imagem alternativa?”. Apitou meu super-ego em sinal de alerta. Não são mais velhinhos, são indivíduos da melhor idade e as grávidas são gestantes. E cuidado para não cometer a gafe de oferecer seu lugar a uma portadora de imagem alternativa achando que ela é gestante.Você pode levar uma bela bolsada ou será um golpe de objeto revestido de couro na cara? Um dia eu ofereci meu lugar no metrô pra Jana, uma mina que conheci no trabalho, e ela me olhou torto achando que eu tinha chamado ela de gorda, mas eu não achei que ela estivesse grávida. Apenas quis ser educado, porra! Porra, eu não posso xingar. E se alguma criança estiver lendo este texto e se tornar um deliquente infantil por ter lido porra? Minha cabeça está doendo, meus dedos estão tensos e eu preciso de sorvete.
Minha irmã namora com um cara estrábico. Será que ainda posso dizer que ele é estrábico ou terei que chamá-lo de homem jovem com olhar desviado em 45º? Meu chefe é careca, mas tenho que pensar, pensar apenas, que ele é calvo! E aquela recepcionista cheia de curvas? Chamo de gos… Não, chamo de linda mulher dotada de curvas dignas de uma pista de automobilismo. Minhas mãos estão suando. Mudo o canal da tv e está passando uma matéria sobre as profissionais do sexo, antes garotas de programa e no tempo de meu avô, meretrizes. “Os nomes mudaram, meu filho, mas ninguém deixou de ser quem realmente é”. Meu avô me diria sorrindo, apagando o cigarro por estar no meio do shopping, tomando água com gás e não mais pinga. Ligo o ventilador e está fazendo um calor infernal, ou melhor, um calor vindo das profundezas vermelhas da crença cristã. Os nomes mudam, mas tudo continua exatamente como é. Fizeram até uma cartilha anos atrás, eu lembro. Uma cartilha politicamente correta que nos dizia como deveríamos nos referir corretamente ao outro, mas ninguém deixa de me olhar torto na catraca do ônibus, achando que vou entalar na entrada por causa da minha barriga apenas por me chamarem de indivíduo portador de uma imagem alternativa. Minha mãe toca a campainha. Sei que é ela pelos três toques contínuos. Peeeeeeeee, peeeeeeeee, peeeeeeeeeee. Não, não era meu super-ego gritando comigo. Era apenas minha mãe trazendo um bolo de milho. “Tava dormindo, filho?”. “Acho que sim”. O anão já tinha parado de pular e ninguém em sã consciência vai mudar o título de Branca de Neve e os Sete Anões para Branca de Neve e os Sete indivíduos verticalmente prejudicados. Agora toca Like a virgin na tv e eu como o bolo de milho. A cartilha não vingou e eu continuo portador de uma imagem alternativa, ou melhor, gordo. Perguntei a minha mãe sobre meu primo D. Sebastião e ela apenas disse: “Ah, filho. Joga essas tralhas fora. Teu primo não vai vir buscar esse lixo não”. “Tá, mãe. Vou vender no sebo então e ganhar em cima da reciclagem”.
