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Festa

July 6th, 2007 by jana

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(Imagem: Roy Lichtenstein)

Ao som de The party’s over do Talk Talk

Ele saiu de casa com sua blusa pop do Che Guevara, sua calça surrada, comprada já devidamente envelhecida em uma loja de grife no shopping center. Cabelos na altura do pescoço, barba cheia e bigode. Ela saiu de casa com seu sapato bico fino, bolsa baguette, blusinha da Hello Kitty combinando com o desenho também da Hello Kitty, tatuado estrategicamente no espaço entre a blusinha e a calça, descendo estrelinhas para a virilha, ao lado do piercing de pedrinhas brilhantes no umbigo. Um outro ele sai também de casa com uma blusa de banda, umas correntes penduradas na calça e coturno. Uma outra ela sai com calça colada, top e boné customizado com lantejoulas. Outros eles e outras elas saem pelas ruas e se agrupam em escadarias, bares, bibliotecas, boates, puffs, cadeiras, academias, banco, areia de praia, playgrounds. Todos eles se agrupam. Lugar onde por os pés e apoiar os cotovelos. Segurança aparente. Ponto.

Fim de semana. Bairro boêmio em cidade à beira mar. Uma praça, cadeiras e mesas espalhadas, barzinhos, cheiro de comida frita e cerveja. Fim de semana. Todos escorrem para as cadeiras e mesas desta praça à beira mar. Os meninos de blusa do Che e de banda, as meninas de blusas da Hello Kitty e dos bonés customizados, os meninos de blusa pólo, as meninas de saias hippies, os meninos de tênis Nike, as meninas de All Star. Todos escorrem para os bares, agrupando-se, ilhas, costas voltadas, óleo-água. Pouco se misturam.

Uma menina de pijamas observa de cima do prédio a repetição nos corpos. Imagina uma matriz e as cópias. Imagina um grande aparelho de xerox, igual àqueles que sempre viu e nunca prestou atenção. Uma virose a prendeu no quarto. Desligou a televisão e foi para a janela, respirar mar e observar as pessoas lá embaixo. Uns corpos riam, bebiam cerveja, falavam alto, outros bebiam drinks coloridos e petiscavam. Uns batiam os punhos na mesa, exaltados e a noite se repetia como tantas outras. A menina desviou os olhos dos corpos e se fixou no mar. Aquela extensão de água reta, homogênea, que enganava os olhos e os pés. A mãe da menina contava que uma vez confiante de que o raso continuava embaixo dos pés, foi se afastando da praia até que o chão faltou. Mar inteiro que engana. Desviou novamente os olhos para a praça e para as pessoas, quando viu que os grupos ao redor das mesas estavam mais próximos. Os corpos estavam próximos demais, como se estivessem entrelaçados. Achou engraçado aquela imagem típica de festas de confraternização de fim de ano, mas ela não ouvia riso, nem os mais forçados. Ouvia uns gritos baixos. Estendeu então a mão para a mesinha e pegou os óculos.

Quando pôs as lentes, viu que os braços dos meninos-Che, das meninas-Kitty, dos meninos-banda, das meninas-boné não estavam entrelaçados e sim grudados. Quanto mais se debatiam para se soltarem uns dos outros, mais os corpos grudavam uns nos outros. O espaço entre eles diminuía. Os braços deixaram de ser braços, as pernas deixaram de ser pernas, os cabelos enteiaram-se, os rostos colados. Do alto do 9º andar, a menina via uma massa se formar. Uma massa estranha. Os corpos se espremendo, os gritos se perdendo, os olhos desaparecendo, cinco, oito, dez pessoas espremidas e dissolvidas. As carnes confundidas, misturadas. A menina tentava sair de perto da janela, mas não conseguia. Ficava ali, testemunha. O som das vozes parou de repente. Os carros passavam na rua e quem dirigia parecia não ver o que acontecia na praça. Tudo acontecia no limite daquele círculo de pedra. Fora dele tudo continuava normalmente. Silêncio lá dentro. As carnes, as roupas, os olhos, tudo se esprimia até que começou a ganhar forma. Da massa, daquela mistura uniforme, restou, a menina viu, apenas um corpo de cada reunião de corpos. Sem acreditar, a menina viu um menino de blusa do Che sentar à mesa, uma menina de blusa da Hello Kitty pegar um drink no balcão e continuar a bebericar e um menino de blusa de banda dedilhar uma canção em um baixo ausente. Todos aqueles corpos reduzidos a um exemplar de cada. Singulares, únicos, ali no centro daquela praça. Corpos-matrizes.

A menina sente uma pressão nos ombros. Ela entende. Olha pra baixo e uma multidão bebe, conversa, come à beira mar. Ela entende. E o pai fecha a janela, cobre a menina com o lençol e ela dorme ao som de uma canção que toca alta, saindo do porta-malas de um carro estacionado na rua.

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Histórias de amor, papel jornal e L.L

May 25th, 2007 by jana

(Ao som de Lo Dudo - Los Panchos)

Tudo começou quando ele era ainda um menino de calças curtas, como dizia seu avô, e terminou em uma assinatura reproduzida em gráficas. Calças curtas, lancheira, maçã e biscoitos no recreio. A professora pede umas linhas. “O que você quer ser quando crescer?”. Ele escreve todo peito inflado: escritor. “Quero ser escritor, porque assim eu vivo mais que os outros”. A professora, entre dançarinas, astronautas, médicos, advogados, atrizes e jogadores de futebol, guarda os olhos do menino. “Quero ser escritor”.

A mãe acompanha as calças do menino ficarem longas, os sapatos ganharem números, o rosto ganhar barba. A mãe queria um filho de branco, cabelo arrumado, luvas ou um filho de pasta e paletó, mas o menino-homem queria ser escritor. Em um armário de madeira descascada, a mãe guardava os certificados dos prêmios de literatura da escola. O menino oscilava entre o segundo e o terceiro lugar sempre, mas ainda assim era do tipo made in livros de auto-ajuda: “Você é um vencedor”! Entre os colegas, era o poeta. Escrevia uns versos sugar-sugar, cheios de derretimentos, de corações flechados e de dores de amor. Os meninos-colegas pediam que ele escrevesse versos para as meninas. Os versos dele levaram muitas meninas, meladas pelas palavras, melarem suas coxas pelos colegas. Os poemas do menino-escritor sempre estavam entre os amassos na quadra de esportes ou na pracinha em frente à escola. Entre os dedos nos bicos dos seios adolescentes, entre os dedos afastando calcinhas coloridas, os poemas sempre estavam lá de testemunha. Seus poemas salvaram muitos colegas das punhetas. Ninguém poderia dizer que sua poesia não tinha um fim social.

Continuou escrevendo depois de sair da escola. Seu quarto era uma mancha branca de rascunhos. Continuava escrevendo seus poemas de amor, mas agora, homem-hormônio, começou a rabiscar uns poemas eróticos, cheios de incursões pelas aulas de biologia e pelos eufemismos. Membros intumescidos, cavernas negras, espadas, troncos e mil e uma maneiras de se preparar Neston. Começou um curso noturno de Letras, mas lá ninguém aprendia a ser escritor. Ele na verdade nem achava que precisava aprender. Começou a buscar formas de publicar seus poemas eróticos. Todo concurso que aparecia, ele se inscrevia. Revoltava-se quando seu nome não estava entre os três prêmios. Ligava para as sedes organizadoras, xingava as secretárias, dizia que era arranjo, carta marcada, o escambau. Passava uma semana recluso e depois aparecia com novos editais de concursos literários. Participava de qualquer concurso. Qualquer um. O importante era ter o livro publicado, para ver nas livrarias, esmagado entre outros tantos livros nas estantes, neste cruzamento de linhas, canetas, dedos, gerações, seu livro, seu nome impresso. Além dos poemas, arriscou escrever contos, novelas e até um romance. Escreveu o romance para um concurso de “Histórias de amor”.

Depois de quase dois meses depois do concurso de “Histórias de amor”, ele recebe uma carta da comissão organizadora, comunicando sua vitória. Ele lê a carta incontáveis vezes, grita e liga para a mãe. “Mãe, ganhei o concurso!!! Meu livro vai sair! Vai sair!”. A mãe grita para os vizinhos, liga para o ex-marido, gaba-se, infla o peito. “Meu filho é um escritor! Meu filho é um escritor! Antes ser um escritor do que nada”. Ele é chamado para assinar os papéis e lá a notícia chega. “Bem, sei que você está aqui para assinar a publicação de seu romance, mas tenho um comunicado a fazer. Esta editora é voltada essencialmente para o público feminino. As mulheres que lêem nossa coleção esperam a assinatura de uma mulher nos romances que compram. Elas se sentem mais à vontade, confiam mais na história quando é escrita por uma mulher, já que julgam que o homem não entende nada de histórias de amor, dramas, cólicas e filhos”. “Mas, senhora… Eu ganhei o concurso e é justo que eu tenha minha história publicada”. “Sim, claro. Não estamos dizendo que não publicaremos a história, estamos dizendo que como homem você não poderá assinar. Escolha um pseudônimo e tudo estará ok”. “Senhora, eu não vou assinar como uma mulher. O que minha mãe vai dizer?”. “Bom, ou você escolhe um pseudônimo ou nada feito”. “Vou recorrer à justiça”. “Recorra, mas lembro que a justiça é lenta”. “Laura Lúcia”. “Ahn?”. “É meu nome”. “Assine aqui por favor”.

O livro sai e os vizinhos riem. A mãe tranca-se em casa por mais de um mês. “Laura Lúcia! Vê se pode. Tenho um filho transformista!”. Entre os membros intumescidos e as cavernas escuras, as críticas das leitoras ao livro são positivas. Cartas chegam à editora, perguntando quando sairá o novo livro de Laura Lúcia e ele recebe um novo telefonema. Mais dois anos de contrato exclusivo com a editora. Papel jornal, capa paralisada na década de 50, preço popular. Ainda assim ele vibra, mesmo sendo Laura Lúcia, mesmo não tendo seu nome na capa e contra-capa. O importante é ser escritor. O menino-homem-ex-calças-curtas vira fenômeno entre as leitoras da coleção “Histórias de amor”. Contrato permanente. Ele não escreve mais poemas, nem contos, só romances em escala industrial. O esqueleto é sempre o mesmo: um homem rico se apaixona por moça pobre, sofrem o diabo, transam na praia, no campo, no celeiro e depois de tudo… Happy end. Cada vez que ele entrega um novo original à editora, menos ele é, mais Laura Lúcia ele se torna. Assina cheques errados, assina comprovantes de correio como Laura Lúcia. O carteiro olha estranho, mas o importante é a entrega feita.

Ele recebe as cartas das leitoras. Responde quando pode, assina, como sempre, como Laura Lúcia. As iniciais arredondadas no fim da página. Sempre tem uma carta-resposta pronta, cheia de agradecimentos. Imprime e assina. L.L. Um dia, terminava de florear o segundo L, quando sente um adormecimento no braço esquerdo. Toca o braço com as unhas e não sente nada. Está completamente dormente. Levanta-se, vai à cozinha, bebe uns goles d’água e antes que consiga voltar para a mesa do escritório, cai no corredor da casa. A mãe, depois de várias tentativas de falar com o filho, chega na casa e sai carregada pelo vizinho de porta. No dia seguinte, uma pequena nota no jornal diz que “Laura Lúcia, escritora best-seller da editora “Histórias de Amor”, morre de insuficiência cardíaca e descobre-se que ela na verdade chama-se Pedro Paulo”. E entre especulações, programas sensacionalistas, que repetem a fotografia do escritor morto inúmeras vezes, ele se torna imortal por uns dias e se torna depois referência a outros poetas sugar-sugar, que entopem a editora de originais. Agora, depois de uma conceituada pesquisa bate-à-sua-porta, os autores assinam com suas cuecas.

(Texto publicado em 29 de outubro de 2006 no Brutti)

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O vestido verde

May 11th, 2007 by jana

Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Salto alto, daquele que levanta dedos médios para a gravidade, decote, cabelos longos, antes curtos e sóbrios, que foram longos um dia, mas sem os apliques. Rebolante, provocante, lentes no lugar dos óculos, jogados no lixo não orgânico. Cintura esculpida by lipoaspiração, desenhada por um vestido verde colante e seios duros, daqueles que chamam a atenção e dizem, hipnotizantes e mudos, “hey, olhem só esses meninos!”. Os homens olhavam. Se o pescoço pudesse girar em 360º, ele acompanharia o desejo nos olhos. Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Ela achava graça das cantadas baratas, dos adjetivos, dos fiuuuuuus-fiuuuuus. “Quem diria?” Dizia mentalmente para si mesma e seguia para casa.

Abriu a porta com cuidado, para que o gato não saísse pelas ruas. Ele teria que retardar o passeio para a casa nova. Os últimos móveis já estavam desmontados e encaixotados. Em poucas horas chegariam para pegar as caixas. Decidiu se mudar para um flat em frente ao mar. Um lugar menor, já mobiliado, com cozinha de estilo americano e uma vista que se perde em um horizonte aquoso. A casa pareceu alargar depois que todos foram embora. Os cômodos pareciam grandes demais, cheios de ecos e de lembranças. Só restou ela e o gato de olhos azuis, meio vesgos. Quando comprou a lente azul, lembrou dos olhos daquele gato silencioso e independente, que subia e descia escadas, que passeava pelo bairro e que voltava pela comida, pela água, pela cama e por ela. Sim, por ela. O casal que comprou a casa, não quis os móveis. “Não deito na cama de estranhos, amor. Casa nova, cama nova”. A casa seria entregue oca, lavada. Os móveis, alguns deles, foram vendidos por uma mixaria para um antiquário. O restante foi doado. Só levaria para o flat as roupas, alguns objetos de valor e as coisas do gato. Tinha que terminar de empacotar os vinis e documentos. Era seu último dia na casa. Despejou a ração do gato na vasilha e mordeu uma maçã. “Vamos terminar logo com isso”.

Durante anos guardou os documentos nas caixas de camisa do marido. Quando uma caixa ficava cheia demais, pegava outra e recomeçava seu arquivo informal. Decidiu jogar as caixas fora e jogar todos os documentos em uma caixa para mudanças. No meio dos documentos, um punhado de singularidades: um cacho dos cabelos da filha, de quando ela era ainda era menina, em um tempo limpo de ofensas e de portas batidas. Umas fotos antigas, amareladas de verdade, sem ajuda dos efeitos do photoshop. O tempo todo estava marcado naquelas fotos: amarelo, corroído, corrompido e cheirando a naftalina. Naquelas fotos, ela era uma menina vestida de branco, com flores na cabeça. Os cabelos longos, sem os cuidados e cremes múltiplos do hoje dela. Uns seios pequenos, uma cintura imperceptível, a barriga saliente. Tudo nela era opaco naqueles dias e não era por causa do amarelo do tempo. Ela era um quadro amarelo e mais nada. Depois do vestido branco e das flores no cabelo, a vida foi um casamento morno e uma filha que era brilho. O marido passava o dia trabalhando e ela cuidava da menina bonita, da filha de cachos soltos. Todos olhavam para a mulher e para o marido e não entendiam como tinham uma filha tão diferente. A mãe olhava para a menina e acreditava que ela seria feliz. Olhava para o espelho e se conformava com o casamento morno, com o olhar de piedade dos homens, com trabalhos negados tantas vezes quando era uma menina-moça.

Sua vida era uma repetição obstinada dos mesmos quadros, das mesmas cenas, dos mesmos diálogos. O marido deitava todas as noites ao seu lado e caía no sono. A filha crescia em seios, nos cabelos longos, nos olhos vivos, na cintura fina. Sexo só durante o banho. Aquele sexo feito com dedos e com o pensamento limpo de imagens. A filha enchendo a casa de risos e sempre aos papos com o pai. Ela era a peça deslocada da decoração, aquilo que se tem vontade de jogar fora, mas não se joga por piedade ou por tradição. Casou porque amava. Ele casou achando que amava. A filha era a menina-moça mais bonita da rua, todos olhavam para ela. A mãe começou a controlar as roupas, com medo que a menina “se perdesse com qualquer vagabundo”. O pai era explosão de ciúmes e choro, desculpas, perdão. A menina brigava com a mãe e saía provocante pela rua, rebolante, com os seios duros de menina-moça chamando olhares. O pai descontava a ira na mulher-fotografia-amarela. Ela não entendia as explosões. A menina batia portas, o pai se fechava no trabalho, a mãe fazia a comida, que esfriava nas panelas. Acabava comendo sozinha.

O gato de olhos azuis e vesgos apareceu no dia em que ela foi ao banco pagar contas e saiu para comprar um vestido para a festa de 16 anos da filha. Um vestido verde, nem menina, nem mulher. Algo ainda que está para amadurecer. Comprou o vestido e parou, enquanto voltava para casa pela rua, para comprar uma revista de receitas de bolo de aniversário. Queria fazer algo diferente para a menina. Talvez com o vestido e com a festa, a menina baixasse um pouco a guarda, deixasse a agressividade de lado. O gato apareceu e começou a rodear sua perna. Passava o pêlo fofo pela perna da mulher, que há muito já não recebia nenhum afago de quem quer que fosse. Pagou a revista e continuou andando. O gato a acompanhou pela rua. Ela olhou para o gato e decidiu levá-lo para casa. O marido odiaria o gato, mas era o mínimo que ele podia fazer por ela. Entrou pela cozinha com o gato em uma das mãos. Colocou leite em uma vasilha, onde guardava alface na geladeira e deu ao gato. Pegou uma laranja e começou a tirar a casca. Ouviu a voz do marido na sala. Estranhou ele tão cedo em casa. Abriu a porta que dava para a sala, ainda descascando a laranja, quando viu a filha sentada, com o vestido levantado, no colo do pai. O que veio depois foi a mulher se lançando para os dois, menina e homem, filha e pai, com a faquinha débil que cortava a laranja. A menina desceu rápido o vestido e o homem não tinha o que descer ou subir. A faquinha cortou o rosto da menina e o braço do pai. Os dois gritavam e o gato quieto lambeu uns pingos de sangue que caíram do rosto da menina e do braço do homem. O gato agora era também família. A mulher voltou à cozinha e era só gritos. Não chorava. O gato adormeceu aos seus pés. Ela deitou depois no chão da cozinha e por ali ficou.

Quando acordou, a casa estava em silêncio. O gato miava por comida. Quando lembrou do dia anterior, levantou-se rápido e subiu as escadas à procura da filha e do marido. Não estavam mais lá. Nem ele, nem suas roupas e nem ela, nem suas roupas e bichinhos. Da menina só restou aquele vestido verde, que ela nunca chegaria a usar. Não havia nada o que pudesse fazer. Não faria nada. Por isso os gritos, as portas batidas, o homem dormindo e ela passando dias como um objeto velho, que ninguém tem coragem de jogar fora, ou por piedade ou por tradição. Ele ligou dias depois, pedindo silêncio. Daria tudo a ela. Uma boa pensão e a casa. Fizesse o que quisesse com a casa, contanto que ficasse em silêncio. Não queria ir para a cadeia. E a menina? O escândalo que seria. Todo o mês o dinheiro estava em sua conta. Vivia bem e tinha a casa. Aos poucos, juntando o que restava do dinheiro mensalmente depositado, iniciou sua transformação. Substituiu os cabelos curtos e sóbrios por cabelos longos e dourados como o da filha. Jogou fora os óculos, comprou lentes. Fez lipoaspiração, dietas, pôs silicone nos seios. Com o corpo esculpido, pôde vestir pela primeira vez o vestido que daria à filha no seu aniversário de 16 anos. O vestido verde e colante, que homens, que antes jamais lhe dirigiriam um olhar, elogiaram. Vestiu a roupa e jogou fora o cacho da menina e as fotografias antigas. Usou o vestido pela primeira vez e depois tirou, jogando o tecido entre os restos daquilo que não queria lembrar. Experimentou durante uma caminhada o que seria ser a filha, experimentou um corpo que se deitou tantas vezes com seu marido. Mas estava errada, não era feliz e a menina era apenas uma menina, mas há coisas que não têm volta. Assim como o tempo, que só avança, avança, avança. Despachou os móveis, trancou a casa, pôs o gato no banco ao seu lado e se perdeu no horizonte aquoso da vista de seu apartamento quarto e sala.

(Texto publicado em 5 de novembro de 2006 no Brutti).

Eu recomendo!!! A imagem foi retirada do site de Giovanna Casotto, autora de quadrinhos eróticos muito bacanas. Para quem não conhece o trabalho da Giovanna, deixo o link para apreciação. Vale muito a pena conferir o trabalho dela!

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Disk lover

May 5th, 2007 by jana

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Fonte da imagem

Tudo, como um clichê de discurso psicanalítico, começou na sua infância. A mãe passou meses economizando para ter a novidade em casa. No tempo custava caro e durou quase um ano para a mulher juntar o dinheiro suficiente e conseguir trazer o objeto para a mesinha ao lado do sofá estampado. O menino desenhava no chão, deitado, com o giz de cera espalhado. As cores todas à vista. A mãe chegou naquele dia, trazendo uma caixa de papelão. O menino pensou que fosse já presente de Natal, afinal a festa já estava perto. “Que é isso, mãe?”. “Ah, filho! Um mimo! Venha cá ver”. O menino já imaginava um carrinho grande ou um saco de gudes gigantes, mas o que veio forrado em plástico bolha foi aquele aparelho vermelho-sangue, cheio de teclas e fios. “Ah, mãe! Um telefone! Pensei que fosse um presente pra mim”. “Menino, passei o ano inteiro economizando para comprar a linha e o aparelho. Só tem telefone em casa quem é chique, e eu quero ser chique”. “E meu presente de Natal?”. “Seu presente de Natal é o telefone, tá? Ah, menino, este ano ficou difícil pra mainha comprar o telefone e ainda comprar um brinquedo”. “MÃE!!!”. “Não me grite, menino!”.

O menino olhava aquele objeto vermelho ao lado do sofá, rei da mesinha de madeira e uma mistura de ódio e fascínio se confundiam como o leite e o chocolate do Milkshake. O número estava escrito em um papel grudado ao telefone. Apesar da raiva que tinha do objeto, afinal por causa dele ficaria sem presente de Natal, o menino queria tocar o plástico vermelho, queria ouvir o aparelho tocar, queria atender, falar, ligar para as pessoas. Mas para quem? Viviam apenas ele e a mãe e poucos, como a mãe mesmo dizia, tinham um telefone em casa. Eram finos, eram chiques. A lembrança das palavras da mãe se misturavam à imaginação do menino, que achava que as palavras ficavam presas naquela caixinha vermelha até o dia em que iria explodir de tantas conversas acumuladas. O telefone deles, no entanto, não iria explodir tão cedo.

Com o tempo, o telefone começou a se vulgarizar, como tudo aquilo que antes parece mágico e depois vira feijão com arroz. A mãe agora atendia aos pedidos dos doces, salgados e refeições através do aparelho e o menino é quem atendia aos pedidos, negociava preços, prazos e datas de entrega. Sua vida resumia-se à escola e ao restante do dia perdido com o fone do aparelho grudado à orelha. O aparelho vermelho era quase parte dele. Não tinha tempo para flertes, para olhares, para amassos no ginásio de esportes da escola. Era um adolescente mirrado e tímido, mas ganhava poder ao telefone. Crescia, virava gigante, homem. A adolescência, no entanto, era a fase das poluções noturnas, de acordar melado de porra e ver a mãe parada em frente à cama, gritando com o menino para que limpasse “aquelas imundícies”. Vida sexual zero, o menino enlouquecia. Permaneceu assim, até a idade adulta: sem beijos, carícias, mãos, dedos e sexo, principalmente sexo, até que uma moda apareceu na televisão: o Disk. Tinha Disk para tudo: brincadeiras, zodíaco, mapa astral, pra falar com autor/atriz prediletos e o Disk Sexo. Quando o rapaz viu a propaganda, não pensou duas vezes. Assim que a mãe dormisse, ligaria para o Disk Sexo. Seria o máximo contato que ele teria com uma mulher, mas valia.

A mãe foi dormir cedo naquela noite e ele só esperou pelos roncos da mulher para se sentar no sofá, ao lado do telefone vermelho. Discou o número e esperou. “Alowwwwwwwww”. “Alô, meu nome é….”. “Ahnnnnnnwwwwwww, estou sem calcinhaaaaaaaaaa”. Um dia ele assistiria na tv que as atendentes de Disk Sexo gastam em média 2000 pirulitos por mês para imitar um boquete, mas, continuando… “Ahnwwwwwwww, como você é grandeeeeeee”. Não é preciso nem especular demais para ter a certeza de que o mirrado-man virou um Disk Lover, que batia ponto todas as noites. No final do mês, a mãe acordou o rapaz aos gritos. “Seu imundo! Seu imundo! Usando nosso telefone, nosso ganha-pão para suas imundícies”. A mulher jogou a conta de telefone na cama e saiu do quarto. “Vou ter que trabalhar dobrado pra pagar isso”. Nunca mais voltou a tocar no telefone para as chamadas de Disk Sexo. O máximo que fazia era desligar o telefone do gancho, alugar um filme pornô e, enquanto se masturbava, fingia falar com uma atendente de Disk Sexo através do telefone mudo.

Quando o negócio da mãe finalmente cresceu e se tornou um buffet profissional, com salgadinhos assados em forno industrial, foi casando à época em que o telefone celular começou a ser vendido. Logo comprou o seu e sendo o filho da dona do buffet, que agora já contava com seis funcionárias e tendo um artigo de luxo pendurado na calça, logo-logo conseguiu facilmente aquilo que esperou por toda a vida: uma mulher de verdade e uma transa que não se resumisse ao sobe-desce de dedos. Combinou com a mulher de se encontrarem depois do serviço num barzinho próximo à pequena fábrica de salgados e doces da mãe. Não precisou falar muito, afinal era o filho da dona do buffet e tinha um celular pendurado na calça jeans. Chegaram ao motel, ele tentando fingir que já era descolado, ela tentando fingir que era uma almost virgem. Pegaram a chave do quarto e entraram. Começaram a se beijar. Ela sem saber que era o primeiro beijo daquele homem. Os filmes pornôs ajudaram-no a ter noções do que fazer. Chegaram finalmente a deitar na cama, ela nua, ele nu. Insinuante, fazendo pose sexy aprendida em revista, ela foi descendo a boca para o pau do homem, até que ele sacou uma coisa da mesinha ao lado: o celular. “Desliga pra mim o telefone daqui?”. “Como assim?”. “É só puxar o fio. Desliga pra mim”. “Tá”. Apesar de não entender nada, ela desligou o fio do telefone do motel. “Certo, agora coloca o fone no ouvido e finge que tá falando comigo”. “Ahn?”. “Faz, vai! Você finge estar falando comigo aí e eu finjo que falo com você aqui”. Depois que deram a “primeira” pelo telefone, ele fez do jeito dela e teve sua primeira vez. Se ela achou estranho, se ela deixou de trepar com o filho da dona do buffet? Bom, ainda vemos os dois ao longe mordiscando queijo e bebendo cerveja no bar no fim do expediente e ainda vemos também os dois, agora já pulando a parte do Disk sexo preliminar, pularem para os finalmentes. É a tecnologia encurtando distâncias.

(Texto publicado em 19 de novembro de 2006 no Brutti).

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Pão com goiabada e Barbie

April 23rd, 2007 by jana

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Loiras, pernas longas e boca cor-de-rosa. Barbies. Já tive algumas dessas. Peito grande e sem bunda. American girls. Barbies.

Minha mãe nunca me deu o Bob, talvez por medo de que à noite ele saísse da caixa e me comesse. Nunca consegui explicar a ela que boneco não tem pau. Não tive o Bon, mas tive um daqueles bonecos que faziam xixi e que tinham um protótipo de “benga”. Passava algumas horas fascinada, olhando para o pau do bonequinho, que era loiro como as Barbies. Deve ser por isso que não curto nenhum dos dois. Excesso de platinados. Sai fora.

Eu estudava pela manhã e à tarde ficava em casa em ócio completo. Gostava de pão com goiabada e Vale-a-pena-ver-de-novo. Criança é foda. Criança é dublê. Criança beija porta de guarda-roupa e esfrega as coxas. Eu não era diferente.

Eu tinha um saco grande e jogava minhas bonecas, roupas e acessórios nele. Depois da novela e do pão com goiabada, eu espalhava tudo na cama de minha mãe e ía brincar. Trancava a porta do quarto e montava meu cenário. Quarto, cama, abajur. Sofá, mesa, copos. Fogão, geladeira, panelas. Minha mãe comprava o kit-Lar ou “Como fazer da sua filha uma rainha do lar: 20 lições didáticas”. Eu arrumava aquela parafernália pseudo-doméstica na cama de minha mãe e depois vestia minhas Barbies. Penteava seus cabelos, vestia suas roupinhas justinhas e calçava seus sapatinhos. Elas todas nas minhas mãos… Passivas. Seios, pernas, dedos. Tudo meu.

Arrumava as bonecas como em um ritual, pois a nudez não me excitava quando era evidente. Tinha três Barbies. Uma era loira, esportiva, macacão de lycra azul e tênis. Tinha também uma camponesa, vestido florido, cestinha e laço e uma gostosíssima, morena, sardinhas, saia de couro, botinha verde e guitarra brilhante. Tinha três Barbies, nenhum Ken e muitas tardes de Vale a pena ver de novo.

Peguei minha tesourinha de coelhinho azul sem ponta e cortei o cabelo da Barbie esportiva. Cortei. Deixei no toco. Vai puta. Vai ficar sem cabelo, vadia. Hidrocor preto. Pintei tudo e fiz um bigodinho. Deveria ter deixado sem bigode, andrógina, mas criança é foda e tem todas aquelas histórias freudianas do Édipo e tal. Ficou o bigode.

Eu era da geração Sexta Sex e Cine Privê. Assisti toda a saga de Emanuele. Emanuele na África, no Japão, no Espaço. Trens entrando em túneis, enquanto ela trepava nas cabines dos trens. Assisti até uma versão pornô da Branca de Neve e os sete anões. A Branca de Neve era negra e os sete anões tinham paus enormes. Eu era da geração televisão sem controle remoto. Eu colava no aparelho e ficava tensa com o dedo perto do botão dos canais. Qualquer passo e meu dedo ía direto na TV Educativa. Foda era quando passava da meia noite e a Educativa já estava em faixas coloridas. “Tá assistindo o que, menina?” Silêncio. “Ah, mãe… Eu gosto das cores”.

Minha mãe ainda guardava uma coleção sobre sexualidade. Coleção de capa dura vermelha e desenhos de gente trepando. A coleção ficava guardada no maleiro do guarda-roupa dos velhos. Eu subia no banquinho de madeira e todos os dias pegava um volume. Era uma coleção bem datada. Adolescentes com calças boca de sino e biquínis asa delta. Homens bigodudos, como minha Barbie esportiva. Tinha até uma mulher com as mãos sobre um tigre no verbete Zoofilia. Lembro até hoje.

Vale a pena ver de novo, Sexta Sex e Coleção-capa-dura-proibida. Eu tinha cachos e sardas. Cara de otária e cdf. Crime perfeito. Lá ia eu com meu saco de bonecas. Tirava suas roupas e deitava a moreninha de sardinhas com a bigoduda. Sem as roupas, eram seios e pernas. Os seios duros não deixavam elas se beijarem. Elas se embolavam no colchão de florzinhas rosas. Criança é dublê. Eu dirigia minhas cenas. A do bigode comia a camponesa e a da sainha de couro. Língua e mãos. Pernas embaraçadas.

Minha mãe deu minhas panelinhas e minhas bonecas. Cheguei um dia em casa e meu saco não estava mais lá. Minhas panelinhas estavam quase novas. Minhas bonecas estavam gastas e comidas. Nenhum cheiro de comidinha nas panelas. Cheiro de sexo entre as pernas de borracha. Minhas primeiras mulheres. Bocas cerradas em um sorriso passivo, seios-pedra, bunda-ausência, coxas-lisas-borracha. Minhas primeiras mulheres: silenciosas, passivas, padrão-blond. Barbies. Saudade das tardes de pão com goiabada e panelinhas.

(Texto publicado em 8 de abril de 2006 no Brutti).

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Entre pernas

April 11th, 2007 by jana

Telmo - nankim e aquarela (Ilustração de Daniel Garcia)

(Ilustração de Daniel Garcia, retirada do blog Pilha errada).

A vida dele era vinil arranhado, tocando sempre-sempre a mesma canção arrastada, três notas, sem nenhuma variação de tom. A vida dele era assim: canção que de tão ouvida passava para o assovio mecânico, para a execução sem platéia atenta. Apartamento reformado, mulher modelada por bisturi, filhos na faculdade, cachorro sonolento, mastigando osso falso no canto da sala. Cenário desarmado apenas quando a mulher resolvia mudar os móveis, transformar a sala-luxo-pesado em algo clean. E o vinil continuava girando em torno de seu próprio eixo, ciclo fechado, agulha recolocada na mesma linha.

Ele pagava os retoques nos seios da mulher, na cintura, nos olhos, na boca. Quanto mais ela plastificava o corpo, menos se dava pra ele. Juventude guardada para si e para os espelhos. À noite, tocava uma no escritório, limpava os dedos e o pau e ia dormir, apagando o abajur e os olhos. Ela continuava ao seu lado, passando os cremes anti-anti e lendo as 100 maneiras de enlouquecer um homem na cama ou de como ser feliz em 10 lições rápidas.

Trabalhava ouvindo os outros. As pessoas entravam e saiam de seu consultório, derramando vidas em sua xícara de café. Bebia as lembranças dos pacientes em longos goles-sessões. Ouvia a todos, mas em casa todos pareciam ensurdecer diante dele. O silêncio fazia o som de uma colher caindo no chão soar mais estridente do que realmente é. Um dia desses, pegou a chave do carro e saiu. Foi neste dia que ele a conheceu.

Era um homem-caramujo, voltado para dentro, corpo espremido, medo de viver entre as gentes e de falar quando o assunto era ele. Foi difícil entrar lá, mas lembrava do sócio despojado dizendo que era um troço bom e que era gostoso ter um corpo e ouvidos só para ele. Nunca foi bom com as mulheres. Não sabia como começar as coisas, o que dizer, como tocar. Entrou lá cobrindo o rosto, chamando atenção pelo gesto. Falou com o outro homem e saiu com ela. Pagou caro. O homem sorriu contando as notas. Ele e ela não trocaram palavras. O único que podia falar era ele.

Entraram em um motelzinho afastado do centro. Queria evitar olhares. Carro com janelas escuras. Baixou o vidro, pegou a chave e subiu. O atendente do motel olhou estranho pra ele. No quarto, pensou em desistir, em recuar, mas ela já estava lá. Tinha gastado dinheiro e já não lembrava quando tinha trepado pela última vez. Era um corpo diferente do da mulher. Não sabia como lidar com aquele corpo estranho, mas mesmo assim, sem dizer nada, deitou na cama ao lado dela e, mesmo desajeitado, conseguiu subir nela. Tudo era diferente, inclusive a textura da buceta. Não demorou a gozar e enquanto seu corpo se desfazia em pequenas convulsões, despejava toda sua solidão branca dentro daquele corpo. Nada foi dito. Ele se lavou e lavou também o sexo dela. Deitaram novamente na cama de lençol personalizado e ele viu seu corpo magro e quieto paralelo ao corpo magro e quieto dela . Dormiu.

Ela virou dia-a-dia. Alugou um quartinho pra onde a levava todos os dias. Saía do consultório, almoçava e entre as pernas dela deixava a solidão, a mudez da mulher, a correria dos filhos, a indiferença do cachorro. Aos poucos perdeu o medo de falar com ela. Não se sentia mais tão ridículo. Começou a falar, falar, falar. Ela muda. Ela era corpo e ouvidos, mas ele não precisava mais que isso. Em casa, a mulher começou a estranhar sua ausência na hora do almoço, sua demora em chegar no consultório pela tarde. Estranhou também por ele não mais tocar suas coxas, pedindo um pouco de sua carne. Sentindo a traição, pediu conselhos às amigas. Mandaram ir atrás, seguir os passos, dar flagrante, fazer escândalo. E ela foi. Esperou ele sair do consultório ao meio dia e acompanhou seu carro. Descobriu o prédio simples de quatro andares, para onde provavelmente ele levava a outra. Passou uma semana acompanhando os passos do marido, mas ele sempre entrava no prédio sozinho. ”A vagabunda deve morar aí. Ele está sustentando uma vagabunda!!”. Queria saber como ela era, se era mais jovem, se tinha corpo bonito, dentes perfeitos. Imaginou todas as cirurgias que ele pagaria para a amante para deixá-la perfeita. Na semana seguinte, já intrigada com a situação, solvendo raiva na carne, resolveu acabar com tudo. Ia pegar o marido em flagrante, fazer cena, representar a vítima. Abram as cortinas, por favor. Luzes. 2ª chamada. Ok!

Naquele dia, ela se vestiu de vermelho. Foi vestida cantando guerra no tecido. Esperou o marido entrar, esperou alguns minutos e chegou à portaria. Deu o nome do marido, mas não disse que era sua mulher, perguntou o número do apartamento, disse ter esquecido o andar. Prédio simples, sem interrogatórios, diferente da fortaleza onde morava. Subiu. 3º andar. Parou diante da porta. Encostou o ouvido na madeira gasta e ouviu a voz do marido do outro lado. Ouvia apenas a voz dele e como ele ria. Ria musical, as notas saindo convulsivas. Não era mais o vinil arranhado.

Transbordante, a mulher, riso nervoso no rosto plastificado pelas cirurgias, tocou a campainha do apartamento. Tocou mais uma vez e mal ele abriu a porta ainda rindo, ela entrou no quarto/sala e correu para procurar a outra mulher. Ele correu e tentou impedir a mulher de ver na cama o corpo da outra, com o sexo à mostra escorrendo porra. Silêncio. Mãos tremendo. Ele de olhos baixos. Ela já começando a gritar e a esmurrar os ombros dele. A outra muda, quieta na cama. Ele caramujando, querendo se esconder. A mulher partindo pra cima da outra com as unhas. A outra muda. Nenhuma reação. Ele mudo novamente. E a mulher repetindo, já com as unhas cravadas naquela carne-ilusão: “Uma boneca, uma boneca, UMA BONECA!!!”. Ela agora o vinil arranhado, ele agora a agulha.

(Texto publicado em 23 de julho de 2006 no Brutti).

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Dogging peep show

April 2nd, 2007 by jana

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Menina-peep-show, corpo todo pose-click, uns dedos no cabelo, um biquinho-beijo, olhar lânguido, pose de puta, às vezes ninfeta, querendo ser musa Nabokov. A janela do quarto era palco. A janela do quarto lilás, cheio de fotos suas espalhadas pelas paredes, de ursinhos que ela guardava entre as pernas, fazendo o vizinho do 1502, do prédio tom pastel ao lado, cansar as mãos e economizar no Pay-per-view pornô. Menina-peep-show pega a mochilinha da Hello Kitty, veste a blusinha da Betty Boop, deixando a barriguinha malhada com piercing de pedrinhas e a tatoo da moda, estrelinhas e flores, aparecerem e desaparecerem no andar ritmado do pé-pós-pé tipo model. Menina-peep-show vai mergulhar o corpo na pista de dança, na noite-neon, na música alta e nos olhos dos homens, que malham a semana inteira para mostrar o abdômen definido debaixo da blusa de grife e do correntão brilhante. E ela chega e se espalha.

Ela pega o drink colorido no bar, um azul brilhante que combina com as pedrinhas do piercing. Puxa um cigarro, faz cara séria, vira luminária, atrai os olhares-insetos, uns olhares sugados pelo brilho e que morrem na proximidade do corpo da menina. Um a um ela vai dispensando. Ela quer o melhor. Ela quer o resultado da seleção natural, como na matéria da escola, que ela ouvia mascando chiclete e ajeitando a franja, só para ver o professor suar mais que o normal. Ele chega. Ela sabe que é ele. O corpo todo agora é uma ondulação. Ele é todos dedos na cintura e nos cabelos dela. Língua-língua. Goles no azul. Língua-língua. Eles saem da pista.

Ele tira as chaves do bolso, olha na direção das mesas. Os amigos levantam o dedo. Uns risinhos sacanas. A menina vai na frente. Ele paga as comandas e os dois vão para o carro. Estacionamento-motel, meio drive-in. O que se passa nas janelas dos carros são os filmes, algo meio 3-D, com a diferença da interatividade. Quem está ali sabe o que quer e quem não sabe descobre. A blusinha Betty Boop ela guarda no volante. Ele já é um pau descoberto, só esperando por ela. Língua-mamilo. Sexo-sexo. Ela fazendo gemido-teatro, cara de uoww e ele lá, com ela em cima rebolante. Umas sombras do lado de fora. Umas mãos pedindo para ele baixar o vidro. Ele liga o carro e o vidro desce. Os amigos, olhares insetos, vieram atraídos pelo corpo-neon. “Curte dogging?”. “Que?”. “Relaxe”.  Os vidros abertos, os dois amigos, um em cada janela, esperando a menina-peep-show deixar as reticências no porta luvas. Ela aceita, sem saber o que é. Amanhã vai no google e descobre. As calças abertas, paus e mãos livres. “É só pra olhar, né?”. Ele não responde, ela então continua. Um formigamento na barriga. Queria agora a cama e o edredom, mas continua. Os amigos deles pedem pra tocar. Ela deixa. O formigamento na barriga aumenta. Ele dentro dela, as mãos do outro nos seus seios, a mão do terceiro sacando uma máquina-digital-filmadora sem ela ver. Ela está de olhos fechados. Prefere não ver que os outros todos estão com os olhos e as mãos nela. E o terceiro vai gravando, enquanto a outra mão desliza no pau. Aquele que é o palco suporte das rebolações da menina goza. Aquele que toca os seios da menina goza. E tudo vai se desmanchando em branco, menos ela, que agora é toda formigamentos.

A menina-peep-show abre os olhos e pede a camiseta da Betty Boop. Veste. Finge confiança, não percebe a máquina sendo guardada rapidamente. Zíper fechado um por um, os amigos desaparecem, retornando ao bar-lounge-boate. Ela pega a mochilinha Hello Kitty, desce do carro e finge não estar à procura de um taxi, mas logo que avista o primeiro, entra, diz o endereço, engole choro, desce, paga e se joga no edredom com flores em alto relevo. Amanhã a menina acorda e o dogging vai parar na busca do google. Enquanto isso, horas mais tarde, o do zíper-máquina-mão passa o filminho caseiro para o pc e a menina agora dança suor, uma atração a mais para download, estrela de um dia no Youtube. A cortina do quarto agora dorme fechada.

(Texto publicado em 27 de agosto de 2006 no Brutti).

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Simbiose

March 15th, 2007 by jana

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O sexo e o nariz alimentam uma relação simbiótica. Eu só havia pensado nisso depois que ela desceu do ônibus. Meus pés estavam cansados. Sentei em um assento para idosos. Idosos de alma valem? Sentei do mesmo jeito. Se alguém chegasse e se seus pés parecessem mais cansados que os meus, eu levantaria. Ou não. Na verdade, não levantei.

Atrás de mim, uma senhora carregava um ramo e cantava algo como “Jesus é maravilhoso e olha por mim”. Como ela sabia que Jesus olhava para e por ela, se era cega? Notei pela muleta e pelas mãos estendidas, tocando o nada. Ignorei. Abri meu saquinho de jujubas. Dois por cinqüenta centavos. Sou trouxa, mas ganhei minha jujuba. Um rapaz senta ao meu lado com sua caneta azul e seu lápis verde. Eu não pensava em nada. Ela chegou e parou ao meu lado. Quando estamos sentados, o sexo do outro interage com o nosso nariz. Falo por mim, que sou baixa e tal. Blusinha preta, decote proposital, casaquinho jeans para disfarçar o decote proposital. Saia jeans, com rasguinho fechado por zíper de strass. Saia curta. Pernas. Salto. E o cheiro de sexo, apagando o perfume. Era o tipo de mulher clichê, que passa e desloca atenção e cria volumes. Sempre acreditei que o cheiro de sexo não tem sexo. É cheiro apenas.

Virei o nariz para o lado do menino do lápis verde. Mas aquele cheiro de lycra molhada atravessava a saia. Ela segurava um caderno e dois livros. No outro braço, uma bolsa imitação barata. Perguntei se ela queria que eu segurasse os livros. Ela me entregou o volume como se me fizesse um favor. Aceitei.

Um caderno com paisagens paradisíacas e um livro de Direito Romano. Mais uma aspirante a advogada, que sonha vestir terninhos. O nariz e o sexo têm uma relação simbiótica. O cheiro transforma o sexo em cheiro de sexo. Tentei imaginar as possibilidades. Ela tinha saído com um cara para pagar a faculdade? Não. Geralmente, esses caras não transformam o sexo em cheiro. Pensei também no carinha do bairro. Tênis Nike e boné. Talvez. Quem sabe também aquele era o segundo ônibus? Quem sabe no primeiro, ela estava sentada em um banco de idosos e duas pernas trouxeram o cheiro entre a ilusão da roupa. Não sei.

O cheiro do e de sexo transformaram meu sexo em cheiro. Não podia levantar mais. Se entrasse um idoso, eu não levantaria. Eu tinha a desculpa dos pés cansados e de minha jujuba inacabada. Cheiro de sexo não tem sexo. Os livros estavam assentados nas minhas pernas. Meus dedos começaram a deslizar para dentro do livro de Direito Romano. Ela me olhou de um jeito estranho e eu percebi que estava atravessando um livro com minha mão. Recuei. Não toquei mais nos livros. Fiquei pensando que se eu escrevesse um conto sobre isso, provavelmente diria que meus dedos tocavam o meu sexo por debaixo do livro de Direito Romano, mas eu apenas introduzi meus dedos nas páginas das verdades questionáveis.

O trajeto não era longo, mas a lógica do transporte coletivo urbano era estranha. Se seguíssemos por linhas retas, eu chegaria em casa sem ter que visitar quase todo o centro da cidade. Ela pediu os livros e saiu. Desceu com seu gloss nos lábios, com seu salto e seu casaquinho jeans, terceira pele que escondia o decote pensado distraidamente. Ela desceu e deslocou as atenções. Riso de canto de lábio. O menino do lápis verde acompanhava com os olhos o tipo de mulher que nunca teria nas mãos. Ele chegaria em casa, tocaria uma e dormiria seu sono relaxado. Eu levantei apenas quando o ponto chegou. O cheiro de sexo transformou o sexo em cheiro. Banho, sabão e dedos.

(Texto publicado em 5 de abril de 2006, no Brutti).