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Pés diluídos

March 15th, 2010 by jana

Ao meu menino

Descubro que o amor é como aprender a andar novamente,
depois de muito tempo que o corpo permaneceu inerte.
De nada adianta saber do amor e do andar em teoria.
Ambos se vivenciam na experiência.

Aprendo a amar como quem aprende a dar passos
tendo que sustentar, na fragilidade das pernas esquecidas,
um corpo já marcado e antigo.
E o medo de tropeçar e arranhar a carne
é tão grande,
que sento-me debaixo de um céu raro de estrelas
a buscar uma linha imaginária,
que sirva de guia e suporte.

As estrelas estão lá, pequenos mobiles brilhantes,
como aqueles que um dia você me deu.
Olho as estrelas, olho o tecido colorido que enfeita a parede,
mas não há linhas suficientemente seguras e fortes,
a que possa confiar a fragilidade do meu caminhar.
Apenas fecho os olhos e confio em tuas mãos.
Não adianta nada saber andar ou amar em teoria,
é preciso querer aprender, esquecendo do que já se sabe.

Você, com pouca luz, fotografa nossos pés diluídos na água,
talvez para me mostrar que o amor tenha mais haver com fluidez
do que, necessariamente, com fincar os pés no chão,
a procurar terreno firme onde pousar o corpo.
Dentro d’água não há quedas,
mas há a força em não se afogar.

A imagem de nossos pés
ficou diluída entre nossos olhos.
Eu tentando caminhar sempre por terrenos mais firmes,
você a me mostrar que no fluir há menos dor.
Quem diria, eu assim tão cartesiana,
quem diria, você assim tão rio.

Descubro que o amor é como aprender a andar pela segunda vez,
mas é preciso me despir de toda teoria e clichê,
de todos manuais e cálculos de risco.
Não há movimento sem queda
e não há vida sem movimento.

Vejo seus braços erguidos em minha direção
e o espaço, que há entre eles e meu corpo,
nada mais é que o ângulo que me oferece
para sustentar meus possíveis tropeços.
Você tão rio,
eu agora tão cartesiana,
nossos pés diluídos,
um caminhar distinto,
como se antes eu nunca tivesse
a pele, um dia,  fincada no chão.

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Rotina

December 9th, 2009 by jana

Ao meu menino

Não temo a rotina dos dias,
o amanhecer e o anoitecer ao seu lado.
Toda rotina, no fim, tem sua beleza,
mesmo causando temor
a quem sua presença rejeita.

Há beleza em te ver acordar
depois de uma noite de sono,
em que nossos corpos dançaram sonoros
na superfície dos lençóis amassados e limpos,
enquanto as janelas-testemunhas,
abertas e obscenas,
nos traziam a brisa fria,
viajante de terras de longe.

Há beleza em dividir o pão e o café,
os primeiros sons da manhã,
as horas primeiras do dia.
Você me verá com os cabelos revoltos,
eu te verei aninhado em pijamas.
Sem moldura, trilha sonora ou luz de palco,
a vida nua e sem glamour.

Haverá beleza no beijo de despedida,
oferenda dos que se apartam momentaneamente,
a saber que, ao fim do dia,
os lábios se misturam novamente,
trazendo relatos de dor e alegria.

Haverá beleza na comida caseira,
na mesa posta, nos nossos pratos,
nas notícias diárias assistidas,
enquanto meu abraço te acolhe inteiro,
feito casulo,
quente, delicado, seguro.

E no fim de cada semana,
com os corpos cansados e rotos
da labuta diária da sobrevivência,
você me mostrará tua cidade
e eu te lerei velhos textos,
a descobrir, silenciosamente,
que toda rotina tem sim sua beleza,
quando a diferença se faz,
mesmo quando tudo aparenta repetição.

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Janelas

December 4th, 2009 by jana

Este amor-vivência
é força bruta,
húmus,
terra fértil onde mergulho meu corpo,
banhando-me de vida,
preenchendo as linhas vazias de minhas mãos.

Este amor, que já nasceu maduro,
fruto de nossos acertos e erros,
já conhece os caminhos,
é antigo,
posto que por ele sempre esperei.

Nosso amor são duas carnes transitórias,
que se buscam em quereres,
na certeza que nosso tempo é finito
e que é preciso driblar os pontos,
enquanto o pulsar existe no peito.

Nosso amor é canção tocada por mãos machucadas,
não há nos olhos a ilusão da meninice.
Nós somos estes corpos gastos,
que se buscaram entre passos tortos
pela vontade de renascer.

Nos seus olhos castanhos,
nestes olhos castanhos profundos,
húmus-terra fértil,
é onde quero viver,
imagem sempre refletida,
meu corpo, parte sua,
banhado pelo brilho negro
destas janelas por onde entrarei todos os dias.

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Da sacada

November 14th, 2009 by jana

Quando a noite chega
e tudo que vejo são luzes ao longe,
penso em você sozinho na sacada de sua casa.
Fecho os olhos e tento ser novamente
a criança de riso despreocupado,
que acreditava poder estar em todos lugares que quisesse,
apenas no abrir e fechar dos olhos.

Enquanto você caminha em seu pijama macio
e eu caminho nua pelo quarto,
tento colher a brisa silenciosa que sai de seus lábios.
Silenciosamente espero
o momento que nossas mãos se unirão
e caminharemos juntos,
deixando para trás tudo aquilo que nos causa dor.
O amor sempre atenua as feridas mais profundas.

Sim, fecho os olhos e você está ao meu lado.
Mesmo ausente,
sinto seus dedos caminharem entre meus cabelos,
seus braços afastarem o frio,
seu colo abrigar meu corpo surrado.
Minha pele silenciosa espera a sonoridade do seu corpo,
a entoar nosso amor como canção suave e intensa.

E quando a dor é intensa e o corpo parece não suportar,
me refugio em nossas linhas, canções e lembranças.
O amor não foi feito para desistentes.
Para se amar é preciso caminhar rente,
com o peito aberto e a alma em festa,
com as mãos livres para o enlaçar de dedos,
com os olhos brilhantes a alimentar chamas.

Logo eu… Logo eu que sempre temi falar do amor,
com o risco de parecer piegas ou ridícula,
agora não só entoo meu canto
como assumo todo o prazer e a dor
a ele alinhavados.

Não, meu amor, não há medo, não há dúvidas,
só uma espera.
Pacientemente te aguardo,
debruçada na janela deste quarto estranho,
colhendo no vento o pólen de seus beijos.
Espero, espero sim.
O corpo todo em festa,
eu vestida de amor,
os olhos gritando alegria
e todas as dores a se tornarem jornal de ontem.
Sigamos.
O amor não foi feito para desistentes.

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Bacantes

May 23rd, 2009 by jana

Há muito deixei de querer aprisionar o tempo.
Deixo que ele siga,
rio perene que carrega tudo para longe,
deixando nas margens apenas fragmentos de vivências.

O tempo surra meu corpo
e mais ainda sinto fome de vida,
de não deixar um momento que seja passível ao esquecimento.
Sou uma bacante de taça erguida,
corpo nu e entregue,
esperando o sumo adocicado das uvas,
para solvê-lo entre os dentes.

Minha fome e minha sede são renováveis,
não se extinguem.
Meu desejo é veia sonora, latente.
Pulsa, pulsa,
me impulsionando para frente,
para lembrar que é exatamente este desejo que nos mantém vivos,
dentro da ausência de respostas a que se resume a vida.

Enquanto isso Baco e eu dançamos livres,
e outras mãos se unem às nossas.
Mãos, corpos, peles, cheiros.
A festa de Dionísio é de carne e vinho.
Espalho-me nos corpos que se abrem para mim,
inebriante dança,
cuja canção que nos embala
é o sussurrar de nossas próprias vozes.

Lá fora, o mundo segue sua rotina de idas e vindas,
de café, contas e correria.
Aqui dentro celebramos juntos
a manutenção de nossas vidas,
o desejo em sua forma crua,
fruto vermelho colhido direto do pé.

Aqui, nos despimos não somente da prisão de nossas roupas,
mas também de nossas amarras invisíveis.
Minha existência é a recusa das convenções in vitro.
Dentro de nossa ciranda,
unamos pernas, mãos e suor.
O surrar do tempo ganha outro ritmo,
enquanto nos alternamos no saciamento de nossas sedes.
Dionísio nos observa atento,
seu riso é forte e alto,
e o vinho que ele nos serve é o desejo,
quente, inebriante, adocicado,
pronto para nos saciar
e despertar novamente nossa sede.

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A louca

July 10th, 2008 by jana

“As palavras são reticentes e insuficientes, dona menina”.
A mulher gritava.
A louca para uns.
Ela gritava porque a dor era fina
e o peito não era suficientemente elástico
para sustentar no mesmo bater
o embaraço das rimas:
o amor de braços dados com a dor.

Os olhos dela eram redondos e brilhavam
como tudo que é excessivo.
Vestia a nudez
e carregava no corpo os olhos dele,
que brilhavam tristes em algum lugar
entre ruas negras e postes de luz.

Ela era das águas, excessiva, transbordante,
ele desaguava por dentro.
As palavras dela, que antes estancavam,
agora pareciam pequena lâminas,
que grudam-se à carne,
tecendo na pele uma memória de dores escritas.

Ninguém soube ao certo quando se perderam,
acredita-se que foi quando ela soube
que as palavras são insuficientes e
é neste ponto que a angústia nasce.
Ele já não acreditava no murmurar das palavras
e ela aos poucos ganhava aqueles olhos turvos,
olhos de quem não segue mais leis,
olhos da liberdade que chega de mãos dadas com a loucura.

Eles, que já foram um só, foram se destacando um do outro.
Ele a viver voltado para dentro, encontrando em si o ventre acolhedor.
Ela a caminhar nas ruas, com o peito tomado de lâminas,
emudecendo e maldizendo as palavras.
Palavras essas sedutoras e traiçoeiras,
palavras filhas das rameiras
e antes de se calar para todo sempre,
olhou para quem passava na rua
e apontando para quem já sofrera por amor, disse:
“As palavras são reticentes e insuficientes”.
Calou-se, murchou e juntou-se às pedras da rua
até seu dia ponto chegar.

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Pulse

January 7th, 2008 by jana

corpos_nus.jpg

(Ilustração: Luiz Fernando Calaça)

Melhor mesmo é sentir o sangue pulsar,
música mais sincera não existe,
melodia suave e firme,
vida arranhando as paredes de minha carne-limite.
Seu ouvido encostado no meu peito
ouvindo meu corpo todo bater,
o silêncio lá fora, a sinfonia aqui dentro.

Sim, meu bem, estamos vivos
e nossa carne quer sempre o toque da carne do outro,
o pêlo, o suor, a boca e os dedos livres.
Ah, meu bem, sabemos ser um nesta nossa dança,
amarras só existem para os fracos,
que acham que assim se sentirão mais seguros e mais fortes.

Livres, só os dedos entrelaçados,
você deixa o vento lamber meu corpo,
e eu deixo a maré invadir suas partes.
Meu, seu, teu, tua
são palavras apenas,
e as palavras ganham sempre sentidos múltiplos,
são inconstantes, transitórias, mar e lua.
Não creia tanto nas palavras,
creia em mim deitada ao seu lado todas as noites,
achando que o anelado dos seus cabelos se encaixam perfeitamente
nos meus dedos-falos, que te invadem silenciosos e amantes.

Creia no olhar que te lanço
e na forma como te acarinho a pele,
porque o prazer que se sente no toque do outro
a palavra nunca dará conta em descrever.
Então se desamarre de tantos conceitos,
tanta moral, instrumento do homem para aprisionar a si mesmo.
O que somos concebemos no silêncio.
E mesmo que as palavras nos açoite a pele,
que nos rotulem, que nos arranhe a cara,
deixa que o sangue escorra,
mas não se perca desta mão que te acarinha sempre
e que desconhece o amor que não venha da planície irregular,
que é tua pele traçada todos os dias.

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Lençóis velhos

December 12th, 2007 by jana

dois.jpg

(Ilustração: Luis Fernando Calaça)

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de guardar nossas lembranças,
a marca transparente que deixamos de nossos corpos,
o cheiro disfarçado pelo amaciante do nosso suor e de nossa rotina.

Enquanto você não chega,
eu brinco de me envolver com esta manta fina
e faço dela grama e chão,
onde misturo o tempo dos relógios
e as horas suspensas da minha imaginação.

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de nos manter unidos,
passando calor de uma pele para outra,
aquecendo os dias frios, em que nos sentimos um,
mesmo quando partilhamos duas solidões.

Cada pedaço deste tecido pobre sabe dos nossos segredos,
medos, vontades, temores, desejos.
E quanto mais nos misturamos,
mais nossas histórias ficam guardadas no profundo pardo do entrelaço das fibras.

Gosto timidamente da textura destes nossos lençóis velhos
e da forma silenciosa como ele nos acolhe e embala nossos sonhos.
E quando meu corpo estiver longe do seu,
ou o seu estiver distante do meu,
que façamos deste pedaço de pano vagabundo
a lembrança presente do cheiro, das formas e de nossas texturas,
a memória externa de nossa entrega de todos os dias.

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Paredes e pulso

July 2nd, 2007 by jana

Consagro meus instantes
como quem tem sede profunda
e bebe os minutos em grandes goles,
esperando que assim
seja saciado o desejo pela plenitude,
e que ele demore mais ainda para se renovar.
Desejar hoje dói.

Diga se há angústia maior
que descobrir-se feliz
depois que o tempo há muito passou
e dele só restou
a lembrança viva de dias solares e despreocupados,
em que crescer significava poder ver filmes adultos
e chegar depois das seis,
com os pés cansados,
com o corpo fatigado,
esperando do dia apenas um banho
e uma cama de cheiro bom.
Crescer hoje dói.

Chego depois das seis,
com a cabeça pesada,
esperando resgatar projetos velhos
e ganhar energia para executá-los sem medo.
Chego e as paredes me recebem
como todas as paredes recebem corpos cansados,
frias e indiferentes,
mas ao menos elas não esperam
que eu reaja
quando no momento as energias moram longe de mim.
Mover-me hoje dói.

Baby, me perdi em meus projetos,
me perdi em meio às minhas projeções,
e agora sento e te espero
para sugar cada gole de calor que você me dá,
para beber os instantes que passo ao teu lado,
a esquentar meu corpo para mais um dia frio de junho,
que se impõe como as horas,
certeiras e não declinantes.
Esperar hoje dói.

Queria andar de bicicleta,
sem as rodinhas, sabe?
Mas algo me puxa para o chão
e lá eu permaneço rente ao solo frio,
esperando que ele por si me aqueça.
Quero apenas um impulso, entenda,
coragem para me arranhar,
para cortar meus joelhos e ver meu sangue,
para que eu lembre que este pulso
não canta para o nada,
que este coração ainda bate
não por costume,
mas para me fazer recordar
de que ainda há vida entre minhas carnes.
Viver, baby, às vezes dói.

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Sexo

June 28th, 2007 by jana

lady_oncoach.jpg

(Ilustração Giovanna Casotto - Lady on coach)

Sexo não tem sexo, baby.
Sexo é extensão de pele a se misturar à outra.
Mãos, pernas, língua-na-língua.
Sexo é sinfonia marcada
com as notas que migram do sussurro ao grito,
da respiração leve à ritmada,
dos dedos a cortarem o ar,
como canção ouvida através das paredes.

Sexo não tem etiqueta,
guardanapos brancos para limpar os cantos da boca.
Sexo se abocanha com todos os dentes,
como fruta retirada direto do pé,
madura-carnuda-sumo-e-sabor.

Sexo é colhido com a ponta da língua,
pingando saliva e se misturando aos líquidos,
derramados-espalhados pela superfície fina dos tecidos.
Sexo é extravazamento, nunca represa,
é explosão,
é perna ao alto,
unhas e dentes firmemente cravados.

Sexo arranca todas as placas,
dedos na boca-silêncio,
proibido estacionar.
Sexo é excesso,
uns dizem retrocesso,
selvageria-bestiário-dos-homens.
Sexo é sagrado,
corpo e sangue,
nada tem haver com profanação.

Sexo é dança,
cujos passos desafiam a gravidade,
vertical-horizontal-olhos-pousados
no além-além-linha onde o sol nasce.
Sexo é fonte perene,
onde o desejo ciclicamente se renova,
desaguando vida,
misturando pulsos,
fazendo o querer sempre querer,
afastando o homem da vontade do fim.
Pequena morte que é,
mas que aponta sempre-sempre
para um reínicio.
Sexo é ponto,
sim,
ponto de partida.