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Regresso

October 23rd, 2009 by jana

Regresso ao chão de onde parti um dia,
terra a que não pertenço mais.
Sei apenas de onde vim,
para onde vou é lacuna.

Como guia, apenas os olhos e minhas contas baratas.
Como certeza, apenas o que levo no peito.
Na mala, poucas mudas de roupa,
enquanto sigo muda,
tentando tornar audível
todas minhas perguntas sem respostas.

Sigo,
com os cabelos embaraçados ao vento,
pés nus, mãos vazias,
esperando quem as tome
e as envolva entre os dedos.

Entenda… Não queria caminhar só.
Seu lado na calçada está guardado.
E se tropeçar, em pedra ou em flores,
desta vez terei de levantar sozinha,
lavando, com minhas próprias mãos, as feridas.

Que venha a chuva forte,
cascata a derramar-se do céu,
volumosa o suficiente para abafar minhas águas,
que caem molhando o chão por onde piso,
deixando como marcas minhas pegadas,
duas apenas, a querer que sejam quatro.
Seu lado na calçada está guardado.

Regresso,
já não sei a que pertenço,
se a uma terra ou ao corpo que me espera.
Regresso,
dois pés e a carne surrada de lembranças,
o peito a gotejar saudades,
os olhos a procurar seu reflexo em outros espelhos.

Regresso,
o familiar já tão desconhecido,
os lugares de infância redescobertos,
eu, a mesma, tão distinta.
E as mãos sempre estendidas,
os pés em dois ainda
e um lado na calçada
mantido, cuidado… guardado pra você.

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Entre dois pontos

July 24th, 2008 by jana

Um corpo só a desejar dois espaços.
Divido-me ilusoriamente,
sou duas, sou tantas,
raízes antigas, novas raízes.
Sangro.

Encho a mochila de roupas,
talvez devesse deixá-la sempre assim,
pronta para cruzar pontes
e migrar entre os dois mundos que me chamam.
Penso.

Enquanto a noite chega silenciosa,
olho para o céu e tento arrastá-lo comigo.
Céu, mar, ruas, casas, pessoas.
A cidade toda a caber em mim.
Silencio.

Ando convulsivamente
na tentativa de carregar a cidade
nas solas gastas dos meus sapatos
e nos meus póros escancarados,
que se abrem à saudade e às lembranças.
Caminho.

Sou uma travessia que se faz em carne.
Atravesso as lembranças de infância,
esqueço as dores,
não reconheço-me nem no ontem
e nem no amanhã.
Sou hoje.

Nas costas o peso da mala
e das recordações.
No corpo, o afago dos que ficam
e o desejo antecipado de quem me espera do outro lado da ponte.
Vou-me embora, vou agora, vou sim.
Vou-me embora, vou agora,
e a cidade ficando para trás
como um filme mudo em preto e branco.
Só umas notas solitárias
e o silêncio por dentro
a gritar saudade de quem fica e
entoar a saudade de quem espera.

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A melhor hora do dia

September 4th, 2007 by jana

Os dias seguem distintos lá fora,
mas aqui dentro não.
É como retroceder todas as manhãs
a imagem do sol aparecendo
por cima dos arranha-céus
e saber que nada muda entre minhas paredes,
apenas o sabor da comida,
que descansa no fundo dos pratos.

A dor no peito é física,
não metafórica,
a dor do poeta não é fingimento,
é fato-ato-coração pedindo pra parar.
O cão me olha e me toca com as patas,
como se buscasse na minha carne,
arranhando-arranhando,
um sorriso qualquer perdido
ou preso no buraco fundo do dente.

Já te disse, fitando seus olhos castanhos,
que a melhor hora do dia
é quando a chave gira na fechadura
e você entra, modificando a rotina,
jogando a poeira assentada para longe,
fazendo o ar se mover.

A melhor hora do dia é quando a espera termina,
quando o desejo se renova,
quando a dor de repente pára
e o coração continua a querer bater,
até que a noite se recolha,
o dia recomece,
e os ciclos sigam circulares,
atravessando os mesmos pontos,
marejando meus olhos órfãos de mar
e filtrando o riso pálido trancafiado no meu peito.

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Saudade, ê

June 25th, 2007 by jana

Saudade é descobrir que aquilo
que era dia-a-dia,
prato simples e farinha,
roupa de casa e chinelos,
é tão brilhante como punhados de ouro,
a reluzir e encher os olhos.
E meus olhos estão cheios agora
de água limpa,
peito transbordando lembranças,
vontade de ficar,
mas impulsionada pelo ter que ir.

Saudade é tocar quem se ama
e sentir que o corpo quer se demorar
no abraço aconchegante,
cama e rede,
café quente e aromas.
Meu olfato limitado
pesca do ar os cheiros dos corpos amados,
que se misturam em sinfonia,
tocando a canção do até mais.

Dedilho canções nos cabelos prateados da minha velha vó,
e sinto meu pai amparar as lágrimas por dentro.
Minha mãe, a vejo quieta, vermelha como uma maçã de outono,
madura e firme, como os frutos que querem cumprir
a sina de estarem enfeitando o seio das árvores em cada estação.
Do meu irmão levo o olhar e o riso,
e ele diz, com os dentes infantis:
- “Deixe de ser besta, menina,
você volta, ué!”.

Sigo então na minha carruagem de ferro,
sobrevoando as lágrimas todas desembocadas em mar.
Sigo para outros braços,
que também deixei vazios e que agora busco encontrar.
Sigo, com os olhos marejados,
com coração apertado,
pingando saudade pelo caminho,
deixando um rastro para que mais tarde
eu possa novamente voltar.