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Pele

March 10th, 2008 by jana

Descobri, logo cedo, que para renovar a pele queimada pelo sol,
teria que enfrentar a dor primeiro,
deixar que ela surrasse a carne, ardesse vermelha e explícita,
para aos poucos ver a pele nova crescer por cima,
à espera de outras dores possíveis e das novas camadas finas,
que depositam-se ao corpo silenciosamente.

Deixei minhas dores arderem a carne o quanto podiam
e agora vejo esta pele nova nascer fina e brilhante.
Talvez se eu metesse a unha impaciente
e quisesse arrancar a pele velha de uma só vez,
nunca esta pele, que se forma agora, nasceria.
É preciso deixar a dor se pronunciar por completo
para que um ponto qualquer não se abra mais em novas feridas.

Vejo esta pele nova, uma camada entre as tantas que há em mim,
se formar e fechar mais este ciclo,
trazendo a certeza de que por mais que tenha ardido, cicatrizei.
Estou pronta para novas quedas, arranhões profundos nos joelhos,
e pedaços do que pulsa espalhados pelo chão.

Agora renovo-me como qualquer limite entre margens,
que inundou-se de chuva e fez-se oceano,
a espalhar vida pelos cantos e estar pronto para correr,
rejeitando o tédio das águas paradas.

O sol surra esta pele nova, mas como deixei-a cicatrizar por inteiro,
vejo-a hoje mais resistente,
tão distante daquela camada fina e frágil,
que imaginei carregar por toda a vida.
Não ganhei a impenetrabilidade risível das armaduras medievais,
pois não renuncio o que faz de mim sempre humana,
a dor, seguida da certeza do prazer.

Carrego ordenadamente por fora então
esta camada fina renovada,
que esconde e reveste o caos silencioso que há em mim.
E é esta pele fina, feita de palmas abertas às carícias e às rasteiras,
que se lança ao mundo, à sua velocidade, à sua impaciência,
aos seus cafunés e a tudo que se derrama
pelos dedos certeiros e retos do tempo,
que esmaga, que arranha,
mas que traz a chuva, que leva tudo embora
e que ainda faz o que está inerte renascer.

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Terra-carne e semente

February 7th, 2008 by jana

day_light_deleite.jpg

(Imagem: Janaína Calaça)

Hoje eu rasgo, semente, essa terra-carne
que me cobre olhos e narinas.
É hora de crescer,
ele me disse sem mexer os lábios,
e eu apenas sujei minhas mãos de vida.

É hora de crescer, baby.
O óbvio por ser explícito demais é posto de lado
como constatação menor,
mas não é.
E eu sujei ainda mais minhas mãos de vida.

Então ele foi arrancando as rodas da bicicleta velha
e me fez andar só, por mais que as quedas viessem,
por mais que a carne doesse,
por mais que eu pedisse pra parar.
A dor é fina, mas um dia passa,
nada permanece tão igual,
nem aquilo que fere.

Então eu quis rasgar a terra-carne de uma vez só,
e ele me disse, sem mexer os lábios,
que basta receber a primeira gota de luz,
que o restante vem com o tempo.
Tudo é produto do impulso primeiro,
das mãos cruzadas por baixo dos pés finos,
a ajudar a escalada pueril das mangueiras.
Vai, ele disse,
e eu quis sujar ainda mais minhas mãos de vida.

Semente rompendo a terra,
inseto quieto rompendo casulo,
seio minando as blusas cor de infância.
É hora de crescer.
E agora que a luz já aponta, mesmo tímida,
guardo-a no meu vidro velho de perfume
e faço dela vagalume,
a me guiar no caminho para romper de vez a terra,
pra deixar de ser semente,
pra crescer e me cumprir
como filho que sou do tempo.

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Pulse

January 7th, 2008 by jana

corpos_nus.jpg

(Ilustração: Luiz Fernando Calaça)

Melhor mesmo é sentir o sangue pulsar,
música mais sincera não existe,
melodia suave e firme,
vida arranhando as paredes de minha carne-limite.
Seu ouvido encostado no meu peito
ouvindo meu corpo todo bater,
o silêncio lá fora, a sinfonia aqui dentro.

Sim, meu bem, estamos vivos
e nossa carne quer sempre o toque da carne do outro,
o pêlo, o suor, a boca e os dedos livres.
Ah, meu bem, sabemos ser um nesta nossa dança,
amarras só existem para os fracos,
que acham que assim se sentirão mais seguros e mais fortes.

Livres, só os dedos entrelaçados,
você deixa o vento lamber meu corpo,
e eu deixo a maré invadir suas partes.
Meu, seu, teu, tua
são palavras apenas,
e as palavras ganham sempre sentidos múltiplos,
são inconstantes, transitórias, mar e lua.
Não creia tanto nas palavras,
creia em mim deitada ao seu lado todas as noites,
achando que o anelado dos seus cabelos se encaixam perfeitamente
nos meus dedos-falos, que te invadem silenciosos e amantes.

Creia no olhar que te lanço
e na forma como te acarinho a pele,
porque o prazer que se sente no toque do outro
a palavra nunca dará conta em descrever.
Então se desamarre de tantos conceitos,
tanta moral, instrumento do homem para aprisionar a si mesmo.
O que somos concebemos no silêncio.
E mesmo que as palavras nos açoite a pele,
que nos rotulem, que nos arranhe a cara,
deixa que o sangue escorra,
mas não se perca desta mão que te acarinha sempre
e que desconhece o amor que não venha da planície irregular,
que é tua pele traçada todos os dias.

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Pedido

November 5th, 2007 by jana

Não pinte meu corpo com essas cores pardas, meu bem,
sou assim explícita, uns borrões de vermelho,
de sangue sou feita e pulso sonora,
sou coração e boca escancarada,
olhos brilhantes e pés buscando sempre o alto.

Não me aprisione na rotina dos dias,
renove-me como fonte que precisa de espaço para ser rio,
como luz artificial que deseja ser sol.
Aceite o desgrenho dos meus cabelos,
minha loucura sadia, minhas párabolas,
meus altos e meus poços.

Pule comigo sem medo das alturas.
Pule, com os dedos misturados aos meus,
pule, que a vida nos espera,
esqueça os almoços em família,
a conta do banco, as contas de luz,
sente-se ao meu lado e balance seu corpo
por cima de um mar de acertos e erros,
não tenha medo da queda,
estou aqui para ralar os joelhos e sangrar junto.

Ah, meu bem, não me pinte com as cores pardas da repetição,
não espere de mim exatidão, planos para o futuro, previdência privada.
Espere de mim movimento, tudo levado ao limite,
choro-riso-gozo-dor,
aceite o melhor e o pior de mim,
e entenda que tudo é complemento, parte,
um pouco pelo todo.
Aceite estas linhas, rabiscadas de madrugada,
que só te pedem um dia após o outro,
um minuto vivido sem à espera do seguinte,
apenas o agora,
apenas o momento,
apenas aquilo que for possível viver.

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“Olha pro céu, meu amor…”

June 22nd, 2007 by jana

bandeirolas-junho-de-1990-cachoeira-bahia-foto-adenor-gondim.jpg

(Fonte: Imagem de Adenor Gondim - São João em Cachoeira - Bahia - junho de 1987)

Para quem optou por não se prender a crenças e instituições, gostar de São João é contraditório. Assumo minha condição de ser humano contraditório, pois melhor ser e festejar o dia como uma menina que adora o colorido da data do que vestida com uma blusa padronizada nos forrós da moda, espalhados pelo nordeste. Para quem não sabe, sim, sou nordestina, nascida na Bahia e quem nasce no Nordeste, mesmo que corra e se esconda nos buracos mais profundos da terra, ainda assim crescerá ouvindo os acordes de uma sanfona saudosista e sendo ofuscado pelas chamas das fogueiras acesas na noite de São João.

Como já disse, não creio no santo, nem na igreja e muito menos nos seus dogmas, mas gosto de festejar a vida, pois sabe-se lá até quando estarei aqui neste palco armado apenas por uma breve temporada. Festejo sim, pelo simples direito que tenho de abrir os braços e girar como um pião tonto, solto pela mão do menino, que se delicia vendo o brinquedo ganhar ares de furacão.

Quando eu era menina, minha mãe me arrumava um daqueles vestidos feitos de chita, amarrava fitas nos meus cabelos, pintava pintinhas no meu rosto e lá ía Janaína, ou Janinha, como minha mãe sempre me chamou, pronta para dançar uma quadrilha ensaiada exaustivamente nas aulas de educação física na escola. Lembro que nestes dias minha timidez crônica morria e eu conseguia até olhar de frente para os pais, amontoados numa arquibancada de cimento, prontos para se verem refletidos como crianças nos rostos dos filhos. Lembro de minha mãe com uma Kodak velha, tirando fotos tortas e guardando de mim momentos congelados de alegria. “Olha a chuva!”. Cubro minha cabeça com as mãos em arco e os olhos de minha mãe, mãe canceriana, chorona por natureza, faz o choro-chuva cair no cimento da arquibancada. Penso então que ela entristece. “Ixe, devo ter dançado errado e mainha deve estar morrendo de vergonha…”. Penso, mas logo o sorriso dela, misturado ao vermelho do rosto, me faz perceber que está tudo bem e que choramos também quando estamos felizes. “Olha a cobra!”. Pulo como um cabrito novo e a música me faz querer continuar a pular, como se quisesse alcançar a plenitude destes momentos e devorá-lo, para misturá-lo depois à minha carne passageira. “Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo…”. Lembro do meu par apontando para o teto do pátio do colégio, enfeitado de bandeirolas coloridas. O cimento não me impedia de ver que o céu estava lá fora, azul claro morrendo para o escuro, despontando as primeiras estrelas e abrindo as portas para uma lua gostosa de se ver.

Quando os últimos acordes ecoavam pelo pátio da escola, saíamos acenando em círculo para uma arquibancada cheia de pais, que aplaudiam os erros e os acertos da dança e que colhiam, naqueles sorrisos cansados de quem parecia ter dançado a noite inteira, os sorrisos antigos de homens e mulheres, que foram meninos e meninas um dia. Depois da apresentação das quadrilhas juninas, as professoras distribuíam o lanche, trazido em bandejas pelos próprios alunos. Lembro de insistir uma vez que minha mãe envolvesse a bandeja com um celofane vermelho. Tudo parecia dez vezes mais mágico envolvido pelo papel. Então víamos bandejas envolvidas por celofanes amarelos, vermelhos, verdes, azuis, transparentes enfeitarem uma grande mesa reservada para os quitutes. Amendoim cozido, milho, canjica, bolos, laranjas, tudo abocanhado pelos olhos e pelas bocas nervosas de uns meninos já com as caipiras amarrotadas. Os bigodes feitos a lápis e as pintinhas nos rostos das meninas agora eram borrões, que marcavam em pouco tempo o fim da festa. Ali só era o começo das festas, que abriam as férias de junho.

Lembro que meus tios tinham um sítio próximo à cidade e para lá eu ía todos os anos na festa de São João. O milho plantado era colhido e a canjica preenchia pratos e mais pratos amarelinha e fina, daquelas que desmancham na boca, entre os dentes. Minha tia deixava eu lamber um pedaço da panela e eu ficava lá entre ela e minha mãe, pescando pra mim as impressões primeiras de uma noite que chegaria logo. No fim do dia, uma fogueira grande já estava armada em frente à casa. Na área ao redor, bandeirolas e balões de papel colorido enfeitavam tudo. Meus primos acendiam bombas e vulcões e eu ficava observando o brilho sair do chão para riscar o céu como estrelas que vão beijar o solo depois. Na radiola, um disco do Gonzagão, na mesa os doces feitos por minha tia e pelas outras mulheres da casa. Os cachorros latiam com medo do pipoco dos fogos, meu pai acendia os rojões para os meninos não queimarem os dedos e eu brincava com chuvas de prata, que acompanhavam meus movimentos circulares, como vaga-lumes prateados cruzando o ar. A fogueira consumia-se. Fogo alto, vermelho, um espetáculo bonito de ser ver em meio a todo aquele breu. A noite prosseguia e Gonzagão não cansava de cantar na vitrola seu “tá danado de bom, tá danado de bom meu cumpadi…”. Eu colhia tudo, com olhos e ouvidos de menina acesa, viva como a chama das fogueiras, que queima a lenha nova. Somos assim, não? Grande chama quente, que aos poucos dimui até virar um dia cinzas. No dia seguinte, a manhã acordava com cheiro de pólvora dormida, de cascas de amenoim espalhadas pelo chão, juntamente com restos de traques de massa e bombinhas. A fogueira agora estava boa para assar milho e não faltava quem levasse sua espiga mais bonita, para vê-la avermelhar-se na brasa quente. Brasa vermelha, lembrança viva, é isso que sinto quando vejo as bandeirolas se erguerem novamente, riscando o céu nestas manhãs e noites de junho.

Em minha nova cidade, São Paulo, para onde me mudei com ares de retirante, o mês de junho passa como um mês qualquer. Arrumei então minha mala e me mandei para Salvador atrás dos meus instântaneos de felicidade. Nada disso tem haver com crenças ou dogmas. Se crêem no Santo, eu creio apenas nas minhas lembranças, parte boa de minha vida, que há todo tempo tento recordar. Só tenho o passado e a vivência convulsiva ndo presente. Deixo o futuro no seu canto, projeção que ele é, mas quando o cheiro da pólvora enche o ar, quando o milho vira canjica e os rojões diluem-se em estrelas pequeninas a se precipitarem para o chão, eu penso por dentro… “Ah, hoje é noite de São João, menina, veste logo essas lembranças puídas e venha dançar o eco das canções de Gonzagão”. “Olha pro céu, meu amor/ vê como ele está lindo/ olha pra aquele balão multicor/ como no céu vai sumindo”(Olha pro céu - Luiz Gonzaga). Olho pro céu e mergulho também os olhos por dentro de mim. Vejo uma menina com sardas no rosto, sorrir tímida com sua caipira vermelha. “Vem, menina, me dá aqui sua mão que vamos dançar esta quadrilha até o sol raiar”. Minha menina antiga me oferce as mãozinhas miúdas e rodopiamos em volta desta fogueira alta que é a vida, colhendo os restos dos rojões, como fragmentos de estrelas, que vieram pousar entre nós. “Anarriêeeeeee! Viva a São João!!!”. Então na sucessão do dia, celebro minhas lembranças como quem colhe o milho no agora e amanhã reincia a plantação.

As Noites de Junho de Antigamente
Luiz Gonzaga

Composição: Luiz Gonzaga / José Fernandes

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

São João, São Pedro, Santo Antonio,
Fogueiras, amor e matrimonio,
Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Todos cantavam, lindas canções,
Pulavam fogueiras, soltavam balões,
Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão, pião,
Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão.

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

São João, São Pedro, Santo Antonio,
Fogueiras, amor e matrimonio,
Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Todos cantavam, lindas canções,
Pulavam fogueiras, soltavam balões,
Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão, pião,
Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão.