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O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros
Estava eu a vagar pela net, quando me deparei com o artigo de um senhor chamado José Maria e Silva, que assinava uma reportagem para o Jornal Opção, um jornal de Goiânia. O título do artigo deste senhor era “Movimento gay: a ditadura da depravação”. Eu acredito que o direito de expressão deve ser preservado, contanto que não venha ferir o direito do outro de viver. O artigo inicialmente visava fazer uma crítica a uma nota de jornal assinada pelo jornalista Liorcino Mendes Pereira Filho, presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Goiás, que convidava o público a conhecer o cine Gay Astor, que contava com dark room e que era também voltado para o sexo grupal. Inicialmente a proposta do jornalista José Maria era a de atacar o fato da nota ter sido publicada em um jornal de circulação e de que crianças teriam acesso ao que ele chamou de “apologia ao sexo grupal”. Ok, seu José. O artigo é extenso, então me reportarei ao mesmo aos poucos. A minha questão inicial é a seguinte: as novelas, exibidas em horário comercial, estão repletas de cena de sexo e de nudez, filmes são exibidos às 22 horas e não são poucos que também exibem cenas de sexo, então o que mais causaria preocupação? Uma nota que sai no jornal ou a novela que é exibida diariamente e que mostra casais em pleno ato sexual na telinha? O que tem mais projeção nacional? O artigo do supracitado senhor traz as respostas aos poucos. A preocupação do mesmo na verdade não estava associada ao cuidado com a mente virginal das crianças. O texto inteiro é uma sucessão de generalizações e ele prega abertamente sua homofobia e faz um convite aos leitores à intolerância. O problema não é a propaganda convocando a população para conhecer o Cine Gay Astor, o problema é se tratar de uma propaganda voltada para o público homossexual e é isso que mexeu com nosso caro jornalista.
Prosseguindo com o artigo, em um dado momento este senhor fala que “nas telenovelas e no discurso oficial do movimento gay, os casais homossexuais formam uma espécie de Sagrada Família do mesmo sexo. Para induzir a sociedade a aceitar a adoção de crianças por casais gays, a mídia vende a idéia de que os casais homossexuais vivem mais harmoniosamente do que os casais normais”. Opa, seu José, em que momento um casal homossexual não é normal? Ele não paga seus impostos, trabalha, vai ao mercado, limpa a casa, descansa no fim de semana? O que faz um casal heterossexual ser normal e um casal homossexual não ser? Eu não acredito que os casais homossexuais vivam mais harmoniosamente que um casal hetero, mas eles têm as mesmas condições de criarem uma família e inclusive de cuidar de uma criança. As novelas obviamente romantizam tudo, não aprofundam questões, pois estão mais voltadas, neste caso, à tentativa de conquistar um público consumidor que antes não era alcançado. As novelas tratam qualquer questão superficialmente, mas a questão de um casal homossexual ter o direito e a capacidade de criar uma criança e de constituir família é a mesma de um casal hetero.
Mais para a frente, o ilustre senhor continua o seu rosário de bobagens, criticando a Parada Gay e nos presenteia com a seguinte afirmação: “Sem contar as bolsas de pesquisas distribuídas pelas universidades públicas para os “estudos de gênero”, que quase sempre não passam de apologia da depravação gay”. Acredito que a Parada Gay é um momento importante para lembrar que há uma parcela da população que existe, que precisa ser respeitada como igual e que precisa de espaço. Durante a maior parte do ano, os homossexuais não raras às vezes precisam viver nos bastidores, ocultando suas vidas, por medo de retaliações e seria muito bobo afirmar que estas não existem. O momento da Parada é um momento de tentativa de diálogo e de mostrar que eles existem e precisam sim de espaço. Mas, o senhor José Maria, em um tom reducionista classifica tudo como depravação e apela para termos como “moral”, “decência”, como se estes conceitos fossem fechados e imutáveis. A moral e a decência são conceitos criados pelo homem e ele sabe muito bem se apropriar deles quando lhe é oportuno. Pessoas que se julgam no direito de apontar o que é moral e o que é decente, quase nunca reconhece a imoralidade ou a indecência de alguns de seus atos. O caminho mais fácil para se construir um discurso generalizante e exaltado como deste senhor é apelar para o senso comum, que já convencionou que homossexualidade rima com promiscuidade.
Depois, para fechar com chave de ouro, que para mim mais cabe como de latão, o senhor traz a Igreja para o centro das discussões. Ele toca no ponto da tentativa de criação da Lei Anti-homofobia, que punirá casos explícitos de homofobia, que serão julgados pela lei como crime, assim como os crimes de racismo. Acho que por artigos como deste jornalista, que usa um veículo formador de opinião para tentar catequizar a população a pregar a intolerância, que tal lei deveria sim ser votada e aprovada. Para evitar também que as pessoas sejam expulsas de locais públicos por tentarem viver normalmente suas vidas, sem que atos como este fiquem impunes. A questão não é gerar um mal estar, mas sim tentar educar as pessoas para algo de suma importância para que uma sociedade funcione: você não precisa concordar com algo para respeitá-lo. Você não precisa aceitar a homossexualidade (ninguém te obriga a isso), mas você precisa e deve respeitar o espaço destas pessoas e acima de tudo estas pessoas. A Igreja, sustentada por séculos pela fé do homem, não deveria servir para ditar regras ou estabelecer o que é bom e o que é mau. Maniqueísmo é reducionismo. Em vez de ficar classificando o que é normal, o que é pecado, a Igreja deveria servir de suporte aos que acreditam nela, um lugar de paz e de acolhimento, afinal, como dizem os crentes na figura divina de Deus, nós somos iguais diante de seus olhos. É uma pena que o discurso morra como discurso e as ações sejam tão contrárias e contraditórias.
Escrevi este texto por repúdio ao texto deste senhor. Como eu mesma disse no título do texto: O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros. O supracitado jornalista é um exemplar que ilustra bem o título deste post. Ele falou tanto em perseguição religiosa e eu cá me pergunto o seguinte… Será que não é ele que está incitando uma perseguição em nome de um ideal? O que ele quer? Uma utopia mundial heterossexual-cristã? Há lugar pra todos, meu senhor, basta apenas nos ajeitarmos que dá, viu? Ou mais uma vez estaremos contribuindo para a tradição de uma história construída por apagamentos, silenciamento e exclusão.


