Se pontos invísiveis aprisionassem as águas

November 7, 2008 por jana

Costuro camadas sobre mim,
tentativa de esconder a multiplicidade de eus
que me habitam.
Costuro rente, firme.
Há que se dar acabamento perfeito,
pois os olhos que nos fitam
são juízes,
acreditando ser a perfeição algo possível.
Não há lugar para os dionisíacos.

Então costuro essas camadas,
para esconder as imperfeições,
tão humanas e tão negadas,
o caos machuca os olhos sensíveis.
Não há lugar para os falhos,
para os tortos, para os extravagantes.
Retidão, voz modulada,
sentidos comedidos,
sensações aprisionadas.

Cada vez que aplico essas camadas artificiais,
sedas-pontos-invisíveis,
mais me afasto das minhas de carne,
as que pulsam verdadeiramente,
as irrigadas de sangue,
que escorrem vermelho-vida,
por minhas corredeiras.
Vou construindo barragens, criando margens,
limites feitos para aprisionar o extravasamento que sou.

Perco-me entre tantas camadas polidas,
logo eu, sempre tão dionisíaca,
adestrando-me em uma existência apolínea,
tentando viver sem traços tortos, sem rasuras,
por adequação.
Um dia ainda estouro ponto a ponto,
essa costura rente e invisível
e extravaso, filha das águas que sou.
Qualquer dia ainda navego em mim,
deixando essas camadas de pele abandonadas
em minhas margens.
E correrei livre,
arranhando a carne nas descidas,
corredeira sou.

 

Cinza-castanhinho

November 5, 2008 por jana

(À minha vó)

De repente aqueles olhos surgem,
pequenos e claros,
misturados ao tecido fino das lembranças,
dolorosos,
pedindo que não os esqueça.

Tento dizer que não os esqueço,
olhos assim entre o cinza e o castanho,
olhos que me carregaram ainda menina,
corpo frágil, dependente,
corpo este que apenas cresceu,
mas não mudou sua condição de fragilidade.

Você surge, assim, primeiro os olhos,
nos dias de riso e dor,
todos os dias então.
Procuro seu colo, que já não mais existe,
mas procuro assim mesmo,
como quem não entende o limite imposto
à nossa inevitável transitoriedade.

Cada dia engolido pelo entardecer
é um dia a mais de lembrança.
Sigo vivenciando palavras, cafunés
e até sinto o gosto do pão com açúcar das tardes infantis.
Eu simplesmente não esqueci.
Segui porque a vida me impulsiona para a frente,
é apenas minha condição,
mas busco seu colo todos os dias
e os olhos claros que sempre me enxergaram menina,
por mais que minhas mãos mudassem,
que meu corpo envelhecesse.
Você vive em mim,
olhos claros-cinza-castanhos,
vida sem ponto final.

 

Em cinza

October 9, 2008 por jana

Pinto circunferências com cores berrantes,
tentativa qualquer de trazer vida ao vazio.
Preencho vazios externos, enquanto os meus se multiplicam,
cacos espalhados que ferem meus pés.

Não é dor fingida, dor de poeta buscando preencher linhas.
Essa dor é confissão, apenas isso… Confissão.
Nunca me encontro nesta terra de chão sufocado por concreto.
Meus pés se acostumaram à maciez da terra-mãe e do sol quente.
Encinzentando estou.

Busco em filmes novos e antigos o riso perdido
e o sofá laranja é calor artificial.
Pinto circunferências com as cores que desejo,
o monocromático tomou conta de mim,
ou serão escalas de cinza,
escalando meu corpo,
mudando silenciosamente a cor do meu sangue.

As canções me acompanham no metrô cheio,
até a pilha vagabunda morrer e levar as melodias embora.
Então tudo vem… Barulho de ferro lutando contra ferro,
de conversa estúpida sobre caixas de cerveja
e sobre as últimas tendências da moda.
Eu lá… Na solidão possível apenas pelos fones de ouvido.

Mergulho em mim e volto à superfície para enfrentar a rotina.
Do lado de fora um meio-sorriso, do lado de dentro enchente,
arrastando e desalojando sonhos,
levando tudo embora,
tirando as certezas do lugar.

Enquanto isso pinto vazios com cores berrantes
no trajeto diário para um futuro incerto.
Pinto os lábios de vermelho,
finjo vida,
caminho, tropeço, caminho,
até quando o corpo suportar.

 

Pés

July 29, 2008 por jana

Meu tempo é o tempo das lembranças.
O passado rasurando o hoje como tinta,
que se derrama lascivamente
pelas páginas em branco,
prontas para serem escritas.

Meu tempo é o tempo das fotografias.
Instantes aprisionados que ganham apenas o movimento dos slides,
indo-vindo-acendendo-apagando.
Projetam-se em mim como sombras,
que penso ser minha verdadeira realidade,
mas logo vejo que são apenas projeções,
resto do que já foi e que não retorna.
É impossível retroceder o fluxo dos rios.

Não quero ser um amanhã previsível,
não quero ser o ontem.
Quero o instante, quero, quero sim.
E que ele venha dilacerante, luz-sombra-chuva-claridade.
Quero caminhar, embora os pés ainda estejam presos ao chão,
fértil de recordações hoje pintadas com cores solares.

É preciso movimento.
Espero as lembranças ganharem seu lugar
e eu deixar de viver como se estas fossem meu hoje.
Meu sangue segue seu fluxo,
minha carne não rejuvenesce,
tudo caminha, menos eu.
É preciso movimento.
Compreendo a necessidade.
Silenciosa, caminho.

 

Entre dois pontos

July 24, 2008 por jana

Um corpo só a desejar dois espaços.
Divido-me ilusoriamente,
sou duas, sou tantas,
raízes antigas, novas raízes.
Sangro.

Encho a mochila de roupas,
talvez devesse deixá-la sempre assim,
pronta para cruzar pontes
e migrar entre os dois mundos que me chamam.
Penso.

Enquanto a noite chega silenciosa,
olho para o céu e tento arrastá-lo comigo.
Céu, mar, ruas, casas, pessoas.
A cidade toda a caber em mim.
Silencio.

Ando convulsivamente
na tentativa de carregar a cidade
nas solas gastas dos meus sapatos
e nos meus póros escancarados,
que se abrem à saudade e às lembranças.
Caminho.

Sou uma travessia que se faz em carne.
Atravesso as lembranças de infância,
esqueço as dores,
não reconheço-me nem no ontem
e nem no amanhã.
Sou hoje.

Nas costas o peso da mala
e das recordações.
No corpo, o afago dos que ficam
e o desejo antecipado de quem me espera do outro lado da ponte.
Vou-me embora, vou agora, vou sim.
Vou-me embora, vou agora,
e a cidade ficando para trás
como um filme mudo em preto e branco.
Só umas notas solitárias
e o silêncio por dentro
a gritar saudade de quem fica e
entoar a saudade de quem espera.

 

A louca

July 10, 2008 por jana

“As palavras são reticentes e insuficientes, dona menina”.
A mulher gritava.
A louca para uns.
Ela gritava porque a dor era fina
e o peito não era suficientemente elástico
para sustentar no mesmo bater
o embaraço das rimas:
o amor de braços dados com a dor.

Os olhos dela eram redondos e brilhavam
como tudo que é excessivo.
Vestia a nudez
e carregava no corpo os olhos dele,
que brilhavam tristes em algum lugar
entre ruas negras e postes de luz.

Ela era das águas, excessiva, transbordante,
ele desaguava por dentro.
As palavras dela, que antes estancavam,
agora pareciam pequena lâminas,
que grudam-se à carne,
tecendo na pele uma memória de dores escritas.

Ninguém soube ao certo quando se perderam,
acredita-se que foi quando ela soube
que as palavras são insuficientes e
é neste ponto que a angústia nasce.
Ele já não acreditava no murmurar das palavras
e ela aos poucos ganhava aqueles olhos turvos,
olhos de quem não segue mais leis,
olhos da liberdade que chega de mãos dadas com a loucura.

Eles, que já foram um só, foram se destacando um do outro.
Ele a viver voltado para dentro, encontrando em si o ventre acolhedor.
Ela a caminhar nas ruas, com o peito tomado de lâminas,
emudecendo e maldizendo as palavras.
Palavras essas sedutoras e traiçoeiras,
palavras filhas das rameiras
e antes de se calar para todo sempre,
olhou para quem passava na rua
e apontando para quem já sofrera por amor, disse:
“As palavras são reticentes e insuficientes”.
Calou-se, murchou e juntou-se às pedras da rua
até seu dia ponto chegar.

 

Junina

June 24, 2008 por jana

Há um cheiro de saudade,
invadindo as paredes frias deste inverno cinza.
Há um cheiro de saudade
no café que faço
e no leve adoçar das fotografias,
espalhadas no espelho quieto da xícara.

Minha cidade mora longe
e tão perto ao mesmo tempo.
Ela mora em mim, viva e quente,
lembrança sensorial,
gosto e imagem.
Minha cidade ferve quieta e silenciosa no peito.

É dia das fogueiras, olha só!
Bandeirolas coloridas enfeitando de cores vivas
as ruas e vielas da minha cidade,
que chora todo meio de ano,
estação triste-feliz das águas.

Como eu queria estar longe daqui,
caminhando entre essas cores saudosas,
sentindo o cheiro amarelo do milho invadir minhas narinas,
tão agora desacostumadas com o cheiro bom
das coisas que alimentam a alma.

Minhas narinas agora sentem cheiro de multidão e indiferença,
são as regras mudas do concreto,
com as quais convivo sem pestanejar,
enquanto longe minha cidade brilha na chama
das fogueiras e nas chuvas de prata,
que desenham formas no ar
pelas mãos pequenas das crianças.

Talvez hoje eu durma ao som de Luiz Gonzaga,
enquanto ouço buzinas lá fora,
frutos da costumeira impaciência.
Talvez eu sonhe com roupas vermelhas de chita,
embrulhada no meu edredon verde,
sufocada pelas lembranças de menina,
festejando sozinha o meu São João.

 

A praça

June 9, 2008 por jana

Sol embaçado pelas nuvens de sempre,
o cinza escondendo claridade e riso,
e os dois lá,
sentados no banco duro e igualmente cinza,
abraçados, rosto-ombro-rosto-ombro.

Ao lado, um cobertor tão cinza quanto as nuvens
ou quanto o concreto-matéria do banco que ocupavam.
Abraçados, unindo silenciosamente a fome física
e a fome inquietante da alma, eles estavam.

Eles estavam lá, sentados, amarrados,
entrelaçados,
matando um a fome do outro.
Fome de pele e de calor,
fome de olhos que não se desviem,
à vista daquilo que não quer ser visto.

As pessoas circulam calmamente
com seus tickets de refeição
e seus terninhos cheirando a amaciante e a sabão.
Eles, dois iguais, dois homens-meninos,
são como estátuas antigas,
que se confundem à paisagem,
tão cinzas que são,
que quase ninguém lhes nota a presença
e a dor esculpida nos olhos e na face.

Eles não se apartam,
olhos fechados, queixo no ombro,
imitam as cenas dos amantes,
que vêem ao passar em frente das lojas de eletros.
Eles querem ser algo,
se destacarem do cinza,
deixarem de ser imagem estática,
a quem ninguém presta atenção.

Talvez nem seja isso que eles realmente queiram,
talvez um busque no outro um toque suave
que a vida todos os dias lhes nega.
E eu a dar voltas, como um moinho,
sem sair do meu eixo,
olho aqueles corpos de olhos cerrados,
pego meu ticket de refeição,
mato a fome do meu corpo,
enquanto vejo os amantes de longe,
segurando firme um ao outro,
como a linha frágil
que sustenta um corpo
diante do sem fim das quedas,
diante dos dias em reprise,
diante da vida,
que não é, meu bem, novela.

 

Não ser

May 8, 2008 por jana

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(Imagem: Janaína Calaça)

Ofereceu a carne viva,
um punhado generoso daquilo que não é dito a ninguém.
O caminho do seu corpo,
suas camadas escondidas,
a entrada dos seus sonhos,
o afago dos seus dedos.
Mas tem que deixar de ser…

Cada vez mais viaja por dentro,
tentando encontrar a sensação perdida
de rodopiar livre sobre o chão duro dos dias.
Queria caminhar novamente com os dedos soltos,
cabelos desgrenhados,
tempo escorrendo e ela sem ver.
Mas agora tem que deixar de ser…

Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário,
acreditando ser aquele o seu mar.
Não a concebe mais na beleza do desenlaço,
concebe a menina agora na rede tecida de laços.
E ela tem deixado de ser…

Tem agora que tapar os ouvidos,
os olhos e a boca.
Recolher restos de papéis ensaiados
exaustivamente por tantos.
Tem que ser igual,
seguir o fluxo,
não desviar.
E ela deixa mais e mais de ser…

Do outro lado do espelho,
aquele corpo amado está,
querendo ser extensão dela,
sem entender que já é,
mas que mesmo morando entre paredes de vidro,
óleo e água não se misturam,
e quando acontece,
não pertence mais ao limite deste mundo.
É licença poética e nada mais.
Continuarão sendo dois.

Enquanto isso, o peito entoa canção triste,
notas sufocadas e jorradas para dentro.
Não há como fazer-se entender.
Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário.
E ela silenciosamente deixando de ser…

 

Destoante

April 24, 2008 por jana

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Sou cores destoantes nesta cidade,
em que o cinza reina com cetro e nariz em direção ao céu.
Sou os passos lentos caminhando,
enquanto todos impacientes correm.
Correm tanto para quê?
Para encontrarem todos sempre o mesmo limite?

Sou o bom dia em mão única,
perdido nas manhãs que amanhecem quase sempre frias.
Meu bom dia morre na minha boca,
sem respostas, sem um esboço de sorriso qualquer.
Sigo então destoando,
como a nota que insiste em mudar
o ritmo constante da música que se repete.

Destoante, sou assim, destoante.
Sou o riso, enquanto a sisudez impera,
e alguém um dia me disse no metrô
que se boca desse cãimbra,
a minha já dura estaria.
Só porque rio, só porque deságuo dentes,
querendo extrair da vida alegria.
Alegria demais incomoda, minha gente!
Cerremos os dentes então.

Alguém me atropela na calçada,
a dona da casa onde moro
manda bilhete cobrando conserto
do ralo do banheiro que entupiu.
Deve ter sido a sujeira clara das minhas lágrimas,
o choro de quem não se adapta,
escoando e incomodando,
sufocando garganta e tubos brancos hidráulicos.

Meu coração agora dói,
dor física, verdadeira,
dor que machuca mais que arranhão depois de queda.
Destoante, sigo calada engolindo minhas lágrimas,
fingindo ser a dureza um tapete de flores coloridas.
Sigo disfarçando minha dor,
abafando minhas mágoas,
continuando e caminhando lentamente,
enquanto ouço alguém gritar: “sai da frente!”.
E é o que eu faço,
deixo o mar aprisionado e inconsciente passar.

 

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