Enquanto você dorme

August 15, 2009 por jana

Enquanto você dorme,
o sol se põe sem ser notado,
a comida esfria no prato,
as flores murcham no quintal.

Enquanto você dorme,
a canção termina sem ser escutada,
as cartas permanecem fechadas,
as frutas emboloram nas bandejas,
a poeira se deposita no chão.

Enquanto você dorme,
a maré é baixa, a maré é alta,
o pescador vai e volta,
enquanto Yemanjá canta sozinha nas pedras
sem você para escutar sua canção.

Enquanto você dorme,
os dias se perdem,
os anos se sucedem,
o tempo segue seu fluxo
sem que haja, depois, como retornar.

Enquanto você dorme,
meu corpo quente te espera,
meu seio se torna murcho,
minha face, vagarosamente, envelhece.

Enquanto você dorme,
minha voz aos poucos emudece,
meus cabelos silenciosamente crescem,
meus olhos secam e depois são rio.
Enquanto você dorme,
ainda assim,
eu, sozinha, vivo.

 

Bacantes

May 23, 2009 por jana

Há muito deixei de querer aprisionar o tempo.
Deixo que ele siga,
rio perene que carrega tudo para longe,
deixando nas margens apenas fragmentos de vivências.

O tempo surra meu corpo
e mais ainda sinto fome de vida,
de não deixar um momento que seja passível ao esquecimento.
Sou uma bacante de taça erguida,
corpo nu e entregue,
esperando o sumo adocicado das uvas,
para solvê-lo entre os dentes.

Minha fome e minha sede são renováveis,
não se extinguem.
Meu desejo é veia sonora, latente.
Pulsa, pulsa,
me impulsionando para frente,
para lembrar que é exatamente este desejo que nos mantém vivos,
dentro da ausência de respostas a que se resume a vida.

Enquanto isso Baco e eu dançamos livres,
e outras mãos se unem às nossas.
Mãos, corpos, peles, cheiros.
A festa de Dionísio é de carne e vinho.
Espalho-me nos corpos que se abrem para mim,
inebriante dança,
cuja canção que nos embala
é o sussurrar de nossas próprias vozes.

Lá fora, o mundo segue sua rotina de idas e vindas,
de café, contas e correria.
Aqui dentro celebramos juntos
a manutenção de nossas vidas,
o desejo em sua forma crua,
fruto vermelho colhido direto do pé.

Aqui, nos despimos não somente da prisão de nossas roupas,
mas também de nossas amarras invisíveis.
Minha existência é a recusa das convenções in vitro.
Dentro de nossa ciranda,
unamos pernas, mãos e suor.
O surrar do tempo ganha outro ritmo,
enquanto nos alternamos no saciamento de nossas sedes.
Dionísio nos observa atento,
seu riso é forte e alto,
e o vinho que ele nos serve é o desejo,
quente, inebriante, adocicado,
pronto para nos saciar
e despertar novamente nossa sede.

 

Dia de anos

February 28, 2009 por jana

Ao meu irmão Luiz Fernando, por nosso aniversário

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O cheiro das angélicas é o que ficou
da lembrança do dia de anos.
Minha vó espalhava aquelas flores tímidas e brancas pela casa,
perfume delicado de flor não imponente,
que aos poucos se misturava com outros tantos cheiros,
açúcar, chocolate, borracha de balões coloridos.

Era dia de usar colchas de crochê nas camas
e lustrar o chão de tacos de madeira,
que acumulavam em suas falhas
restos de outros dias como este.
Ciclos e ciclos nascidos e encerrados
na extensão plana daquele mesmo chão.

O dia de anos era partilhado
como boas histórias que devem ser lidas em voz alta.
Ele chegou mais cedo,
mas acredito que no tempo certo.
Nestes dias que eram nossos,
e que continuam a ser,
rodeávamos a mesa de doces,
como as esferas coloridas
rodeiam lá em cima o sol incandescente.

Assim embaçado pelo tempo
o dia de anos ganha cores suaves,
aquarela, tons que sempre acompanham as lembranças.
Braços abertos, mãos, afagos,
pai, mãe, avó, avô,
aromas e o brilho dos embrulhos dispostos na cama.
Tudo chega até a mim em dança, movimento.

O dia amanheceu solar
e há distância demais entre estes dias e eu.
Em minha nova cidade,
ainda não encontrei minhas angélicas.
Talvez não as tenha procurado verdadeiramente.

O meu dia é nosso dia
e não me lembro do tempo que não era assim.
Você longe, eu tão perto e tão perdida de mim.
Talvez também, em alguma hora deste dia,
eu abrace uma almofada de chita,
daquelas bem floridas,
para preencher este vazio que um dia senti,
quando você ainda não havia chegado.

Hoje é o nosso dia de anos,
nossa singularidade,
fruto de sua antecipação
em chegar mais depressa aos meus braços pequenos.
Mas você chegou na hora certa,
para preencher meus vazios,
e por isso que minha solidão é apenas aparente.
Estamos de mãos atadas,
laços embaraçados de sangue.
Dançamos agora uma ciranda
em torno da mesa, das angélicas e das lembranças.
Um ciclo novo começa,
seus dedos no ar me sustentam.

 

Floresta do Navio

January 28, 2009 por jana

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Ao meu pai

Ali estão minhas raízes,
capilares levando vida às minhas lembranças turvas.
Cheguei com fome de história,
com sede de memórias
e encontro o chão seco e rachado,
fragmentado-profundo-revelado.
Tudo era solidão viva.

Por trás das árvores retorcidas,
do verde pálido pontuado do dourado da seca,
debaixo de um céu profundamente azul,
a velha casa ainda vive,
com seus olhos tristes de janelas antigas,
chão de cimento batido
e velhos potes de água.

Velha Floresta,
do Xique-Xique, Mandacaru e do Facheiro,
do Quipá, Algarobas e Macambiras de boi e anzol,
dos riachos salgados e intermitentes,
dos Caborés aninhados nos cupinzeiros.
Velha Floresta,
mãe de seio murcho e de ventre desértico.

Sentei ali, na cadeira de pernas bambas,
a ver o vento varrer tudo para longe,
da poeira às lembranças,
das folhas às nossas vozes.
O gado pouco e murcho,
a sonhar com um mar de água doce,
caminha lentamente fazendo o chocalho cantar,
e eu, figura destoante,
vertendo rios por dentro,
acaricio o cão dócil,
que de tanto nadar na terra seca,
já ganhou a cor de sua poeira.

Vejo a silhueta dos meus ao longe,
enquanto caminho pela terra,
tentando me enraizar novamente,
desviando-me dos espinhos reais e dos imaginários.
Eles riem.
Muito tempo sem sentir a proximidade do sangue.
O velho tio solve seu café,
meu velho pai revive o tempo das calças curtas,
meu irmão adormece na rede vermelha.

E eu a pensar no momento que todos se vão,
que as janelas e portas são serradas novamente,
deixando a velha casa para trás,
que segue com sua condição de guardiã da memória de todos,
como a mãe que guarda o som do choro de seus filhos.
O que acontece quando todos se vão,
a poeira sobe
e as árvores retorcidas ficam para trás?

É isso que trago em mim,
a Floresta do Navio acenando verde e dourada,
contando-me velhas histórias,
cravejadas no chão e na velha casa.
Ôoooo… êeee…
Sigo aboiando as memórias dos meus,
volto pra casa com os olhos rasos,
o São Francisco todo correndo em mim.

 

Voraz

January 26, 2009 por jana

Assim como a comida esquecida no prato,
recuso uma existência morna.
Digam que há sangue demais correndo,
que em mim não há meio-termo,
só extremos.
Dou de ombros, ah dou,
vivo a fúria desconcertante da urgência do momento.

Os corpos que amei e amo,
nunca os vivo no passado,
são narrados no presente,
como as canções que renascem
cada vez que são tocadas mais uma vez.

Não há como amar com mornidão.
Amores em temperatura ambiente perdem o sabor e a graça.
Então, meu bem, que minha língua quente
desperte o desejo aquietado pela rotina.
Não olhe demais para baixo, a pensar demais na queda,
o importante é caminhar sempre em frente,
de braços abertos,
recebendo da vida o afago ou as fúrias.

Viva apenas o instante,
é tudo que temos.
O instante é a única certeza,
pois o passado é narrativa contaminada e traída pela memória
e o futuro é a junção de sonhos e projetos,
fadados ao sim ou ao não.
Então viva o instante,
como única certeza palpável
e se dispa, não só das roupas que te escondem de mim,
como também de todos os “se” que você acumula.

Venha a mim com o corpo nu de tecidos e moral.
Tudo é construção do homem,
para se proteger da voracidade animalesca do desejo.
O desejo, meu bem, é o que há de mais profundamente sincero.
Não o domestique como os cães selvagens,
fadando-o a uma existência de comida certa e passeios regrados matinais.
O desejo é voraz
e meus olhos acompanham a fome do meu corpo,
que rejeita dias mornos,
banhos frios
e a catarse do esquecimento forçado.

Espero seu corpo como prato saboroso a ser devorado com vontade,
com os póros abertos e a boca acesa.
Carne que é oferenda,
corpo que desejo,
você-instante-presente.
E eu a te dizer, entre sussurros e horas galopantes,
que meu desejo corre livre,
vento desmanchando medos,
entrega, apenas entrega,
apenas isso.

 

Renovação

December 19, 2008 por jana

Renovo-me como rio alimentado pelas chuvas,
como terra que recebe o húmus e fertiliza-se,
como canção, que ganha entonações diferentes,
no jogo do cantar entre tantas línguas.

Meu corpo é esta canção entoada sem refrão,
canção que aguarda seu fim,
mas que segue enfeitando os caminhos invisíveis do ar,
adicionando aos dias cada nota,
que são todas essas vivências colhidas no caminho,
dor-prazer-tristeza-festa.

A vida é o flamenco dançado entre vermelho e negro,
entre dias cinzas e solares,
entre o amanhecer e o crepúsculo.
A vida é esse mar entre tempestades,
que se permite ganhar águas tranqüilas,
espelho do sol a refletir brilho que é solitário.

A vida é vermelha,
é assim que a vejo,
explícita, quente,
averso do corpo.
A vida é rio perene,
que alimenta-se dos ciclos,
que transforma o que é hoje
em coisa assim, tão diferente,
propagando o que é silêncio em um instante
e cores vivas no outro.

Então sigo, hoje corpo, amanhã flores,
hoje carne, amanhã quem sabe,
mas sigo mesmo assim.
Renovando-me em cada paisagem que miro,
em cada afago que recebo,
em cada estrada onde ponho meus pés.

 

Singularidade

December 12, 2008 por jana

Viver é fazer de cada dia não uma repetição,
mas uma singularidade,
digna de lembrança,
digna de contadores de história,
que transformam o banal em palavras que preenchem os vazios
e alimentam a alma.

Viver é sentir o corpo pulsar
e não rejeitar a urgência dos sentidos.
É não desprezar o agora,
esperando que outros agoras venham a surgir,
prontos a serem vividos quando a coragem se apresentar ao palco.
Mas a coragem vem mesmo é de dentro,
pulsando forte e quente,
sangue-vermelho-ritmo.
Há que se rejeitar o silêncio da rotina.

A vida é feita do que nos move e do que nos adormece.
Vivemos a tensão de duas forças:
uma a querer que continuemos,
outra a querer que paremos.
Escolhi seguir em frente,
buscando o calor que me acolhe,
o que me preenche,
o que me rege e
aquilo que me alimenta e é prazer.

Os dias cinzentos, deixo-os escapar
para trás das estantes das lembranças,
para os buracos negros,
onde tudo some e lá fica.
Ah… Hoje quero mesmo os dias solares,
o corpo que desejo,
as canções que me tocam,
os planos que me impulsionam,
a pulsão que me faz seguir em frente.
Porque a vida não é repetição monótona,
a vida deve ser a sucessão de momentos singulares.

 

Derrama

November 29, 2008 por jana

Ouço canções enquanto as pernas descansam sobre a cadeira.
Canções que me reportam a terras de sol e mar.
O mar, sugado pelo sol, se precipitando como chuva.
Chuva, sou assim, difícil de aprisionar.

O corpo é um limite de carne,
mas o que vem de dentro quer se espalhar.
Hoje eu quero transbordar,
como o rio que contraria os braços das represas,
causando destruição quando tem que se libertar.
A liberdade das águas sempre fere a retidão
do que se constrói pelas margens.

Entenda que não sou recusa,
entenda que não é que não queira que me naveguem calmamente.
Minhas águas seguem seu fluxo natural,
a mudar de estado quando se é necessário mudar.
Até me encaixo perfeitamente entre paredes de vidro,
mas minha natureza me chama de volta para o volume-mar.
Hoje quero me espalhar.

Meu corpo reclama essa vontade,
adoece, murcha e resta apenas a sombra
do mar profundo e cheio de vida que um dia fui.
Ventre emanando vida, ventre úmido-aconchego.
Apenas compreenda que para navegar em minhas águas
é preciso aceitar minhas turbulências,
minhas fúrias e a calma aparente.
Apenas a superfície está à mostra.

Compreenda apenas que quem é filho das águas
até aceita recipientes fechados,
mas até neles consegue criar ondas,
que de tanto forçar derramam,
que de tanto abrir-se em redemoinhos
carregam o que há na margem para o fundo.
E a canção me reporta para lugares longínquos.
Hoje quero me derramar.

 

Se pontos invísiveis aprisionassem as águas

November 7, 2008 por jana

Costuro camadas sobre mim,
tentativa de esconder a multiplicidade de eus
que me habitam.
Costuro rente, firme.
Há que se dar acabamento perfeito,
pois os olhos que nos fitam
são juízes,
acreditando ser a perfeição algo possível.
Não há lugar para os dionisíacos.

Então costuro essas camadas,
para esconder as imperfeições,
tão humanas e tão negadas,
o caos machuca os olhos sensíveis.
Não há lugar para os falhos,
para os tortos, para os extravagantes.
Retidão, voz modulada,
sentidos comedidos,
sensações aprisionadas.

Cada vez que aplico essas camadas artificiais,
sedas-pontos-invisíveis,
mais me afasto das minhas de carne,
as que pulsam verdadeiramente,
as irrigadas de sangue,
que escorrem vermelho-vida,
por minhas corredeiras.
Vou construindo barragens, criando margens,
limites feitos para aprisionar o extravasamento que sou.

Perco-me entre tantas camadas polidas,
logo eu, sempre tão dionisíaca,
adestrando-me em uma existência apolínea,
tentando viver sem traços tortos, sem rasuras,
por adequação.
Um dia ainda estouro ponto a ponto,
essa costura rente e invisível
e extravaso, filha das águas que sou.
Qualquer dia ainda navego em mim,
deixando essas camadas de pele abandonadas
em minhas margens.
E correrei livre,
arranhando a carne nas descidas,
corredeira sou.

 

Cinza-castanhinho

November 5, 2008 por jana

(À minha vó)

De repente aqueles olhos surgem,
pequenos e claros,
misturados ao tecido fino das lembranças,
dolorosos,
pedindo que não os esqueça.

Tento dizer que não os esqueço,
olhos assim entre o cinza e o castanho,
olhos que me carregaram ainda menina,
corpo frágil, dependente,
corpo este que apenas cresceu,
mas não mudou sua condição de fragilidade.

Você surge, assim, primeiro os olhos,
nos dias de riso e dor,
todos os dias então.
Procuro seu colo, que já não mais existe,
mas procuro assim mesmo,
como quem não entende o limite imposto
à nossa inevitável transitoriedade.

Cada dia engolido pelo entardecer
é um dia a mais de lembrança.
Sigo vivenciando palavras, cafunés
e até sinto o gosto do pão com açúcar das tardes infantis.
Eu simplesmente não esqueci.
Segui porque a vida me impulsiona para a frente,
é apenas minha condição,
mas busco seu colo todos os dias
e os olhos claros que sempre me enxergaram menina,
por mais que minhas mãos mudassem,
que meu corpo envelhecesse.
Você vive em mim,
olhos claros-cinza-castanhos,
vida sem ponto final.

 

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