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Bacantes

May 23rd, 2009 by jana

Há muito deixei de querer aprisionar o tempo.
Deixo que ele siga,
rio perene que carrega tudo para longe,
deixando nas margens apenas fragmentos de vivências.

O tempo surra meu corpo
e mais ainda sinto fome de vida,
de não deixar um momento que seja passível ao esquecimento.
Sou uma bacante de taça erguida,
corpo nu e entregue,
esperando o sumo adocicado das uvas,
para solvê-lo entre os dentes.

Minha fome e minha sede são renováveis,
não se extinguem.
Meu desejo é veia sonora, latente.
Pulsa, pulsa,
me impulsionando para frente,
para lembrar que é exatamente este desejo que nos mantém vivos,
dentro da ausência de respostas a que se resume a vida.

Enquanto isso Baco e eu dançamos livres,
e outras mãos se unem às nossas.
Mãos, corpos, peles, cheiros.
A festa de Dionísio é de carne e vinho.
Espalho-me nos corpos que se abrem para mim,
inebriante dança,
cuja canção que nos embala
é o sussurrar de nossas próprias vozes.

Lá fora, o mundo segue sua rotina de idas e vindas,
de café, contas e correria.
Aqui dentro celebramos juntos
a manutenção de nossas vidas,
o desejo em sua forma crua,
fruto vermelho colhido direto do pé.

Aqui, nos despimos não somente da prisão de nossas roupas,
mas também de nossas amarras invisíveis.
Minha existência é a recusa das convenções in vitro.
Dentro de nossa ciranda,
unamos pernas, mãos e suor.
O surrar do tempo ganha outro ritmo,
enquanto nos alternamos no saciamento de nossas sedes.
Dionísio nos observa atento,
seu riso é forte e alto,
e o vinho que ele nos serve é o desejo,
quente, inebriante, adocicado,
pronto para nos saciar
e despertar novamente nossa sede.

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Voraz

January 26th, 2009 by jana

Assim como a comida esquecida no prato,
recuso uma existência morna.
Digam que há sangue demais correndo,
que em mim não há meio-termo,
só extremos.
Dou de ombros, ah dou,
vivo a fúria desconcertante da urgência do momento.

Os corpos que amei e amo,
nunca os vivo no passado,
são narrados no presente,
como as canções que renascem
cada vez que são tocadas mais uma vez.

Não há como amar com mornidão.
Amores em temperatura ambiente perdem o sabor e a graça.
Então, meu bem, que minha língua quente
desperte o desejo aquietado pela rotina.
Não olhe demais para baixo, a pensar demais na queda,
o importante é caminhar sempre em frente,
de braços abertos,
recebendo da vida o afago ou as fúrias.

Viva apenas o instante,
é tudo que temos.
O instante é a única certeza,
pois o passado é narrativa contaminada e traída pela memória
e o futuro é a junção de sonhos e projetos,
fadados ao sim ou ao não.
Então viva o instante,
como única certeza palpável
e se dispa, não só das roupas que te escondem de mim,
como também de todos os “se” que você acumula.

Venha a mim com o corpo nu de tecidos e moral.
Tudo é construção do homem,
para se proteger da voracidade animalesca do desejo.
O desejo, meu bem, é o que há de mais profundamente sincero.
Não o domestique como os cães selvagens,
fadando-o a uma existência de comida certa e passeios regrados matinais.
O desejo é voraz
e meus olhos acompanham a fome do meu corpo,
que rejeita dias mornos,
banhos frios
e a catarse do esquecimento forçado.

Espero seu corpo como prato saboroso a ser devorado com vontade,
com os póros abertos e a boca acesa.
Carne que é oferenda,
corpo que desejo,
você-instante-presente.
E eu a te dizer, entre sussurros e horas galopantes,
que meu desejo corre livre,
vento desmanchando medos,
entrega, apenas entrega,
apenas isso.

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Renovação

December 19th, 2008 by jana

Renovo-me como rio alimentado pelas chuvas,
como terra que recebe o húmus e fertiliza-se,
como canção, que ganha entonações diferentes,
no jogo do cantar entre tantas línguas.

Meu corpo é esta canção entoada sem refrão,
canção que aguarda seu fim,
mas que segue enfeitando os caminhos invisíveis do ar,
adicionando aos dias cada nota,
que são todas essas vivências colhidas no caminho,
dor-prazer-tristeza-festa.

A vida é o flamenco dançado entre vermelho e negro,
entre dias cinzas e solares,
entre o amanhecer e o crepúsculo.
A vida é esse mar entre tempestades,
que se permite ganhar águas tranqüilas,
espelho do sol a refletir brilho que é solitário.

A vida é vermelha,
é assim que a vejo,
explícita, quente,
averso do corpo.
A vida é rio perene,
que alimenta-se dos ciclos,
que transforma o que é hoje
em coisa assim, tão diferente,
propagando o que é silêncio em um instante
e cores vivas no outro.

Então sigo, hoje corpo, amanhã flores,
hoje carne, amanhã quem sabe,
mas sigo mesmo assim.
Renovando-me em cada paisagem que miro,
em cada afago que recebo,
em cada estrada onde ponho meus pés.

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Singularidade

December 12th, 2008 by jana

Viver é fazer de cada dia não uma repetição,
mas uma singularidade,
digna de lembrança,
digna de contadores de história,
que transformam o banal em palavras que preenchem os vazios
e alimentam a alma.

Viver é sentir o corpo pulsar
e não rejeitar a urgência dos sentidos.
É não desprezar o agora,
esperando que outros agoras venham a surgir,
prontos a serem vividos quando a coragem se apresentar ao palco.
Mas a coragem vem mesmo é de dentro,
pulsando forte e quente,
sangue-vermelho-ritmo.
Há que se rejeitar o silêncio da rotina.

A vida é feita do que nos move e do que nos adormece.
Vivemos a tensão de duas forças:
uma a querer que continuemos,
outra a querer que paremos.
Escolhi seguir em frente,
buscando o calor que me acolhe,
o que me preenche,
o que me rege e
aquilo que me alimenta e é prazer.

Os dias cinzentos, deixo-os escapar
para trás das estantes das lembranças,
para os buracos negros,
onde tudo some e lá fica.
Ah… Hoje quero mesmo os dias solares,
o corpo que desejo,
as canções que me tocam,
os planos que me impulsionam,
a pulsão que me faz seguir em frente.
Porque a vida não é repetição monótona,
a vida deve ser a sucessão de momentos singulares.

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Derrama

November 29th, 2008 by jana

Ouço canções enquanto as pernas descansam sobre a cadeira.
Canções que me reportam a terras de sol e mar.
O mar, sugado pelo sol, se precipitando como chuva.
Chuva, sou assim, difícil de aprisionar.

O corpo é um limite de carne,
mas o que vem de dentro quer se espalhar.
Hoje eu quero transbordar,
como o rio que contraria os braços das represas,
causando destruição quando tem que se libertar.
A liberdade das águas sempre fere a retidão
do que se constrói pelas margens.

Entenda que não sou recusa,
entenda que não é que não queira que me naveguem calmamente.
Minhas águas seguem seu fluxo natural,
a mudar de estado quando se é necessário mudar.
Até me encaixo perfeitamente entre paredes de vidro,
mas minha natureza me chama de volta para o volume-mar.
Hoje quero me espalhar.

Meu corpo reclama essa vontade,
adoece, murcha e resta apenas a sombra
do mar profundo e cheio de vida que um dia fui.
Ventre emanando vida, ventre úmido-aconchego.
Apenas compreenda que para navegar em minhas águas
é preciso aceitar minhas turbulências,
minhas fúrias e a calma aparente.
Apenas a superfície está à mostra.

Compreenda apenas que quem é filho das águas
até aceita recipientes fechados,
mas até neles consegue criar ondas,
que de tanto forçar derramam,
que de tanto abrir-se em redemoinhos
carregam o que há na margem para o fundo.
E a canção me reporta para lugares longínquos.
Hoje quero me derramar.

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Cinza-castanhinho

November 5th, 2008 by jana

(À minha vó)

De repente aqueles olhos surgem,
pequenos e claros,
misturados ao tecido fino das lembranças,
dolorosos,
pedindo que não os esqueça.

Tento dizer que não os esqueço,
olhos assim entre o cinza e o castanho,
olhos que me carregaram ainda menina,
corpo frágil, dependente,
corpo este que apenas cresceu,
mas não mudou sua condição de fragilidade.

Você surge, assim, primeiro os olhos,
nos dias de riso e dor,
todos os dias então.
Procuro seu colo, que já não mais existe,
mas procuro assim mesmo,
como quem não entende o limite imposto
à nossa inevitável transitoriedade.

Cada dia engolido pelo entardecer
é um dia a mais de lembrança.
Sigo vivenciando palavras, cafunés
e até sinto o gosto do pão com açúcar das tardes infantis.
Eu simplesmente não esqueci.
Segui porque a vida me impulsiona para a frente,
é apenas minha condição,
mas busco seu colo todos os dias
e os olhos claros que sempre me enxergaram menina,
por mais que minhas mãos mudassem,
que meu corpo envelhecesse.
Você vive em mim,
olhos claros-cinza-castanhos,
vida sem ponto final.

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Pés

July 29th, 2008 by jana

Meu tempo é o tempo das lembranças.
O passado rasurando o hoje como tinta,
que se derrama lascivamente
pelas páginas em branco,
prontas para serem escritas.

Meu tempo é o tempo das fotografias.
Instantes aprisionados que ganham apenas o movimento dos slides,
indo-vindo-acendendo-apagando.
Projetam-se em mim como sombras,
que penso ser minha verdadeira realidade,
mas logo vejo que são apenas projeções,
resto do que já foi e que não retorna.
É impossível retroceder o fluxo dos rios.

Não quero ser um amanhã previsível,
não quero ser o ontem.
Quero o instante, quero, quero sim.
E que ele venha dilacerante, luz-sombra-chuva-claridade.
Quero caminhar, embora os pés ainda estejam presos ao chão,
fértil de recordações hoje pintadas com cores solares.

É preciso movimento.
Espero as lembranças ganharem seu lugar
e eu deixar de viver como se estas fossem meu hoje.
Meu sangue segue seu fluxo,
minha carne não rejuvenesce,
tudo caminha, menos eu.
É preciso movimento.
Compreendo a necessidade.
Silenciosa, caminho.

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Entre dois pontos

July 24th, 2008 by jana

Um corpo só a desejar dois espaços.
Divido-me ilusoriamente,
sou duas, sou tantas,
raízes antigas, novas raízes.
Sangro.

Encho a mochila de roupas,
talvez devesse deixá-la sempre assim,
pronta para cruzar pontes
e migrar entre os dois mundos que me chamam.
Penso.

Enquanto a noite chega silenciosa,
olho para o céu e tento arrastá-lo comigo.
Céu, mar, ruas, casas, pessoas.
A cidade toda a caber em mim.
Silencio.

Ando convulsivamente
na tentativa de carregar a cidade
nas solas gastas dos meus sapatos
e nos meus póros escancarados,
que se abrem à saudade e às lembranças.
Caminho.

Sou uma travessia que se faz em carne.
Atravesso as lembranças de infância,
esqueço as dores,
não reconheço-me nem no ontem
e nem no amanhã.
Sou hoje.

Nas costas o peso da mala
e das recordações.
No corpo, o afago dos que ficam
e o desejo antecipado de quem me espera do outro lado da ponte.
Vou-me embora, vou agora, vou sim.
Vou-me embora, vou agora,
e a cidade ficando para trás
como um filme mudo em preto e branco.
Só umas notas solitárias
e o silêncio por dentro
a gritar saudade de quem fica e
entoar a saudade de quem espera.

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A louca

July 10th, 2008 by jana

“As palavras são reticentes e insuficientes, dona menina”.
A mulher gritava.
A louca para uns.
Ela gritava porque a dor era fina
e o peito não era suficientemente elástico
para sustentar no mesmo bater
o embaraço das rimas:
o amor de braços dados com a dor.

Os olhos dela eram redondos e brilhavam
como tudo que é excessivo.
Vestia a nudez
e carregava no corpo os olhos dele,
que brilhavam tristes em algum lugar
entre ruas negras e postes de luz.

Ela era das águas, excessiva, transbordante,
ele desaguava por dentro.
As palavras dela, que antes estancavam,
agora pareciam pequena lâminas,
que grudam-se à carne,
tecendo na pele uma memória de dores escritas.

Ninguém soube ao certo quando se perderam,
acredita-se que foi quando ela soube
que as palavras são insuficientes e
é neste ponto que a angústia nasce.
Ele já não acreditava no murmurar das palavras
e ela aos poucos ganhava aqueles olhos turvos,
olhos de quem não segue mais leis,
olhos da liberdade que chega de mãos dadas com a loucura.

Eles, que já foram um só, foram se destacando um do outro.
Ele a viver voltado para dentro, encontrando em si o ventre acolhedor.
Ela a caminhar nas ruas, com o peito tomado de lâminas,
emudecendo e maldizendo as palavras.
Palavras essas sedutoras e traiçoeiras,
palavras filhas das rameiras
e antes de se calar para todo sempre,
olhou para quem passava na rua
e apontando para quem já sofrera por amor, disse:
“As palavras são reticentes e insuficientes”.
Calou-se, murchou e juntou-se às pedras da rua
até seu dia ponto chegar.

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Junina

June 24th, 2008 by jana

Há um cheiro de saudade,
invadindo as paredes frias deste inverno cinza.
Há um cheiro de saudade
no café que faço
e no leve adoçar das fotografias,
espalhadas no espelho quieto da xícara.

Minha cidade mora longe
e tão perto ao mesmo tempo.
Ela mora em mim, viva e quente,
lembrança sensorial,
gosto e imagem.
Minha cidade ferve quieta e silenciosa no peito.

É dia das fogueiras, olha só!
Bandeirolas coloridas enfeitando de cores vivas
as ruas e vielas da minha cidade,
que chora todo meio de ano,
estação triste-feliz das águas.

Como eu queria estar longe daqui,
caminhando entre essas cores saudosas,
sentindo o cheiro amarelo do milho invadir minhas narinas,
tão agora desacostumadas com o cheiro bom
das coisas que alimentam a alma.

Minhas narinas agora sentem cheiro de multidão e indiferença,
são as regras mudas do concreto,
com as quais convivo sem pestanejar,
enquanto longe minha cidade brilha na chama
das fogueiras e nas chuvas de prata,
que desenham formas no ar
pelas mãos pequenas das crianças.

Talvez hoje eu durma ao som de Luiz Gonzaga,
enquanto ouço buzinas lá fora,
frutos da costumeira impaciência.
Talvez eu sonhe com roupas vermelhas de chita,
embrulhada no meu edredon verde,
sufocada pelas lembranças de menina,
festejando sozinha o meu São João.

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