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Pedido

November 5th, 2007 by jana

Não pinte meu corpo com essas cores pardas, meu bem,
sou assim explícita, uns borrões de vermelho,
de sangue sou feita e pulso sonora,
sou coração e boca escancarada,
olhos brilhantes e pés buscando sempre o alto.

Não me aprisione na rotina dos dias,
renove-me como fonte que precisa de espaço para ser rio,
como luz artificial que deseja ser sol.
Aceite o desgrenho dos meus cabelos,
minha loucura sadia, minhas párabolas,
meus altos e meus poços.

Pule comigo sem medo das alturas.
Pule, com os dedos misturados aos meus,
pule, que a vida nos espera,
esqueça os almoços em família,
a conta do banco, as contas de luz,
sente-se ao meu lado e balance seu corpo
por cima de um mar de acertos e erros,
não tenha medo da queda,
estou aqui para ralar os joelhos e sangrar junto.

Ah, meu bem, não me pinte com as cores pardas da repetição,
não espere de mim exatidão, planos para o futuro, previdência privada.
Espere de mim movimento, tudo levado ao limite,
choro-riso-gozo-dor,
aceite o melhor e o pior de mim,
e entenda que tudo é complemento, parte,
um pouco pelo todo.
Aceite estas linhas, rabiscadas de madrugada,
que só te pedem um dia após o outro,
um minuto vivido sem à espera do seguinte,
apenas o agora,
apenas o momento,
apenas aquilo que for possível viver.

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Delírios de uma quarentona em perigo em “Sex Shop”

October 27th, 2007 by jana

Meu pai sempre me dizia, com aquela cara de quem entende as coisas, “minha filha, aquilo que Deus esqueceu de dar, o homem dá um jeito e faz”. Velho sábio o meu. Talvez seja esta a gênese dos Sex Shops, o templo do sexo solitário ou da ajudinha a mais para levantar os ânimos ou despencar de vez. Mas o que, este ser humano que vos fala, tem haver com o famigerado templo dos falos coloridos e polimorfos? Talvez minha maior missão em Terra, se é que temos alguma, é cair de pára-quedas em situações esdrúxulas. Não poderia ser diferente desta vez.

Minha vida resume-se ao funcionalismo público, idas ao supermercado, a uma vodka talvez no fim de semana com velhas amigas, aquelas do tempo em que não pensava em colar um durex na testa e revolucionar a indústria do Botox caseiro e sem dor. A dor só existiria na hora de puxar o durex e deixar tudo despencar novamente. Minha filha me liga quando está com tédio, meu ex-marido me trocou por uma mulher que deve sofrer de escoliose, devido ao empinamento constante da bunda e às vezes ligo no automático, para não dançar tango com meu próprio tédio. Mas como ia dizendo, ainda conservo amigas de longas datas, todas recauxutadas, modelo Airbag Power. Na nossa geração, nos orgulhávamos dos nosso peitos naturais, hoje vivemos a ditadura dos peitos tamanho Pamela Anderson. Eu sou a única que resistiu ainda às aplicações da gelatina do tesão, como uma das minhas amigas falam. Gelatina do tesão… Cada uma, viu. Pois bem que me ligaram para a tal vodka do fim de semana. Eu já estava acostumada à idéia de passar mais um sábado em frente à TV, assistindo a um canal entediante, para dormir mais rápido e profundamente, mas  o telefone tocou. “Querida, se arruma aê, que vamos te pegar”. “Ah, não, Lilu. Não saio daqui nem a reboque…”. “Vai sair sim. Você precisa. Tá pensando que não sei que você tá doida pra achar um coroa, que te dê uns malhos?”. “Lilu, só os esquizofrênicos acreditam no que vêm e você deve ser uma, porque não estou caçando homem algum”. “Ah, querida, você engana quem hein? Vai dizer que depois que do divórcio, você já deu umas escapadas?”. “Lilu, eu não tenho saco, mas você está enchendo a inexistência dele”. “Te pego em 40 min”. Tu, tu, tu, tu. Fui me arrumar. Fazer o que? Não tava afim mesmo de assistir a reprise do acasalamento dos leões marinhos.

Fomos a um bar mix. Casais héteros, casais gays, jovens, trintões, quarentões, ou seja, a pluralidade estava na moda e eu, com meu olhar de antropóloga de botequim, resolvi me desligar da conversa das minhas amigas recauxutadas e observar o lugar no geral. Fazia pouco tempo que o local havia sido aberto. O atendimento ainda era bom e a decoração era interessante. Depois descobri que a grande novidade do bar era contar com uma espécie de cabines do amor, onde casais mais assanhadinhos iam dar uns malhos. Era quase como um Cyber Café da sinestesia. Tempo contado para o malho e buzininha dizendo que o tempo acabou. Para os voyeurs de plantão, as cabines acabaram com sua alegria de observar os frequentadores ensaiando a dança do acasalamento pelos cantos escuros do bar. Era um bar grande, tinha uma pista de dança pequena, as cabines no andar de cima, já que se tratava de um sobrado antigo e, por fim, descobri que o bar plural, mix, fashion, contava ainda com um discreto Sex Shop, onde as pessoas poderiam adquirir uns temperos a mais para a noite. Tomei minha primeira dose de vodka com coca cola e resolvi ir ao banheiro. Provavelmente quando eu saísse da mesa, minhas amigas iriam falar que minha abstinência forçada está me fazendo perder o senso de humor. Mal sabem elas que ouvir falar das mil maneiras de ter uma bunda dura é que me fazem perder o humor. Quando saí do banheiro, resolvi conhecer mais de perto o bar. Subi, tateando o escuro, ao andar de cima. Era lá que ficava a parte apimentada do sobrado. O local ficava parcialmente escuro, para que a identidade dos casais fosse levemente mantida em segredo, se bem que quando eles descessem a escada, já era não? Enfim, dei uma olhada cumprida para o corredor que dava para as cabines e ia descendo a escada novamente, quando vi o letreiro da lojinha de artigos eróticos, que ficava próxima à escada. Resolvi dar uma olhada pelo vidro, quando a atendente da loja me viu e me chamou. Eu disse que só estava olhando e ela insistiu que eu entrasse. “Olá”. Disse ela. “Olá”. “À procura de algo?”. “Não, não, eu só estava olhando mesmo…”. “Sei…”. “Funciona mesmo ter uma loja dessas num bar?”. “Olha, as pessoas gostam de novidades e muitas delas não têm coragem, como a senhora mesmo, de entrar em um Sex Shop, sem que estejam pelo menos com umas gotas de álcool na cabeça, então aqui já fica perto…”. “Olha, eu não tô procurando nada aqui não, só estava olhando por curiosidade…”. “Não se preocupe, todo mundo que vem aqui sempre diz estar olhando por curiosidade, mas sempre acaba levando uma “lembrancinha” pra casa”. “Bom, o papo está bom, mas tenho que voltar para a mesa…”. ” Que tal ver umas lingeries quentes? Temos modelos diversos. Freiras, enfermeiras, diabinhas, bombeiras…”. “Bombeiras?”. “Sabe como é né? Manuseia mangueiras grandes e potentes?”. “Nossa, que simbólico… Mas tenho que ir mesmo”. “Que tal uns cremes?”. “Não”. “Calcinhas comestíveis?” “Não, eu tenho que ir mesmo”. “Deixe só eu te mostrar a nossa vitrine da magia!”. “Depois disso você me deixa ir, pelo amor de deus?”. “A senhora não vai se arrepender!”.

A atendente me conduz a uma prateleira e quando me dou conta, estou diante de um arsenal de falos. “Vê só que maravilha, minha amiga! Vê só que maravilha”. “Tá bom, mas tenho que ir mesmo!”. “Não quer nem pegar em um? Eu deixo. São tão macios”. “Não, obrigada”. “Pegue, é bom!!!”. “Ai, meu pai”. Mal respondi, ela já foi tirando da prateleira um modelo 25 cm, grosso, realista. “Tá vendo? Tem até as veias. Eu tenho um destes. Aqui eu tenho desconto”. A atendente falava e olhos brilhavam. “Sabe o que é bom nisso tudo? Você não espera o dono do pinto te ligar no dia seguinte? Hahahahahahaha”. “Senhor, tirai-me desta saia justa”. “Pegue, vamos pegue!”. E eu peguei. Peguei mesmo. Pensei que assim  me livraria da atendente, que levava a sério seu estar no mundo como vendedora de sex shop. “É… É… intumescido!”. “Quê?”. “Inchado!”. “Ah, eles exageram mesmo. Sabe como é né? Se é difícil achar um de qualidade por aí, a gente vende de primeira aqui”. “É, meu pai tinha razão… O que Deus não fez, o homem deu seu jeito”. Comecei a relaxar. A mesa estaria entediante mesmo. “Ah, a senhora tem que ver este daqui. Dupla penetração!”. “Filha, calma. Essas coisas me assustam!”. A atendente riu e puxou uma coisa que deveria ter sido inspirada na cobra de duas cabeças. “Você pode usá-lo na senhora mesmo ou compartilhar”. “Tudo bem, querida… Já entendi”. Quanto mais atenção eu dava, mais a atendente solitária (será que ela usava um daqueles para passar o tempo?), me mostrava as peças. Pintos, de todos tamanhos, cores e diâmetros, pomadinhas, que segundo ela, faziam a dita cuja ferver e o pinto inchar. Calcinhas, cuecas com carinha de elefante e lugar para colocar a tromba. Estava rolando um verdadeiro Workshop erótico e nenhum conhecimento a mais deve ser dispensado, não?

Fiquei com pena da garota, que havia sido tão prestativa em suas explicações detalhadas, que resolvi levar um mimo pra cama, ops, pra casa. Ato falho, ou será ato fálico mesmo? Mandei embrulhar. Não sei se os anos de repressão sexual familiar me faria usá-lo, mas mesmo assim, paguei o mimo, me despedi da moça, que ficou na loja arrumando os falos múltiplos com todo carinho que a profissão exigia.

Fui descendo as escadas, quando esqueci do detalhe que não havia trazido bolsa grande e não teria como esconder o pacote sem ser questionada. Tentei acreditar na sorte de que levemente alteradas, elas nem iriam perceber o pacote, tão mergulhadas em seus momentos altistas que giravam em torno de plásticas e coroas que ainda davam no coro. Sentei-me à mesa e foi exatamente Lilu, aquela que me acusa de estar em seca profunda, que sem que eu tivesse tempo, arrebata o pacote de minha mão. “O que é issoooooooo?”. “Devolve, Lilu. Devolve que é vexame”. “Devolvo nadaaaaaaaaa. Eu te vi subindo a escada. Hahahahaha”. “Por que vocês deixam esta mulher beber desta forma. Devolve esta caceta, Liluuuuuu”. “Ah, então é uma caceta? Hahahahaha”. “Não!!!! É forma de dizer. Devolve!”. “Nãooooooooo”. “FAÇAM ALGUMA COISA!!!”. “Passa pra cá, Lilu”. Gritaram as traidoras. Quando dei por mim, o pacote já estava aberto e em um impulso tentei arrebatar da mão de Lilu, quando o pacote rasgou de vez e Lilu ficou com aquele falo de 25 cm balançando como uma anaconda agonizante (gostaram da métafora?). O bar já havia parado para nos observar, tal o alvoroço que havia sido instaurado naquela mesa. Lilu, lívida, deixou o consolo cair e os copos que estavam sobre a mesa foram caindo em cima do Ricardinho, como minha mãe dizia. Viramos a atração da noite e obviamente tivemos que pagar a conta e sair correndo, antes que alguém tentasse nos oferecer algo a mais como brinde e cortesia da casa. Saí com o pinto na mão. A merda já tinha sido feita, mas ficou para o Bar que a dona do moço era a Lilu. Saí apenas como a amiga que apoia. Lilu perdeu aquele riso de hiena e eu voltei pra casa com um pau molhado de vodka e coquetel de frutas. Cheguei em casa, tomei um banho e lavei o dito cujo. Deixei-o ao lado da cama. Qualquer coisa, digo que sigo alguma religião cujo ídolo é o falo. Às vezes a noite até falo com ele. Meu gato às vezes se assusta quando ver, mas como meu velho mesmo dizia, “o que Deus não dá, o homem dá um jeito e faz”. E fez…

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Pólos

September 19th, 2007 by jana

Migro através dos meus pólos
com os pés cansados de tanto ser e deixar de ser,
com minhas peles trocadas,
arrastadas pelo asfalto quente
deste meio-dia azul-cinzento,
desta cidade que fede à indiferença e urina.

Vejo nos teus olhos
a cor explícita da minha insanidade,
das minhas mudanças repentinas de humor,
da minha inconsistência.
Eu nunca disse que seria fácil,
pois sou como um todo
areia movediça,
tragando-afundando,
buraco negro,
até os que me dedicam amor.

Migro através dos meus pólos,
horas solares-horas cinzentas,
sou uma parábola viva
que você toca e tenta entender
na suavidade tranqüila dos seus dedos,
no traçado fino das tuas linhas.
Minha inquietude escorre pelas unhas
e não há nada ou muito pouco o que fazer.

Sou tantas mulheres presas em uma carne só,
sou tanto amor e raiva em doses extras,
sou o excesso que você tenta conter
com a represa invisível da rotina.
Extravazo como todo líquido,
que sente ocupar um espaço pequeno demais
para tanta vida contida-esprimida
nestes dias de azul pálido,
o tipo de cor que me entedia.

A razão de me espremer nas paredes firmes do cotidiano
é buscar o equilíbrio, o ponto médio entre meus pólos,
que encontro escondido na doçura firme dos teus olhos,
que me seguem quando sou fúria ou suavidade.
Não desista de mim por ser tão rarefeita,
porque entre as linhas de tuas mãos
me sinto verdadeiramente única
e esqueço a multiplicidade dilacerante
que é viver em um corpo só
sendo em verdade tantas.