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Pés

July 29th, 2008 by jana

Meu tempo é o tempo das lembranças.
O passado rasurando o hoje como tinta,
que se derrama lascivamente
pelas páginas em branco,
prontas para serem escritas.

Meu tempo é o tempo das fotografias.
Instantes aprisionados que ganham apenas o movimento dos slides,
indo-vindo-acendendo-apagando.
Projetam-se em mim como sombras,
que penso ser minha verdadeira realidade,
mas logo vejo que são apenas projeções,
resto do que já foi e que não retorna.
É impossível retroceder o fluxo dos rios.

Não quero ser um amanhã previsível,
não quero ser o ontem.
Quero o instante, quero, quero sim.
E que ele venha dilacerante, luz-sombra-chuva-claridade.
Quero caminhar, embora os pés ainda estejam presos ao chão,
fértil de recordações hoje pintadas com cores solares.

É preciso movimento.
Espero as lembranças ganharem seu lugar
e eu deixar de viver como se estas fossem meu hoje.
Meu sangue segue seu fluxo,
minha carne não rejuvenesce,
tudo caminha, menos eu.
É preciso movimento.
Compreendo a necessidade.
Silenciosa, caminho.

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Entre dois pontos

July 24th, 2008 by jana

Um corpo só a desejar dois espaços.
Divido-me ilusoriamente,
sou duas, sou tantas,
raízes antigas, novas raízes.
Sangro.

Encho a mochila de roupas,
talvez devesse deixá-la sempre assim,
pronta para cruzar pontes
e migrar entre os dois mundos que me chamam.
Penso.

Enquanto a noite chega silenciosa,
olho para o céu e tento arrastá-lo comigo.
Céu, mar, ruas, casas, pessoas.
A cidade toda a caber em mim.
Silencio.

Ando convulsivamente
na tentativa de carregar a cidade
nas solas gastas dos meus sapatos
e nos meus póros escancarados,
que se abrem à saudade e às lembranças.
Caminho.

Sou uma travessia que se faz em carne.
Atravesso as lembranças de infância,
esqueço as dores,
não reconheço-me nem no ontem
e nem no amanhã.
Sou hoje.

Nas costas o peso da mala
e das recordações.
No corpo, o afago dos que ficam
e o desejo antecipado de quem me espera do outro lado da ponte.
Vou-me embora, vou agora, vou sim.
Vou-me embora, vou agora,
e a cidade ficando para trás
como um filme mudo em preto e branco.
Só umas notas solitárias
e o silêncio por dentro
a gritar saudade de quem fica e
entoar a saudade de quem espera.

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A louca

July 10th, 2008 by jana

“As palavras são reticentes e insuficientes, dona menina”.
A mulher gritava.
A louca para uns.
Ela gritava porque a dor era fina
e o peito não era suficientemente elástico
para sustentar no mesmo bater
o embaraço das rimas:
o amor de braços dados com a dor.

Os olhos dela eram redondos e brilhavam
como tudo que é excessivo.
Vestia a nudez
e carregava no corpo os olhos dele,
que brilhavam tristes em algum lugar
entre ruas negras e postes de luz.

Ela era das águas, excessiva, transbordante,
ele desaguava por dentro.
As palavras dela, que antes estancavam,
agora pareciam pequena lâminas,
que grudam-se à carne,
tecendo na pele uma memória de dores escritas.

Ninguém soube ao certo quando se perderam,
acredita-se que foi quando ela soube
que as palavras são insuficientes e
é neste ponto que a angústia nasce.
Ele já não acreditava no murmurar das palavras
e ela aos poucos ganhava aqueles olhos turvos,
olhos de quem não segue mais leis,
olhos da liberdade que chega de mãos dadas com a loucura.

Eles, que já foram um só, foram se destacando um do outro.
Ele a viver voltado para dentro, encontrando em si o ventre acolhedor.
Ela a caminhar nas ruas, com o peito tomado de lâminas,
emudecendo e maldizendo as palavras.
Palavras essas sedutoras e traiçoeiras,
palavras filhas das rameiras
e antes de se calar para todo sempre,
olhou para quem passava na rua
e apontando para quem já sofrera por amor, disse:
“As palavras são reticentes e insuficientes”.
Calou-se, murchou e juntou-se às pedras da rua
até seu dia ponto chegar.

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Junina

June 24th, 2008 by jana

Há um cheiro de saudade,
invadindo as paredes frias deste inverno cinza.
Há um cheiro de saudade
no café que faço
e no leve adoçar das fotografias,
espalhadas no espelho quieto da xícara.

Minha cidade mora longe
e tão perto ao mesmo tempo.
Ela mora em mim, viva e quente,
lembrança sensorial,
gosto e imagem.
Minha cidade ferve quieta e silenciosa no peito.

É dia das fogueiras, olha só!
Bandeirolas coloridas enfeitando de cores vivas
as ruas e vielas da minha cidade,
que chora todo meio de ano,
estação triste-feliz das águas.

Como eu queria estar longe daqui,
caminhando entre essas cores saudosas,
sentindo o cheiro amarelo do milho invadir minhas narinas,
tão agora desacostumadas com o cheiro bom
das coisas que alimentam a alma.

Minhas narinas agora sentem cheiro de multidão e indiferença,
são as regras mudas do concreto,
com as quais convivo sem pestanejar,
enquanto longe minha cidade brilha na chama
das fogueiras e nas chuvas de prata,
que desenham formas no ar
pelas mãos pequenas das crianças.

Talvez hoje eu durma ao som de Luiz Gonzaga,
enquanto ouço buzinas lá fora,
frutos da costumeira impaciência.
Talvez eu sonhe com roupas vermelhas de chita,
embrulhada no meu edredon verde,
sufocada pelas lembranças de menina,
festejando sozinha o meu São João.

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A praça

June 9th, 2008 by jana

Sol embaçado pelas nuvens de sempre,
o cinza escondendo claridade e riso,
e os dois lá,
sentados no banco duro e igualmente cinza,
abraçados, rosto-ombro-rosto-ombro.

Ao lado, um cobertor tão cinza quanto as nuvens
ou quanto o concreto-matéria do banco que ocupavam.
Abraçados, unindo silenciosamente a fome física
e a fome inquietante da alma, eles estavam.

Eles estavam lá, sentados, amarrados,
entrelaçados,
matando um a fome do outro.
Fome de pele e de calor,
fome de olhos que não se desviem,
à vista daquilo que não quer ser visto.

As pessoas circulam calmamente
com seus tickets de refeição
e seus terninhos cheirando a amaciante e a sabão.
Eles, dois iguais, dois homens-meninos,
são como estátuas antigas,
que se confundem à paisagem,
tão cinzas que são,
que quase ninguém lhes nota a presença
e a dor esculpida nos olhos e na face.

Eles não se apartam,
olhos fechados, queixo no ombro,
imitam as cenas dos amantes,
que vêem ao passar em frente das lojas de eletros.
Eles querem ser algo,
se destacarem do cinza,
deixarem de ser imagem estática,
a quem ninguém presta atenção.

Talvez nem seja isso que eles realmente queiram,
talvez um busque no outro um toque suave
que a vida todos os dias lhes nega.
E eu a dar voltas, como um moinho,
sem sair do meu eixo,
olho aqueles corpos de olhos cerrados,
pego meu ticket de refeição,
mato a fome do meu corpo,
enquanto vejo os amantes de longe,
segurando firme um ao outro,
como a linha frágil
que sustenta um corpo
diante do sem fim das quedas,
diante dos dias em reprise,
diante da vida,
que não é, meu bem, novela.

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Não ser

May 8th, 2008 by jana

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(Imagem: Janaína Calaça)

Ofereceu a carne viva,
um punhado generoso daquilo que não é dito a ninguém.
O caminho do seu corpo,
suas camadas escondidas,
a entrada dos seus sonhos,
o afago dos seus dedos.
Mas tem que deixar de ser…

Cada vez mais viaja por dentro,
tentando encontrar a sensação perdida
de rodopiar livre sobre o chão duro dos dias.
Queria caminhar novamente com os dedos soltos,
cabelos desgrenhados,
tempo escorrendo e ela sem ver.
Mas agora tem que deixar de ser…

Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário,
acreditando ser aquele o seu mar.
Não a concebe mais na beleza do desenlaço,
concebe a menina agora na rede tecida de laços.
E ela tem deixado de ser…

Tem agora que tapar os ouvidos,
os olhos e a boca.
Recolher restos de papéis ensaiados
exaustivamente por tantos.
Tem que ser igual,
seguir o fluxo,
não desviar.
E ela deixa mais e mais de ser…

Do outro lado do espelho,
aquele corpo amado está,
querendo ser extensão dela,
sem entender que já é,
mas que mesmo morando entre paredes de vidro,
óleo e água não se misturam,
e quando acontece,
não pertence mais ao limite deste mundo.
É licença poética e nada mais.
Continuarão sendo dois.

Enquanto isso, o peito entoa canção triste,
notas sufocadas e jorradas para dentro.
Não há como fazer-se entender.
Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário.
E ela silenciosamente deixando de ser…

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Pele

March 10th, 2008 by jana

Descobri, logo cedo, que para renovar a pele queimada pelo sol,
teria que enfrentar a dor primeiro,
deixar que ela surrasse a carne, ardesse vermelha e explícita,
para aos poucos ver a pele nova crescer por cima,
à espera de outras dores possíveis e das novas camadas finas,
que depositam-se ao corpo silenciosamente.

Deixei minhas dores arderem a carne o quanto podiam
e agora vejo esta pele nova nascer fina e brilhante.
Talvez se eu metesse a unha impaciente
e quisesse arrancar a pele velha de uma só vez,
nunca esta pele, que se forma agora, nasceria.
É preciso deixar a dor se pronunciar por completo
para que um ponto qualquer não se abra mais em novas feridas.

Vejo esta pele nova, uma camada entre as tantas que há em mim,
se formar e fechar mais este ciclo,
trazendo a certeza de que por mais que tenha ardido, cicatrizei.
Estou pronta para novas quedas, arranhões profundos nos joelhos,
e pedaços do que pulsa espalhados pelo chão.

Agora renovo-me como qualquer limite entre margens,
que inundou-se de chuva e fez-se oceano,
a espalhar vida pelos cantos e estar pronto para correr,
rejeitando o tédio das águas paradas.

O sol surra esta pele nova, mas como deixei-a cicatrizar por inteiro,
vejo-a hoje mais resistente,
tão distante daquela camada fina e frágil,
que imaginei carregar por toda a vida.
Não ganhei a impenetrabilidade risível das armaduras medievais,
pois não renuncio o que faz de mim sempre humana,
a dor, seguida da certeza do prazer.

Carrego ordenadamente por fora então
esta camada fina renovada,
que esconde e reveste o caos silencioso que há em mim.
E é esta pele fina, feita de palmas abertas às carícias e às rasteiras,
que se lança ao mundo, à sua velocidade, à sua impaciência,
aos seus cafunés e a tudo que se derrama
pelos dedos certeiros e retos do tempo,
que esmaga, que arranha,
mas que traz a chuva, que leva tudo embora
e que ainda faz o que está inerte renascer.

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Matéria-prima

February 22nd, 2008 by jana

Descubro-me filha da combinação das palavras
e não da junção aflita de duas carnes.
Não importa à rotina a história do ventre que me abrigou,
o que conta é aquilo que é dito
e digerido como verdade, como história linear.

A palavra antecede
desde o sabor sentido na língua
à aspereza firme e fria do chão durante a queda.
A palavra antecede o azul profundo deste mar que não vejo
e me antecede ao mundo
como cartão de visita desbotado e ultrapassado.

O conforto mora nas definições,
nas certezas feitas de tecido frágil e finito.
Sou feita de transição,
sou rio e chuva,
que passa, segue seu curso e desvia-se.
As palavras são estes recipientes vítreos decorados,
que me oferecem na intenção fria
de conhecerem o início e fim das minhas águas.

Enquanto buscam palavras para definir aquilo que é gerundismo,
meu corpo segue sendo e vivendo
aquilo que escolhe ser e viver.
Minha única bússola é o desejo,
que tanto faz chamar-se desejo ou não,
é o estímulo primeiro, o que faz meu corpo ser movimento.
As palavras… Guardo-as para o meu mundo falho,
o sentir eu lanço na carne como guia,
e sigo livre no bater frenético dos meus olhos
nus de palavras e de suas definições.

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Chuva

February 14th, 2008 by jana

Como a chuva que se derrama pela cidade
e nunca retornará novamente como a mesma chuva,
assim sou eu, que me derramo pelos dias,
construindo meu passado,
vendo o agora ser notícia de ontem
logo quando me distraio a pensar demais
no que vem depois.

Como a chuva que se derrama pelas calçadas,
também sou movimento que um dia cessará,
mas enquanto isso transbordo até o limite,
sou excessiva,
busco vida em cada fresta que se abre,
em cada corpo que se faz de concreto
e dureza aparente.

Sou oblíqua como estas gotas que caem surrando minha janela,
minha retidão é apenas aparente,
mas sigo sempre direções contrárias àquelas
que esperam de mim.
Eu dou a direção das minhas águas,
eu escolho onde desembocar.

Não tente me aprisionar no limite das suas mãos em concha,
conceba-me como este rio vertical que só quer correr livre.
Então beba de mim, sacie-se,
carregue no seu sangue um pouco de minhas águas,
mas não queira ser as margens que limitam os meus braços.
Pois sou esta chuva oblíqua, que molha e acarinha sua carne,
que se faz beber pela sua língua fibrosa,
mas que nem sempre cai vertical,
da mesma forma, na mesma direção.
Sou a chuva que descarta qualquer retidão,
que cai livre e que nunca mais será a chuva
que você vê agora.
Serei sempre uma queda diferente.

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Terra-carne e semente

February 7th, 2008 by jana

day_light_deleite.jpg

(Imagem: Janaína Calaça)

Hoje eu rasgo, semente, essa terra-carne
que me cobre olhos e narinas.
É hora de crescer,
ele me disse sem mexer os lábios,
e eu apenas sujei minhas mãos de vida.

É hora de crescer, baby.
O óbvio por ser explícito demais é posto de lado
como constatação menor,
mas não é.
E eu sujei ainda mais minhas mãos de vida.

Então ele foi arrancando as rodas da bicicleta velha
e me fez andar só, por mais que as quedas viessem,
por mais que a carne doesse,
por mais que eu pedisse pra parar.
A dor é fina, mas um dia passa,
nada permanece tão igual,
nem aquilo que fere.

Então eu quis rasgar a terra-carne de uma vez só,
e ele me disse, sem mexer os lábios,
que basta receber a primeira gota de luz,
que o restante vem com o tempo.
Tudo é produto do impulso primeiro,
das mãos cruzadas por baixo dos pés finos,
a ajudar a escalada pueril das mangueiras.
Vai, ele disse,
e eu quis sujar ainda mais minhas mãos de vida.

Semente rompendo a terra,
inseto quieto rompendo casulo,
seio minando as blusas cor de infância.
É hora de crescer.
E agora que a luz já aponta, mesmo tímida,
guardo-a no meu vidro velho de perfume
e faço dela vagalume,
a me guiar no caminho para romper de vez a terra,
pra deixar de ser semente,
pra crescer e me cumprir
como filho que sou do tempo.

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