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Festa
(Imagem: Roy Lichtenstein)
Ao som de The party’s over do Talk Talk
Ele saiu de casa com sua blusa pop do Che Guevara, sua calça surrada, comprada já devidamente envelhecida em uma loja de grife no shopping center. Cabelos na altura do pescoço, barba cheia e bigode. Ela saiu de casa com seu sapato bico fino, bolsa baguette, blusinha da Hello Kitty combinando com o desenho também da Hello Kitty, tatuado estrategicamente no espaço entre a blusinha e a calça, descendo estrelinhas para a virilha, ao lado do piercing de pedrinhas brilhantes no umbigo. Um outro ele sai também de casa com uma blusa de banda, umas correntes penduradas na calça e coturno. Uma outra ela sai com calça colada, top e boné customizado com lantejoulas. Outros eles e outras elas saem pelas ruas e se agrupam em escadarias, bares, bibliotecas, boates, puffs, cadeiras, academias, banco, areia de praia, playgrounds. Todos eles se agrupam. Lugar onde por os pés e apoiar os cotovelos. Segurança aparente. Ponto.
Fim de semana. Bairro boêmio em cidade à beira mar. Uma praça, cadeiras e mesas espalhadas, barzinhos, cheiro de comida frita e cerveja. Fim de semana. Todos escorrem para as cadeiras e mesas desta praça à beira mar. Os meninos de blusa do Che e de banda, as meninas de blusas da Hello Kitty e dos bonés customizados, os meninos de blusa pólo, as meninas de saias hippies, os meninos de tênis Nike, as meninas de All Star. Todos escorrem para os bares, agrupando-se, ilhas, costas voltadas, óleo-água. Pouco se misturam.
Uma menina de pijamas observa de cima do prédio a repetição nos corpos. Imagina uma matriz e as cópias. Imagina um grande aparelho de xerox, igual àqueles que sempre viu e nunca prestou atenção. Uma virose a prendeu no quarto. Desligou a televisão e foi para a janela, respirar mar e observar as pessoas lá embaixo. Uns corpos riam, bebiam cerveja, falavam alto, outros bebiam drinks coloridos e petiscavam. Uns batiam os punhos na mesa, exaltados e a noite se repetia como tantas outras. A menina desviou os olhos dos corpos e se fixou no mar. Aquela extensão de água reta, homogênea, que enganava os olhos e os pés. A mãe da menina contava que uma vez confiante de que o raso continuava embaixo dos pés, foi se afastando da praia até que o chão faltou. Mar inteiro que engana. Desviou novamente os olhos para a praça e para as pessoas, quando viu que os grupos ao redor das mesas estavam mais próximos. Os corpos estavam próximos demais, como se estivessem entrelaçados. Achou engraçado aquela imagem típica de festas de confraternização de fim de ano, mas ela não ouvia riso, nem os mais forçados. Ouvia uns gritos baixos. Estendeu então a mão para a mesinha e pegou os óculos.
Quando pôs as lentes, viu que os braços dos meninos-Che, das meninas-Kitty, dos meninos-banda, das meninas-boné não estavam entrelaçados e sim grudados. Quanto mais se debatiam para se soltarem uns dos outros, mais os corpos grudavam uns nos outros. O espaço entre eles diminuía. Os braços deixaram de ser braços, as pernas deixaram de ser pernas, os cabelos enteiaram-se, os rostos colados. Do alto do 9º andar, a menina via uma massa se formar. Uma massa estranha. Os corpos se espremendo, os gritos se perdendo, os olhos desaparecendo, cinco, oito, dez pessoas espremidas e dissolvidas. As carnes confundidas, misturadas. A menina tentava sair de perto da janela, mas não conseguia. Ficava ali, testemunha. O som das vozes parou de repente. Os carros passavam na rua e quem dirigia parecia não ver o que acontecia na praça. Tudo acontecia no limite daquele círculo de pedra. Fora dele tudo continuava normalmente. Silêncio lá dentro. As carnes, as roupas, os olhos, tudo se esprimia até que começou a ganhar forma. Da massa, daquela mistura uniforme, restou, a menina viu, apenas um corpo de cada reunião de corpos. Sem acreditar, a menina viu um menino de blusa do Che sentar à mesa, uma menina de blusa da Hello Kitty pegar um drink no balcão e continuar a bebericar e um menino de blusa de banda dedilhar uma canção em um baixo ausente. Todos aqueles corpos reduzidos a um exemplar de cada. Singulares, únicos, ali no centro daquela praça. Corpos-matrizes.
A menina sente uma pressão nos ombros. Ela entende. Olha pra baixo e uma multidão bebe, conversa, come à beira mar. Ela entende. E o pai fecha a janela, cobre a menina com o lençol e ela dorme ao som de uma canção que toca alta, saindo do porta-malas de um carro estacionado na rua.






