Arquivos dos posts
Pés diluídos
Ao meu menino
Descubro que o amor é como aprender a andar novamente,
depois de muito tempo que o corpo permaneceu inerte.
De nada adianta saber do amor e do andar em teoria.
Ambos se vivenciam na experiência.
Aprendo a amar como quem aprende a dar passos
tendo que sustentar, na fragilidade das pernas esquecidas,
um corpo já marcado e antigo.
E o medo de tropeçar e arranhar a carne
é tão grande,
que sento-me debaixo de um céu raro de estrelas
a buscar uma linha imaginária,
que sirva de guia e suporte.
As estrelas estão lá, pequenos mobiles brilhantes,
como aqueles que um dia você me deu.
Olho as estrelas, olho o tecido colorido que enfeita a parede,
mas não há linhas suficientemente seguras e fortes,
a que possa confiar a fragilidade do meu caminhar.
Apenas fecho os olhos e confio em tuas mãos.
Não adianta nada saber andar ou amar em teoria,
é preciso querer aprender, esquecendo do que já se sabe.
Você, com pouca luz, fotografa nossos pés diluídos na água,
talvez para me mostrar que o amor tenha mais haver com fluidez
do que, necessariamente, com fincar os pés no chão,
a procurar terreno firme onde pousar o corpo.
Dentro d’água não há quedas,
mas há a força em não se afogar.
A imagem de nossos pés
ficou diluída entre nossos olhos.
Eu tentando caminhar sempre por terrenos mais firmes,
você a me mostrar que no fluir há menos dor.
Quem diria, eu assim tão cartesiana,
quem diria, você assim tão rio.
Descubro que o amor é como aprender a andar pela segunda vez,
mas é preciso me despir de toda teoria e clichê,
de todos manuais e cálculos de risco.
Não há movimento sem queda
e não há vida sem movimento.
Vejo seus braços erguidos em minha direção
e o espaço, que há entre eles e meu corpo,
nada mais é que o ângulo que me oferece
para sustentar meus possíveis tropeços.
Você tão rio,
eu agora tão cartesiana,
nossos pés diluídos,
um caminhar distinto,
como se antes eu nunca tivesse
a pele, um dia, fincada no chão.



