Geração garrafa pet

December 20, 2007 por jana

Jogue-me dentro deste saco com os restos orgânicos ou recicláveis,
sim, porque nós somos a Geração Garrafa Pet.
Use-me, use-me, me gaste,
depois esqueça-me num canto qualquer
ou entregue para outro reutilizar.
Sim, baby, é só lavar.

Entendo, entendo sim, quem não se adapta se esfarrapa
e por que comigo seria diferente?
Quem sou eu no meio das suas lembranças?
Incômodo-silêncio-entre-olhar.
Oh, baby, somos a Geração Garrafa Pet,
não precisa se desculpar.

Sempre fui uma romântica no final das contas,
acredito na pseudo-sinceridade das palavras e do toque,
mas você fez de mim a singularidade substituível.
Se está velho, troque,
estou passada da hora, over,
coleção outono-inverno em pleno verão.

Só não me venha depois dizer que foi importante,
palavras para mim são válidas seguidas de atos,
guarde-as então pra você, como a mágica sedutora e fajuta,
o oásis pintado na tela com tinta guache vagabunda,
que seduz com o brilho falso do neon.
Ah, baby, você é a filosofia viva da nossa geração descartável.

Só me resta lavar-me por dentro,
desinfetar a memória, desamassar a carne esmagada entre os dedos.
Sou apta aos recomeços, just play it again.
Quero encher o tanque de novo,
completa aí as minhas ilusões,
pois no final das contas sou mesmo uma romântica
e você, hábil como sempre, saberá fazer de corpos usados coisa nova
e dos antigos lixo limpo e renovável,
não em suas mãos… claro.

 

Lençóis velhos

December 12, 2007 por jana

dois.jpg

(Ilustração: Luis Fernando Calaça)

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de guardar nossas lembranças,
a marca transparente que deixamos de nossos corpos,
o cheiro disfarçado pelo amaciante do nosso suor e de nossa rotina.

Enquanto você não chega,
eu brinco de me envolver com esta manta fina
e faço dela grama e chão,
onde misturo o tempo dos relógios
e as horas suspensas da minha imaginação.

Gosto da textura dos lençóis velhos
e da sua maneira silenciosa de nos manter unidos,
passando calor de uma pele para outra,
aquecendo os dias frios, em que nos sentimos um,
mesmo quando partilhamos duas solidões.

Cada pedaço deste tecido pobre sabe dos nossos segredos,
medos, vontades, temores, desejos.
E quanto mais nos misturamos,
mais nossas histórias ficam guardadas no profundo pardo do entrelaço das fibras.

Gosto timidamente da textura destes nossos lençóis velhos
e da forma silenciosa como ele nos acolhe e embala nossos sonhos.
E quando meu corpo estiver longe do seu,
ou o seu estiver distante do meu,
que façamos deste pedaço de pano vagabundo
a lembrança presente do cheiro, das formas e de nossas texturas,
a memória externa de nossa entrega de todos os dias.

 

Só os loucos são verdadeiramente livres

November 22, 2007 por jana

Só os loucos são verdadeiramente livres,
pois são os únicos cujos pensamentos galopam sem amarras,
sem o cordão umbilical construído entre o corpo e o mundo:
seus valores, seus aprisionamentos,
suas celas-culturas.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente.
Treinei trejeitos, caras, bocas e olhar perdido,
mas tudo não passava de encenação barata exibida em praça pobre e sem platéia.
A loucura se fantasia em mania
e hoje até os loucos duvidam de si.
Uma chuva colorida em pontos cai.
Abra a boca, agora engula.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente,
me tornar a louca da cidade,
aquela que vaga vestida dos restos dos outros,
das roupas, das falas, dos gingados dos corpos emprestados.
Assim seria o que me apetece ser
e ninguém julgaria a arena que é meu corpo,
onde deixo que afundem os pés,
corpos, corpos e corpos.
Nunca enjôo deles.

Meus cabelos foram postos em desalinho,
mas o que adianta tanto esforço em desarrumar,
quando o que é centro de questão
está devidamente organizado em dia.
“Não faça isso, ah não, não faça aquilo”.
“Olhe as boas maneiras, o que os outros vão falar”.
“Não beije outras bocas”.
“Não lamba outras pernas”.
“Não deixem que te salivem o sexo”.

Só os loucos são verdadeiramente livres,
ejaculam vida e despejam no chão,
e ninguém lhes julgará o sexo exposto,
porque é louco, não pensa no que faz.
Mas ele pensa, um pensar diferente,
é verdade, mas pensa.
Enquanto meu corpo pena
dentro da minha cela firme,
a cela que me aprisiona de dentro para fora,
que me tolhe movimentos e que pede para eu me conformar.
Esta cela é a herança que recebo
a troco da adequação imposta.
Fecho as pernas, fecho a boca, tranco os olhos
deixo-me levar.

 

Sou

November 10, 2007 por jana

Sou apenas por mera burocracia.
Seria complicado demais registrar-me no mundo em multiplicidade.
Então sou por convenção, por facilidade.
Sou indíviduo por necessidade didática de compreensão,
mas descubro-me tantas a cada confronto
com minha imagem duplicada e
com os tantos corpos que atravessam a superfície côncava dos meus olhos.

Posso ser o que quiser no jogo cotidiano da existência,
o que quero ser e aquilo que esperam que eu seja.
Não alimento ilusões quanto a um eu fixo,
uma essência que se descobre com convivência.
Convivo comigo e desconheço minha última camada ou face.
Sei apenas que sou palco vivo,
que caminha apresentando-se como espetáculo,
monólogo ou diálogo,
tragédia ou comédia,
posso chover e ser sol quando me apetece o gosto.

Querem me aprisionar,
moldar atitudes, treinar minhas emoções.
Deixo que a ilusão do controle se faça,
mas por baixo de tudo corro como menina,
sem medo de arranhar mãos e joelhos,
ou sujar as unhas de vida.
O que mais quero é voltar suja pra casa
de tudo aquilo que colho pelo caminho.

Se querem que eu seja uma,
uma serei como exercício de prestidigitação.
Não há mágica maior que crescer
e viver entre a sisudez convencional da rotina dos adultos.
Mas por dentro sou menina,
que sabe caminhar por muitos mundos,
sem medo de ser arrastada e vestida com camisas brancas.
As crianças sabem ser múltiplas e
ninguém lhes questiona aparente esquizofrenia.

Seria mais fácil substituir sujeito,
deixar de ser eu, passar a ser nós.
Eu e minhas tantas faces.
Sou apenas um corpo,
mas o que me define são minhas personagens.
Somos o melhor e o pior.
Você me vê e me transforma naquilo que seus olhos ditam.

Sou um oceano,
que se veste de horizonte límpido,
mas esconde por dentro tanta vida em formas diferentes.
Mergulhe em mim,
migre entre minha superfície e meus abissais,
mas não espere que haja um fim ao tocar o fundo,
há camadas e camadas escondidas por baixo.
O nada é enfim minha existência.
Somos… somos sim.
Eu, ela, ele e tudo o que demais me habita.

 

Pedido

November 5, 2007 por jana

Não pinte meu corpo com essas cores pardas, meu bem,
sou assim explícita, uns borrões de vermelho,
de sangue sou feita e pulso sonora,
sou coração e boca escancarada,
olhos brilhantes e pés buscando sempre o alto.

Não me aprisione na rotina dos dias,
renove-me como fonte que precisa de espaço para ser rio,
como luz artificial que deseja ser sol.
Aceite o desgrenho dos meus cabelos,
minha loucura sadia, minhas párabolas,
meus altos e meus poços.

Pule comigo sem medo das alturas.
Pule, com os dedos misturados aos meus,
pule, que a vida nos espera,
esqueça os almoços em família,
a conta do banco, as contas de luz,
sente-se ao meu lado e balance seu corpo
por cima de um mar de acertos e erros,
não tenha medo da queda,
estou aqui para ralar os joelhos e sangrar junto.

Ah, meu bem, não me pinte com as cores pardas da repetição,
não espere de mim exatidão, planos para o futuro, previdência privada.
Espere de mim movimento, tudo levado ao limite,
choro-riso-gozo-dor,
aceite o melhor e o pior de mim,
e entenda que tudo é complemento, parte,
um pouco pelo todo.
Aceite estas linhas, rabiscadas de madrugada,
que só te pedem um dia após o outro,
um minuto vivido sem à espera do seguinte,
apenas o agora,
apenas o momento,
apenas aquilo que for possível viver.

 

Dança das marés

November 1, 2007 por jana

Misturemos nossos finitos
nesta dança muda de corpos,
diminuindo distâncias,
invertendo lógicas,
zombando do tempo,
que teima passar e nos lembrar
da urgência-limite dessas nossas vidas.

Misture seu finito ao meu,
alongaremos assim nossos limites,
seremos oceano.
Renove-se em mim,
desague-se,
assim como bebo de sua fonte
e dela me alimento,
cresça entre minhas margens
e corra pra longe,
seja movimento,
afaste-se da quietude que nos ronda.

Ah, meu bem,
encurte essa distância que se coloca agora,
estreite-se nestes braços que te aguardam sempre,
como desejo cíclico que se renova
com a chuva silenciosa do nosso suor.

Venha que te espero como a barca perdida nos mares,
a esperar que um vento mais forte a leve para longe.
Venha que sou essas águas paradas esperando pelo milagre das ondas,
que busca o fundo,
que mistura terra,
que arrebata vida,
que faz a quietude cessar
e se fazer movimento.

 

Delírios de uma quarentona em perigo em “Sex Shop”

October 27, 2007 por jana

Meu pai sempre me dizia, com aquela cara de quem entende as coisas, “minha filha, aquilo que Deus esqueceu de dar, o homem dá um jeito e faz”. Velho sábio o meu. Talvez seja esta a gênese dos Sex Shops, o templo do sexo solitário ou da ajudinha a mais para levantar os ânimos ou despencar de vez. Mas o que, este ser humano que vos fala, tem haver com o famigerado templo dos falos coloridos e polimorfos? Talvez minha maior missão em Terra, se é que temos alguma, é cair de pára-quedas em situações esdrúxulas. Não poderia ser diferente desta vez.

Minha vida resume-se ao funcionalismo público, idas ao supermercado, a uma vodka talvez no fim de semana com velhas amigas, aquelas do tempo em que não pensava em colar um durex na testa e revolucionar a indústria do Botox caseiro e sem dor. A dor só existiria na hora de puxar o durex e deixar tudo despencar novamente. Minha filha me liga quando está com tédio, meu ex-marido me trocou por uma mulher que deve sofrer de escoliose, devido ao empinamento constante da bunda e às vezes ligo no automático, para não dançar tango com meu próprio tédio. Mas como ia dizendo, ainda conservo amigas de longas datas, todas recauxutadas, modelo Airbag Power. Na nossa geração, nos orgulhávamos dos nosso peitos naturais, hoje vivemos a ditadura dos peitos tamanho Pamela Anderson. Eu sou a única que resistiu ainda às aplicações da gelatina do tesão, como uma das minhas amigas falam. Gelatina do tesão… Cada uma, viu. Pois bem que me ligaram para a tal vodka do fim de semana. Eu já estava acostumada à idéia de passar mais um sábado em frente à TV, assistindo a um canal entediante, para dormir mais rápido e profundamente, mas  o telefone tocou. “Querida, se arruma aê, que vamos te pegar”. “Ah, não, Lilu. Não saio daqui nem a reboque…”. “Vai sair sim. Você precisa. Tá pensando que não sei que você tá doida pra achar um coroa, que te dê uns malhos?”. “Lilu, só os esquizofrênicos acreditam no que vêm e você deve ser uma, porque não estou caçando homem algum”. “Ah, querida, você engana quem hein? Vai dizer que depois que do divórcio, você já deu umas escapadas?”. “Lilu, eu não tenho saco, mas você está enchendo a inexistência dele”. “Te pego em 40 min”. Tu, tu, tu, tu. Fui me arrumar. Fazer o que? Não tava afim mesmo de assistir a reprise do acasalamento dos leões marinhos.

Fomos a um bar mix. Casais héteros, casais gays, jovens, trintões, quarentões, ou seja, a pluralidade estava na moda e eu, com meu olhar de antropóloga de botequim, resolvi me desligar da conversa das minhas amigas recauxutadas e observar o lugar no geral. Fazia pouco tempo que o local havia sido aberto. O atendimento ainda era bom e a decoração era interessante. Depois descobri que a grande novidade do bar era contar com uma espécie de cabines do amor, onde casais mais assanhadinhos iam dar uns malhos. Era quase como um Cyber Café da sinestesia. Tempo contado para o malho e buzininha dizendo que o tempo acabou. Para os voyeurs de plantão, as cabines acabaram com sua alegria de observar os frequentadores ensaiando a dança do acasalamento pelos cantos escuros do bar. Era um bar grande, tinha uma pista de dança pequena, as cabines no andar de cima, já que se tratava de um sobrado antigo e, por fim, descobri que o bar plural, mix, fashion, contava ainda com um discreto Sex Shop, onde as pessoas poderiam adquirir uns temperos a mais para a noite. Tomei minha primeira dose de vodka com coca cola e resolvi ir ao banheiro. Provavelmente quando eu saísse da mesa, minhas amigas iriam falar que minha abstinência forçada está me fazendo perder o senso de humor. Mal sabem elas que ouvir falar das mil maneiras de ter uma bunda dura é que me fazem perder o humor. Quando saí do banheiro, resolvi conhecer mais de perto o bar. Subi, tateando o escuro, ao andar de cima. Era lá que ficava a parte apimentada do sobrado. O local ficava parcialmente escuro, para que a identidade dos casais fosse levemente mantida em segredo, se bem que quando eles descessem a escada, já era não? Enfim, dei uma olhada cumprida para o corredor que dava para as cabines e ia descendo a escada novamente, quando vi o letreiro da lojinha de artigos eróticos, que ficava próxima à escada. Resolvi dar uma olhada pelo vidro, quando a atendente da loja me viu e me chamou. Eu disse que só estava olhando e ela insistiu que eu entrasse. “Olá”. Disse ela. “Olá”. “À procura de algo?”. “Não, não, eu só estava olhando mesmo…”. “Sei…”. “Funciona mesmo ter uma loja dessas num bar?”. “Olha, as pessoas gostam de novidades e muitas delas não têm coragem, como a senhora mesmo, de entrar em um Sex Shop, sem que estejam pelo menos com umas gotas de álcool na cabeça, então aqui já fica perto…”. “Olha, eu não tô procurando nada aqui não, só estava olhando por curiosidade…”. “Não se preocupe, todo mundo que vem aqui sempre diz estar olhando por curiosidade, mas sempre acaba levando uma “lembrancinha” pra casa”. “Bom, o papo está bom, mas tenho que voltar para a mesa…”. ” Que tal ver umas lingeries quentes? Temos modelos diversos. Freiras, enfermeiras, diabinhas, bombeiras…”. “Bombeiras?”. “Sabe como é né? Manuseia mangueiras grandes e potentes?”. “Nossa, que simbólico… Mas tenho que ir mesmo”. “Que tal uns cremes?”. “Não”. “Calcinhas comestíveis?” “Não, eu tenho que ir mesmo”. “Deixe só eu te mostrar a nossa vitrine da magia!”. “Depois disso você me deixa ir, pelo amor de deus?”. “A senhora não vai se arrepender!”.

A atendente me conduz a uma prateleira e quando me dou conta, estou diante de um arsenal de falos. “Vê só que maravilha, minha amiga! Vê só que maravilha”. “Tá bom, mas tenho que ir mesmo!”. “Não quer nem pegar em um? Eu deixo. São tão macios”. “Não, obrigada”. “Pegue, é bom!!!”. “Ai, meu pai”. Mal respondi, ela já foi tirando da prateleira um modelo 25 cm, grosso, realista. “Tá vendo? Tem até as veias. Eu tenho um destes. Aqui eu tenho desconto”. A atendente falava e olhos brilhavam. “Sabe o que é bom nisso tudo? Você não espera o dono do pinto te ligar no dia seguinte? Hahahahahahaha”. “Senhor, tirai-me desta saia justa”. “Pegue, vamos pegue!”. E eu peguei. Peguei mesmo. Pensei que assim  me livraria da atendente, que levava a sério seu estar no mundo como vendedora de sex shop. “É… É… intumescido!”. “Quê?”. “Inchado!”. “Ah, eles exageram mesmo. Sabe como é né? Se é difícil achar um de qualidade por aí, a gente vende de primeira aqui”. “É, meu pai tinha razão… O que Deus não fez, o homem deu seu jeito”. Comecei a relaxar. A mesa estaria entediante mesmo. “Ah, a senhora tem que ver este daqui. Dupla penetração!”. “Filha, calma. Essas coisas me assustam!”. A atendente riu e puxou uma coisa que deveria ter sido inspirada na cobra de duas cabeças. “Você pode usá-lo na senhora mesmo ou compartilhar”. “Tudo bem, querida… Já entendi”. Quanto mais atenção eu dava, mais a atendente solitária (será que ela usava um daqueles para passar o tempo?), me mostrava as peças. Pintos, de todos tamanhos, cores e diâmetros, pomadinhas, que segundo ela, faziam a dita cuja ferver e o pinto inchar. Calcinhas, cuecas com carinha de elefante e lugar para colocar a tromba. Estava rolando um verdadeiro Workshop erótico e nenhum conhecimento a mais deve ser dispensado, não?

Fiquei com pena da garota, que havia sido tão prestativa em suas explicações detalhadas, que resolvi levar um mimo pra cama, ops, pra casa. Ato falho, ou será ato fálico mesmo? Mandei embrulhar. Não sei se os anos de repressão sexual familiar me faria usá-lo, mas mesmo assim, paguei o mimo, me despedi da moça, que ficou na loja arrumando os falos múltiplos com todo carinho que a profissão exigia.

Fui descendo as escadas, quando esqueci do detalhe que não havia trazido bolsa grande e não teria como esconder o pacote sem ser questionada. Tentei acreditar na sorte de que levemente alteradas, elas nem iriam perceber o pacote, tão mergulhadas em seus momentos altistas que giravam em torno de plásticas e coroas que ainda davam no coro. Sentei-me à mesa e foi exatamente Lilu, aquela que me acusa de estar em seca profunda, que sem que eu tivesse tempo, arrebata o pacote de minha mão. “O que é issoooooooo?”. “Devolve, Lilu. Devolve que é vexame”. “Devolvo nadaaaaaaaaa. Eu te vi subindo a escada. Hahahahaha”. “Por que vocês deixam esta mulher beber desta forma. Devolve esta caceta, Liluuuuuu”. “Ah, então é uma caceta? Hahahahaha”. “Não!!!! É forma de dizer. Devolve!”. “Nãooooooooo”. “FAÇAM ALGUMA COISA!!!”. “Passa pra cá, Lilu”. Gritaram as traidoras. Quando dei por mim, o pacote já estava aberto e em um impulso tentei arrebatar da mão de Lilu, quando o pacote rasgou de vez e Lilu ficou com aquele falo de 25 cm balançando como uma anaconda agonizante (gostaram da métafora?). O bar já havia parado para nos observar, tal o alvoroço que havia sido instaurado naquela mesa. Lilu, lívida, deixou o consolo cair e os copos que estavam sobre a mesa foram caindo em cima do Ricardinho, como minha mãe dizia. Viramos a atração da noite e obviamente tivemos que pagar a conta e sair correndo, antes que alguém tentasse nos oferecer algo a mais como brinde e cortesia da casa. Saí com o pinto na mão. A merda já tinha sido feita, mas ficou para o Bar que a dona do moço era a Lilu. Saí apenas como a amiga que apoia. Lilu perdeu aquele riso de hiena e eu voltei pra casa com um pau molhado de vodka e coquetel de frutas. Cheguei em casa, tomei um banho e lavei o dito cujo. Deixei-o ao lado da cama. Qualquer coisa, digo que sigo alguma religião cujo ídolo é o falo. Às vezes a noite até falo com ele. Meu gato às vezes se assusta quando ver, mas como meu velho mesmo dizia, “o que Deus não dá, o homem dá um jeito e faz”. E fez…

 

Dor

October 24, 2007 por jana

Dor não se partilha,
não por avareza,
mas por impossibilidade.
Cada um sabe da intensidade de sua dor
e do limite de sua tolerância.

A dor é minha e a palavra não é paleativo.
Posso gastar dias tentando descrevê-la,
mas a palavra é limite,
não dá conta daquilo que é sentido
ou cura através da combinação livre das letras.

Queria não ser tecida por tantos filamentos nervosos,
mas abriria mão também do prazer,
então pago o direito do gozo
com a possibilidade irrefutável da dor por vir.
Negar a possibilidade da dor
nos faz abrir a mão da experiência do prazer.

A dor é minha e dela apenas eu sei.
Sei a cor e a sua intensidade,
sei do espaço que ocupa no meu peito,
sei das lágrimas que ela me faz verter,
tal qual ácido a queimar as retinas,
tal qual fel a ferver por dentro
o vermelho-vida que me sustenta.

A dor é sentida no silêncio ou no grito,
dissolvida pelo tempo, rio que ele é,
a fazer tudo que é pó misturar-se às superfícies líquidas das horas,
que nunca alteram seu curso rígido-sempre-pra-frente.
Vai, vai rio,
corre tempo,
cura minha dor,
transforme-a em pó,
desapareça,
sedimente-se no fundo do leito,
junte-se às minhas margens.

Vai, vai tempo,
cumpra-se como um funcionário burocrático,
que carimba papéis automaticamente.
Vai, tempo, não questione nada,
aperte seus parafusos, faça sua parte,
leve minha dor para longe
e depois me traga outras,
porque é este o preço que pago por insistir,
porque é este o preço que pago por viver
na tensão silenciosa do gozo,
na certeza avassaladora da dor,
que quando chega, espalha-se
e demora-se, como visita indesajada,
a ocupar o espaço que escolhe para se fixar,
ignorando o riso que antes existia lá,
ignorando os sonhos que moravam na extensão limitada do meu peito.

 

Não

October 22, 2007 por jana

Para minha vó

Queria crer,
entenda, só por você,
queria crer sim.
Mas sou só sentidos,
só creio naquilo que me atinge a carne,
sou vazia de milagres,
não creio na inversão da água,
tentando subir os morros.

Entro naquele cubo branco,
você deitada, olhar perdido,
e tento te resgatar para o tempo seguro,
aquele em que me guiava segurando minhas mãos,
e impedindo meus tropeços, arranhões e feridas.
Agora você dói e eu não sei te conduzir,
estancar os olhos,
te livrar da queda.

Queria poder te mostrar o sol,
ele brilha indiferente a tudo,
mas ainda assim é lindo de se ver,
principalmente quando ele se deita
ao fim da tarde de nossa cidade,
dando lugar à noite,
onde descarrego minhas dores
e disfarço a tristeza firme no meu olhar.

Não te fiz voar,
não te ajudei a ver mais de perto o céu que tanto ama,
não sentei ao seu lado no fim da tarde,
andava esquecida de tudo,
inclusive de mim mesma.

Só te peço pra abrir os olhos,
só te peço pra não ir
e pra deixar acarinhar seus cabelos de prata,
me redimir, nos redimir,
recomeçar, reviver, recordar,
e tecer novas linhas,
e criar novos planos,
advinhar novos dias,
continuar, ser reticências, ser parágrafo inacabado.

Faça este coração continuar,
bombeando vida em nossas vidas,
preenchendo vazios,
compartilhando riso.
Nunca gostei de despedidas,
não repare em minha intransigência,
mas este poema é um nariz torcido,
é um não sonoro,
é apenas um grito-pedido
para que fique,
para que continue,
para que não se vá.

 

Hoje, no Brutti, “Desértico”

October 7, 2007 por jana

Procure algo que desconhece, algo que não se conhece forma-cheiro-sabor, e terá idéia vaga da procura dele. Lasque unhas, sangre dedos, esfole carne, e terá vaga idéia da dor. Num mundo transbordando amor de boutique, ele talvez fosse o único, talvez o único mesmo que ousava mesmo, na cara, no ato, nos dentes, dizer que desconhecia essa coisa toda de amor. Do início ao fim ou reticências (…).

Hoje, no Brutti, “Desértico”.

Abraços,

Jana.

 

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