Do lado de dentro

February 16, 2008 por jana

Só te peço, meu bem,que despeje nossas rotinas nas almofadas espalhadas pelo chão,junto às nossas peças surradas de rua
e da correria da multidão,
que mora entranhada nas solas de nossos sapatos,
divididos em suaves prestações.

Deitemos nossas costas-pele-nua
neste chão mais tarde lavado por nosso suor,
que seja mar e rio onde navegaremos nossos sonhos,
onde misturaremos nossas pernas,
onde perderemos os pontos
em que você acaba e eu começo.

Quero apenas o vento frio adentrando as janelas
para ver você se aninhar na extensão dos meus braços,
na canção que toca suave,
nas palavras ditas como prece.
Saiba apenas o momento de calar
e fazer da língua tocando meu céu fibroso
a única canção que tocará firme para mim.

Só te peço, meu bem,
que enquanto você se despe de suas roupas batidas,
leve junto com a poeira suas negativas,
seus pudores fabricados,
seu medo de extravazar o limite dos rios.
Se vier para meus braços
que venha sem nada a cobrir corpo e vontade,
que o querer seja sua única direção,
a nortear seus passos no caminho entre minhas pernas.

E que esse chão que tem seu fim
ou a vida que um dia será ponto
sejam esquecidos como limite que são
e se tornem apenas palco e platéia,
onde apresentamos em carne nosso ato
e de quem não esperamos nem um aplauso.
E do lado de fora só esta brisa fria de fim de dia
adentra os espaços vazios entre nossas carnes.
O resto continua lá,
morando na velocidade diária das ruas.

 

Chuva

February 14, 2008 por jana

Como a chuva que se derrama pela cidade
e nunca retornará novamente como a mesma chuva,
assim sou eu, que me derramo pelos dias,
construindo meu passado,
vendo o agora ser notícia de ontem
logo quando me distraio a pensar demais
no que vem depois.

Como a chuva que se derrama pelas calçadas,
também sou movimento que um dia cessará,
mas enquanto isso transbordo até o limite,
sou excessiva,
busco vida em cada fresta que se abre,
em cada corpo que se faz de concreto
e dureza aparente.

Sou oblíqua como estas gotas que caem surrando minha janela,
minha retidão é apenas aparente,
mas sigo sempre direções contrárias àquelas
que esperam de mim.
Eu dou a direção das minhas águas,
eu escolho onde desembocar.

Não tente me aprisionar no limite das suas mãos em concha,
conceba-me como este rio vertical que só quer correr livre.
Então beba de mim, sacie-se,
carregue no seu sangue um pouco de minhas águas,
mas não queira ser as margens que limitam os meus braços.
Pois sou esta chuva oblíqua, que molha e acarinha sua carne,
que se faz beber pela sua língua fibrosa,
mas que nem sempre cai vertical,
da mesma forma, na mesma direção.
Sou a chuva que descarta qualquer retidão,
que cai livre e que nunca mais será a chuva
que você vê agora.
Serei sempre uma queda diferente.

 

Terra-carne e semente

February 7, 2008 por jana

day_light_deleite.jpg

(Imagem: Janaína Calaça)

Hoje eu rasgo, semente, essa terra-carne
que me cobre olhos e narinas.
É hora de crescer,
ele me disse sem mexer os lábios,
e eu apenas sujei minhas mãos de vida.

É hora de crescer, baby.
O óbvio por ser explícito demais é posto de lado
como constatação menor,
mas não é.
E eu sujei ainda mais minhas mãos de vida.

Então ele foi arrancando as rodas da bicicleta velha
e me fez andar só, por mais que as quedas viessem,
por mais que a carne doesse,
por mais que eu pedisse pra parar.
A dor é fina, mas um dia passa,
nada permanece tão igual,
nem aquilo que fere.

Então eu quis rasgar a terra-carne de uma vez só,
e ele me disse, sem mexer os lábios,
que basta receber a primeira gota de luz,
que o restante vem com o tempo.
Tudo é produto do impulso primeiro,
das mãos cruzadas por baixo dos pés finos,
a ajudar a escalada pueril das mangueiras.
Vai, ele disse,
e eu quis sujar ainda mais minhas mãos de vida.

Semente rompendo a terra,
inseto quieto rompendo casulo,
seio minando as blusas cor de infância.
É hora de crescer.
E agora que a luz já aponta, mesmo tímida,
guardo-a no meu vidro velho de perfume
e faço dela vagalume,
a me guiar no caminho para romper de vez a terra,
pra deixar de ser semente,
pra crescer e me cumprir
como filho que sou do tempo.

 

Quarta-feira de cinzas

February 3, 2008 por jana

os_corpos.jpg

(Ilustração: Luiz Fernando Calaça)

Duas chuvas caíam. Uma lá fora, alagando tudo, transformando o asfalto em um lago raso artificial. A outra caía dentro do salão enfeitado: chuva de confete colorido. “Vou levar horas para tirar este confete todo do cabelo amanhã”. Tinha relutado em ir. Quando demorava de decidir, alguma coisa mais tarde emperrava. Fosse um detalhe qualquer, do grampo de cabelo que feria o dedo na hora de ajeitar o penteado ou um pneu furado em fim de festa. Alguma coisa emperraria e foi atravessando o salão com aquele pensamento fixo, embaçando a noite.

Achou uma cadeira vazia e sentou-se. Andava meio puta com tudo. O casal de amigos havia a arrastado para aquela festa, para aquele último dia de carnaval, mas ela só conseguia pensar nas contas em cima da mesa, nos pratos empilhados na pia, nas relações mal resolvidas, que sempre acabavam com reticências e sem grandes explicações. Seja o que fosse, trepadas de uma noite, relações longas, amizades, tudo acabava sem explicações e ela pensava naquilo, enquanto o olhar se perdia no meio do confete e da música alta.

Levantou da cadeira e foi atrás de uma bebida no bar. Há tempos não participava de uma festa como aquelas. A moda agora era o retrô. Todo mundo agora buscava o passado, por achar que lá é que estava o melhor. Uma festa como as festas de carnaval de antigamente. Gente fantasiada, mascarada, algumas canções antigas, marchinhas. Todos naquele salão queriam se perder no passado naquela noite, para depois amanhã, na quarta-feira de cinzas, tirarem do rosto as máscaras de papel e continuarem suas rotinas com suas máscaras de carne. Atravessava o salão, quando duas mãos envolveram sua cintura. Não quis olhar para trás. As mãos continuaram lá. Quis virar, ser brusca, dizer algum desaforo de etiqueta, mas as mãos apertaram ainda mais a cintura dela e foram dando ritmo àquele corpo tenso e sempre ancorado ao infinito ontem. Aos poucos foi deixando-se levar. As mãos viraram todo o corpo dela e a deixaram frente a frente com o corpo dono daqueles dedos todos. Ela estava sem máscara, mas o corpo dono das mãos estava mascarado, como a maioria das pessoas na festa. Quis dizer alguma coisa, dar uma desculpa mais uma vez, mas não achou nada demais dançar mais um pouco. Dançando,  esqueceria das mágoas bobas arquivadas. Dançou, dançou livre. Uma chuva de confetes descia com a força dos ventiladores de teto, que espalhavam tudo pelo salão. Lá fora, a chuva lavava o asfalto e alguns corpos bêbados, que se confundiam nos jardins externos.

De repente, as mãos a conduziram pelo salão em direção à porta. O tempo tinha passado, umas canções velhas foram dando uma o lugar à outra e as mãos e o corpo, coberto pela fantasia boba de um Sherlock Holmes, conduziam o corpo dela para aquele pátio banhado de chuva. Resolveu deixar-se ir. Seria uma trepada a mais, como tantas outras. Já se habituara a se desligar em nome do corpo, já que não esperava mais nada. Quanto menor a expectativa, menor a frustração. Nada foi dito. Nada. Nem nome, nem cantada barata, nem signo, nem notas sobre o tempo. Nada. Tudo que conhecia daquele corpo era aquele par de mãos, um corpo coberto pela fantasia e uma máscara, que envolvia todo o rosto. Nada de singular. As mãos recomeçaram sua dança e ela foi se encostando numa das paredes da área externa do salão. As mãos foram passeando pelo corpo dela. E as mãos foram dando lugar a uma língua quente, ponta suave, saliva. Ela, que no salão só pensava na pilha de contas e de pratos, agora só sentia os mamilos forçarem quietos o limite da blusa, o sexo todo se desmanchando e molhando a calcinha de algodão, a boca escancarada acumulando saliva. As mãos e a língua daquele corpo silencioso foram passeando pelo corpo dela. Boca, pescoço, seios, umbigo e se afundou no sexo molhado dela. “Alguém pode ver… Vamos sair daqui…”. A língua misturou saliva aos líquidos dela, aos pêlos finos, que cresciam tímidos. De repente, as pernas dela prenderam o rosto daquele corpo e na confusão a máscara caiu. O corpo ainda tentou pegar a máscara molhada no chão e recolocar no rosto, mas ela já havia visto aqueles olhos, a boca, o conjunto todo. “Você é…”. Tocou o peito coberto pelas camadas de pano e sentiu dois seios, pequenos, mas seios. Seios femininos, seios de carne, uma mulher. A outra, com a máscara molhada nas mãos, não disse nada. Pediria desculpas, inventaria alguma bobagem, mas em vez disso, viu um corpo todo se aninhando nela, virando dedos, mostrando língua, tocando os seios, invadindo pernas. No fim de tudo, era carnaval. A chuva voltou e na confusão de buscar onde se abrigar, cada uma foi para um lado diferente. Ela deixou-se ficar na chuva e a outra se perdeu entre as luzes da fileira de táxis estacionados. Já eram três da manhã, já era quarta-feira de cinzas. A festa iria até o fim da madrugada e elas voltariam para casa. Cada uma vestindo suas máscaras cotidianas de carne, diminuindo ou não a pilha de contas e de pratos, mas ainda era carnaval. Duas chuvas caíam: uma de confete no salão, uma que alagava ruas e tentava, sem sucesso, lavar o cheiro de cada uma impregnado no limite raso de suas peles.

 

Matilde decide viver

January 16, 2008 por jana

O cenário é um banheiro e várias calcinhas estendidas, afinal o apartamento era pequeno e a área de serviço mal tinha espaço para as roupas maiores. Então o jeito mesmo era armar um varal no não menos apertado banheiro. Em cima do vaso sanitário rosa, ao lado de um bidê igualmente rosa, lá estava Matilde, firme, descabelada, creme rinse em mãos, chão azul abaixo dos pés e olhar perdido nos azulejos.

Na pia, um radinho de pilhas tocava uma daquelas baladas melosas, seguida da narração canastrona de um locutor com voz “sexy”. “Grandessíssimo filho da puta”. Matilde descabelava. Era ano novo e o que restava dele era um creme rinse, cheiro forte, doce e que deixava os cabelos daquele homem empapados.”Grandessíssimo filho de uma puta”. Não adiantou comprar todas aquelas calcinhas para a virada do ano passado. Matilde todos os anos comprava uma calcinha de cada cor: verde (Matilde tinha uma esperança sem igual de que sua vida mudaria na virada), amarelo (dinheiro brotaria da terra, aleluia!), branco (paz, paz na terra, paz mundial, segundo a Miss Universo), rosa (amor), vermelho (paixão) e enquanto existisse cor e calcinhas, Matilde comprava todas para se garantir.

Naquele ano, no entanto, apesar de ter comprado as roupas de baixo antecipadamente, numa liquidação no Centrão, tudo havia dado errado. Perdeu dinheiro, a vizinha do apartamento de cima era uma pentelha, paz não existia nem para as pombas e o amor e a paixão foram embora com aquele homem de bigode estilo Charles Bronson e aquela cabeleira mantida a base de creme rinse. “Calcinhas filhas da puta! Não confio mais minha vida a vocês!”.

Lá estava Matilde no vaso, fazendo dieta cetônica, doida por um doce, alucinada por um chocolate e sem poder comer. O jeito era cheirar o creme rinse pra compensar. “Pobre, sem dinheiro, com vizinha amante do capeta, sem namorado e de dieta. Puta que pariu. Um raio atravesse minha janela e me faça brilhar ao menos!”. Matilde estava desesperada. O que fazer? Dar cabo da vida? Poderia se afogar no bidê. Tamparia o ralo, deixaria encher de água até a tampa e depois colocaria a cara lá e sonharia com peixinhos dançando tango nos corais. Toca La Cumparsita aí, que é o mais clichê! “Para eu me afogar no bidê, precisaria ficar de joelhos, com a bunda pra cima e acho isso tudo muito deprimente. Morrer com a bunda pra cima! Não… Não mesmoooo!”. O ano vai virar daqui a uma hora. Matilde não havia comprado uma calcinha sequer este ano. Apesar do remorso, apesar de querer muito se jogar no balaio, enquanto passava na rua, ela aguentou firme, afinal as malditas haviam virado as costas para ela.

O povo na rua gritava. Matilde fechou a janelinha do banheiro para não ouvir. “A dieta cetônica que vá para os diabos. Vou beber”. Na geladeira, uma garrafa de Sidra. Pegou a garrafa, abriu e voltou para o banheiro. Pegou novamente o tubo de creme rinse descabelada e enrolada em uma toalha com o escudo de time e ajeitou a garrafa de Sidra na outra mão. Bebia um gole, cheirava o creme rinse, bebia um gole, cheirava o creme rinse. “Filho da putaaaaaaa”. Não é preciso dizer que Matilde era uma mulher dramática, que amava enlouquecidamente, que era uma verdadeira protagonista de romances açucarados, daqueles que envolvem um cara rico, uma menina pobre, uma megera, uma trepada, um filho, uma grande merda e um final feliz. “Não passa de hoje! Não passa de hoje! Eu posso também ligar minha chapinha na energia, jogar no bidê e enfiar meu dedo lá. Pronto, eu morro e aquele filho de uma chocadeira vai sentir minha falta! Ingratoooooo… E eu que cozinhava amendoim pra ele comer e tomar com cerveja. Nunca mais cozinho amendoim pra filho da puta algum! Mas também… Deste ano de mierdaaaaaaaaa eu não passo!”.

Os minutos passavam e aquela noite, que era uma das preferidas de Matilde no ano, a noite da virada, a noite de pular ondinhas, poluir o mar com sabonete vagabundo, vestir branco com o bico do peito aparecendo, tomar Sidra quente e comer lentilha fazendo careta, estava sendo um verdadeiro desastre. “É isso… Jogo o creme rinse no chão, depois me jogo, bato a cara no bidê, racho a testa, o sangue escorre e quando ele vier pegar as contas, ele me vê aí estiradinha, durinha, no meio do creme rinse e da vermelhidão toda. Eita que ele vai se comer todinho de desespero, porque vai descobrir que não vive sem minhas coxonas, as coxonas da família Silva.

Matilde estava decidida ao plano de escorregar e meter a cara no bidê. O relógio marcava 11:30. Tinha meia hora pra tudo. Espalhar o creme rinse do ingrato, calcular a distância no olho, pisar certo no rosa e se nada funcionasse, aí sim partiria pra ignorância e usaria o plano B, que era o de jogar a chapinha no bidê. Plano este que só seria usado no caso de nada funcionar, afinal Matilde havia dividido aquela chapinha em 10 x sem juros e era desaforo demais dar cabo de um investimento. Foi aí que ela se posicionou, empinou-se toda e quando ía meter o pé no creme rinse espalhado no chão, ela ouviu o Pum-pum-pum-pá-ti-pum-pum. O povo na rua gritava “Feliz ano novo”. “Mas como assim? Que raios está acontecendo? Falta meia hora, cambada de gente zoadenta! Estão doidos, é?”. Resmungando foi olhar o relógio e ele estava paradão. “Relógio vagabundo! Também quem manda comprar estas pestes no camelô?”. “Já era Matilde! O ano enterrou-se e você ficou pra ver mais um…”. Matilde era do tipo que acredita em sinais. “Xá quieto, Matilde. Vai que o ano vai ser melhor…”. Foi catando as calcinhas no varal, vestiu uma a uma e foi pedindo paz, dinheiro, amor, esperança, paixão. “Este ano não me falhem, calcinhas. Não me falhem! Vocês já são íntima dos meus fundos, portanto não me falhem!”. Depois acabou com a garrafa de Sidra, que já estava quente, se espalhou no creme rinse do antigo namorado derramado no chão e repetiu paz, amor, dinheiro, esperança até dormir. No dia seguinte, ano novo, calcinha velha, garrafa vazia e Matilde acordando com o sol estalando no olho e dizendo “Acorda, Matilde. Decidiu viver então agora se remelexa e não me aporrente mais!!!”

 

O puteiro está de endereço novo

January 10, 2008 por jana

Este inferninho, que por ventura você visita com frequência, mudou de endereço.

Nossas meninas agora atendem no http://casadeburlesco.com!

É isso aí, estamos mais chiques e formosas. Atualizem seu bookmars e aguardem novos posts.

Beijos,

Jana!

 

Pulse

January 7, 2008 por jana

corpos_nus.jpg

(Ilustração: Luiz Fernando Calaça)

Melhor mesmo é sentir o sangue pulsar,
música mais sincera não existe,
melodia suave e firme,
vida arranhando as paredes de minha carne-limite.
Seu ouvido encostado no meu peito
ouvindo meu corpo todo bater,
o silêncio lá fora, a sinfonia aqui dentro.

Sim, meu bem, estamos vivos
e nossa carne quer sempre o toque da carne do outro,
o pêlo, o suor, a boca e os dedos livres.
Ah, meu bem, sabemos ser um nesta nossa dança,
amarras só existem para os fracos,
que acham que assim se sentirão mais seguros e mais fortes.

Livres, só os dedos entrelaçados,
você deixa o vento lamber meu corpo,
e eu deixo a maré invadir suas partes.
Meu, seu, teu, tua
são palavras apenas,
e as palavras ganham sempre sentidos múltiplos,
são inconstantes, transitórias, mar e lua.
Não creia tanto nas palavras,
creia em mim deitada ao seu lado todas as noites,
achando que o anelado dos seus cabelos se encaixam perfeitamente
nos meus dedos-falos, que te invadem silenciosos e amantes.

Creia no olhar que te lanço
e na forma como te acarinho a pele,
porque o prazer que se sente no toque do outro
a palavra nunca dará conta em descrever.
Então se desamarre de tantos conceitos,
tanta moral, instrumento do homem para aprisionar a si mesmo.
O que somos concebemos no silêncio.
E mesmo que as palavras nos açoite a pele,
que nos rotulem, que nos arranhe a cara,
deixa que o sangue escorra,
mas não se perca desta mão que te acarinha sempre
e que desconhece o amor que não venha da planície irregular,
que é tua pele traçada todos os dias.

 

Geração garrafa pet

December 20, 2007 por jana

Jogue-me dentro deste saco com os restos orgânicos ou recicláveis,
sim, porque nós somos a Geração Garrafa Pet.
Use-me, use-me, me gaste,
depois esqueça-me num canto qualquer
ou entregue para outro reutilizar.
Sim, baby, é só lavar.

Entendo, entendo sim, quem não se adapta se esfarrapa
e por que comigo seria diferente?
Quem sou eu no meio das suas lembranças?
Incômodo-silêncio-entre-olhar.
Oh, baby, somos a Geração Garrafa Pet,
não precisa se desculpar.

Sempre fui uma romântica no final das contas,
acredito na pseudo-sinceridade das palavras e do toque,
mas você fez de mim a singularidade substituível.
Se está velho, troque,
estou passada da hora, over,
coleção outono-inverno em pleno verão.

Só não me venha depois dizer que foi importante,
palavras para mim são válidas seguidas de atos,
guarde-as então pra você, como a mágica sedutora e fajuta,
o oásis pintado na tela com tinta guache vagabunda,
que seduz com o brilho falso do neon.
Ah, baby, você é a filosofia viva da nossa geração descartável.

Só me resta lavar-me por dentro,
desinfetar a memória, desamassar a carne esmagada entre os dedos.
Sou apta aos recomeços, just play it again.
Quero encher o tanque de novo,
completa aí as minhas ilusões,
pois no final das contas sou mesmo uma romântica
e você, hábil como sempre, saberá fazer de corpos usados coisa nova
e dos antigos lixo limpo e renovável,
não em suas mãos… claro.

 

Lençóis velhos

December 12, 2007 por jana

dois.jpg

(Ilustração: Luis Fernando Calaça)

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de guardar nossas lembranças,
a marca transparente que deixamos de nossos corpos,
o cheiro disfarçado pelo amaciante do nosso suor e de nossa rotina.

Enquanto você não chega,
eu brinco de me envolver com esta manta fina
e faço dela grama e chão,
onde misturo o tempo dos relógios
e as horas suspensas da minha imaginação.

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de nos manter unidos,
passando calor de uma pele para outra,
aquecendo os dias frios, em que nos sentimos um,
mesmo quando partilhamos duas solidões.

Cada pedaço deste tecido pobre sabe dos nossos segredos,
medos, vontades, temores, desejos.
E quanto mais nos misturamos,
mais nossas histórias ficam guardadas no profundo pardo do entrelaço das fibras.

Gosto timidamente da textura destes nossos lençóis velhos
e da forma silenciosa como ele nos acolhe e embala nossos sonhos.
E quando meu corpo estiver longe do seu,
ou o seu estiver distante do meu,
que façamos deste pedaço de pano vagabundo
a lembrança presente do cheiro, das formas e de nossas texturas,
a memória externa de nossa entrega de todos os dias.

 

Só os loucos são verdadeiramente livres

November 22, 2007 por jana

Só os loucos são verdadeiramente livres,
pois são os únicos cujos pensamentos galopam sem amarras,
sem o cordão umbilical construído entre o corpo e o mundo:
seus valores, seus aprisionamentos,
suas celas-culturas.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente.
Treinei trejeitos, caras, bocas e olhar perdido,
mas tudo não passava de encenação barata exibida em praça pobre e sem platéia.
A loucura se fantasia em mania
e hoje até os loucos duvidam de si.
Uma chuva colorida em pontos cai.
Abra a boca, agora engula.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente,
me tornar a louca da cidade,
aquela que vaga vestida dos restos dos outros,
das roupas, das falas, dos gingados dos corpos emprestados.
Assim seria o que me apetece ser
e ninguém julgaria a arena que é meu corpo,
onde deixo que afundem os pés,
corpos, corpos e corpos.
Nunca enjôo deles.

Meus cabelos foram postos em desalinho,
mas o que adianta tanto esforço em desarrumar,
quando o que é centro de questão
está devidamente organizado em dia.
“Não faça isso, ah não, não faça aquilo”.
“Olhe as boas maneiras, o que os outros vão falar”.
“Não beije outras bocas”.
“Não lamba outras pernas”.
“Não deixem que te salivem o sexo”.

Só os loucos são verdadeiramente livres,
ejaculam vida e despejam no chão,
e ninguém lhes julgará o sexo exposto,
porque é louco, não pensa no que faz.
Mas ele pensa, um pensar diferente,
é verdade, mas pensa.
Enquanto meu corpo pena
dentro da minha cela firme,
a cela que me aprisiona de dentro para fora,
que me tolhe movimentos e que pede para eu me conformar.
Esta cela é a herança que recebo
a troco da adequação imposta.
Fecho as pernas, fecho a boca, tranco os olhos
deixo-me levar.

 

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