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Entre dois pontos

July 24th, 2008 by jana

Um corpo só a desejar dois espaços.
Divido-me ilusoriamente,
sou duas, sou tantas,
raízes antigas, novas raízes.
Sangro.

Encho a mochila de roupas,
talvez devesse deixá-la sempre assim,
pronta para cruzar pontes
e migrar entre os dois mundos que me chamam.
Penso.

Enquanto a noite chega silenciosa,
olho para o céu e tento arrastá-lo comigo.
Céu, mar, ruas, casas, pessoas.
A cidade toda a caber em mim.
Silencio.

Ando convulsivamente
na tentativa de carregar a cidade
nas solas gastas dos meus sapatos
e nos meus póros escancarados,
que se abrem à saudade e às lembranças.
Caminho.

Sou uma travessia que se faz em carne.
Atravesso as lembranças de infância,
esqueço as dores,
não reconheço-me nem no ontem
e nem no amanhã.
Sou hoje.

Nas costas o peso da mala
e das recordações.
No corpo, o afago dos que ficam
e o desejo antecipado de quem me espera do outro lado da ponte.
Vou-me embora, vou agora, vou sim.
Vou-me embora, vou agora,
e a cidade ficando para trás
como um filme mudo em preto e branco.
Só umas notas solitárias
e o silêncio por dentro
a gritar saudade de quem fica e
entoar a saudade de quem espera.

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A melhor hora do dia

September 4th, 2007 by jana

Os dias seguem distintos lá fora,
mas aqui dentro não.
É como retroceder todas as manhãs
a imagem do sol aparecendo
por cima dos arranha-céus
e saber que nada muda entre minhas paredes,
apenas o sabor da comida,
que descansa no fundo dos pratos.

A dor no peito é física,
não metafórica,
a dor do poeta não é fingimento,
é fato-ato-coração pedindo pra parar.
O cão me olha e me toca com as patas,
como se buscasse na minha carne,
arranhando-arranhando,
um sorriso qualquer perdido
ou preso no buraco fundo do dente.

Já te disse, fitando seus olhos castanhos,
que a melhor hora do dia
é quando a chave gira na fechadura
e você entra, modificando a rotina,
jogando a poeira assentada para longe,
fazendo o ar se mover.

A melhor hora do dia é quando a espera termina,
quando o desejo se renova,
quando a dor de repente pára
e o coração continua a querer bater,
até que a noite se recolha,
o dia recomece,
e os ciclos sigam circulares,
atravessando os mesmos pontos,
marejando meus olhos órfãos de mar
e filtrando o riso pálido trancafiado no meu peito.

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Saudade, ê

June 25th, 2007 by jana

Saudade é descobrir que aquilo
que era dia-a-dia,
prato simples e farinha,
roupa de casa e chinelos,
é tão brilhante como punhados de ouro,
a reluzir e encher os olhos.
E meus olhos estão cheios agora
de água limpa,
peito transbordando lembranças,
vontade de ficar,
mas impulsionada pelo ter que ir.

Saudade é tocar quem se ama
e sentir que o corpo quer se demorar
no abraço aconchegante,
cama e rede,
café quente e aromas.
Meu olfato limitado
pesca do ar os cheiros dos corpos amados,
que se misturam em sinfonia,
tocando a canção do até mais.

Dedilho canções nos cabelos prateados da minha velha vó,
e sinto meu pai amparar as lágrimas por dentro.
Minha mãe, a vejo quieta, vermelha como uma maçã de outono,
madura e firme, como os frutos que querem cumprir
a sina de estarem enfeitando o seio das árvores em cada estação.
Do meu irmão levo o olhar e o riso,
e ele diz, com os dentes infantis:
- “Deixe de ser besta, menina,
você volta, ué!”.

Sigo então na minha carruagem de ferro,
sobrevoando as lágrimas todas desembocadas em mar.
Sigo para outros braços,
que também deixei vazios e que agora busco encontrar.
Sigo, com os olhos marejados,
com coração apertado,
pingando saudade pelo caminho,
deixando um rastro para que mais tarde
eu possa novamente voltar.