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Geração garrafa pet

December 20th, 2007 by jana

Jogue-me dentro deste saco com os restos orgânicos ou recicláveis,
sim, porque nós somos a Geração Garrafa Pet.
Use-me, use-me, me gaste,
depois esqueça-me num canto qualquer
ou entregue para outro reutilizar.
Sim, baby, é só lavar.

Entendo, entendo sim, quem não se adapta se esfarrapa
e por que comigo seria diferente?
Quem sou eu no meio das suas lembranças?
Incômodo-silêncio-entre-olhar.
Oh, baby, somos a Geração Garrafa Pet,
não precisa se desculpar.

Sempre fui uma romântica no final das contas,
acredito na pseudo-sinceridade das palavras e do toque,
mas você fez de mim a singularidade substituível.
Se está velho, troque,
estou passada da hora, over,
coleção outono-inverno em pleno verão.

Só não me venha depois dizer que foi importante,
palavras para mim são válidas seguidas de atos,
guarde-as então pra você, como a mágica sedutora e fajuta,
o oásis pintado na tela com tinta guache vagabunda,
que seduz com o brilho falso do neon.
Ah, baby, você é a filosofia viva da nossa geração descartável.

Só me resta lavar-me por dentro,
desinfetar a memória, desamassar a carne esmagada entre os dedos.
Sou apta aos recomeços, just play it again.
Quero encher o tanque de novo,
completa aí as minhas ilusões,
pois no final das contas sou mesmo uma romântica
e você, hábil como sempre, saberá fazer de corpos usados coisa nova
e dos antigos lixo limpo e renovável,
não em suas mãos… claro.

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O vestido verde

May 11th, 2007 by jana

Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Salto alto, daquele que levanta dedos médios para a gravidade, decote, cabelos longos, antes curtos e sóbrios, que foram longos um dia, mas sem os apliques. Rebolante, provocante, lentes no lugar dos óculos, jogados no lixo não orgânico. Cintura esculpida by lipoaspiração, desenhada por um vestido verde colante e seios duros, daqueles que chamam a atenção e dizem, hipnotizantes e mudos, “hey, olhem só esses meninos!”. Os homens olhavam. Se o pescoço pudesse girar em 360º, ele acompanharia o desejo nos olhos. Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Ela achava graça das cantadas baratas, dos adjetivos, dos fiuuuuuus-fiuuuuus. “Quem diria?” Dizia mentalmente para si mesma e seguia para casa.

Abriu a porta com cuidado, para que o gato não saísse pelas ruas. Ele teria que retardar o passeio para a casa nova. Os últimos móveis já estavam desmontados e encaixotados. Em poucas horas chegariam para pegar as caixas. Decidiu se mudar para um flat em frente ao mar. Um lugar menor, já mobiliado, com cozinha de estilo americano e uma vista que se perde em um horizonte aquoso. A casa pareceu alargar depois que todos foram embora. Os cômodos pareciam grandes demais, cheios de ecos e de lembranças. Só restou ela e o gato de olhos azuis, meio vesgos. Quando comprou a lente azul, lembrou dos olhos daquele gato silencioso e independente, que subia e descia escadas, que passeava pelo bairro e que voltava pela comida, pela água, pela cama e por ela. Sim, por ela. O casal que comprou a casa, não quis os móveis. “Não deito na cama de estranhos, amor. Casa nova, cama nova”. A casa seria entregue oca, lavada. Os móveis, alguns deles, foram vendidos por uma mixaria para um antiquário. O restante foi doado. Só levaria para o flat as roupas, alguns objetos de valor e as coisas do gato. Tinha que terminar de empacotar os vinis e documentos. Era seu último dia na casa. Despejou a ração do gato na vasilha e mordeu uma maçã. “Vamos terminar logo com isso”.

Durante anos guardou os documentos nas caixas de camisa do marido. Quando uma caixa ficava cheia demais, pegava outra e recomeçava seu arquivo informal. Decidiu jogar as caixas fora e jogar todos os documentos em uma caixa para mudanças. No meio dos documentos, um punhado de singularidades: um cacho dos cabelos da filha, de quando ela era ainda era menina, em um tempo limpo de ofensas e de portas batidas. Umas fotos antigas, amareladas de verdade, sem ajuda dos efeitos do photoshop. O tempo todo estava marcado naquelas fotos: amarelo, corroído, corrompido e cheirando a naftalina. Naquelas fotos, ela era uma menina vestida de branco, com flores na cabeça. Os cabelos longos, sem os cuidados e cremes múltiplos do hoje dela. Uns seios pequenos, uma cintura imperceptível, a barriga saliente. Tudo nela era opaco naqueles dias e não era por causa do amarelo do tempo. Ela era um quadro amarelo e mais nada. Depois do vestido branco e das flores no cabelo, a vida foi um casamento morno e uma filha que era brilho. O marido passava o dia trabalhando e ela cuidava da menina bonita, da filha de cachos soltos. Todos olhavam para a mulher e para o marido e não entendiam como tinham uma filha tão diferente. A mãe olhava para a menina e acreditava que ela seria feliz. Olhava para o espelho e se conformava com o casamento morno, com o olhar de piedade dos homens, com trabalhos negados tantas vezes quando era uma menina-moça.

Sua vida era uma repetição obstinada dos mesmos quadros, das mesmas cenas, dos mesmos diálogos. O marido deitava todas as noites ao seu lado e caía no sono. A filha crescia em seios, nos cabelos longos, nos olhos vivos, na cintura fina. Sexo só durante o banho. Aquele sexo feito com dedos e com o pensamento limpo de imagens. A filha enchendo a casa de risos e sempre aos papos com o pai. Ela era a peça deslocada da decoração, aquilo que se tem vontade de jogar fora, mas não se joga por piedade ou por tradição. Casou porque amava. Ele casou achando que amava. A filha era a menina-moça mais bonita da rua, todos olhavam para ela. A mãe começou a controlar as roupas, com medo que a menina “se perdesse com qualquer vagabundo”. O pai era explosão de ciúmes e choro, desculpas, perdão. A menina brigava com a mãe e saía provocante pela rua, rebolante, com os seios duros de menina-moça chamando olhares. O pai descontava a ira na mulher-fotografia-amarela. Ela não entendia as explosões. A menina batia portas, o pai se fechava no trabalho, a mãe fazia a comida, que esfriava nas panelas. Acabava comendo sozinha.

O gato de olhos azuis e vesgos apareceu no dia em que ela foi ao banco pagar contas e saiu para comprar um vestido para a festa de 16 anos da filha. Um vestido verde, nem menina, nem mulher. Algo ainda que está para amadurecer. Comprou o vestido e parou, enquanto voltava para casa pela rua, para comprar uma revista de receitas de bolo de aniversário. Queria fazer algo diferente para a menina. Talvez com o vestido e com a festa, a menina baixasse um pouco a guarda, deixasse a agressividade de lado. O gato apareceu e começou a rodear sua perna. Passava o pêlo fofo pela perna da mulher, que há muito já não recebia nenhum afago de quem quer que fosse. Pagou a revista e continuou andando. O gato a acompanhou pela rua. Ela olhou para o gato e decidiu levá-lo para casa. O marido odiaria o gato, mas era o mínimo que ele podia fazer por ela. Entrou pela cozinha com o gato em uma das mãos. Colocou leite em uma vasilha, onde guardava alface na geladeira e deu ao gato. Pegou uma laranja e começou a tirar a casca. Ouviu a voz do marido na sala. Estranhou ele tão cedo em casa. Abriu a porta que dava para a sala, ainda descascando a laranja, quando viu a filha sentada, com o vestido levantado, no colo do pai. O que veio depois foi a mulher se lançando para os dois, menina e homem, filha e pai, com a faquinha débil que cortava a laranja. A menina desceu rápido o vestido e o homem não tinha o que descer ou subir. A faquinha cortou o rosto da menina e o braço do pai. Os dois gritavam e o gato quieto lambeu uns pingos de sangue que caíram do rosto da menina e do braço do homem. O gato agora era também família. A mulher voltou à cozinha e era só gritos. Não chorava. O gato adormeceu aos seus pés. Ela deitou depois no chão da cozinha e por ali ficou.

Quando acordou, a casa estava em silêncio. O gato miava por comida. Quando lembrou do dia anterior, levantou-se rápido e subiu as escadas à procura da filha e do marido. Não estavam mais lá. Nem ele, nem suas roupas e nem ela, nem suas roupas e bichinhos. Da menina só restou aquele vestido verde, que ela nunca chegaria a usar. Não havia nada o que pudesse fazer. Não faria nada. Por isso os gritos, as portas batidas, o homem dormindo e ela passando dias como um objeto velho, que ninguém tem coragem de jogar fora, ou por piedade ou por tradição. Ele ligou dias depois, pedindo silêncio. Daria tudo a ela. Uma boa pensão e a casa. Fizesse o que quisesse com a casa, contanto que ficasse em silêncio. Não queria ir para a cadeia. E a menina? O escândalo que seria. Todo o mês o dinheiro estava em sua conta. Vivia bem e tinha a casa. Aos poucos, juntando o que restava do dinheiro mensalmente depositado, iniciou sua transformação. Substituiu os cabelos curtos e sóbrios por cabelos longos e dourados como o da filha. Jogou fora os óculos, comprou lentes. Fez lipoaspiração, dietas, pôs silicone nos seios. Com o corpo esculpido, pôde vestir pela primeira vez o vestido que daria à filha no seu aniversário de 16 anos. O vestido verde e colante, que homens, que antes jamais lhe dirigiriam um olhar, elogiaram. Vestiu a roupa e jogou fora o cacho da menina e as fotografias antigas. Usou o vestido pela primeira vez e depois tirou, jogando o tecido entre os restos daquilo que não queria lembrar. Experimentou durante uma caminhada o que seria ser a filha, experimentou um corpo que se deitou tantas vezes com seu marido. Mas estava errada, não era feliz e a menina era apenas uma menina, mas há coisas que não têm volta. Assim como o tempo, que só avança, avança, avança. Despachou os móveis, trancou a casa, pôs o gato no banco ao seu lado e se perdeu no horizonte aquoso da vista de seu apartamento quarto e sala.

(Texto publicado em 5 de novembro de 2006 no Brutti).

Eu recomendo!!! A imagem foi retirada do site de Giovanna Casotto, autora de quadrinhos eróticos muito bacanas. Para quem não conhece o trabalho da Giovanna, deixo o link para apreciação. Vale muito a pena conferir o trabalho dela!

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Disk lover

May 5th, 2007 by jana

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Fonte da imagem

Tudo, como um clichê de discurso psicanalítico, começou na sua infância. A mãe passou meses economizando para ter a novidade em casa. No tempo custava caro e durou quase um ano para a mulher juntar o dinheiro suficiente e conseguir trazer o objeto para a mesinha ao lado do sofá estampado. O menino desenhava no chão, deitado, com o giz de cera espalhado. As cores todas à vista. A mãe chegou naquele dia, trazendo uma caixa de papelão. O menino pensou que fosse já presente de Natal, afinal a festa já estava perto. “Que é isso, mãe?”. “Ah, filho! Um mimo! Venha cá ver”. O menino já imaginava um carrinho grande ou um saco de gudes gigantes, mas o que veio forrado em plástico bolha foi aquele aparelho vermelho-sangue, cheio de teclas e fios. “Ah, mãe! Um telefone! Pensei que fosse um presente pra mim”. “Menino, passei o ano inteiro economizando para comprar a linha e o aparelho. Só tem telefone em casa quem é chique, e eu quero ser chique”. “E meu presente de Natal?”. “Seu presente de Natal é o telefone, tá? Ah, menino, este ano ficou difícil pra mainha comprar o telefone e ainda comprar um brinquedo”. “MÃE!!!”. “Não me grite, menino!”.

O menino olhava aquele objeto vermelho ao lado do sofá, rei da mesinha de madeira e uma mistura de ódio e fascínio se confundiam como o leite e o chocolate do Milkshake. O número estava escrito em um papel grudado ao telefone. Apesar da raiva que tinha do objeto, afinal por causa dele ficaria sem presente de Natal, o menino queria tocar o plástico vermelho, queria ouvir o aparelho tocar, queria atender, falar, ligar para as pessoas. Mas para quem? Viviam apenas ele e a mãe e poucos, como a mãe mesmo dizia, tinham um telefone em casa. Eram finos, eram chiques. A lembrança das palavras da mãe se misturavam à imaginação do menino, que achava que as palavras ficavam presas naquela caixinha vermelha até o dia em que iria explodir de tantas conversas acumuladas. O telefone deles, no entanto, não iria explodir tão cedo.

Com o tempo, o telefone começou a se vulgarizar, como tudo aquilo que antes parece mágico e depois vira feijão com arroz. A mãe agora atendia aos pedidos dos doces, salgados e refeições através do aparelho e o menino é quem atendia aos pedidos, negociava preços, prazos e datas de entrega. Sua vida resumia-se à escola e ao restante do dia perdido com o fone do aparelho grudado à orelha. O aparelho vermelho era quase parte dele. Não tinha tempo para flertes, para olhares, para amassos no ginásio de esportes da escola. Era um adolescente mirrado e tímido, mas ganhava poder ao telefone. Crescia, virava gigante, homem. A adolescência, no entanto, era a fase das poluções noturnas, de acordar melado de porra e ver a mãe parada em frente à cama, gritando com o menino para que limpasse “aquelas imundícies”. Vida sexual zero, o menino enlouquecia. Permaneceu assim, até a idade adulta: sem beijos, carícias, mãos, dedos e sexo, principalmente sexo, até que uma moda apareceu na televisão: o Disk. Tinha Disk para tudo: brincadeiras, zodíaco, mapa astral, pra falar com autor/atriz prediletos e o Disk Sexo. Quando o rapaz viu a propaganda, não pensou duas vezes. Assim que a mãe dormisse, ligaria para o Disk Sexo. Seria o máximo contato que ele teria com uma mulher, mas valia.

A mãe foi dormir cedo naquela noite e ele só esperou pelos roncos da mulher para se sentar no sofá, ao lado do telefone vermelho. Discou o número e esperou. “Alowwwwwwwww”. “Alô, meu nome é….”. “Ahnnnnnnwwwwwww, estou sem calcinhaaaaaaaaaa”. Um dia ele assistiria na tv que as atendentes de Disk Sexo gastam em média 2000 pirulitos por mês para imitar um boquete, mas, continuando… “Ahnwwwwwwww, como você é grandeeeeeee”. Não é preciso nem especular demais para ter a certeza de que o mirrado-man virou um Disk Lover, que batia ponto todas as noites. No final do mês, a mãe acordou o rapaz aos gritos. “Seu imundo! Seu imundo! Usando nosso telefone, nosso ganha-pão para suas imundícies”. A mulher jogou a conta de telefone na cama e saiu do quarto. “Vou ter que trabalhar dobrado pra pagar isso”. Nunca mais voltou a tocar no telefone para as chamadas de Disk Sexo. O máximo que fazia era desligar o telefone do gancho, alugar um filme pornô e, enquanto se masturbava, fingia falar com uma atendente de Disk Sexo através do telefone mudo.

Quando o negócio da mãe finalmente cresceu e se tornou um buffet profissional, com salgadinhos assados em forno industrial, foi casando à época em que o telefone celular começou a ser vendido. Logo comprou o seu e sendo o filho da dona do buffet, que agora já contava com seis funcionárias e tendo um artigo de luxo pendurado na calça, logo-logo conseguiu facilmente aquilo que esperou por toda a vida: uma mulher de verdade e uma transa que não se resumisse ao sobe-desce de dedos. Combinou com a mulher de se encontrarem depois do serviço num barzinho próximo à pequena fábrica de salgados e doces da mãe. Não precisou falar muito, afinal era o filho da dona do buffet e tinha um celular pendurado na calça jeans. Chegaram ao motel, ele tentando fingir que já era descolado, ela tentando fingir que era uma almost virgem. Pegaram a chave do quarto e entraram. Começaram a se beijar. Ela sem saber que era o primeiro beijo daquele homem. Os filmes pornôs ajudaram-no a ter noções do que fazer. Chegaram finalmente a deitar na cama, ela nua, ele nu. Insinuante, fazendo pose sexy aprendida em revista, ela foi descendo a boca para o pau do homem, até que ele sacou uma coisa da mesinha ao lado: o celular. “Desliga pra mim o telefone daqui?”. “Como assim?”. “É só puxar o fio. Desliga pra mim”. “Tá”. Apesar de não entender nada, ela desligou o fio do telefone do motel. “Certo, agora coloca o fone no ouvido e finge que tá falando comigo”. “Ahn?”. “Faz, vai! Você finge estar falando comigo aí e eu finjo que falo com você aqui”. Depois que deram a “primeira” pelo telefone, ele fez do jeito dela e teve sua primeira vez. Se ela achou estranho, se ela deixou de trepar com o filho da dona do buffet? Bom, ainda vemos os dois ao longe mordiscando queijo e bebendo cerveja no bar no fim do expediente e ainda vemos também os dois, agora já pulando a parte do Disk sexo preliminar, pularem para os finalmentes. É a tecnologia encurtando distâncias.

(Texto publicado em 19 de novembro de 2006 no Brutti).

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Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias

March 12th, 2007 by jana

Para Lika*, Nando e Carol (pela ilustração hilária!)



Você nota que ficou velha quando percebe que acompanhou as três gerações de um mesmo lugar. Não era o cansaço nos pés, apertados naquele sapato de bico fino, que faziam os dedos interagirem entre si mais que o normal. Não era a camada a mais de pó compacto que eu já usava há algum tempo pra disfarçar as marcas de expressão, que as companhias de cosméticos faziam aparecer na sua cara desde os quinze anos de idade de tanto te pregarem sustos. “Você vai envelhecer, você está envelhecendo, você estará envelhecendo (gerundismo by telemarketing)”. Porra, eu envelheço desde o dia que virei feto, ok? Portanto, não me encha o saco com suas quarentonas cleans. Sou uma quarentona que jamais usará tons pastéis. Sou uma quarentona de gênio e de cores fortes.

Eu tinha ido no centro resolver uns problemas no banco. Os bancos são centros da delicadeza na hora que abrimos uma conta, mas depois que a lua de mel passa, os bobbies aparecem e a calcinha furada também. Lá fui eu me tornar mártir na fila e pagar meus pecados com os mesmos juros de um empréstimo com agiotas. Sentei e esperei. A atendente mandou eu pegar uma senha. Minha senha tinha três números e a senha que estava no quadro tinha dois apenas e estava bem distante da minha. Esperei um tempo até que me convenci de que dar uma volta seria mais coerente, mesmo com aqueles sapatos de bico fino. Eu só aparecia no centro quando apareciam problemas que não se resolvem remotamente. Era digital. Sei…

O sapato apertava o pé e eu descia a rua com os passos curtos. Uma queda, além de ser um vexame dispensável, arruinaria minha coluna torta. Passos curtos então. Uns bares com paredes de azulejo branco-encardido-muito-encardido estavam servindo churrasco grego por um real com suco. Os vendedores ambulantes vendiam suas falsificações de Prada e o sol apostava silenciosamente comigo que faria meu cérebro cozinhar. Umas mulheres com calças coladas ao cubo estavam encostadas nas paredes externas dos bares. Olhei demoradamente para uma menina de cabelos cacheados. Sim, uma menina. Ela olhou pra mim maliciosa. “Tia, quer foder?” Sim, minha filha, mas não com você. Dá até rima. Continuei andando. Não queria ir para a sombra, porque tropeçaria nas putas ou levaria porrada de algumas delas que achassem que eu queria roubar seus respectivos pontos. Não queria ficar no Banco, sentada, esperando Godot ou pela senha. Mas também não queria passear debaixo daquele sol. Típico de uma geração que sabia o que queria e depois se perdeu nos planos e nas ideologias. Continuava andando, quando ouvi uns gritos exaltados. Já fazia algum tempo que eu não passava na frente daquele prédio e foi aí que percebi que estava mesmo velha.

O prédio já estava na sua terceira geração utilitária. A primeira geração tinha sido a de um cinema grandioso, que reunia os intelectuais barbudos e cabeludos da época. Hoje eles continuam barbudos, mas a maioria corta os cabelos e faz pedicure e manicure ou morreu de úlcera ou de problemas cardiovasculares. Com a invenção segura do shoppings centers, os cinemas grandiosos foram entrando em decadência, até que foram adaptados para o pessoal do sexo “all by myself”. Algumas destas meninas, não exatamente estas, que agora estão encostadas nas paredes externas dos bares que servem churrasco grego, um dia já atenderam seus clientes dentro destes cinemas ou continuam atendendo, mas nas cabines de peep show, construídas com madeirite, vidro e uns furinhos para interagir. Então agora eu estava diante da terceira geração da reciclagem imobiliária. Eu ouvia os gritos, quando voltei a mim do meu passeio temporal pela história concisa do antes-cinema-depois-puteiro e percebi que já estava dentro daquele lugar, que agora era todo branco, cheio de cadeiras de plástico e de pessoas sentadas olhando para a figura que gritava. Algumas pessoas olharam para mim e cochichavam. Sim, eu sou pecadora. Sim, eu como carne vermelha e trepo. Pelo menos uma vez por mês. Sentei constrangida. Não podia sair sem chamar mais atenção do que já havia chamado. Resolvi ficar. Apesar dos gritos, apesar dos hinos, lá tinha sombra e minha senha estava distante demais da realidade do quadro digital. Foi aí que se deu o ápice do meu dia. Era o dia do descarrego, da descarga, do livramento, do sei-mais-o-que, quando o Mr. Louvor arrastou quatro pessoas lá pra o palco e começou o exorcismo dos demônios. Eu tenho uma teoria de que eles devem comprar os demônios a quilo ou que deve existir uma distribuidora expresso do tinhoso responsável pelo abastecimento. Tudo corria bem na perspectiva do Mr. Louvor e do público, três dos quatro demônios já tinham ido dormir nas profundezas do assoalho da igreja, quando o quarto demônio resolveu não dar o ar de sua graça. O pastor suava empurrando a cabeça da mulher pra baixo. “Responde, demônio. Respondeeeeeeeeeee”. Silêncio. “Respondeeeeeeee”. Silêncio. E eu lá estudando maneiras de sair dali sem ser percebida. “Fale, filho das profundezas vermelhas. Faleeeeeeee”. Silêncio. Até que o pastor cansado olhou para os fiéis. O silêncio foi geral. Ele ergueu o dedo para a mulher, que já devia ter um milk-shake no lugar dos miolos na cabeça, e disse: “Demônio surdo-mudo, liberte essa mulheeeeeeeeeer”. Não deu. Eu até tentei, eu até travei os dentes na hora, mas não deu. Minha risada encontrou o eco do antigo cinema, puteiro, agora igreja e alcançou o pastor. Todos olharam para mim e neste momento, antes de ser convocada a um exorcismo de brinde, eu alcancei as portas da igreja.

Consegui me afastar o máximo que pude da entrada da igreja. Algumas pessoas que estavam perto da porta ainda olhavam para trás e para mim. Olhei para o relógio e já havia passado mais de uma hora desde que saí do banco. Na verdade, passaram-se décadas. Eu me vi em uma das cadeiras do cinema, assistindo filmes de arte para parecer séria. Eu me vi passando na frente do cinema e rindo dos homens que entravam sozinhos com suas mãos. Um daqueles homens, que hoje estavam lá louvando ao divino, poderia ter sido um frequentador, hoje arrependido, das cadeiras do Cine-Casa de Burlesco, assim como há possibilidade de que uma daquelas mulheres de saias longas pudesse ter sido uma das dançarinas dos peep shows da fase do mesmo recinto. Todos estavam ali para salvarem alma e corpo. Eu estava ali pela sombra. Inferno é caminhar debaixo de 34º ao meio dia. Algo perto disso é ilustração de livros de catecismo. Mas eu percebi que estava ficando mesmo velha. Vou comprar um filtro solar e tomar uma aspirina. Flashbacks são bregas e nos deixam bobos. Sou mulher de gênio e cores fortes, meu bem. Rejeito os tons pastéis e estes saudosismos melodramáticos. Quanto é mesmo aquele creme anti-rugas?

* Lika é a responsável por um dos momentos mais hilários desta crônica/conto. Obrigada, querida!