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Entre dois pontos
Um corpo só a desejar dois espaços.
Divido-me ilusoriamente,
sou duas, sou tantas,
raízes antigas, novas raízes.
Sangro.
Encho a mochila de roupas,
talvez devesse deixá-la sempre assim,
pronta para cruzar pontes
e migrar entre os dois mundos que me chamam.
Penso.
Enquanto a noite chega silenciosa,
olho para o céu e tento arrastá-lo comigo.
Céu, mar, ruas, casas, pessoas.
A cidade toda a caber em mim.
Silencio.
Ando convulsivamente
na tentativa de carregar a cidade
nas solas gastas dos meus sapatos
e nos meus póros escancarados,
que se abrem à saudade e às lembranças.
Caminho.
Sou uma travessia que se faz em carne.
Atravesso as lembranças de infância,
esqueço as dores,
não reconheço-me nem no ontem
e nem no amanhã.
Sou hoje.
Nas costas o peso da mala
e das recordações.
No corpo, o afago dos que ficam
e o desejo antecipado de quem me espera do outro lado da ponte.
Vou-me embora, vou agora, vou sim.
Vou-me embora, vou agora,
e a cidade ficando para trás
como um filme mudo em preto e branco.
Só umas notas solitárias
e o silêncio por dentro
a gritar saudade de quem fica e
entoar a saudade de quem espera.
