Não

October 22, 2007 por jana

Para minha vó

Queria crer,
entenda, só por você,
queria crer sim.
Mas sou só sentidos,
só creio naquilo que me atinge a carne,
sou vazia de milagres,
não creio na inversão da água,
tentando subir os morros.

Entro naquele cubo branco,
você deitada, olhar perdido,
e tento te resgatar para o tempo seguro,
aquele em que me guiava segurando minhas mãos,
e impedindo meus tropeços, arranhões e feridas.
Agora você dói e eu não sei te conduzir,
estancar os olhos,
te livrar da queda.

Queria poder te mostrar o sol,
ele brilha indiferente a tudo,
mas ainda assim é lindo de se ver,
principalmente quando ele se deita
ao fim da tarde de nossa cidade,
dando lugar à noite,
onde descarrego minhas dores
e disfarço a tristeza firme no meu olhar.

Não te fiz voar,
não te ajudei a ver mais de perto o céu que tanto ama,
não sentei ao seu lado no fim da tarde,
andava esquecida de tudo,
inclusive de mim mesma.

Só te peço pra abrir os olhos,
só te peço pra não ir
e pra deixar acarinhar seus cabelos de prata,
me redimir, nos redimir,
recomeçar, reviver, recordar,
e tecer novas linhas,
e criar novos planos,
advinhar novos dias,
continuar, ser reticências, ser parágrafo inacabado.

Faça este coração continuar,
bombeando vida em nossas vidas,
preenchendo vazios,
compartilhando riso.
Nunca gostei de despedidas,
não repare em minha intransigência,
mas este poema é um nariz torcido,
é um não sonoro,
é apenas um grito-pedido
para que fique,
para que continue,
para que não se vá.

 

Hoje, no Brutti, “Desértico”

October 7, 2007 por jana

Procure algo que desconhece, algo que não se conhece forma-cheiro-sabor, e terá idéia vaga da procura dele. Lasque unhas, sangre dedos, esfole carne, e terá vaga idéia da dor. Num mundo transbordando amor de boutique, ele talvez fosse o único, talvez o único mesmo que ousava mesmo, na cara, no ato, nos dentes, dizer que desconhecia essa coisa toda de amor. Do início ao fim ou reticências (…).

Hoje, no Brutti, “Desértico”.

Abraços,

Jana.

 

Delírios de uma quarentona em perigo em “Férias”

October 2, 2007 por jana

Serviço público, colegas de trabalho animados todas às sextas-feiras, pilhas de papéis formando uma barreira natural entre eu e a realidade, e só uma vez no ano, durante um mês, permaneço longe de tudo isso. Meu estagiário se movimenta na cadeira, como se houvesse uma reunião de pulgas atacando seu santo traseiro. Uma vez no ano, uma só, me livro desta visão do inferno. Mas vamos ao que interessa: os planos.

Geralmente eu tiro férias em uma época esdrúxula do ano para não ter que enfrentar dois tipos de problemas: os preços, que deveriam ser cobrados apenas a Deus (já que estão em uma altura humanamente impossível para um servidor público alcançar) e a manada de turistas alegrinhos e cheios de disposição. Já disse uma vez que tenho medo dos excessivamente felizes. Duvide deles! Pessoas que sorriem demais ou têm algum problema na arcada dentária ou são bestas. Peguei o carro depois do expediente e fui procurar uma agência de viagens com pacotes em conta. Sou uma mulher só, mãe de uma ex-adolescente antecipada aos 20 anos, que se mudou para outro país por causa de um intercâmbio. Só me resta o controle remoto e um gato, que me procura apenas na hora da comida. Independência maior que essa? Não existe. Pesquisei alguns nomes de agências e lá fui eu com o meu contra-cheque na bolsa para não fugir à minha realidade de funcionária pública.

“Boa tarde…”. “Boa tarde, senhoraaaaaa, sente-se”. Nota mental… Pessoas alegres, efusivas e que falam como atendentes de telemarketing são dignas de desconfiança. “O que a senhora deseja?”. “Eu gostaria de dar uma olhada em alguns pacotes. Pode me mostrar os nacionais e os internacionais, por favor. Os que estejam mais em conta de preferência…”. “Ahhhh, mas podemos facilitar muitooooooooo para a senhora. Dividimos sua viagem em até 36 vezeeeeeeeeees e …”. “Não, entenda, eu só quero algo em conta. Não quero passar minha vida inteira pagando minhas férias. Não é pra tanto…”. “Haroldoooooooo… Traz os panfletos, por favor!”. De dentro de outra salinha aparece o famigerado Haroldo com uma pilha de panfletos. “Aqui está… Vou te explicar detalhadamenteeee cada pacote e…”. Nota mental… Não peça todas as opções… “Veja bem, este pacote aqui é maravilhosooooooooo. A senhora poderá fazer um cruzeiro com todo o conforto e…”. “Pera, filha… Olhe, é o seguinte… Cruzeiros para mim podem parecer maravilhosos nos primeiros quinze minutos, enquanto ainda você não percebeu que passará dias observando a variação dos tons da água. Não, obrigada! Prefiro me deslocar por terra mesmo”. “Ah, então a senhora quer um pacote de viagem com ônibus!”. “Não, não é isso… (AI, MEU PAI!). Eu quero viajar de avião, mas quero ir para algum lugar em que eu possa circular livremente e…”. “Tem certeza que não quer o cruzeiro?”. “Tenho sim, obrigada!”.

Diante de mim, uma atendente animada e um estagiário chamado Haroldo. O que mais posso querer? “Veja só, este pacote é maravilhooooooooso. Muita gente opta por ele nesta época do ano. Há até um grupo fixo, que sempre viaja pela nossa empresa. Gente animada, senhores distintos … Quem sabe a senhora não arranja até um paquera, hein?”. Estava demorando… Estava demorando. Agora ela acha que porque me mostrou uma dezena de panfletos já pode ser minha personal cafetina. Puta que pariu! “Não estou interessada em grandes grupos, querida, quero apenas algo dentro do meu orçamento e que eu tenha privacidade e liberdade de ir e vir. Da última vez que viajei em grupo foi para a Espanha e a experiência não foi das melhores. Duas das minhas acompanhantes gritavam no restaurante para que o garçom entendesse os pedidos delas, até que eu tive que  intervir dizendo que os garçons não eram surdos, só falavam outra língua!”. “Que lamentável…”. “Pois então… Nada de Cruzeiros, cheios de animadores e de bingos, nem grupões… Por favor!”.

O tempo ía passando e minha paciência se esgotava. A grande verdade é que minha paciência anda tão escassa quanto a camada de Ozônio em cima de  nossas  cabeças. Depois de olhar pacotes internacionais e perceber que meu salário, sem reajuste há mais de dez anos, mal daria para cubrir as despesas de uma viagem para a cidade vizinha, eu já perdia as esperanças. “Que tal fazer o Nordestão em 7 noites? É maravilhosooooooooooo”. “Como assim fazer o Nordestão em 7 dias?”. Ah, a senhora passará uma noite em cada estado do Nordeste! Imagine que maravilha!”. “Filha, isso para mim é humanamente impossível. Viajar envolve aproveitar as cidades. Não vou me meter em um pacote que me faça conhecer as dunas de Natal passando de longe no ônibus e comer um acarajé de baixo do ar-condicionado do mesmo ônibus, enfrentando aqueles banheiros minúsculos, que são no mínimo constrangedores. Você deve achar uma experiência transcendental fazer xixi saculejando, com o risco de que sua bunda fique totalmente molhada ou que você tenha traumatismo craniano enquanto estiver tentando levantar as calças e o ônibus acidentalmente passar à louca por um buraco. Ou também você deve achar que vale a pena molhar o dedo no mar de Maceió enquanto o motorista reabastece o ônibus e canta a frentista. Não, obrigada”. Foi aí que comecei a perceber que o tom efusivo e articulado da atendente se perdia. A mulher já mordiscava o fundo do lápis e ela olhava para Haroldo com cara de quem está pagando pecados. “Olha, desculpe, mas não encontrei nada que me agradasse nesta agência…”. Eu já disse e repito… Duvide dos excessivamente felizes. Há uma hora que o fio que divide a sanidade aparente da loucura iminente simplesmente parte. “O queeeeeeeeeeee?”. “Ahn?”. “A senhora me fez mostrar todooooooooos estes pacotes maravilhosos e vai sair daqui sem nenhum? A senhora acha que eu sou o que, hein?. “Olha, não me leve a mal, eu sei que é seu trabalho, mas…”. “Sabe é o carambaaaaaaaa. A senhora não trepaaaaaaaaaa”. Comecei a olhar desesperada para Haroldo. “Calma, moça. Calma…”. Calma, o cacete!!!! A senhora vai escolher uma merda de um pacote nem que eu tenha que deixar umas marcas de unha na sua cara!!!!”. “Haroldo, socorroooooooooo!”. Haroldo chamou o gerente da agência e foi bem na hora que a atendente-super-articulada de penteado impecável já quase ensaiava para aparecer como protagonista mor das páginas policiais. Confusão desfeita, água com açúcar para a garota e o gerente tentando me explicar que ela era novata, que ainda não tinha o traquejo para lidar com certas situações e blá, blá, blá. Resultado: desisti de viajar. O jeito é circular pela cidade e assistir o National Geographic. Uma semana depois passei na frente da agência. A menina ainda estava lá. Haroldo havia sido promovido, eu acho. Olha só como eu mudo a vida dos estagiários? Hahahaha. Vou ali comprar “A volta ao mundo em 80 dias”. Depois de uma certa idade, viciamos em seguros.

 

September 28, 2007 por jana

A solidão talvez seja a companheira mais fiel do homem.
Não são os cães, com seus olhos marejados,
os amigos, que vão e vêm no ritmo das ondas,
ou o amor, que divide a mesma cama e a mesma noite.
A solidão está em todo lugar,
dentro e fora de você,
te cercando.

A solidão te toca o ombro,
enquanto você caminha embaraçado entre as cordas de corpos,
nas avenidas largas das cidades
ou no amanhecer refletido nas xícaras fumegantes de café.
A solidão te ronda,
soprando vento frio na nuca,
adormecendo seus olhos,
tornando o viver uma dormência.

Quantas vezes pensamos estar profundamente sós,
e ela simplesmente aparece para provar que o vazio ainda é maior,
companheira esta que permanece silenciosa,
mas em seu silêncio tudo se revela,
como uma epifania forçada a acontecer.
Estamos sós, acompanhados momentaneamente,
ludibriados pela ilusão da partilha.

Estamos sós.
Na dor, estamos sós.
No gozo, estamos sós.
Na morte, estaremos sós.
Pois cada experiência desta
é única e intransferível,
vivenciada na arena de cada corpo frágil,
no limite individual de cada ser,
no caminho percorrido a dois pés.
Estamos sós e é por isso que nunca saberemos o quanto dói,
o quanto goza e o que é ser fim no outro.
Só sabemos de nós
e dessa imagem duplicada e perdida na superfície dos espelhos.

 

Delírios de uma quarentona em perigo em “A academia”

September 20, 2007 por jana

Ela havia aposentado os saltos. Sabe como é? O joanete doía. Entrou em uma de naturebalizar a vida. Sim, a nossa diva, protagonista de “Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias” e “Happy Hour“, volta com tudo depois de uma consulta alarmante ao seu médico. Matrícula na academia, fibras em excesso e água suficiente para matar a sede do sertão? Use seu liquidificador mais vagabundo, bata tudo e veja no que deu.

O verão me irrita, é verdade. Meu estagiário acha que é porque estou perto demais da menopausa e longe demais de uma vida sexual ativa. Como se ele andasse conversando com os fundos impecáveis de minhas calcinhas. Ha. Porra de sinal fechado… Não, eu não estou estressada. Não, eu não estou na menopausa segundo a teoria punhetética de meu estagiário. Chega a ser assustador pensar que ele pode ter sonhos eróticos comigo. Não, eu não poderia ser a mãe dele, ok? Enfim, estou me sentindo uma panela de pressão, mas não que eu esteja na forma de uma panela… A verdade é que sempre tive uma propensão absurda a me tornar hipocondríaca. Teve uma época em minha vida que eu acreditava que tomar comprimidos era glamouroso. Sabe, todas aquelas pequenas esferas vermelhas, brancas, amarelas, bicolores se atirando garganta abaixo, me fazia sentir a própria Audrey Hepburn, se bem que infelizmente hoje eu estou mais para uma Marylin Moroe decadente e é por este motivo que o meu médico, aquele médico que te acompanha desde sempre e que infelizmente guarda o segredo da sua idade, que você tanto começa a esconder depois dos trinta, olhou para mim e disse: ” - Errr…”. Eu tenho problemas com reticências, talvez porque eu seja uma pessoa objetiva, dinâmica e toda ponto final e ele, de repente, me olha com aquela cara de quem está diante de um paciente em fase terminal e continua emitindo grunhidos. Algum problema? “Errr…”. Eu não entendo gírias, onomatopéias, línguas do P, então daria para o senhor me informar o que está acontecendo? Eu não sei porque eu resolvi perguntar. Eu ainda me pergunto porque tenho tanta necessidade de entender as coisas. Foi aí que tudo começou. Exatamente neste ponto entre a minha ignorância diante dos grunhidos do meu médico e da tentativa do mesmo de elucidar todas as minhas questões. Eu estou morrendo? Não é isso? Eu sei… Eu seiiiiiii… Eu vinha sentido uns calores, umas tonturas, um inferno dentro de mim… “Calma!”. Calma? O senhor está diante de uma mulher desesperada e ainda me pede calma? “A senhora apenas está estressada e acima do seu peso ideal”. Como é que é? “Isso mesmo. Excesso de cafeína, de trabalho e de peso”. O senhor está dizendo que eu sou uma mulher desequilibrada? “Não, eu estou apenas dizendo que a senhora está com um nível de estresse acima do normal e que está com excesso de peso e precisa encontrar uma forma de resolver ambos os problemas. Dieta mais academia para relaxar”. Como é que é? Dieta… Até aí tudo bem, pois eu conheço várias, mas academia? “Sim, academia”. Academia? “Siimm”. O senhor tem noção do que está me propondo? “Tenho e não vejo motivos para tanto estardalhaço!”. Então, meus caros, foi aí também que eu descobri que o meu estagiário estava parcialmente errado e que eu teria que enfrentar uma academia, com todas as suas esteiras, ferros, mulheres malhadas e homens definidos.

O primeiro passo, depois de sair do consultório médico, foi providenciar todas aquelas comidinhas verdes, chás, adoçantes, coisas integrais, coisas lights e não me embaralhar com alimentos dietéticos. Voltei para casa, descarreguei todas as compras e lembrei, já com carro na garagem e chinelos nos dedos, que havia esquecido da segunda parte, não menos importante, dessa nova vida de mulher diagnosticada como estressada e fora do peso, que faltava dois itens e que, por alguma razão, o meu sistema de autodefesa havia bloqueado na minha mente: a inscrição em uma academia e a compra de uma roupa própria para a nova vida saudável. Houve um tempo em que eu acreditava que hipocondríacos eram glamourosos, mas o tempo passou e acabo de descobrir, no auge das minhas quarenta primaveras, que a moda agora é frequentar academias e comida macrobiótica.

Calcei meu sapato novamente, tirei o carro da garagem e lá se vou eu à procura de uma academia, templo este que nunca ousei pôr os pés. No caminho eu pensava em comprar uma esteira ou uma daquelas bicicletas, mas logo desisti por saber que virariam cabides externos de luxo. A figura irônica do meu médico me assustava e eu precisava provar a ele que eu podia sim me tornar uma mulher equilibrada e saudável novamente. Era uma questão de vida, morte ou decadência. Parei em uma dessas academias de bairro e devo ter levado alguns bons minutos lutando contra meu superego que me mandava entrar e achando que meu ID estava certo em me fazer pular na jugular de meu médico e com ele fora de circulação, eu dormiria em paz novamente, mas meu superego venceu e eu acabei entrando na academia.

Espelhos por todos os lados, ferros, ferros, ferros, esteiras, ferros, bicicletas, ferros e um professor a me acenar com a cabeça. “O que deseja?”. Errr… “Sim???”. Eu vim fazer a inscrição na academia - sussurrei. “Como?”. Inscrição! Eu vim me matricular. “Ah, sim! Me acompanhe, por favor!”. Fichas, fichas, altura, idade (ai, meu deus), peso, problemas cardíacos??? Depois de preencher uma ficha que mais parecia o protocolo de entrada direta para o inferno, ele me deu uma carteirinha e as sugestões de horário. Peguei tudo aquilo e voei para o shopping mais perto para procurar uma malha que coubesse em mim. Obviamente as malhas mais discretas não existiam no meu número, então tive que me contentar com uma bermuda rosa shocking e um blusão que me engolia. Tênis, meia e cara de pau, lustrada com o melhor dos óleos de Peroba. Eu estava pronta.

Era o meu primeiro dia de dieta e de malhação, e sem razão alguma, exagerei nas fibras e nos chás verdes antes de ir para a academia. Depois de passar uma manhã inteira e uma tarde igualmente migrando entre minha mesa e o vaso sanitário, tudo o que meu corpo pedia era a fofura horizontal de uma cama, mas a figura medonha do meu médico fez com que eu me deslocasse naquele estado para a academia. Tentando me esconder atrás da minha ficha de acompanhamento, fui falar com o instrutor, que resolveu começar a minha noite com uma série de alongamentos. Eu estava lesada, desgrenhada, com meus cabelos em desalinho e mesmo assim ele não se sensibilizou. Puxa perna, puxa braço, eu lerda, eu já ficando vesga e ele lá, firme. Pedi licença, fui ao banheiro novamente. “Fibras, malditas fibras”. Voltei e ele já me esperava. Faríamos um trabalhinho com as panturrilhas. Foi então que ele apontou uma bancada próxima à janela e pediu que eu fosse buscar aqueles pesinhos de atar às pernas. Eu estava moleeeeee. As fibras, malditas fibras. Mas fui lá, fui pegar aqueles malditos pesos, quando pus uma força descomunal para puxar apenas dois quilos de pesos. Foi tudo muito rápido. Peso, força descomunal, parábola, gravidade, peso voando, uma senhora em cima de uma bicicleta, peso no meio da cara da senhora, grito, nariz quebrado, sangue, vexame, senhora boazinha me xingando em pelos menos dez idiomas diferentes, meu instrutor correndo, pessoas correndo, eu com a boca escancarada.

Sim, meus caros, as fibras, as visitas constantes ao sanitário, os chás, me deixaram cronicamente lerda naquela estréia catastrófica na academia. Eu não esperei meu instrutor virar, nem a pobre senhora levantar, nem dar espaço para as pessoas acharem que eu fazia parte de algum grupo terrorista contra o culto à saúde do corpo. Peguei meu carro, joguei a bolsa no carona e uma semana depois voltei ao meu médico. “Não vou freqüentar academias”. Eu disse confiante. “Mas por que?”. “Mulheres, fibras e chás fazem mal à saúde alheia. O Ministério da saúde esqueceu de me advertir”.

 

Pólos

September 19, 2007 por jana

Migro através dos meus pólos
com os pés cansados de tanto ser e deixar de ser,
com minhas peles trocadas,
arrastadas pelo asfalto quente
deste meio-dia azul-cinzento,
desta cidade que fede à indiferença e urina.

Vejo nos teus olhos
a cor explícita da minha insanidade,
das minhas mudanças repentinas de humor,
da minha inconsistência.
Eu nunca disse que seria fácil,
pois sou como um todo
areia movediça,
tragando-afundando,
buraco negro,
até os que me dedicam amor.

Migro através dos meus pólos,
horas solares-horas cinzentas,
sou uma parábola viva
que você toca e tenta entender
na suavidade tranqüila dos seus dedos,
no traçado fino das tuas linhas.
Minha inquietude escorre pelas unhas
e não há nada ou muito pouco o que fazer.

Sou tantas mulheres presas em uma carne só,
sou tanto amor e raiva em doses extras,
sou o excesso que você tenta conter
com a represa invisível da rotina.
Extravazo como todo líquido,
que sente ocupar um espaço pequeno demais
para tanta vida contida-esprimida
nestes dias de azul pálido,
o tipo de cor que me entedia.

A razão de me espremer nas paredes firmes do cotidiano
é buscar o equilíbrio, o ponto médio entre meus pólos,
que encontro escondido na doçura firme dos teus olhos,
que me seguem quando sou fúria ou suavidade.
Não desista de mim por ser tão rarefeita,
porque entre as linhas de tuas mãos
me sinto verdadeiramente única
e esqueço a multiplicidade dilacerante
que é viver em um corpo só
sendo em verdade tantas.

 

Cru

September 11, 2007 por jana

Quero sua carne crua dissolvendo entre meus dentes,
o cheiro da vida escorrendo entre as pernas,
os fios molhados dos seus cabelos pós-banho,
quero seus olhos mergulhados
no embaraço de pontos de minha pele,
nua,viva, flor da noite.

Espalhe-se, meu bem,
nesta cama-corpo que te aguarda limpa,
cheirando a saudade e fim de dia,
a café solvido ao som de notas de violão,
luz artificial apagada,
janela escancarada-pernas
e brisa-aurora-noite que vem.

Beba da minha língua a água fresca,
que brota salivante ao te ver despontando
desta porta aberta banhada de lua,
esqueça, meu bem, o cheiro da rua,
os esbarrões, as sinaleiras,
e aconchegue-se nas minhas pernas-ninho,
lugar seguro e quente,
grama negra onde seu corpo se espalha,
onde cantamos mudos nossas canções.

Quero sua carne sem preparo,
sem retoques, sem artificialidade,
pois gosto mesmo é do desgrenho,
do caos que é vida,
do cheiro não disfarçado
do seu desejo que se renova
como fonte abundante e perene.

Deixe, meu bem, meus dedos ásperos
umidecerem-se no suor que brota de cada póro seu
e que a sede que acompanha nossas peles
saciem-se no beber farto nas nossas fontes.
Venha pra mim como canção não ensaiada,
como banho de mar no fim do dia
e como o fruto maduro colhido do pé,
que se entrega aos meus dedos
suave-passivo, saboroso e cru.

 

Hoje, no Brutti, “El gigolô”

September 9, 2007 por jana

Lá fora dois ou três caminhões. “Vai ser difícil”. O outro apenas ri, mas por dentro pragueja. “Domingo rolando aí fora e eu aqui…”. O chefe da operação balança os braços, dando o sinal para que desçam dos caminhões e dêem início ao processo. “O homem está lá dentro. Cuidado! Não deixa de ser uma situação delicada, meus caros (…).

Hoje, no Brutti, “El gigolô”

Não percam!!!

Beijos,

Jana.

 

Piegas (?)

September 6, 2007 por jana

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Alguém um dia disse que o amor é piegas,
demodê-estação-passada,
artigo exposto para liquidação
nas vitrines-over dos brechós.

Eu digo que para amar
é preciso muita coragem,
peito aberto à espera de balas,
sejam elas de chumbo ou mel.

Quem diz que nunca amou ou que não ama,
ou desconhece aquilo que nega
ou tem medo,
fibra frouxa,
sangue pardo a correr nas veias.

Amor é para os que têm coragem,
que o estampam no rosto sem medo de estarem fora de moda,
fora de tom, passados da hora.
Quem ama quebra a lógica do tempo,
atravessa limites,
não nega aquilo que é parte vital.

O amor resiste à rotina-lâmina dos dias,
às contas apertadas no fim do mês,
às roupas largadas pelo chão,
às palavras não ditas quando necessárias.

O amor resiste à chuva invadindo às janelas,
à saudade causada pela distância,
ao sexo rareado pela tristeza,
que quando se instala
contamina a pele e o beijo azeda.

Para aqueles que dizem que o amor é piegas,
mas que o sentem no peito e o mantém às escuras,
deixo meu riso maior de escárnio,
pois quem não ama explicitamente,
quem não goza e não sofre deste mesmo amor,
não merece a vida que ocupa o espaço do corpo,
altar-palco onde esta tragi-comédia
se desenrola e nos convence
que só assim nascer e morrer vale a pena.

 

Um dia te deixo, cidade

September 5, 2007 por jana

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(Imagem: Fábio Brito)

Uma brisa silenciosa atravessa minha janela,
o único presente que esta cidade me dá,
enquanto penso em formas múltiplas
de me ver livre dela.

Cidade em degradê de cinza,
logo eu que sempre fui amante das cores,
me vejo enlaçada entre suas pernas,
sufocando grito e lágrima,
me espremendo nos metrôs cheios,
perdida nas veias-ruas tantas,
que serpenteiam só esperando
a hora certa do bote único.

Cidade fria de concreto,
ausente de corpo-quente-riso-mãos,
já te dei uma chance de me cativar,
e rejeitaste como quem rejeita a flor,
apenas por esta ter sido colhida da terra
e não comprada em floricultura de luxo.

Quando puder, cidade,
te deixarei vestida de luzes,
tecido fino bordado pela noite,
para não mais voltar a pisar em sua carne dura,
indiferente-nariz-ao-céu.
Voltarei sim um dia
é para minha terra solar,
vestido pobre de renda,
inundada de mar e riso,
de onde eu não deveria ter saído.

Não me arrependo no entanto
te ter caminhado pelas suas ruelas,
pois ganhei a consciência antes inexistente
da falta que minha cidade solar faz.
Ganhei a experiência da solidão,
dos braços vazios e do peito comprimido,
que levarei marcada pra sempre entre meus olhos nus,
testemunhas pulsantes do vazio.

Um dia te deixarei, cidade,
para nunca mais voltar.
Estou correndo para o chão-húmus-ventre
de onde saí, filha das entranhas,
de um chão-mãe que me acolhe,
que me envolve,
e que me faz adormecer
com a mente povoada de sons,
de cores múltiplas-misturadas e
sonhos tranquilos banhados de sol e mar.

 

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